Universo da obra
Universo da obra
O GIGANTE BRASlUÃO + + Tia Michaela dormia a somno solto na sua cabana solitaria da floresta, quando foi despertçcda por uma voz, que lhe gritava de fóra : Tia Michaela 1 eh ! Tia Michaela ! A velha sentou-se na cama e poz-se á escuta. A voz !'epetiu : Tia Michaela? ! Quem será~ reflectiu ella; e logo alto : -Quem é~ Abra a porta ! ... Já vou ... mas ainda é noite ... está escuro!. .. Não tenha medo. Não tenho medo; estou me vestindo! Quem· não deve, não teme. Então abra a porta. Ha alguma desgraça ahi pelos caminhos? Ninguem respondeu. Quem p1·ecisa de mim~ O rnesino silencio. Ora esta I Porque não_ responde? A Tia Michaela pa1·eceu-lhe então sentir um rumor ligeiro de passos fugitivos. Fazia frio; ainda era noite e os gallos ' cantavam. A velha benzeu-se e ab1·iu a porta; uma h,tfada de vento apagou-lhe a candeia. Olhou pa1·a a frente : não viu nada; olhou para cima, e viu esteellas. São quatro horas, pensou, avançando um passo á procura de quem a chamara; nisso tropeçou em qualquer coisa. Abaixou-se, apalpou e reconheceu que o que estava no chão era uma criancinha; colheu-a nos braços, beijou-a e disse Serás meu filho! O GIGANTE BRASILIÃO Nesse momento as eskellas sorriram umas pam as outras, como se fossem olhos de anjos que se ·alegrassem. A boudosa velha voltou pat'a dentro, reaccendeu a candeia c mieou o pequenino com toda a attençüo. Elle em bonito e miudo; tinha a cabe<:a do tamanho de uma lal'anja 0 uns beicinltos côe de coral. Coitado I como est:'t · geladinhp ... ·Michaela aqueceu-o dentro do seu chale. D'ahi a uma hora rompia o dia. A· roda da cabana, nas copas fmndosas das ·amucat'ias e das cabiunas cantavam innumeros passarinho;;; no rancho, ao lado, zurrava com alegria o Mata-Mouros meigo burrinho da Michaela, e mugia, chamando a dona, a Yacca 111orena, com o focinho vit'ado para a banda onde nascia o sol. Então Michaela a,bl'iu a porta e disse para os dois animaes : Nasceu-me esta· noite um filho! Agora tRncles dona e dono. ll. 1\)J IIISTOIUAS D"\ i\OSSA TERRA Os animacs, habituados á sua voz, voltaram-se para ella e tal vez tivessem n<llado que a Tia Micbaela estava t'nais bonita. Das montanhas vinha o doce cheil'o da baunilha e dos espinheiros, e os regatos cantavam musicas divinas I Desdobrando a m:mta l[Ue envolvia o pequenino, Tia Michaela viu que ellé trazia um cartão pimdUI·ado ao pescoço. Olá que é isto ! e, solett·ando, conseguiu lêr : Chamo-me Vasl'o, e sou filho do gigante Brasiliüo. li Tia Michaela não acreditava no que seus olhos viam . Teria sido a voz elo gigante que a despertara assim pot· horas ntodas da noite? Qual ! Dizia toda a gente d'aquellas redondezas cíue. havia na sert·a um homem muito gmnde e muito fot·moso, que p t·ecia todo feito de neve e de sol. Quem se levantasse O GrGANTE BRAS!LIÃO !DI antes de ser dia, lá o veria na mais bella montanha, com roupas vapoi'Osas e coroado de luz. Desappareeia aos poucos, e onde so mettia ninguem o sabia dizer. O povo chamava-o Gigante Brasilião, e diziam-n'o dono de .toda· a Sori'a dos ÜI'giios. Essa lenda niio commovera nunca a Tia Michaela, que só acreditava no que os seus olhos viam; Por· isso remexia entre os dedos com verdadeÍI'O pasmo o cartãozinho mysteri~so, soletrando de novo : Gi-g<tn-teBra-si-li-ão ! A criança começou a chorar' e então Michaela tr'atou de mungir a J.l1orena, e deu ao recem-nascido leite fresco e saboroso. Assim estava, sentada á porta da sua choupana, com o menino nos joelhos, quando viu vir', por uma picada, o negro Thomaz, lenheiro. Chamou-o logo e contou-lhe o acontecido. Uê, gente! exclamou o preto, coçando a barba. Por que é que o gigante, que é tão rico, escolheu a senhora, que é pobre, para tratar do filho.? Talvez por ter pena de mim ... I-Ia tanta moça por ahr! Sám, mulher de Abrahão, tinha noventa annos quando teve o filho. Eu só tenho sessenta, Thomaz! Até á hor·a da morte, em se podendo, deve-se fazer bem. Hei de ter forças par·a criar este anginho ... Agora, o que é certo é que eu não pensei nunca que houvesse de verdade o tal gigante! Eu não dizia~! Olhe, ainda hontem, enganei-me e saí ele casa antes da hora ... E depois'/ Elle lá estava · naquellc morro, todo extendido que- nem urna nuvem! limpo. Isso é verdade, Thomaz~ É. Pois então 'I ! Você que fez '? Voltei para casa e esperei pelo sol. E depois? Quando tornei a saír já estava tudo E elle é bonito, o gigante 'I - · É lindo como um santo ! Dizem que é bom ... É muito .poder·oso, e não quer que se toque em nada que lhe per·tença ... Outro O GIGAXTE BR,\SILIÃO ltl3 dia, os fllhinhos elo fazendeiro pularam cedo para o teneiro e foram colher· um ninho em uma aroeira; [JOis sabe o que aconteceu? Não, Thomaz. O gigante bradou lá ele cima com YOZ grossa : « Deixem os passarinhos socegados ! " E as crianças foram em tropel para dentro. Para mim, isso foi alguem que fingiu ele gigante. Quem havia ele ser'/ Qualquer pessoa escondida no matto. E commigo? lllSTOJUAS DA 1\0SSA TEHHA Que houve com você~ Pois a rninl1a senhora não sabe? Não ... Uma madrugaria levei o meu serrote e o machado para o matto, e atil'ei-me com força para um joquitibú; mas logo do primeiro golpe toda a arvore se sacudiu com raiva, a terra kemeu, e eu caf de joelhos, sem coragem. Quando levanlei Ofl olhos ... minha senhora ! sabe o quo eu vi? -Não ... A copa da arvore era a caber;a d'elle, com os cabellos espalhados e brilhando que nem o sol ! Desde então eu só cato galhos e troncos seccos. Faz bem, Thomaz. III O preto espalhou por toda a redondeza a grande novidade. Correu gente á choupana ·da Tia Michaela para ver o filho do gigante. Uns levavam-lhe renclinhas para as a misolas, outros, touquinhas e sapatos ele lii, olhando para a criança com enlevo. En- O GIGANTE IJRASJL IÃO tre as mof;as do Jogar, foi uma, chamada Paula, que desatou num pranto quando viu o menino. Michaela perguntou-lhe : Porque é que você chora assim 'I Paula beijou-lhe a mão e contou esta historia: Eu estava de criada em urna casa na Yilla quando, ha tres dias, a filha mais moc;a do dono da casa teve um men ino que era mesmo uma llôr! A criHIJ.Ça nasceu á noite, e ainda quando fui deitar-me bom a vi, muito linda, dormindo perto da mãe, que não fazia senão chorai' ... Mas Jogo no outro dia, bem cedo, quando entrei no quaJ'tO, não vi o menino e perguntei espantada Onde está a criança 'I! A avó respondeu : Esla noite o Gigante Bmsilião veio buscai-a para a levar para a serra, onde ha boas cabrinhas para amamentai-a! Mas você não diga nada a ninguem, po1·que o gigante exigiu segredo! Michaela sorriu e respondeu : Paula, gua1·da o teu seg,·oclo, mas fica certa ele que não ha gigante nenhum. A verdarfe é. esta A moça era ainda ·muito inexperiente e, não sabendo criar o filho, mandou.:_o para mim, que amo· as crianças e vivo sózinha. Guarda o teu segredo, Paula, que eu guardarei os meus cuidados para este an,ginho. A mãe d'elle agora sou eu, e por isso bem estimo que o pae seja o Gigante Brasilião! IV Vasco c1·esceu aleg1·e e robusto. Quando chegou aos oito annos, em o menino mais forte e de mais clara intelligencia de todo aquelle logar, e tanto assim que, só por ter ouvido um dia uma menina ler alto um O GIGANTE BHAS!L!ÃO pouco da histot·ia do Brasil, elle falava nas guerras selvagetts doa Tapuyas e dos Tupys, citando os nomes das tribus, ensinando aos outros rapazinhos da sua edade o que eram as taperas, as tabas, as ocas, rindo-se das maldades do Anhangá e das astucias dos caaporas que attrahiarn as crianças para as mattas.· .. Vasco levantava-se de madrugada, tomava mn copo de leite da vaquinha Morena e o seu banho frio, porque elle, como todos os meninos bonitos, era muito asseatlo, e ia depois correr pelas campinas, cantando alto, rindo, saltando, entretendose com brinquedos innocentes, poupando sempre os animaes, colhendo flôres de quaresma e maravilhas para a Tia Michaela, galhinhos seccos para o fogo, ajudando com bom humor a pobre velha, que já se sentia muito cançada. Elle trazia sempre os bolsos cheios de pinhões, carregava cestos de pitangas e de framboezas, e na cabana solitaria da floresta nunca faltava, graças á sua activiclade, o feixe de lenha para o lume, a bilha HISTORIAS U.\ NOSSA TERRA de agua fresca da nascente, um ra,mo de flôres e um bom punhado de fructa,s. Toda a gente o conhecia pelo filho do gigante, e não se admirava de que elle tivesse herdado do pae aquelle amor paternal por todas as coisas da natw~eza. Tinha já Vasco quatorze annos quando a bôa Michaela motTeu . . A velhinha fechou os olhos com toda a serenidade. Quem tem a consciencia limpa, morre sem paYor. Vasco chorou-a amat~gamente, mas, pmcueanclo reagit~, lembmu-se ele · coreer pelo mundo; falou então com Thomaz, o preto lenhador, dizendo-lhe estas palavras : Thomaz, toma conta da minha cabana e da vaquinha, que está muito \'elha e precisa de bons cuidados. Come ela minha horta, que plantei de novo. Não <.;OJ~ tes as arvores da floresta, e dá pousada a todos os viandantes cançados ou transviados, que vierem bater a esta pbeta. Nilo tens agora casa; fica na minha e usa d'ella como se fosse tua. Eu vou em busca . elo meu pae, o gigante e voltarei com as mãos cheias de ouro, que repartit~ei comtigo. O GIGANTE BHASILJÃO O lenhador respondeu Vae com Deus, meu filho! No outro dia, muito cedo, Vasco saltou da cama, vestiu-se, pôz em um saquinho o pouco dinheiro que . lhe deixára a boa Michaela, abraçou Thomaz, e foi sellar no rancho o burro Mata-Nlouros, que já estava longe de ser novo, mas que ainda parecia disposto a grandes valentias. Seguindo peJa estrada, montado no seu burrinho pardo, Vasco ia pensando : Se o Gigante Brasilião é tão poderoso e tão bom, h a de acolher-me e fazer de mim, que sou seu filho, o senhor cl'esta terra maravilhosa! Vasco tocava o Mata-Maaros ao acaso, a caminho da serra, onde diziam habitar sempre o famoso gigante. E . assim foi indo, foi indo, até que anoiteceu. O menino, intrépido e valente, não esmorecia, mas notou que o Mata-Mouros ·trocava as pernas ele cançado e cambaleava de somno. Teve p·ena. Nisso viu uma luz pequena e kemula no meio de um campo vasto e triste como se fôra um mar! E ca- HISTOHIAS DA XOSSA TERRA rninhou para a luz. Ao approximar-se, notou que a luz saía de uma casa, e bateu na porta tres pancadas, -·- tan-tan-tan! A porta abriu-se. Er'a a casa de um fazendeiro. Vasco comeu regaladamente e o seu burrinho foi bem tratado. E, como estives:::e toda a familia reunida no Rerão, contavam historias uns aos outros para se entrete!'em. Vasco ouvia. tudo C(lm a maior attenç:'í.o. Uma cabocla, que estava fazendo requeijão, foi a primeira a falar. Esta noite, disse ella, eu vi o Gigante BrasiJ.ião! E todos exclamaram Ali ! como foi~ I Foi as;;im : Eu ouvi as cabr'as e os carneit'os balirem, como se estivessem com medo ou .com alguma dôr. Abl'i a janella devagarinho e espreitei : só tive tempo de vêr o gigante tirar um cordeiro da bocca de uma onça, e logo tudo socegou. A féra fugiu como um raio, e as cab!'as e o::: carneiros adormeceram muito . tranquillos ... Como era o gigante~ Parecia todo de prata, eomo se fosse u GIQANTE HHASILIÃO iüt feito só da luz ela lua! Não lhe pude Y2ll' as feições : desapparet:eu de repeute. O fazendeiro murmurou : Se não fosse o gigante, as feras comel'iam as nossas rezes e a nossa lavoura seria m(lsl"[uinha. Elle protege os fracos. Outro dia, os fillws elo vizinho Ambrosio abandonaram a casa e Já foram pa1'a a cidade; o ve- -"· lho f-icou sózinho, muito triste! Mas, a-. gora que não tinha Onç;a. quem o ajudasse, devia trabalhar. Pegou na enxada e lá se foi chorando para o campo, chorando de dôl' pela ingratidão dos filhos, e de saudade. Logo á primeira enxadada, quasi caiu por terra, mas, sem saber como, ergueu-se cheio ele força e poz-se a trabalhar com .um vigor extraordinario I Viu então que alguem lhe sustinha o' braço, e que ns golpes fundos que elle descarregava na terra eram vibrados pelo Gigante Brasiliãol Nunca a lavoura .d'elle esteve tão bonita! llfSTORlAS D.\ XOSS.\ TERRA E todos repeliram : Nunca! Vasco mal dormiu aquella noite e logo de manhãzinha saltou para o terreiro, sellou o bom e pachorrento Nlata-1l1oaros e, depois de agradecer a pousada, continuou o seu caminho. v Pac-tó, pac-tó, pac-tó, lá ia o il1awil1oai'OS pela estrada fóra. A manhà estava linda e as montanhas immensas da serra enorme ainda se envolviam na neblina da madrugada. Perobas, caneleiras, jacarandás, cabiúnas, paineiras, vinhaticos, todas as bellas arvores da matta, abrigavam passaros alegres ou orchícleas deslumbrantes. Vasco olhava de vez em quando para um e outro lado, esperando smprehender o gigante. A pezar de velhinho, o burro mostrava-se valente e trotava com alegria. A pouco e pouco o sol foi redobrando ele calor. Pm·a o meio do dia, Vasco sentiu sêde e fome, e quiz descançar um pouco no mato. Apeou- O GIGANTE BRASILIÃO se, desarreou o burro e olhou em roda procurando que comer. Logo os seus olhos viram uma verde bananeira, de onde pendia um cacho madurissimo de bananas. Vasco puxou da sua faca, só destinada a cortar os empecilhos do caminho, taes como espinheiros, cipós, e as fructas para o seu alimento. Em um instante o ilacho de bananas caiu por terra e elle regalou -se comendo algumas. Depois cortou um nó de taquarrassú, e fez d'elle um copo magnífico, em que bebeu agua f1'esca. ]~ata Mouros roía em socego as hervas, e os passaras gorgeavam que era uma delicia! Com a barriga cheia e o espírito socegado, Vasco resolveu dormir uma somneca. VI Pum!... pum! rel:ioaram dois tieos na floresta e o burrinho zurrou com verdadeira angustia! Despertado em sobresalto, o menino mal atinou com a causa d'aquillo, quando HISTORIAS OA NOSSA TEHRA ouviu uma bulha surda de corpo que se ati1·ava a torto e a direito por entre as remarias da floresta. O coração bateu-lhe; a Jacaré. bulha approxima v a-se! O pacato 1l1ata-1l1ou- ,.os já denunciava receios de perigo proximo ! Depois de · um segundo de anciosa espectativa, Vasco subiu apressado a um ipê para ver o que se pas· sava do outro lado elo cipoal, e, tremendo da cabeça aos pés, presenciou e;;ta scena medonha: Á beira de um lago surgiam curiosas as cabeças de dois jaca,rés furibundos, olhando para o matto com certo espanto. Que bichos, santo Deus! Subitamente, estacanVeado. do da sua furiosa carreira, appareceu um bellissimo veado, de galhos altivos e pernas longas e finas. Nos seus olhos vivíssimos lia-se o desespero da perseguição. Vasco O GIGANTE BRASILIÀO conjecturou que o animal viesse fugindo aos tiros de algum caçador. E vinha; mas já tinha sido longa a corrida, e o animal resolvera cortar· o caminho, voltando á esquerda, quando uma enorme giboia, até ahi occulta, balançou no ar seu corpo molle e laçou-o em um abraço apertado. E de tal modo o apertou que o pobre veado não p6de soltar um gelllido! 0::; olhos sairam-lhe elas orbitas; Glboia. a língua, muito vermelha, saltou-lhe da bocca, e o esqueleto quebrou-se-lhe, como se fosse de vidro! A giboia comeu-o todo! Depois enrolou-se, em'olou-se, e em tantas voltas que mais parecia um grosso tronco de arvore! Vasco viu então com verdadeiro terTor que estava a dois passos de um ninho de cobras, porque, lá do alto do i pê percebia movimentos em outros troncos eguaes ... Era mesmo preciso que a carne do MataJ1ouros fosse muito velha e rija para que 201i U ISTOHJAS DA NOSS t\ TEHHA as cobras assim o desprezassem! Vasco escorregou devagai', segredou ao seu bm·ro, que estava mais mm·to do que ''Ívo, os seus receios, e fugiram com precaução para a estrada. Um pouco por causa da edade, e muito por causa do susto, )\1ata-Moums ficou cego de um olho, e parece que tambem um tanto prejudicado do ouvido. VII Os caminhos da serra eram maravilhosos, mas os pobres viandantes raspavam os seus sustos bem bons ! Vasco ainda assim era arrojado, alegi'e e senhor da sua força; mas o companheiro trocava as pernas e ajoelhava-se se algum t.atú atrevido ousava sair da tóca defronte de seu focinho, ou se alguma capivai'a chafurdava com rumor o corpo na agua em que elle ia beber, ou se alguma cotia cortava a estrada, ou se alguma cobra innocente rumorejava nas folhas caídas, ou O GIGANTE lliHSILIÃU se algum coati mostrava, em uma travessia, o seu focinl10 pontudo. Querendo alcan~ar um povoado, Vasco cada vez se internava mais no matto. Dormia sob as perobas, as canelas, os louros e todas as bellas arvor·es do bosTatU. que, accendendo fogueiras para afugentar a bicharia, e só se alimentava• de cardos, jaboticabas, cambuhys, côcos, mamões e outras fructas sylvesti'es. Uma vez, quando mastigava socegadamente uns bellos araçás, pareceu-lhe sentir um rumor suspeito a poucos metros de distancia. Serviu-se do capivara. mesmo expediente da primeira vez : subiu a uma figueira brava e olhou para a frente. Arrepiaram-se-lhe os cabellos só de susto! viu uma gr·ande onça malhada, que se encaminhava vagarosamente para aquelle lado. Que horror 1 HlSTOI<IAS DA ~OSSA TERRA Va~co, por si, julgaYa-se livre de pe1·igo lá no alto da arvore, muito fina para sei' abarcada pelo animal; mas que seria do pobre Mata-Mouros, que so encolhia todo, com as OI'eihas em pé e o rabo mureho ~ I A onça parecia sorrir, e não se apt~essava, como quem soubesse que as suas presas não \he poderiam f11gir·! Assim, com todo o descanço, decidiu-se a deitar-se um pouco, lambendo as patas e· l'echando os {)lhos. :\las ... nem mesmo uma onça pó de estat' em socego na floresta! Vasco já mal se sustinha nos galhos da .arvore e o burro erguia para elle os olhos supplicantes, como se lhe dissesse : -Acode-me! O momento era angustioso! Qúe fazer? Por fortuna, appareceu de repente, quasi em frente á onça, um grande tamanduá. Os dois animaes contemplaram-se um ·segundo, e atiraram-se logo um ao outro ·com verdadeira fueia! Sentia-se-lhes o bufa.r :angustioso e a bulha surda dos corpos na J.ucta. Por fim o tamanduá deixou-se caír, com o ventre rasgado pelas garras e os O Glt:ANTJ.: BHASILIAO cientes da onça, que, pousando sobre o corpo da sua victima uma pata, eegueu pam .as arvores a cabeça triumphante, ·como se Jhes dissesse : Vü·am~! E berrou com força, para annunciai' a :;ua victoria a toda a floresta. Que soubessem cl'ella os fm·mosos jacarandás, os vinhaticos poderosos, as innumeras palmeiras gentis, e as paineil·as em Tamanduá. flór, e a sapucaia, e o iti, as ·gamelleiras e o pequiú! Que todas as nossas arvores bellissimas, estremecessem áquelle berro de triumpho e que pelas veias dos cipós pendentes descesse o mesmo fremito ás samambaias, ás ortigas bravas e ús trapoerabas do chão. A onça, satisfeita, fechou a bocca, rangeu os dentes, e, voltando-se, caminhou a passo para o lado de Vasco e do MataMouros. Ella alli ia, cheirando a sangue, farejando carne! Mata-Mouros zurrou e Vasco murmurou : l:!. HISTORIAS UA NOSSA TERRA É agora! Mas não foi. Um tiro reboou na floresta e tão de perto e tão certeiro, que a onça caíu logo, com a · cabeça varada por uma bala: O menino não pôde conter um grito de enthusiasmo ao ver um caboclo romper da mattaria; desceu então da arvore e abraçou aquelle homem, chamando-o seu salvador! VIII O pequeno resolveu seguir ao lado do caçador corajoso, que tão milagrosamente lhe apparecera. Tinham andado um bom· pedaço, sempre acompanhados pelo Mata-Nfouros, quando tiveram de estacar; o caboclo exclamava : Por aqui anda macaco! E a carne do macaco é excellente! ... Olhe! lá está elle naquelle ingazeiro! E -apontou a espingarda. Ao mesmo tempo Vasco. presenciou uma scena commovedora. O que estava na arvore era uma macaca. O GlGA~TE BHASILLÃCJ Vendo para si apontado o cano da espingarda, o animal ergueu nos braços um tenro filhinho, qlle estava amamentando, e mosh'ou-o ao caçador, como se invocasse a sua piedade e lhe di~sesse : não te peço a minha vida, peço-te a vida ele meu filho l Se eu lhe faltar, quem tratará d'elle? Entretanto o tiro tinha partido e a macaca, sentindose ferida, não abandonou o filho ; despenhou-se com elle, deitou-o num gramado, cortou .com o dentes, uma folha tllacaco. de inhame, e espremeu nella, como se f6ra em um copo, o seu leite, depressa, antes que a mo !'te o seccasse l O leite caía em gottas na folha verde, como perolas num vaso de esmeraldas ; assim a macaca deixava· a sua provisão de leite ao filho amado e, chorando, em tristes queixumes, morreu ao pé d'elle. Tambem Vasco chorava e o proprio caçador estava palliclo e arrependido. Matar é semp1·e máo. O bom menino atreveu-se a aconselhar ao caboclo que não matasse nem os animaes .inoffensivos, nem os innocentes passarinhos. E o homem prometteu fazer-lhe a vontade. Tinham de separar-se e Vasco pei'guntou ao companheiro se lhe sabeda . dizer onde _morava o Gigante Brasilião. O outro respondeu : O gigante mor·a em toda a sena. Ora está nas restingas, ora no mais alto dos morros. As vezes mesmo entra por essas mattar·ias dentro e a grandes perna- -das passa-se depressa parf' outros Estados. Disse-me um companheiro 'que já o viu lá para os confins do Paraná e que até o {)Uviu gritar nas Sete Quédas do Paranapanema! A sua voz era tão forte que fazia tremer toda a terra e dizia assim : Ajoelhem-se deante de mim.! ajoelhem-se deante de mim! Os bugres d'aquellas redondezas ficam pasmados . olhando para a agua que sete vezes se despenha, sem saber de onde vem .aquella ordem que as assoberba. O GIGANTE HHASILIÃO Um pescado1· lllCU amigo, este da barra de Santos, foi uma noite muito triste pal'a o mar. Deixára os filhinhos em casa sem vinlem e a mulhel' ás portas da morte. A noite estaYa negr·a o ventosa e o peixe não vinha, por mais quo lançasse a rêde. Desanimado, o pescador comec;ou a chorar, e atJ•avés das lagl'imas viu em uma enorme jangada o bom gigante, toca-que-toca, recolhendo nas mãos enormes punhados e punhados de peixes, que saltavam bJ·ilhando como faquinhas de aço. O pescador, boquia· berto, viu que era para dentro da sua rêde que o gigante lançava aquella pescaria toda, e que ao mesmo tempo os remos do seu barco se moviam em direcção á praia, levando-o para casa. O pobre homem nem pôde falar, de commovido e de contente. D'ahi por seante tudo lhe correu bem na vida : a mulher salvou-se, os filhos criaram-se e os negocias melhoraram. Entretanto, ha muita gente que diz que aquillo foi sonho' O senhor jú o viu'? -Já. 21·1 HltiTORIAS DA :\'Q,.;>;A TEHRA Quando~ Em um d·ia ele tempestade. Eu atravessava sózinho a floresta, com pavoe das arvoees que se torciam, rangendo desesperadas. Virgem Maria! Os trovões reboavam como eu .nunca ouvi! De repente, um raio estalou sobre a minha cabeça; parei estarrecido! Como por encanto, senti ao mesmo tempo que o gigante abeia sobre mim as suas enormes mãos protectoras. Depois de tudo passado, abri os olhos : deante de mim estaYa uma palmeira immensa I Só para que eu não lhe agradecesse, o gigante tinha-se transformado... Vá confiado; elle gosta de crianças. Dizem mesmo que para os entes fracos é que é mais amavel; abre os braços, espalma as mãos e deixa assim que as patativas e os sabiás durmam entre os seus dedos oú façam os ninhos na sua frondosa cabellei r a! Caminhe para deante, já que tem coragem; eu volto para tráz, para ao pé de minha mulhee e de meus filhos. Ao mesmo tempo que falava, o caçador punha ás costas a macaca morta e na bolsa o macaquinho recemnascido. O GIGANTE BRA~!LL\0 21C, Ao menos tt·ate bem do filho! recommendou-Ihe Vasco; e o caçador t'espondeu: Vou estimai-o, de.scance. E assim se separaram . IX Uma noite, tremendo de frio, Vasco e o seu burrinho acolheram-se muito aconchegados para de baixo de um ingazeim. Voe· javam pyrilampos, piscando na treva as suas lanterninhas côr ele esmeralda .. Aguas de um rio . corriam perto, num murmurio brando: Meu pobre Mata-Mouros! começo a arrepender--me d'esta aventura, por amor de ti! Tem paciencia, meu velho, e perdoame ... i\1.ata-Mouros, como não sabia falar, bafejou o seu halito quente sobre o corpo gelado do menino, como para provar-lhe que não estava zangado. Vasco fez fogo, por precaução, e dei tando-se sobre folhas seccas dormiu como um príncipe num colchão de paina. Dormia ainda quando, pela madrugada, um rumor extranho e doce encheu toda a floresta. Todos os passaros cantavam ao mesmo tempo. Os lirios côr de marfim, á beira d'agua, empertigavam- se nas hastes, redobrando de aroma, e nos braços veedes ela baunilha, grandes fl6res cheirosas baloiçavam-se como thuribulos, espargindo perfumes. Ipês atapetavam o chão de florinhas, um chuveieo de petalas de oueo, e emquanto os albores da aurora prateavam as aguas fugitivas e as humidades elos rochedos cobertos ele bromelias, colibris luminosos despertavam por entre orchídeas t'esplandecentes. Vasco sonhava : O Gigante Brasilião passava ofl'uscando, como se os seus ol!tos fossem s9es! Sentiu-Ih;, a caricia dos dedos por entre os cabellos, e era como se aqueUes dedos fossem de velludo! Vasco despertou e seutou-se de um salto. Onde estaria o gigante? O GIGA~TE BRASIL!ÃO Mata-Mouros I não o viste passar? A1cda-Mouros não entendeu a pergunta e estava sereno, como se nada de extraordinario tivesse acontecido. O menino expertou-o : Vamos, meu velho, sigamos o giganLe, que passou por aqui! Caminharam em vão serra acima e serra abaixo, ora entre tijucaes, ora sobre penedias, atravessando cachoeiras ou saltando vallados. Prudente, Mata-Monros avisava-o de longe dos perigos presentidos. Já elle estava ha tempo de orelhas fitas, peJlo arrepiado, quando um barulho exquisito se fez ouvir. O burrinho, apezar de velho e de tremulo, subiu lesto para um I'ochedo proximo e que parecia ter sido posto alli para a sua salvação . . Mal tinham alcan~ado o alto da rocha, quando uma .vara de porcos do matt~ passou gmnhindo, batendo tudo que ia encontrando no caminho. Depois de os sentir bem longe, Vasco abraçóu Mata-Mouros, que tre.mia ainda e ~lS HI~TOHIAS DA NO~SA TERH.A para allivial-o, apeou-se e levou-o pela redea até um prado onde havia bba herva, aguas límpidas e muitos araçaseiros carregadinhos de fructa. X Depois d'isso succederam varios epi::;odios, que não vale a pena mencionar. Vasco e 1\1/ata-"Vfouros estavam amarellos e magros ele canceira, quando um dia a\·istaram um alvejar de casinhas brancas e uma torre c!.e egreja muito caiada, que apontava para o céo. E1·a uma villa. L:i chegaram depressa. A prilneira casa que viram estava com a porta e as janellas aberta~ . Vasco apeoúse e entrou. O burro, por discreção, ficou á porta-. Um segundo depois, Vasco, espantado, penetrava em uma.sala ampla, muito limpa, onde uns Yinte meninos liam sentados em bancos, em frente a um velho de cabellos brancos e de olha1· bondoso. Esse · homem era . o mestre. Vendo o po- O GIGAXTE BIBSIJ.IAO 11\i hi'e menino tão pallido e cançado, perguntou-lhe de onde vinha e que desejava. Vasco contou-lhe a sua historia, acci'escentando : Estou farto de andar e pe<;o agora ao senhor mestre, que tudo sabe que me diga onde posso encontrai' o Gigante Brasilião. O velho ergueu-se, sorriu, passou patrmalmente a rn,-to pela cabe,:a · de Vasco e respondeu : Meu h lho I o Gigante Brasilião é urna lenda, é uur nome · que o povo deu ao nosso paiz, pois fica certo de que só na imaginação ha entes assi111 sobrenatumes. Depois, appi·oximando-se da janella, foi apontando successivamente cliYersos pon· tos, r. proport:ão que dizia : O Gigante Bmsilião é tudo isto : csüts montanhas enormes, que são o seu dorso; estas arvores altíssimas, que são os seus musculos; estes rios e mares, que são as suas fertilissimas veias; este aroma ele seiva, que é o seu halito, e as rochas lllSTORTAS DA NOSSA TERRA duras, que são os seus ossos; e mais as noites estrelladas, que são os seus sonhos! É da bondade, da inextinguível fertilidade d'este solo, aberto para os pobres em mananciaes punssunos, que lhe vem o nome de grande, de bom, de generoso, que os homens rusticos traduziram pelo de gigante. Em qualquer ponto que lhe dermos um golpe; d'ahi veremos rebentarem flôres e fructos, em vez de sangue e de odios. _ Não morremos de fome nos seus braços e dormiremos tranquillos no seu seio. Olha agora para aqui~ E o velho encaminhou-se para um mappa do Brasil, que ·cobria uma parede da sala. Vasco, meu filho, fizeste bem em vir bater em uma escola; vaes receber a tua primeira licção. Apontando agora no mappa os Jogares de que falava, o mestre ia dizendo : O Brasil é isto tudo! Aqui, ao norte, vemos o Estado do Amazonas, que poderás suppôr ser a cabeça febril do gigante. Através do seu territorio despenha-se o mais fornlidavel l'io Jo globo, e elle e os seus afti ue n tes são co 111 o que as veias c!' aquelle cerebro que não deixari\o nunca de pulsar cóm energia. Aqui, o Parú, Estado forte, riquissimo, rasgado pelas -me:omas aguas do grandioso Amazonas, ordeiro e prospet·o, grande em toda a _extensão da palavra; aqui o Maranhão, patria de grandes 1.'1. filhos, c11jos nomes te ensinarei a amar; agora, nesta cadeia ij. beira do oceano, vemos como que a espinha do teu gigante, formada por todos estes Estados : Piauhy, Ceará, Parahyba, Pernambuco, Alagôas, Sergipe, Bahia, Espírito Santo e Rio de Janeiro! No centro, Matto Grosso e Goyaz são o peito onde se esconde o coração do gigante, mysterioso e forte! aqui o Estado de Minas Geraes, o ventre uberrimo, que se desentranha em ouro e pedras preciosas, altivo e generoso; agora, S. Paulo, a terra fertilissima, cortada pelos trilhos das loc~ moti vas, ·caminhando com força, dando exemplos de prosperidade e de energia; aqui o Paraná, de um clima amenissimo, e Santa Catharina e Rio Grande do Sul, terra dos grandes guerreiros e defensores da patria. Como um ponto de communhão, um ·Jogar em que todos estes bellos Estados se fazem representar, aqui temos a Qapital, a cidade do Rio de Janeiro, posta á beira· da mais bella bahia do mundo, sorrindo de entre as suas montanhas incomparaveis! O GIGANTE llRASli.IÃO Como vês, o gigante Brasilião é isto. Eu, que tenho os cabellos brancos, amo-o com o mesmo amor que tu. Fica commigo, estuda e quando souberes o que eu sei,· voltarás pam a tua choupana, embellezal-a-ás, crearás em torno de ti um ambiente de pare ele alegria e, lavrando esta terra bemdita, emiquecerás a tua prole e farás a fortuna elo nosso pae commum O GIGANTE BRASILIÃO. FIM ,\ nossa bandeira. A nossa lingua. :\linha. mãe. i\ leu pae. Carta J ... A pobre ceg<~. . O thesouro. Carta li. O grumete .. Carta UI. O sino de ouro. Carta IV .. A venturas de Rosinhn. O prelo velho. Carta V.' Polaco I .. Um mar~r. Paciencia e bonJade .. Amor da Patria .. Depois da batalha . Coragem . Carta VJ A fabrica. Uma pergunta. INOICE Republica .......... . . . . O avô. Carta Vll .. Antes morrer du fom~. Carta. Vlll. O Gigante Bmsilião. I'A IHS T\'P. AILLi\l'O, Al.\"ES & ç•, l•ags.
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