Universo da obra
Universo da obra
Priscila Monteiro subiu o Morro do Cruzeiro com uma mochila, um gravador, duas canetas e a dignidade escorregando dentro de um sapato escolhido por uma mulher que ainda acreditava em calçada plana. A pauta enviada por sua editora parecia piada de estagiário com acesso ao café da firma. Entrevistar Ícaro Nobre, fundador da LajeLink, conhecido nas redes como o CEO pobre do morro. Priscila escrevia romances de bilionários secretos sob pseudônimo e pagava o aluguel transformando homens insuportáveis em fantasia vendável. Por isso, a palavra CEO já lhe dava coceira no juízo. A diferença era que aquele CEO havia mandado mensagem pedindo que ela levasse troco para o mototáxi, evitasse salto fino e não estranhasse se a reunião de diretoria fosse interrompida por uma panela de pressão.
A sede da LajeLink ficava na última laje de uma casa verde, atrás de uma caixa d'água azul, duas antenas tortas e uma faixa escrita à mão com a frase expansão começa no boleto pago. Havia três cadeiras de plástico, um notebook com adesivo de foguete, uma impressora que servia de apoio para uma travessa de cuscuz e um ventilador guerreiro fazendo barulho de helicóptero cansado. Ícaro Nobre apareceu da escada usando camisa social por dentro de uma bermuda, sandálias pretas e um crachá plastificado onde se lia presidente executivo. Era bonito de um jeito irritante, com sorriso rápido, cabelo preso de qualquer jeito e olhos claros demais para combinar com a luz da tarde. Abriu os braços diante da laje e disse que Priscila estava diante do conglomerado. Ela olhou para a impressora, para o cuscuz e para a antena torta. Perguntou se o conglomerado emitia nota fiscal.
Ícaro respondeu que emitia nota fiscal quando o sistema do governo não acordava carente, e ofereceu café em copo americano. Priscila ligou o gravador, sentou na cadeira menos ameaçada por rachadura e começou as perguntas. A LajeLink, segundo ele, conectava serviços do morro a clientes do asfalto, entregas, consertos, aulas, fretes pequenos, wi-fi emprestado em emergência e recados para mães que fingiam não saber mexer no celular. Tinha vinte e três clientes fixos, dois motoboys, uma planilha colorida e uma dívida na papelaria por causa de cartaz laminado. Priscila perguntou por que ele usava CEO. Ícaro explicou que, se dissesse dono, todo mundo pedia desconto, e se dissesse CEO, todo mundo pedia apresentação. A lógica era ridícula, eficiente e quase bonita, o que a deixou com vontade de reclamar em silêncio.
O problema de Ícaro era que ele parecia charlatão por fora e organizado por dentro. Conhecia o preço do gás em cinco bairros, a média de atraso dos ônibus, o horário em que as entregas rendiam melhor e o nome de cada moradora que sustentava a rede com indicação. Falava de crescimento sem abandonar a rua, de lucro sem trocar a equipe por robô e de tecnologia com a seriedade de quem já consertara celular de vizinho usando chave de fenda e reza da tia. Priscila tentava manter a ironia pronta no bloco de notas, mas as frases que ele dizia recusavam virar piada fácil. Em certo momento, Ícaro olhou para ela e comentou que Priscila escrevia finais felizes para homens que compravam ilhas e aprendiam humildade no capítulo vinte. Ela fechou o bloco. Ninguém na editora sabia do pseudônimo. Ícaro disse que deduzira pelo tipo de pergunta. A mentira veio rápida demais.
A luz caiu quando a tia dele anunciou que o café acabara e que CEO sem pó virava só homem falando alto. O morro inteiro apagou em sequência, casa por casa, até restar apenas o céu começando a ficar roxo e o ventilador parando com um suspiro dramático. Priscila pegou o celular para acender a lanterna, porém Ícaro tocou no roteador encostado à parede antes dela apertar o botão. O aparelho soltou uma luz azul, a antena da caixa d'água vibrou e três janelas abaixo piscaram em ordem perfeita, igual pista de pouso de aeroporto que desistiu da classe média. Priscila encarou o roteador. Ícaro encarou Priscila. A tia apareceu na porta com a cafeteira vazia e disse que, se aquilo fosse gambiarra nova, não queria saber, desde que a geladeira voltasse antes do frango descongelar.
Ícaro tentou explicar com palavras caras e fracassou de um jeito encantador. Falou em bateria reserva, sinal comunitário, protótipo, oscilação e uma tal adaptação de campo que Priscila anotou só para rir depois. Enquanto ele falava, um drone de entrega perdeu altura acima da laje, girou feito tampa de panela e despencou na direção da mesa. Priscila se abaixou. Ícaro ergueu a mão. O drone parou a um palmo dos dedos dele, ficou tremendo no ar e desceu devagar sobre uma cadeira vazia. O silêncio durou menos que o grito da tia. Ela pegou o drone pelo trem de pouso e perguntou se dava para vender aquilo no grupo do bairro. Ícaro, pálido, disse que não. Priscila desligou o gravador com cuidado, porque qualquer aparelho perto daquele homem parecia propenso a obedecer ordens que ela não ouvia.
Na descida, Priscila disse a si mesma que havia visto imã, truque, bateria escondida ou qualquer golpe de marketing feito por um CEO sem verba para agência. O problema apareceu no áudio da entrevista, quando ela chegou em casa, tirou os sapatos e abriu o arquivo para transcrever. A voz de Ícaro estava normal até a queda de luz. Depois surgiu outra, metálica, baixa, falando numa língua que o programa tentou traduzir sozinho. A primeira frase apareceu na tela sem pedido. Visitante humana identificou alteração gravitacional leve. A segunda veio depois de um chiado. Risco romântico elevado. Priscila ficou olhando para o computador, sem piscar, até o celular vibrar. Era mensagem de Ícaro. Não transcreva essa parte. Ainda. Ela leu uma vez, depois outra, e respondeu a única coisa profissional que conseguiu. Você tem assessoria de imprensa em Marte ou atende direto da laje.
Priscila Monteiro escreve romances de bilionários secretos para pagar boletos e jura que nunca mais cairá em conversa de CEO. A promessa dura até ela subir o Morro do Cruzeiro para entrevistar Ícaro Nobre, fundador da LajeLink, uma empresa com três clientes fixos, dois motoboys, uma dívida na papelaria e um plano de expansão apresentado em guardanapo. Ícaro se vende como CEO pobre, usa sandália em reunião estratégica e fala de rodada de investimento enquanto a tia serve cuscuz na sala. Priscila decide que ele é material perfeito para uma comédia cruel, até perceber que o roteador liga sozinho quando ele encosta, os drones caem devagar perto da mão dele e o gravador registra uma voz metálica chamando-a de visitante humana. Entre planilhas ridículas, reuniões na laje, paixão fora do script e parentes que acham alienígena coisa de cobrança da Light, Priscila descobre que o CEO mais falido do morro talvez tenha vindo de muito mais longe que a zona norte.
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