Universo da obra
Universo da obra
Raquel Nunes aprendeu a reconhecer pânico pelo jeito como as pessoas digitavam. Quem escrevia tudo em maiúscula costumava estar bravo. Quem mandava três mensagens seguidas sem pontuação estava com pressa. Quem apagava, reescrevia e ficava cinco minutos parado no chat quase sempre tinha medo de colocar a própria tragédia em frase simples.
Às 09h12 daquela segunda-feira, o sistema do Cartório Virtual abriu um chamado com prioridade máxima e anexou sozinho uma certidão de óbito. Raquel estava no terceiro café, sentada no cubículo de atendimento remoto, cercada por telas que prometiam eficiência enquanto travavam em abas simples. O protocolo piscava em vermelho: CV-778410. Assunto: contestação de morte.
A cliente chamava-se Ana Lúcia Ferreira, quarenta e dois anos, professora de matemática, moradora de Santo André. A foto de cadastro mostrava uma mulher de cabelo preso, blusa verde e expressão séria de documento. O atestado dizia que Ana Lúcia havia morrido às 02h43 por parada cardiorrespiratória, validação biométrica confirmada, testemunha digital reconhecida, registro lavrado automaticamente pelo módulo Óbito Fácil.
No chat, a mesma Ana Lúcia escrevia: Estou viva. Pelo amor de Deus, alguém atende.
Raquel endireitou a cadeira. O primeiro impulso foi procurar falha de duplicidade, homônimo, CPF digitado errado. O Cartório Virtual tinha erros demais para uma empresa que vendia o fim do erro humano. Inventários sumiam, procurações apareciam em nome de ex-marido, assinatura digital recusava dedo molhado. Morte de pessoa viva, porém, não era erro comum. Era ocorrência jurídica, reclamação grave, coisa de supervisor.
Ela abriu a conferência de CPF. Bateu. Documento. Bateu. Foto do cadastro. Bateu. Endereço. Bateu. Biometria facial feita às 02h41, dois minutos antes da emissão do óbito. O arquivo de vídeo mostrava Ana Lúcia olhando para a câmera, piscando quando o sistema pedia, virando o rosto para a esquerda, depois para a direita, dizendo a frase de autenticação: Confirmo meus dados e autorizo o registro.
Raquel aumentou o volume.
A voz era baixa, rouca, quase sem ar. Mesmo assim, o sistema marcava correspondência de noventa e nove vírgula oito por cento.
No chat, Ana Lúcia escreveu de novo: Essa gravação não fui eu. Estou no meu apartamento. Meu convênio cancelou agora. O banco bloqueou minha conta. Meu prédio não deixa eu retirar encomenda porque apareço como falecida no cadastro.
Raquel olhou para a câmera de atendimento acima do monitor. Estava apagada, como sempre. Ainda assim, cobriu a boca antes de xingar. Havia treinamento para cliente agressivo, fraude documental, luto, inventário litigioso e tentativa de suborno. Não havia treinamento para convencer uma plataforma de que uma pessoa viva continuava viva depois que o próprio corpo burocrático dela tinha sido enterrado em banco de dados.
Ela abriu o botão de reversão. O sistema pediu justificativa. Digitou: contestação de óbito por titular viva em atendimento simultâneo. Clicou em enviar. A tela congelou por três segundos e devolveu uma mensagem curta: reversão negada. Registro validado por cadeia completa.
Cadeia completa significava que todos os pontos tinham aceitado a morte: biometria, documento, assinatura, testemunha, cartório parceiro, base nacional. Quando a cadeia fechava, o atendimento de primeiro nível só podia orientar a família.
Raquel chamou o supervisor pelo comunicador interno. Davi, preciso de revisão manual no CV-778410. Cliente viva com óbito automático.
A resposta demorou oito minutos. Nesse tempo, Ana Lúcia mandou foto segurando um jornal aberto no dia certo. Mandou vídeo dizendo o próprio nome. Mandou print do banco recusando acesso. Mandou áudio chorando com raiva, pedindo que Raquel não encerrasse o chamado.
Davi respondeu: não mexe. encaminha para compliance.
Raquel escreveu: ela está no chat agora.
A resposta veio rápida demais: principalmente por isso.
Ela leu a frase três vezes. O ar-condicionado soltou um jato frio sobre sua nuca. Ao redor, os outros atendentes continuavam resolvendo reconhecimento de firma, divórcio consensual e segunda via de nascimento. Ninguém levantou a cabeça. O medo moderno tinha essa vantagem para quem mandava: cabia inteiro dentro de uma janela privada.
Raquel abriu o histórico oculto do protocolo, recurso que só conhecia porque cobrira férias no setor de qualidade. Havia uma anotação anterior ao chamado, feita às 03h02 por um usuário interno sem nome. Categoria: pós-lavratura. Texto: titular resistiu ao encerramento. acionar prova de vida reversa se contato persistir.
Titular resistiu ao encerramento.
Ela copiou a frase para um bloco de notas e sentiu a mão suar no mouse. A expressão não era jurídica. Não era de sistema. Parecia anotação de alguém acompanhando uma porta que não fechou direito.
Ana Lúcia escreveu: Tem um homem no corredor. Ele falou meu nome pelo interfone.
Raquel respondeu antes de pensar: Não abra.
O sistema marcou a mensagem dela em amarelo. Atendimento fora do script.
Ela apagou a próxima frase que pretendia mandar e ligou para o número cadastrado. Chamou uma vez. Duas. Na terceira, Ana Lúcia atendeu sem dizer alô. Do outro lado havia respiração curta, um cachorro latindo em apartamento próximo e uma campainha tocando com insistência educada.
"Sou eu, Raquel, do Cartório Virtual. Você está sozinha?"
"Estou. Ele está parado na porta. Disse que veio recolher pendência de óbito. Que pendência é essa?"
Raquel levantou da cadeira. Davi apareceu na entrada da baia antes que ela chamasse. Terno claro, crachá virado, celular na mão. Ele olhou para a tela dela, depois para o telefone.
"Desliga", disse baixo.
Raquel manteve o aparelho no ouvido. "Ana, chama a polícia. Agora."
Davi segurou o fio do headset e puxou da entrada do computador. A ligação caiu. No monitor, o chat de Ana Lúcia fechou sozinho. O protocolo mudou para resolvido. Motivo: titular localizada sem inconsistência. Encaminhamento: coleta presencial.
"Você não devia ter visto isso", Davi falou.
Raquel encarou o supervisor. Ele parecia menos irritado que triste, o que a assustou mais. Atrás dele, no painel geral de atendimentos, outros três protocolos começaram a piscar em vermelho. Todos tinham o mesmo assunto.
Contestação de morte.
O celular pessoal de Raquel vibrou dentro da bolsa, embora ninguém do trabalho tivesse aquele número. A mensagem vinha sem remetente visível.
SE QUISER CONTINUAR EXISTINDO, NÃO FAÇA PROVA DE VIDA.
Raquel Nunes trabalha no atendimento de um cartório digital que promete resolver inventários, divórcios e óbitos sem fila, sem papel e sem rosto. Quando o sistema emite a certidão de morte de uma cliente viva usando biometria perfeita, Raquel tenta cancelar o erro e descobre uma fila oculta de pessoas que foram apagadas legalmente antes de desaparecer. Para provar que ainda existem, elas precisam vencer uma plataforma que reconhece documentos, vozes e rostos melhor do que qualquer testemunha humana.
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