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Capítulo 1 · Êxtase e outros contos

Prelúdio

1 Não havia um centímetro de espaço para Lottie e Kezia na charrete. Quando Pat as ergueu para cima da bagagem, elas bambolearam; o colo da avó estava cheio, e Linda Burnell não poderia de modo algum ter sustentado uma trouxa de criança no seu por qualquer distância. Isabel, muito superior, estava empoleirada ao lado do novo faz-tudo, no assento do cocheiro. Sacolas de viagem, bolsas e caixas estavam empilhadas no chão. “Estas são necessidades absolutas que não deixarei sair da minha vista por um instante sequer”, disse Linda Burnell, a voz trêmula de fadiga e excitação.

Lottie e Kezia estavam de pé no trecho de gramado logo depois do portão, prontas para a batalha em seus casacos com botões de âncoras de latão e bonés redondinhos com fitas de navios de guerra. De mãos dadas, encaravam com olhos redondos e solenes primeiro as necessidades absolutas e depois a mãe.

— Teremos simplesmente de deixá-las. É só. Teremos simplesmente de abandoná-las — disse Linda Burnell.

Uma estranha risadinha lhe escapou dos lábios; ela se recostou nas almofadas de couro abotoado e fechou os olhos, os lábios tremendo de riso. Felizmente, naquele momento, Mrs. Samuel Josephs, que estivera observando a cena por trás da persiana de sua sala de visitas, desceu bamboleando pelo caminho do jardim.

— Por que a sedhora não deixa as criadças comigo esta tarde, Brs. Burnell? Elas podem ir depois na carroça com o homem do armazéb, quando ele vier de tardinha. Essas coisas no caminho têm que ir, não têm?

— Sim, tudo o que está fora da casa deve ir — disse Linda Burnell, e acenou com uma mão branca para as mesas e cadeiras de cabeça para baixo no gramado da frente. Como pareciam absurdas! Ou deveriam estar viradas para o outro lado, ou Lottie e Kezia deveriam ficar de cabeça para baixo também. E ela ansiava por dizer: “Fiquem de cabeça para baixo, crianças, e esperem o homem do armazém.” Parecia-lhe que isso seria tão requintadamente engraçado que não conseguia prestar atenção em Mrs. Samuel Josephs.

O corpo gordo e rangente inclinou-se por cima do portão, e a grande gelatina do rosto sorriu.

— Não se preocupe, Brs. Burnell. Loddie e Kezia podem tomar chá com minhas criadças no quarto das criadças, e depois eu as ponho na carroça.

A avó considerou.

— Sim, é realmente o melhor plano. Somos muito gratas à senhora, Mrs. Samuel Josephs. Crianças, digam “obrigada” a Mrs. Samuel Josephs.

Dois pios abafados:

— Obrigada, Mrs. Samuel Josephs.

— E sejam boas meninas, e... cheguem mais perto...

Elas avançaram.

— Não se esqueçam de avisar Mrs. Samuel Josephs quando quiserem...

— Não, vovó.

— Não se preocupe, Brs. Burnell.

No último instante, Kezia soltou a mão de Lottie e disparou na direção da charrete.

— Quero beijar minha vovó outra vez para dizer adeus.

Mas era tarde demais. A charrete saiu rolando pela estrada, Isabel rebentando de orgulho, o nariz erguido para o mundo inteiro, Linda Burnell prostrada, e a avó remexendo entre os curiosíssimos objetos avulsos que mandara pôr em sua retícula de seda preta no último momento, à procura de alguma coisa para dar à filha. A charrete cintilou ao sol, na fina poeira dourada, subindo a colina e desaparecendo por cima dela. Kezia mordeu o lábio, mas Lottie, depois de encontrar cuidadosamente o lenço, abriu um berreiro.

— Mamãe! Vovó!

Mrs. Samuel Josephs, como uma enorme e quente capa de bule de seda preta, envolveu-a.

— Está tudo bem, querida. Seja uma menina corajosa. Venha brincar no quarto das criadças!

Pôs o braço em torno de Lottie chorosa e a levou embora. Kezia seguiu atrás, fazendo uma careta para a abertura da saia de Mrs. Samuel Josephs, que estava desabotoada como de costume, com dois longos cordões cor-de-rosa de espartilho pendurados para fora...

O choro de Lottie foi diminuindo enquanto ela subia as escadas, mas a visão dela à porta do quarto das crianças, de olhos inchados e nariz feito uma bolha, deu grande satisfação aos S. J., sentados em dois bancos diante de uma longa mesa coberta com oleado americano e posta com imensos pratos de pão com gordura e duas jarras marrons que soltavam um vapor leve.

— Olá! Você estava chorando!

— Uuh! Seus olhos afundaram todinhos.

— O nariz dela não está engraçado?

— Você está toda vermelha e manchada.

Lottie fez bastante sucesso. Sentiu isso e inchou, sorrindo timidamente.

— Vá sentar junto de Zaidee, patinha — disse Mrs. Samuel Josephs —, e Kezia, você senta lá na ponta, ao lado de Boses.

Moses sorriu e lhe deu um beliscão quando ela se sentou; mas ela fingiu não notar. Detestava meninos.

— O que você vai querer? — perguntou Stanley, inclinando-se por cima da mesa com muita polidez e sorrindo para ela. — O que vai querer para começar — morangos com creme ou pão com gordura?

— Morangos com creme, por favor — disse ela.

— Ah-h-h-h.

Como todos riram e bateram na mesa com as colheres de chá. Que pegadinha! Não foi mesmo? Ele a enganara direitinho! Bom e velho Stan!

— Mamãe! Ela pensou que era de verdade.

Até Mrs. Samuel Josephs, servindo leite com água, não pôde deixar de sorrir.

— Vocês não deviam brincar com elas no último dia — arquejou.

Mas Kezia deu uma grande mordida em seu pão com gordura e depois deixou o pedaço de pé no prato. Com a mordida, ele fazia uma espécie adorável de portãozinho. Ora! Ela não se importava! Uma lágrima lhe rolou pela face, mas ela não estava chorando. Não poderia ter chorado diante daqueles terríveis Samuel Josephs. Sentou-se de cabeça baixa e, quando a lágrima escorreu devagar, apanhou-a com um pequeno e hábil golpe da língua e a comeu antes que qualquer um deles tivesse visto.

2 Depois do chá, Kezia voltou andando para a casa delas. Subiu lentamente os degraus dos fundos e, pela copa, entrou na cozinha. Nada restara ali, a não ser um pedaço de sabão amarelo e arenoso num canto do peitoril da janela da cozinha e, em outro, um pedaço de flanela manchado com anil. A lareira estava entupida de lixo. Ela cutucou no meio dele, mas não encontrou nada, exceto um aparador de cabelos com um coração pintado, que pertencera à criada. Até isso deixou ali caído, e se arrastou pelo corredor estreito até a sala de visitas. A persiana veneziana estava abaixada, mas não fechada de todo. Longos raios de sol em forma de lápis brilhavam através dela, e a sombra ondulante de um arbusto lá fora dançava sobre as linhas douradas. Agora ficava quieta, agora começava a tremular outra vez, e agora vinha quase até seus pés. Zum! Zum! Uma varejeira batia contra o teto; as tachas do tapete tinham pedacinhos de penugem vermelha grudados nelas.

A janela da sala de jantar tinha um quadrado de vidro colorido em cada canto. Um era azul e outro amarelo. Kezia se abaixou para dar mais uma olhada num gramado azul com copos-de-leite azuis crescendo junto ao portão, e depois num gramado amarelo com lírios amarelos e uma cerca amarela. Enquanto olhava, uma pequena Lottie chinesa saiu para o gramado e começou a tirar o pó das mesas e cadeiras com uma ponta do avental. Aquilo era mesmo Lottie? Kezia não teve certeza até olhar pela janela comum.

No andar de cima, no quarto do pai e da mãe, encontrou uma caixinha de pílulas preta e brilhante por fora e vermelha por dentro, contendo uma bolha de algodão.

“Eu poderia guardar um ovo de passarinho aí”, decidiu.

No quarto da criada havia um botão de espartilho enfiado numa fresta do chão, e em outra fresta algumas contas e uma agulha comprida. Ela sabia que não havia nada no quarto da avó; vira-a empacotar tudo. Foi até a janela e se encostou nela, apertando as mãos contra a vidraça.

Kezia gostava de ficar assim diante da janela. Gostava da sensação do vidro frio e reluzente contra as palmas quentes, e gostava de observar as pontas brancas engraçadas que apareciam em seus dedos quando os apertava com força contra a vidraça. Enquanto estava ali, o dia se apagou tremulando, e veio a escuridão. Com a escuridão rastejou o vento, fungando e uivando. As janelas da casa vazia sacudiram, veio um rangido das paredes e dos assoalhos, um pedaço solto de ferro no telhado bateu desolado. Kezia ficou de repente muito, muito imóvel, de olhos muito abertos e joelhos apertados um contra o outro. Estava com medo. Queria chamar Lottie e continuar chamando enquanto corria escada abaixo e para fora da casa. Mas AQUILO estava bem atrás dela, esperando à porta, no alto da escada, no fim da escada, escondido no corredor, pronto para saltar pela porta dos fundos. Mas Lottie também estava na porta dos fundos.

— Kezia! — chamou ela alegremente. — O homem do armazém chegou. Está tudo na carroça e três cavalos, Kezia. Mrs. Samuel Josephs nos deu um xale grande para a gente usar em volta, e mandou você abotoar o casaco. Ela não sai por causa da asma.

Lottie estava muito importante.

— Vamos lá, meninada — chamou o homem do armazém.

Ele enganchou os grandes polegares debaixo dos braços delas e lá foram elas balançando para cima. Lottie arrumou o xale “muito lindamente”, e o homem do armazém cobriu-lhes os pés com um pedaço de cobertor velho.

— Levantar. Devagarinho.

Poderiam ser um par de pôneis novos. O homem do armazém apalpou as cordas que prendiam a carga, soltou do eixo a corrente do freio e, assobiando, subiu ao lado delas.

— Fique bem perto de mim — disse Lottie — porque senão você puxa o xale do meu lado, Kezia.

Mas Kezia se achegou ao homem do armazém. Ele se elevava ao lado dela, grande como um gigante, e cheirava a nozes e caixas novas de madeira.

3 Era a primeira vez que Lottie e Kezia saíam tão tarde. Tudo parecia diferente — as casas de madeira pintada muito menores do que de dia, os jardins muito maiores e mais selvagens. Estrelas brilhantes salpicavam o céu, e a lua pairava sobre o porto, pintalgando as ondas de ouro. Podiam ver o farol brilhando na Ilha da Quarentena, e as luzes verdes nos velhos cascos de carvão.

— Lá vem o barco de Picton — disse o homem do armazém, apontando para um pequeno vapor todo pendurado de contas luminosas.

Mas, quando chegaram ao alto da colina e começaram a descer pelo outro lado, o porto desapareceu, e embora ainda estivessem na cidade, estavam completamente perdidas. Outras carroças passavam ruidosamente. Todo mundo conhecia o homem do armazém.

— Boa noite, Fred.

— Boa noite, ô — gritava ele.

Kezia gostava muito de ouvi-lo. Sempre que uma carroça aparecia ao longe, ela erguia os olhos e esperava pela voz dele. Era um velho amigo; ela e a avó tinham ido muitas vezes à sua casa comprar uvas. O homem do armazém morava sozinho numa casinha que tinha, contra uma parede, uma estufa construída por ele mesmo. Toda a estufa era atravessada e arqueada por uma bela videira. Ele tirava dela a cesta marrom, forrava-a com três folhas grandes, e então procurava no cinto uma faquinha de cabo de chifre, estendia o braço para cima e destacava um grande cacho azul, pousando-o sobre as folhas com tanta ternura que Kezia prendia a respiração para observar. Era um homem muito grande. Usava calças de veludo marrom, e tinha uma longa barba marrom. Mas nunca usava colarinho, nem mesmo no domingo. A nuca dele era queimada de um vermelho vivo.

— Onde estamos agora? — A cada poucos minutos, uma das crianças lhe fazia a pergunta.

— Ora, esta é Hawk Street, ou Charlotte Crescent.

— Claro que é — Lottie empinou as orelhas ao ouvir o último nome; sempre sentia que Charlotte Crescent lhe pertencia especialmente. Pouquíssimas pessoas tinham ruas com o mesmo nome que elas.

— Olhe, Kezia, ali está Charlotte Crescent. Não parece diferente?

Agora tudo o que era familiar ficara para trás. Agora a grande carroça chacoalhava por terras desconhecidas, por estradas novas com barrancos altos de barro de cada lado, subindo colinas íngremes, íngremes, descendo em vales cheios de mato, atravessando rios largos e rasos. Cada vez mais longe. A cabeça de Lottie balançou; ela pendeu, escorregou meio para o colo de Kezia e ali ficou. Mas Kezia não conseguia abrir os olhos o bastante. O vento soprava e ela estremecia; mas suas faces e orelhas ardiam.

— As estrelas algum dia são sopradas por aí? — perguntou.

— Não que dê para notar — disse o homem do armazém.

— Nós temos um titio e uma titia morando perto da nossa casa nova — disse Kezia. — Eles têm dois filhos, o mais velho se chama Pip, e o nome do mais novo é Rags. Ele tem um carneiro. Precisa dar comida para ele com um bule de nemalte e a ponta de uma luva no bico. Ele vai nos mostrar. Qual é a diferença entre um carneiro e uma ovelha?

— Bem, um carneiro tem chifres e corre atrás da gente.

Kezia considerou.

— Não quero ver terrivelmente — disse ela. — Detesto animais que correm, como cachorros e papagaios. Muitas vezes sonho que animais correm para cima de mim — até camelos — e enquanto correm, suas cabeças incham e-normes.

O homem do armazém não disse nada. Kezia ergueu os olhos para ele, apertando-os. Depois estendeu um dedo e acariciou a manga dele; era peluda ao toque.

— Estamos perto? — perguntou.

— Não muito longe agora — respondeu o homem do armazém. — Ficando cansada?

— Bem, não estou nem um átomo sonolenta — disse Kezia. — Mas meus olhos ficam se enrolando de um jeito tão engraçado.

Ela deu um longo suspiro, e para impedir que os olhos se enrolassem, fechou-os... Quando os abriu outra vez, iam tinindo por uma alameda que cortava o jardim como uma chicotada, contornando de repente uma ilha de verde, e atrás da ilha, mas fora de vista até que se chegasse a ela, estava a casa. Era comprida e baixa, com uma varanda de colunas e sacada em volta de tudo. A massa macia e branca dela jazia estendida sobre o jardim verde como uma fera adormecida. E agora uma janela, depois outra, saltava para dentro da luz. Alguém andava pelos cômodos vazios carregando uma lâmpada. De uma janela no térreo tremeluzia a luz de uma lareira. Uma estranha e bela excitação parecia correr da casa em ondulações trêmulas.

— Onde estamos? — disse Lottie, sentando-se. Seu boné de marinheiro estava todo para um lado, e em sua face havia a marca de um botão de âncora contra o qual estivera pressionada ao dormir. Com ternura, o homem do armazém a ergueu, endireitou seu boné e puxou para baixo suas roupas amarrotadas. Ela ficou piscando no degrau mais baixo da varanda, observando Kezia, que pareceu vir voando pelo ar até cair em pé.

— Uuh! — gritou Kezia, lançando os braços para o alto.

A avó saiu do vestíbulo escuro carregando uma pequena lâmpada. Estava sorrindo.

— Encontraram o caminho no escuro? — perguntou.

— Perfeitamente bem.

Mas Lottie cambaleou no degrau mais baixo da varanda como um passarinho caído do ninho. Se ficasse parada por um momento, adormecia; se se encostasse a qualquer coisa, seus olhos fechavam. Não conseguia dar mais um passo.

— Kezia — disse a avó —, posso confiar em você para carregar a lâmpada?

— Sim, minha vovó.

A velha se inclinou e entregou a coisa luminosa e respirante em suas mãos; depois apanhou Lottie, bêbada de sono.

— Por aqui.

Atravessaram um vestíbulo quadrado cheio de fardos e centenas de papagaios (mas os papagaios eram apenas do papel de parede), desceram um corredor estreito onde os papagaios persistiam em voar por Kezia e sua lâmpada.

— Fiquem bem quietas — advertiu a avó, baixando Lottie ao chão e abrindo a porta da sala de jantar. — A pobre mamãezinha está com uma dor de cabeça tão forte.

Linda Burnell, numa longa cadeira de vime, com os pés sobre um banquinho e uma manta xadrez sobre os joelhos, jazia diante de uma lareira crepitante. Burnell e Beryl estavam sentados à mesa no centro da sala, comendo uma travessa de costeletas fritas e bebendo chá de um bule marrom de porcelana. Por trás da cadeira da mãe, Isabel se inclinava. Tinha um pente entre os dedos e, de modo suave e absorto, penteava os cachos da testa da mãe. Fora da poça de luz da lâmpada e do fogo, a sala se estendia escura e nua até as janelas ocas.

— São as crianças?

Mas Linda não se importava realmente; nem sequer abriu os olhos para ver.

— Pouse a lâmpada, Kezia — disse tia Beryl —, ou teremos a casa pegando fogo antes de sairmos das caixas. Mais chá, Stanley?

— Bem, você poderia me dar só cinco oitavos de xícara — disse Burnell, inclinando-se por cima da mesa. — Pegue outra costeleta, Beryl. Carne de primeira, não é? Nem magra demais nem gorda demais. — Virou-se para a esposa. — Tem certeza de que não vai mudar de ideia, Linda querida?

— Só de pensar já basta. — Ela ergueu uma sobrancelha à sua maneira. A avó trouxe pão com leite para as crianças, e elas se sentaram à mesa, coradas e sonolentas por trás do vapor ondulante.

— Eu comi carne no jantar — disse Isabel, ainda penteando suavemente.

— Comi uma costeleta inteira no jantar, osso e tudo, e molho Worcester. Não comi, papai?

— Oh, não se gabe, Isabel — disse tia Beryl.

Isabel pareceu assombrada.

— Eu não estava me gabando, estava, Mamãe? Nunca pensei em me gabar. Achei que elas gostariam de saber. Só queria contar.

— Muito bem. Já basta — disse Burnell.

Empurrou o prato para trás, tirou um palito do bolso e começou a limpar seus dentes fortes e brancos.

— Veja se Fred come alguma coisa na cozinha antes de ir, sim, mãe?

— Sim, Stanley. — A velha se virou para sair.

— Oh, espere meio segundinho. Suponho que ninguém saiba onde foram parar meus chinelos? Imagino que não vou conseguir chegar até eles por um mês ou dois — não é?

— Sim — veio de Linda. — No alto da sacola de lona marcada “necessidades urgentes”.

— Bem, você poderia buscá-los para mim, mãe?

— Sim, Stanley.

Burnell se levantou, espreguiçou-se e, indo até a lareira, virou-lhe as costas e ergueu as abas do casaco.

— Por Deus, estamos numa bela embrulhada. Hein, Beryl?

Beryl, sorvendo chá, os cotovelos sobre a mesa, sorriu para ele por cima da xícara. Usava um avental rosa desconhecido; as mangas da blusa estavam arregaçadas até os ombros, mostrando seus belos braços sardentos, e ela deixara os cabelos caírem pelas costas numa longa trança.

— Quanto tempo você acha que vai levar para pôr tudo em ordem — umas duas semanas — hein? — provocou ele.

— Céus, não — disse Beryl, com leveza. — O pior já passou. A criada e eu simplesmente nos matamos de trabalhar o dia inteiro, e desde que mamãe chegou ela também trabalhou como um cavalo. Não nos sentamos um instante. Tivemos um dia daqueles.

Stanley farejou uma censura.

— Bem, imagino que você não esperasse que eu largasse correndo o escritório para vir pregar tapetes — esperava?

— Claro que não — riu Beryl.

Pôs a xícara na mesa e saiu correndo da sala de jantar.

— Que diabo ela espera que a gente faça? — perguntou Stanley. — Que ela se sente e se abane com um leque de folha de palmeira enquanto eu contrato uma quadrilha de profissionais para fazer o serviço? Por Deus, se ela não consegue de vez em quando mexer uma palha sem alardear em troca de...

E se toldou, quando as costeletas começaram a lutar contra o chá em seu estômago sensível. Mas Linda ergueu uma mão e o puxou para baixo, para o lado de sua longa cadeira.

— Este é um momento miserável para você, meu velho — disse ela. Suas faces estavam muito brancas, mas ela sorriu e enrolou os dedos na grande mão vermelha que segurava.

Burnell se aquietou. De repente começou a assobiar “Pura como um lírio, alegre e livre” — um bom sinal.

— Acha que vai gostar daqui? — perguntou.

— Não quero contar, mas acho que devo, mamãe — disse Isabel. — Kezia está bebendo chá na xícara de tia Beryl.

4 A avó as levou para a cama. Foi à frente com uma vela; a escada ressoou com os pés delas subindo. Isabel e Lottie ficaram num quarto só para elas; Kezia se enroscou na cama macia da avó.

— Não vai ter lençol, minha vovó?

— Não, esta noite não.

— Pinica — disse Kezia —, mas é como índios.

Ela puxou a avó para baixo e a beijou debaixo do queixo.

— Venha logo para a cama e seja meu bravo índio.

— Que tolinha você é — disse a velha, ajeitando-a nas cobertas do modo como ela gostava de ser ajeitada.

— Você não vai deixar uma vela para mim?

— Não. Shh. Durma.

— Bem, então posso ficar com a porta aberta?

Ela se enrolou até virar uma bola, mas não dormiu. De toda a casa vinham sons de passos. A própria casa rangia e estalava. Vozes altas sussurrantes vinham lá de baixo. Uma vez ela ouviu a risada alta e precipitada de tia Beryl, e uma vez ouviu um alto trombeteio de Burnell assoando o nariz. Do lado de fora da janela, centenas de gatos pretos de olhos amarelos estavam sentados no céu, observando-a — mas ela não tinha medo. Lottie dizia a Isabel:

— Vou rezar minhas orações na cama hoje à noite.

— Não pode, Lottie. — Isabel foi muito firme. — Deus só desculpa você rezar as orações na cama quando está com febre.

Então Lottie cedeu:

Doce Jesus, manso e suave,

Olhai pra uma pequena criancinha.

Piedade de mim, simples Lizzie,

Deixai-me ir até Ti.

E então elas se deitaram de costas uma para a outra, seus pequenos traseiros apenas se tocando, e adormeceram.

De pé numa poça de luar, Beryl Fairfield se despiu. Estava cansada, mas fingia estar mais cansada do que realmente estava — deixando as roupas caírem, afastando para trás, com um gesto lânguido, seus cabelos quentes e pesados.

— Oh, como estou cansada — muito cansada.

Fechou os olhos por um instante, mas seus lábios sorriam. A respiração subia e descia em seu peito como duas asas que se abanam. A janela estava escancarada; fazia calor, e em algum lugar lá fora, no jardim, um rapaz, moreno e esguio, de olhos zombeteiros, caminhava na ponta dos pés entre os arbustos, colhia as flores num grande buquê, deslizava sob a janela dela e o erguia para ela. Ela se via inclinando-se para a frente. Ele enfiava a cabeça entre as flores vivas e cerosas, astuto e risonho.

— Não, não — disse Beryl.

Afastou-se da janela e deixou a camisola cair sobre a cabeça.

— Como Stanley às vezes é terrivelmente irracional — pensou, abotoando-se.

E então, ao se deitar, veio o velho pensamento, o pensamento cruel — ah, se ao menos ela tivesse dinheiro seu.

Um jovem, imensamente rico, acaba de chegar da Inglaterra. Ele a conhece por puro acaso... O novo governador é solteiro... Há um baile na Casa do Governo... Quem é aquela criatura requintada em cetim eau de nil? Beryl Fairfield...

— O que me agrada — disse Stanley, encostado à lateral da cama e se coçando bem nos ombros e nas costas antes de entrar — é que consegui o lugar uma pechincha, Linda. Falei sobre isso hoje com o pequeno Wally Bell, e ele disse que simplesmente não conseguia entender por que aceitaram minha oferta. Veja, as terras por aqui fatalmente vão se valorizar cada vez mais... daqui a uns dez anos... é claro que teremos de ir bem devagar e cortar as despesas o mais rente possível. Não está dormindo — está?

— Não, querido, ouvi cada palavra — disse Linda.

Ele saltou para a cama, inclinou-se sobre ela e apagou a vela.

— Boa noite, Mr. Homem de Negócios — disse ela, e segurou-lhe a cabeça pelas orelhas e lhe deu um beijo rápido. Sua voz débil e distante parecia vir de um poço profundo.

— Boa noite, querida.

Ele deslizou o braço por baixo do pescoço dela e a puxou para si.

— Sim, aperte-me — disse a voz débil do fundo do poço.

Pat, o faz-tudo, estava estirado em seu quartinho atrás da cozinha. Seu casaco e suas calças de tecido esponjoso pendiam do gancho da porta como um enforcado. Da borda do cobertor saíam seus dedos tortos dos pés, e no chão ao lado havia uma gaiola vazia de passarinho, de vime. Parecia uma ilustração cômica.

— Honc, honc — veio da criada.

Ela tinha adenoides.

A última a ir para a cama foi a avó.

— O quê. Ainda não dormiu?

— Não, estou esperando por você — disse Kezia.

A velha suspirou e se deitou ao lado dela. Kezia enfiou a cabeça debaixo do braço da avó e soltou um pequeno guincho. Mas a velha apenas a apertou de leve, suspirou outra vez, tirou os dentes e os pôs num copo d’água ao lado dela, no chão.

No jardim, algumas corujinhas empoleiradas nos galhos de uma árvore-de-renda chamavam: “Mais porco; mais porco.” E, longe, no mato, soou um falatório áspero e rápido: “Há-há-há... Há-há-há.”

5 A aurora veio aguda e fria, com nuvens vermelhas num céu verde pálido e gotas de água em cada folha e lâmina de relva. Uma brisa soprou pelo jardim, deixando cair orvalho e pétalas, estremeceu sobre os pastos encharcados e se perdeu no mato sombrio. No céu, algumas estrelinhas flutuaram por um instante e então desapareceram — dissolveram-se como bolhas. E nítido de ouvir na quietude matinal era o som do riacho no pasto, correndo sobre as pedras marrons, correndo para dentro e para fora das depressões arenosas, escondendo-se sob moitas de arbustos escuros de frutinhas, derramando-se num pântano de flores aquáticas amarelas e agriões.

E então, ao primeiro raio de sol, começaram os pássaros. Pássaros grandes e atrevidos, estorninhos e minas, assobiavam nos gramados; os passarinhos, pintassilgos e pintarroxos e leques, saltavam de galho em galho. Um belo martim-pescador pousou na cerca do pasto, alisando sua rica beleza, e um tui cantou suas três notas, riu e as cantou de novo.

— Como os pássaros estão altos — disse Linda em seu sonho.

Ela caminhava com o pai por um pasto verde salpicado de margaridas. De repente ele se inclinou, separou as gramíneas e lhe mostrou uma bolinha de penugem bem junto aos pés.

— Oh, Papai, que amor.

Ela fez uma concha com as mãos, apanhou o passarinho minúsculo e lhe acariciou a cabeça com o dedo. Era bastante manso. Mas aconteceu uma coisa engraçada. Enquanto ela o acariciava, ele começou a inchar, arrepiou-se e empapuçou, cresceu cada vez mais, e seus olhos redondos pareciam sorrir para ela com conhecimento. Agora seus braços mal eram largos o bastante para segurá-lo, e ela o deixou cair no avental. Ele se transformara num bebê com uma grande cabeça nua e uma boca de pássaro escancarada, abrindo e fechando. Seu pai rompeu numa gargalhada ruidosa e estalante, e ela acordou para ver Burnell de pé junto às janelas, puxando a persiana veneziana, que chocalhava, até o alto.

— Olá — disse ele. — Não acordei você, acordei? Não há nada de muito errado com o tempo esta manhã.

Estava enormemente satisfeito. Um tempo daqueles punha um selo final em seu negócio. Sentia, de algum modo, que comprara também o belo dia — que ele fora incluído quase de graça com a casa e o terreno. Disparou para o banho, e Linda se virou e se ergueu sobre um cotovelo para ver o quarto à luz do dia. Todos os móveis haviam encontrado lugar — toda a velha parafernália —, como ela dizia. Até as fotografias estavam sobre a lareira, e os frascos de remédio na prateleira acima do lavatório. Suas roupas jaziam atravessadas numa cadeira — suas roupas de sair, uma capa roxa e um chapéu redondo com uma pluma. Olhando para elas, desejou estar partindo também daquela casa. E viu a si mesma indo embora de charrete, afastando-se de todos e nem sequer acenando.

Stanley voltou, cingido por uma toalha, resplandecente, batendo nas coxas. Atirou a toalha molhada em cima do chapéu e da capa dela e, ficando firme no centro exato de um quadrado de sol, começou seus exercícios. Respirar fundo, curvar-se e agachar como uma rã e esticar as pernas. Estava tão encantado com o próprio corpo firme e obediente que bateu no peito e soltou um alto “Ah”. Mas esse vigor espantoso parecia colocá-lo a mundos de distância de Linda. Ela jazia na cama branca e revolta e o observava como se estivesse nas nuvens.

— Oh, droga! Oh, maldição! — disse Stanley, que se enfiara de cabeça numa camisa branca e engomada apenas para descobrir que algum idiota prendera o colarinho, e ele ficara preso. Avançou até Linda agitando os braços.

— Você parece um peru grande e gordo — disse ela.

— Gordo. Essa é boa — disse Stanley. — Não tenho um centímetro quadrado de gordura em mim. Sinta isto.

— É pedra — é ferro — zombou ela.

— Você ficaria surpresa — disse Stanley, como se aquilo fosse intensamente interessante — com o número de sujeitos no clube que têm barriga. Sujeitos jovens, sabe — homens da minha idade.

Começou a repartir os cabelos espessos e ruivos, seus olhos azuis fixos e redondos no espelho, os joelhos dobrados, porque a penteadeira era sempre — maldição — um pouco baixa demais para ele.

— O pequeno Wally Bell, por exemplo — e se endireitou, desenhando sobre si uma enorme curva com a escova de cabelo. — Devo dizer que tenho verdadeiro horror...

— Meu querido, não se preocupe. Você nunca será gordo. É enérgico demais.

— Sim, sim, suponho que seja verdade — disse ele, consolado pela centésima vez, e, tirando do bolso um canivete de madrepérola, começou a aparar as unhas.

— Café da manhã, Stanley.

Beryl estava à porta.

— Oh, Linda, mamãe disse que você ainda não deve se levantar.

Enfiou a cabeça pela porta. Tinha um grande pedaço de seringa preso nos cabelos.

— Tudo o que deixamos na varanda ontem à noite está simplesmente ensopado esta manhã. Você devia ver a pobre mamãe querida torcendo as mesas e as cadeiras. Seja como for, não houve dano... — isto com o mais tênue olhar para Stanley.

— Você disse a Pat para trazer a charrete a tempo? São boas seis milhas e meia até o escritório.

“Posso imaginar como será essa saída cedo para o escritório”, pensou Linda. “Será de altíssima pressão, sem dúvida.”

— Pat, Pat.

Ela ouviu a criada chamando. Mas Pat evidentemente era difícil de encontrar; a voz tola saiu berrando béé-béé pelo jardim.

Linda não repousou de novo até a batida final da porta da frente lhe dizer que Stanley tinha realmente ido embora.

Mais tarde ouviu as crianças brincando no jardim. A vozinha sólida e compacta de Lottie gritava:

— Ke—zia. Isa—bel.

Ela estava sempre se perdendo ou perdendo as pessoas, apenas para encontrá-las de novo, com grande surpresa, atrás da próxima árvore ou da próxima esquina.

— Oh, aí estão vocês, afinal.

Tinham sido postas para fora depois do café e mandadas não voltar para casa até serem chamadas. Isabel empurrava uma carga arrumada de bonecas afetadas no carrinho, e Lottie, como enorme privilégio, recebeu permissão para caminhar ao lado dela segurando a sombrinha da boneca sobre o rosto da de cera.

— Aonde você vai, Kezia? — perguntou Isabel, que ansiava por encontrar alguma tarefa leve e servil que Kezia pudesse executar e assim ser enlaçada sob seu governo.

— Oh, só por aí — disse Kezia...

Então ela não as ouviu mais. Que clarão havia no quarto. Ela odiava persianas puxadas até o alto a qualquer hora, mas de manhã era intolerável. Virou-se para a parede e, ociosamente, com um dedo, traçou uma papoula no papel de parede, com uma folha, um caule e um botão gordo, quase rebentando. Na quietude, sob seu dedo que traçava, a papoula pareceu ganhar vida. Ela podia sentir as pétalas pegajosas e sedosas, o caule, peludo como a casca de uma groselha, a folha áspera e o botão apertado e lustroso. As coisas tinham o hábito de ganhar vida assim. Não apenas coisas grandes e substanciais como móveis, mas cortinas e os desenhos dos tecidos e as franjas de colchas e almofadas. Quantas vezes ela vira a franja de borlas de sua colcha transformar-se numa estranha procissão de dançarinos acompanhados de sacerdotes... Pois havia algumas borlas que não dançavam de modo algum, mas caminhavam solenes, curvadas para a frente como se rezassem ou cantassem. Quantas vezes os frascos de remédio haviam se transformado numa fileira de homenzinhos de cartolas marrons; e a jarra do lavatório tinha um jeito de se sentar na bacia como uma ave gorda num ninho redondo.

“Sonhei com pássaros ontem à noite”, pensou Linda. O que era? Esquecera. Mas a parte mais estranha daquele ganhar vida das coisas era o que elas faziam. Escutavam, pareciam inchar com algum misterioso conteúdo importante, e, quando estavam cheias, ela sentia que sorriam. Mas não era para ela, apenas, aquele sorriso dissimulado e secreto; eram membros de uma sociedade secreta e sorriam entre si. Às vezes, quando adormecia durante o dia, acordava e não conseguia levantar um dedo, nem sequer mover os olhos para a esquerda ou para a direita, porque ELAS estavam ali; às vezes, quando saía de um quarto e o deixava vazio, ela sabia, ao fechar a porta com um clique, que ELAS o enchiam. E havia momentos, à noite, quando ela estava no andar de cima, talvez, e todos os outros lá embaixo, em que mal conseguia escapar delas. Então ela não podia se apressar, não podia cantarolar uma melodia; se tentava dizer com o maior descuido — “Maldito dedal velho” —, ELAS não se deixavam enganar. ELAS sabiam como ela estava assustada; ELAS viam como ela desviava a cabeça ao passar pelo espelho. O que Linda sempre sentia era que ELAS queriam alguma coisa dela, e sabia que, se se entregasse e ficasse quieta, mais que quieta, silenciosa, imóvel, alguma coisa realmente aconteceria.

“Está muito quieto agora”, pensou. Abriu muito os olhos e ouviu o silêncio fiando sua teia macia e infinita. Como respirava de leve; quase não precisava respirar.

Sim, tudo ganhara vida, até a menor, a mais minúscula partícula, e ela não sentia a cama, flutuava, suspensa no ar. Apenas parecia escutar com seus olhos atentos, muito abertos, esperando alguém que simplesmente não vinha, vigiando para que algo acontecesse, algo que simplesmente não acontecia.

6 Na cozinha, à longa mesa de pinho sob as duas janelas, a velha Mrs. Fairfield lavava a louça do café da manhã. A janela da cozinha dava para um grande trecho de relva que descia até a horta e os canteiros de ruibarbo. De um lado, o trecho de relva era margeado pela copa e pela lavanderia, e sobre esse anexo caiado crescia uma videira nodosa. Ela notara, no dia anterior, que alguns diminutos tentáculos em espiral tinham atravessado certas frestas do teto da copa, e todas as janelas do anexo tinham uma grossa franja de verde amarrotado.

— Gosto muito de uma videira — declarou Mrs. Fairfield —, mas não creio que as uvas amadureçam aqui. É preciso sol australiano.

E lembrou-se de Beryl, quando bebê, colhendo algumas uvas brancas da videira na varanda dos fundos da casa delas na Tasmânia, e de como fora picada na perna por uma enorme formiga vermelha. Viu Beryl num vestidinho xadrez, com fitas vermelhas amarradas nos ombros, gritando de modo tão terrível que metade da rua entrou correndo. E como a perna da criança inchara!

— T-t-t-t! — Mrs. Fairfield prendeu a respiração ao lembrar. — Pobre criança, que coisa assustadora foi aquilo.

E apertou os lábios e foi até o fogão buscar mais água quente. A água espumou na grande bacia ensaboada, com bolhas cor-de-rosa e azuis no alto da espuma. Os braços da velha Mrs. Fairfield estavam nus até o cotovelo e tingidos de um rosa vivo. Ela usava um vestido de foulard cinza estampado com grandes amores-perfeitos roxos, um avental branco de linho e uma touca alta, em forma de molde de gelatina, feita de musselina branca. Na garganta havia uma meia-lua de prata com cinco corujinhas pousadas nela, e ao redor do pescoço usava uma corrente de relógio feita de contas pretas.

Era difícil acreditar que ela não estivesse naquela cozinha havia anos; fazia tão profundamente parte dela. Guardava as louças com um toque seguro, preciso, movendo-se ampla e sem pressa do fogão ao aparador, olhando para a copa e a despensa como se não houvesse um canto desconhecido. Quando terminou, tudo na cozinha se tornara parte de uma série de desenhos. Ficou de pé no meio do cômodo, enxugando as mãos num pano xadrez; um sorriso brilhava em seus lábios; achou que aquilo parecia muito bonito, muito satisfatório.

— Mãe! Mãe! Você está aí? — chamou Beryl.

— Sim, querida. Precisa de mim?

— Não. Estou indo.

E Beryl entrou correndo, muito corada, arrastando consigo dois grandes quadros.

— Mãe, o que posso fazer com estas horríveis pinturas chinesas medonhas que Chung Wah deu a Stanley quando faliu? É absurdo dizer que são valiosas, porque ficaram penduradas na frutaria de Chung Wah por meses antes disso. Não consigo entender por que Stanley quer guardá-las. Tenho certeza de que ele as acha tão medonhas quanto nós, mas é por causa das molduras — disse com rancor. — Suponho que pense que as molduras possam render alguma coisa um dia.

— Por que não as pendura no corredor? — sugeriu Mrs. Fairfield. — Ali não seriam muito vistas.

— Não posso. Não há espaço. Já pendurei todas as fotografias do escritório dele antes e depois da construção, e as fotos autografadas de seus amigos de negócios, e aquela ampliação horrível de Isabel deitada no tapete, de camiseta.

Seu olhar irritado varreu a cozinha plácida.

— Já sei o que vou fazer. Vou pendurá-las aqui. Direi a Stanley que pegaram um pouco de umidade na mudança, então as pus aqui por enquanto.

Arrastou uma cadeira para a frente, pulou sobre ela, tirou um martelo e um prego grande do bolso do avental e pôs-se a bater.

— Pronto! Já basta! Passe-me o quadro, mãe.

— Um momento, criança.

A mãe limpava a moldura de ébano entalhado.

— Oh, mãe, de verdade, não precisa tirar o pó delas. Levaria anos para limpar todos esses buraquinhos.

E franziu a testa para o alto da cabeça da mãe e mordeu o lábio de impaciência. O modo deliberado da mãe fazer as coisas era simplesmente enlouquecedor. Era a velhice, supôs ela, altiva.

Por fim, os dois quadros ficaram pendurados lado a lado. Ela saltou da cadeira, guardando o martelinho.

— Não ficam tão mal aí, ficam? — disse. — E, de todo modo, ninguém precisa ficar olhando para eles, exceto Pat e a criada. Tenho uma teia de aranha no rosto, mãe? Estive fuçando naquele armário debaixo da escada, e agora alguma coisa fica fazendo cócegas no meu nariz.

Mas antes que Mrs. Fairfield tivesse tempo de olhar, Beryl já se virara. Alguém bateu na janela: era Linda, assentindo e sorrindo. Ouviram o trinco da porta da copa se levantar, e ela entrou. Não usava chapéu; os cabelos se erguiam na cabeça em anéis encaracolados, e ela estava envolta num velho xale de cashmere.

— Estou com tanta fome — disse Linda. — Onde posso arranjar alguma coisa para comer, mãe? É a primeira vez que entro na cozinha. Está escrito “mãe” por toda parte; tudo vem em pares.

— Vou fazer um chá para você — disse Mrs. Fairfield, estendendo um guardanapo limpo sobre um canto da mesa —, e Beryl pode tomar uma xícara com você.

— Beryl, você quer metade do meu pão de gengibre? — Linda agitou a faca para ela. — Beryl, gosta da casa agora que estamos aqui?

— Oh, sim, gosto imensamente da casa, e o jardim é lindo, mas para mim parece tão longe de tudo. Não consigo imaginar as pessoas vindo da cidade nos ver naquele ônibus horroroso e sacolejante, e tenho certeza de que não há ninguém por aqui para vir fazer visitas. É claro que isso não tem importância para você, porque...

— Mas há a charrete — disse Linda. — Pat pode levá-la à cidade quando você quiser.

Aquilo era um consolo, certamente, mas havia algo no fundo da mente de Beryl, algo que ela nem mesmo punha em palavras para si.

— Oh, bem, de todo modo, isso não vai nos matar — disse secamente, pousando a xícara vazia, levantando-se e se espreguiçando. — Vou pendurar cortinas.

E saiu correndo, cantando:

Quantos milhares de pássaros vejo

Cantando alto em cada árvore...

“...pássaros vejo / Cantando alto em cada árvore...” Mas, ao chegar à sala de jantar, parou de cantar; seu rosto mudou, tornou-se sombrio e carrancudo.

— Tanto faz apodrecer aqui como em qualquer outro lugar — murmurou com ferocidade, enfiando os duros alfinetes de segurança de latão nas cortinas de sarja vermelha.

As duas que ficaram na cozinha permaneceram quietas por um instante. Linda apoiou a face nos dedos e observou a mãe. Achou que a mãe estava maravilhosamente bela, de costas para a janela cheia de folhas. Havia algo reconfortante na visão dela, algo de que Linda sentia que jamais poderia prescindir. Precisava do doce cheiro de sua carne, e do toque macio de suas faces, e de seus braços e ombros ainda mais macios. Amava o modo como seus cabelos se encaracolavam, prateados na testa, mais claros na nuca, e ainda castanho-vivos no grande coque sob a touca de musselina. Requintadas eram as mãos de sua mãe, e os dois anéis que usava pareciam se derreter na pele cremosa. E ela era sempre tão fresca, tão deliciosa. A velha não suportava nada senão linho junto ao corpo, e se banhava em água fria no inverno e no verão.

— Não há nada para eu fazer? — perguntou Linda.

— Não, querida. Gostaria que você fosse ao jardim e ficasse de olho nas suas crianças; mas sei que você não fará isso.

— Claro que farei, mas você sabe que Isabel é muito mais adulta do que todas nós.

— Sim, mas Kezia não é — disse Mrs. Fairfield.

— Oh, Kezia já foi lançada ao ar por um touro há horas — disse Linda, enrolando-se outra vez no xale.

Mas não, Kezia vira um touro por um buraco num nó da madeira da cerca que separava o gramado de tênis do pasto. Mas não gostara terrivelmente do touro, então se afastara de volta pelo pomar, subindo a encosta gramada, ao longo do caminho junto à árvore-de-renda e assim para dentro do jardim espalhado e emaranhado. Não acreditava que algum dia deixaria de se perder naquele jardim. Duas vezes encontrara o caminho de volta até os grandes portões de ferro por onde tinham passado na noite anterior, e então se voltara para subir a alameda que levava à casa, mas havia tantos pequenos caminhos de cada lado. De um lado, todos levavam a um emaranhado de árvores altas e escuras e arbustos estranhos, de folhas achatadas e aveludadas e flores creme e plumosas que zumbiam de moscas quando se sacudiam — esse era o lado assustador, e nem era jardim. Os pequenos caminhos ali eram úmidos e argilosos, com raízes de árvores arqueadas por cima deles como as marcas de pés de grandes aves.

Mas do outro lado da alameda havia uma alta bordadura de buxo, e os caminhos tinham beiras de buxo, e todos levavam a um emaranhado cada vez mais profundo de flores. As camélias estavam floridas, brancas, carmesins, cor-de-rosa e brancas listradas, com folhas faiscantes. Não se podia ver uma folha nos arbustos de lilás por causa dos cachos brancos. As rosas estavam em flor — rosas de casa de botão para cavalheiros, pequeninas brancas, mas cheias demais de insetos para segurar sob o nariz de alguém, rosas mensais cor-de-rosa com um anel de pétalas caídas em torno dos arbustos, repolhudas em caules grossos, rosas-musgo sempre em botão, belezas lisas e rosadas abrindo-se em cacho sobre cacho, vermelhas tão escuras que pareciam ficar pretas ao cair, e certo tipo requintado, creme, de haste fina e vermelha e folhas escarlates brilhantes.

Havia tufos de campainhas-de-fada, e todo tipo de gerânios, e pequenas árvores de verbena e arbustos de lavanda azulada, e um canteiro de pelargônios com olhos de veludo e folhas como asas de mariposa. Havia um canteiro só de resedá e outro só de amores-perfeitos — bordas de margaridas dobradas e simples, e todo tipo de plantinhas tufosas que ela nunca vira antes.

As tochas-vermelhas eram mais altas do que ela; os girassóis japoneses cresciam numa selvinha minúscula. Ela se sentou numa das bordas de buxo. Quando se apertava bem no começo, dava um belo assento. Mas que poeira havia por dentro! Kezia se inclinou para olhar, espirrou e esfregou o nariz.

E então se viu no alto da encosta relvosa e ondulante que descia até o pomar... Olhou a encosta por um momento; depois se deitou de costas, soltou um guincho e rolou, rolou pela relva espessa e florida do pomar. Enquanto ficava deitada esperando que as coisas parassem de girar, decidiu subir até a casa e pedir à criada uma caixa de fósforos vazia. Queria fazer uma surpresa para a avó... Primeiro poria dentro uma folha com uma grande violeta sobre ela, depois poria um cravinho branco muito pequeno, talvez, de cada lado da violeta, e então salpicaria um pouco de lavanda por cima, mas sem cobrir a cabeça delas.

Ela muitas vezes fazia essas surpresas para a avó, e eram sempre muitíssimo bem-sucedidas.

— Quer um fósforo, minha vovó?

— Ora, sim, criança, creio que um fósforo é exatamente o que estou procurando.

A avó abria devagar a caixa e encontrava o quadro lá dentro.

— Santo Deus, criança! Como você me assusta!

“Posso fazer uma para ela todos os dias aqui”, pensou, subindo pela relva com seus sapatos escorregadios.

Mas, no caminho de volta para a casa, chegou àquela ilha que ficava no meio da alameda, dividindo a entrada em dois braços que se encontravam diante da casa. A ilha era feita de relva, elevada em banco. Nada crescia no alto, exceto uma enorme planta de folhas grossas, cinza-esverdeadas e espinhosas, e do meio dela se erguia um caule alto e robusto. Algumas folhas da planta eram tão velhas que já não se curvavam no ar; voltavam para trás, estavam fendidas e quebradas; algumas jaziam achatadas e murchas no chão.

O que poderia ser aquilo? Ela nunca vira nada parecido. Ficou parada e encarou. E então viu a mãe descendo pelo caminho.

— Mãe, o que é isso? — perguntou Kezia.

Linda ergueu os olhos para a planta gorda e inchada, com suas folhas cruéis e o caule carnudo. Bem acima delas, como que apaziguada no ar, e no entanto presa com tanta firmeza à terra de onde crescia, poderia ter garras em vez de raízes. As folhas curvas pareciam esconder alguma coisa; o caule cego cortava o ar como se nenhum vento jamais pudesse sacudi-lo.

— Isso é um aloé, Kezia — disse a mãe.

— Ele dá flores alguma vez?

— Sim, Kezia — e Linda sorriu para ela, e semicerrrou os olhos. — Uma vez a cada cem anos.

7 A caminho de casa, vindo do escritório, Stanley Burnell parou a charrete no Bodega, desceu e comprou uma grande garrafa de ostras. Na loja do chinês ao lado, comprou um abacaxi no ponto perfeito e, notando uma cesta de cerejas pretas frescas, disse a John que lhe pusesse também meio quilo delas. Guardou as ostras e o abacaxi na caixa debaixo do assento da frente, mas conservou as cerejas na mão.

Pat, o faz-tudo, saltou da boléia e tornou a ajeitá-lo sob a manta marrom.

— Levante os pés, Mr. Burnell, enquanto enfio uma dobra por baixo — disse ele.

— Certo! Certo! Excelente! — disse Stanley. — Agora pode ir direto para casa.

Pat tocou a égua cinzenta, e a charrete saltou para a frente.

“Creio que este homem é um sujeito de primeira”, pensou Stanley. Gostava da aparência dele, sentado ali em cima com seu casaco marrom bem cuidado e seu chapéu-coco marrom. Gostava do modo como Pat o aconchegara, e gostava dos olhos dele. Não havia nada de servil nele — e, se havia uma coisa que detestava mais que qualquer outra, era servilismo. E parecia contente com o trabalho — feliz e satisfeito já.

A égua cinzenta ia muito bem; Burnell estava impaciente por sair da cidade. Queria estar em casa. Ah, era esplêndido morar no campo — sair de uma vez daquele buraco de cidade assim que o escritório fechava; e aquele passeio ao ar fresco e morno, sabendo o tempo todo que sua própria casa estava na outra ponta, com seu jardim e seus pastos, suas três vacas de primeira e galinhas e patos suficientes para mantê-los em aves, também era esplêndido.

Quando finalmente deixaram a cidade para trás e saíram rolando pela estrada deserta, o coração dele bateu forte de alegria. Remexeu na sacola e começou a comer as cerejas, três ou quatro de cada vez, atirando os caroços pela lateral da charrete. Eram deliciosas, tão carnudas e frias, sem uma mancha nem uma pisadura.

Olhe aquelas duas, agora — pretas de um lado e brancas do outro — perfeitas! Um parzinho perfeito de gêmeas siamesas. E as enfiou na casa do botão... Por Deus, não se importaria de dar uma mão cheia delas àquele sujeito lá em cima — mas não, melhor não. Melhor esperar até que ele estivesse com ele havia um pouco mais de tempo.

Começou a planejar o que faria com suas tardes de sábado e seus domingos. Não iria ao clube almoçar no sábado. Não, escaparia do escritório assim que possível e pediria que lhe dessem umas fatias de carne fria e meia alface quando chegasse em casa. E então traria alguns rapazes da cidade para jogar tênis à tarde. Não muitos — três no máximo. Beryl também era uma boa jogadora... Esticou o braço direito e o dobrou devagar, sentindo o músculo... Um banho, uma boa esfregada, um charuto na varanda depois do jantar...

No domingo de manhã iriam à igreja — crianças e tudo. Isso lhe lembrou que precisava alugar um banco, ao sol, se possível, e bem na frente, para ficar longe da corrente de ar da porta. Em imaginação, ouviu a si mesmo entoando muito bem: “Quando venceste o _A_gu_i_lhão da Morte, abriste o _Rei_no dos Céus a _to_dos os Crentes.” E viu o cartão bem-arrumado, de bordas de latão, no canto do banco — Mr. Stanley Burnell e família... O resto do dia ficaria à toa com Linda... Agora caminhavam pelo jardim; ela estava em seu braço, e ele lhe explicava longamente o que pretendia fazer no escritório na semana seguinte. Ouviu-a dizendo: “Meu querido, acho isso muito sensato”... Conversar as coisas com Linda era uma ajuda maravilhosa, embora eles fossem propensos a se afastar do ponto.

Ora, com os diabos! Não estavam avançando muito depressa. Pat pusera o freio outra vez. Ugh! Que coisa bruta era aquilo. Ele podia senti-lo na boca do estômago.

Uma espécie de pânico tomava Burnell sempre que se aproximava de casa. Antes de estar bem dentro do portão, gritava para qualquer pessoa à vista:

— Está tudo em ordem?

E então não acreditava até ouvir Linda dizer:

— Olá! Você já voltou?

Esse era o pior de morar no campo — levava uma eternidade dos diabos para voltar... Mas agora não estavam longe. Estavam no alto da última colina; dali em diante era uma descida suave e não mais que meia milha.

Pat arrastou o chicote pelas costas da égua e a encorajou:

— Vamos agora. Vamos agora.

Faltavam alguns minutos para o pôr do sol. Tudo estava imóvel, banhado numa luz viva, metálica, e dos pastos dos dois lados vinha correndo o cheiro leitoso da relva madura. Os portões de ferro estavam abertos. Eles dispararam através deles, subiram a alameda e contornaram a ilha, parando no centro exato da varanda.

— Ela lhe satisfez, Sir? — disse Pat, descendo da boléia e sorrindo para o patrão.

— Muito bem, Pat — disse Stanley.

Linda saiu pela porta de vidro; sua voz soou na quietude sombreada.

— Olá! Você já voltou?

Ao som dela, o coração dele bateu tão forte que mal pôde se impedir de subir correndo os degraus e agarrá-la nos braços.

— Sim, já voltei. Está tudo em ordem?

Pat começou a conduzir a charrete em volta, até o portão lateral que dava para o pátio.

— Aqui, só meio instante — disse Burnell. — Passe-me esses dois pacotes.

E disse a Linda:

— Trouxe para você uma garrafa de ostras e um abacaxi — como se lhe tivesse trazido toda a colheita da terra.

Entraram no vestíbulo; Linda levava as ostras numa mão e o abacaxi na outra. Burnell fechou a porta de vidro, atirou o chapéu ao chão, passou os braços em torno dela e a apertou contra si, beijando-lhe o alto da cabeça, as orelhas, os lábios, os olhos.

— Oh, querido! Oh, querido! — disse ela. — Espere um instante. Deixe-me pôr estas coisas bobas no chão.

E pôs a garrafa de ostras e o abacaxi sobre uma pequena cadeira entalhada.

— O que você tem na casa do botão — cerejas?

Ela as tirou e as pendurou na orelha dele.

— Não faça isso, querida. São para você.

Então ela as tirou outra vez da orelha dele.

— Você não se importa se eu as guardar. Estragariam meu apetite para o jantar. Venha ver suas crianças. Estão tomando chá.

A lâmpada estava acesa sobre a mesa do quarto das crianças. Mrs. Fairfield cortava e passava manteiga no pão. As três meninas estavam sentadas à mesa, usando grandes babadores bordados com seus nomes. Limparam a boca quando o pai entrou, prontas para serem beijadas. As janelas estavam abertas; um vaso de flores silvestres ficava sobre a lareira, e a lâmpada fazia uma grande bolha macia de luz no teto.

— Vocês parecem muito aconchegadas, mãe — disse Burnell, piscando para a luz.

Isabel e Lottie estavam sentadas uma de cada lado da mesa, Kezia na ponta — o lugar da cabeceira estava vazio.

“É ali que meu menino deveria se sentar”, pensou Stanley. Apertou o braço em volta do ombro de Linda. Por Deus, ele era um perfeito tolo por se sentir tão feliz assim!

— Estamos, Stanley. Estamos muito aconchegadas — disse Mrs. Fairfield, cortando o pão de Kezia em tiras.

— Gostam mais daqui do que da cidade — hein, crianças? — perguntou Burnell.

— Oh, sim — disseram as três meninas, e Isabel acrescentou como uma reflexão tardia: — Muito obrigada mesmo, papai querido.

— Suba — disse Linda. — Vou trazer seus chinelos.

Mas a escada era estreita demais para que subissem de braço dado. O quarto estava bastante escuro. Ele ouviu o anel dela bater na lareira de mármore enquanto ela procurava os fósforos pelo tato.

— Tenho alguns, querida. Vou acender as velas.

Mas, em vez disso, aproximou-se por trás dela e tornou a passar os braços em torno dela, comprimindo-lhe a cabeça contra seu ombro.

— Estou tão danadamente feliz — disse ele.

— Está? — Ela se virou, pôs as mãos no peito dele e ergueu os olhos.

— Não sei o que me deu — protestou ele.

Agora estava completamente escuro lá fora e caía um orvalho pesado. Quando Linda fechou a janela, o orvalho frio tocou-lhe as pontas dos dedos. Ao longe, um cachorro latiu.

— Acho que vai haver lua — disse ela.

Com aquelas palavras, e com o orvalho frio e úmido nos dedos, sentiu como se a lua tivesse nascido — como se estivesse sendo estranhamente descoberta numa inundação de luz fria. Estremeceu; afastou-se da janela e sentou-se no pufe-caixa ao lado de Stanley.

Na sala de jantar, ao tremular de uma lareira de lenha, Beryl estava sentada num banquinho, tocando violão. Havia tomado banho e trocado toda a roupa. Agora usava um vestido de musselina branca com pintas pretas, e nos cabelos prendera uma rosa de seda preta.

A natureza foi repousar, amor,

Vê, estamos sós.

Dá-me tua mão para apertar, amor,

Levemente dentro da minha.

Tocava e cantava meio para si mesma, pois observava a si mesma tocando e cantando. A luz do fogo reluzia em seus sapatos, no ventre rubro do violão e em seus dedos brancos...

“Se eu estivesse do lado de fora da janela e olhasse para dentro e me visse, ficaria realmente um tanto impressionada”, pensou.

Tocou o acompanhamento ainda mais suavemente — já não cantando, mas escutando.

...“A primeira vez que a vi, menininha — oh, você não fazia ideia de que não estava sozinha —, estava sentada com seus pezinhos sobre um banquinho, tocando violão. Deus, nunca poderei esquecer...”

Beryl ergueu a cabeça e começou a cantar outra vez:

Até a lua está cansada...

Mas houve uma batida forte à porta. O rosto carmesim da criada apareceu.

— Por favor, Miss Beryl, preciso entrar para arrumar a mesa.

— Certamente, Alice — disse Beryl, numa voz de gelo.

Pôs o violão num canto. Alice entrou aos trambolhões com uma pesada bandeja preta de ferro.

— Bem, tive um trabalhão com aquele forno — disse ela. — Não consigo fazer nada dourar.

— É mesmo! — disse Beryl.

Mas não, ela não suportava aquela tola de garota. Correu para a sala de visitas escura e começou a andar de um lado para o outro... Oh, estava inquieta, inquieta. Havia um espelho sobre a lareira. Ela apoiou os braços ao longo dela e olhou para sua sombra pálida no vidro. Como estava bonita, mas não havia ninguém para ver, ninguém.

— Por que você precisa sofrer tanto? — disse o rosto no espelho. — Você não foi feita para sofrer... Sorria!

Beryl sorriu, e realmente seu sorriso era tão adorável que sorriu outra vez — mas desta vez porque não pôde evitar.

8 — Bom dia, Mrs. Jones.

— Oh, bom dia, Mrs. Smith. Estou tão contente em vê-la. Trouxe suas crianças?

— Sim, trouxe meus dois gêmeos. Tive outro bebê desde a última vez que a vi, mas ela veio tão de repente que ainda não tive tempo de lhe fazer nenhuma roupa. Então a deixei... Como vai seu marido?

— Oh, vai muito bem, obrigada. Pelo menos teve um resfriado horrível, mas a rainha Vitória — ela é minha madrinha, sabe — mandou-lhe uma caixa de abacaxis, e isso o curou i-me-di-a-ta-men-te. Essa é sua nova criada?

— Sim, o nome dela é Gwen. Só a tenho há dois dias. Oh, Gwen, esta é minha amiga, Mrs. Smith.

— Bom dia, Mrs. Smith. O jantar não ficará pronto por uns dez minutos.

— Acho que você não deveria me apresentar à criada. Acho que eu deveria simplesmente começar a falar com ela.

— Bem, ela é mais uma ajudante de senhora do que uma criada, e ajudantes de senhora são apresentadas, eu sei, porque Mrs. Samuel Josephs tinha uma.

— Oh, bem, não tem importância — disse a criada, descuidadamente, batendo um creme de chocolate com metade de um prendedor de roupa quebrado.

O jantar assava lindamente sobre um degrau de concreto. Ela começou a pôr a mesa num banco cor-de-rosa do jardim. Diante de cada pessoa pôs dois pratos de folha de gerânio, um garfo de agulha de pinheiro e uma faca de graveto. Havia três cabeças de margarida numa folha de louro para ovos pochê, algumas fatias de carne fria de pétala de fúcsia, lindos bolinhos feitos de terra, água e sementes de dente-de-leão, e o creme de chocolate, que decidira servir na concha de pāua em que o cozinhara.

— Não precisa se preocupar com minhas crianças — disse Mrs. Smith, graciosamente. — Se puder apenas pegar esta mamadeira e enchê-la na torneira — quero dizer, na leiteria.

— Oh, está bem — disse Gwen, e sussurrou para Mrs. Jones: — Devo ir pedir a Alice um pouquinho de leite de verdade?

Mas alguém chamou da frente da casa, e a festa do almoço se desfez, deixando a mesa encantadora, deixando os bolinhos e os ovos pochê para as formigas e para um velho caracol que empurrou seus chifres trêmulos por cima da borda do banco do jardim e começou a mordiscar um prato de gerânio.

— Venham para a frente, crianças. Pip e Rags chegaram.

Os meninos Trout eram os primos que Kezia mencionara ao homem do armazém. Moravam a cerca de uma milha dali, numa casa chamada Monkey Tree Cottage. Pip era alto para a idade, com cabelos negros e lisos e rosto branco, mas Rags era muito pequeno e tão magro que, quando se despia, as omoplatas saltavam como duas asinhas. Tinham um cão vira-lata de olhos azul-claros e uma cauda comprida, virada para cima na ponta, que os seguia por toda parte; chamava-se Snooker. Passavam metade do tempo penteando e escovando Snooker e lhe dando doses de várias misturas terríveis inventadas por Pip e mantidas secretamente por ele numa jarra quebrada coberta com uma velha tampa de chaleira. Nem mesmo o fiel pequeno Rags tinha permissão para conhecer todo o segredo dessas misturas... Pegue um pouco de pó dental carbólico e uma pitada de enxofre moído fino, e talvez um pouco de goma para endurecer o pelo de Snooker... Mas não era tudo; Rags, em particular, achava que o resto era pólvora... E nunca lhe era permitido ajudar na mistura por causa do perigo... “Ora, se uma gota disso saltar no seu olho, você ficará cego para o resto da vida”, dizia Pip, mexendo a mistura com uma colher de ferro. “E há sempre a chance — só a chance, veja bem — de ela explodir se você bater com força suficiente... Duas colheradas disso numa lata de querosene bastam para matar milhares de pulgas.” Mas Snooker passava todo o tempo livre mordendo-se e fungando, e fedia abominavelmente.

— É porque ele é um cão de briga tão magnífico — dizia Pip. — Todos os cães de briga cheiram mal.

Os meninos Trout muitas vezes tinham passado o dia com os Burnell na cidade, mas agora que eles moravam naquela casa magnífica e naquele jardim bacanérrimo, estavam inclinados a ser muito amistosos. Além disso, ambos gostavam de brincar com meninas — Pip, porque conseguia enganá-las tanto, e porque Lottie se assustava com tanta facilidade; e Rags por uma razão vergonhosa. Ele adorava bonecas. Como olhava para uma boneca deitada adormecida, falando em sussurros e sorrindo timidamente, e que prazer era para ele ter permissão de segurar uma...

— Curve os braços em volta dela. Não os deixe duros assim. Você vai deixá-la cair — dizia Isabel, severa.

Agora estavam de pé na varanda, segurando Snooker, que queria entrar na casa, mas não tinha permissão porque tia Linda detestava cachorros decentes.

— Viemos de ônibus com mamãe — disseram —, e vamos passar a tarde com vocês. Trouxemos uma fornada do nosso pão de gengibre para tia Linda. Nossa Minnie fez. Está todo cheio de nozes.

— Fui eu que tirei a pele das amêndoas — disse Pip. — Simplesmente enfiei a mão numa panela de água fervendo, agarrei-as e dei uma espécie de beliscão, e as nozes saltaram para fora das peles, algumas tão alto quanto o teto. Não saltaram, Rags?

Rags assentiu.

— Quando fazem bolos lá em casa — disse Pip —, nós sempre ficamos na cozinha, Rags e eu, e eu fico com a tigela, e ele fica com a colher e o batedor de ovos. Pão de ló é o melhor. Depois fica tudo espumoso.

Correu pelos degraus da varanda até o gramado, plantou as mãos na grama, inclinou-se para a frente e por pouco não ficou de cabeça para baixo.

— Esse gramado é todo cheio de calombos — disse. — É preciso um lugar plano para ficar de cabeça para baixo. Lá em casa eu consigo dar a volta na árvore dos macacos de cabeça para baixo. Não consigo, Rags?

— Quase — disse Rags, fracamente.

— Fique de cabeça para baixo na varanda. É bem plana — disse Kezia.

— Não, espertinha — disse Pip. — É preciso fazer isso em algo macio. Porque se você se sacode e cai, alguma coisa no pescoço faz clique e se quebra. Papai me contou.

— Oh, vamos brincar de alguma coisa — disse Kezia.

— Muito bem — disse Isabel rapidamente —, vamos brincar de hospitais. Eu serei a enfermeira, e Pip pode ser o médico, e você, Lottie e Rags podem ser os doentes.

Lottie não queria brincar disso, porque da última vez Pip espremera alguma coisa garganta abaixo nela, e doera terrivelmente.

— Ora — zombou Pip. — Era só o sumo de um pedacinho de casca de tangerina.

— Bem, então vamos brincar de damas — disse Isabel. — Pip pode ser o pai, e vocês podem ser todos os nossos queridinhos filhinhos.

— Detesto brincar de damas — disse Kezia. — Vocês sempre fazem a gente ir à igreja de mãos dadas e voltar para casa e ir para a cama.

De repente Pip tirou do bolso um lenço imundo.

— Snooker! Aqui, senhor — chamou.

Mas Snooker, como sempre, tentou escapulir, o rabo entre as pernas. Pip saltou em cima dele e o prendeu entre os joelhos.

— Segure firme a cabeça dele, Rags — disse, e amarrou o lenço em torno da cabeça de Snooker, com um nó engraçado espetado no alto.

— Para que é isso? — perguntou Lottie.

— É para treinar as orelhas dele a crescerem mais grudadas à cabeça — está vendo? — disse Pip. — Todos os cães de briga têm orelhas que ficam para trás. Mas as orelhas de Snooker são meio moles demais.

— Eu sei — disse Kezia. — Estão sempre virando do avesso. Detesto isso.

Snooker se deitou, fez um débil esforço com a pata para tirar o lenço, mas, vendo que não conseguia, arrastou-se atrás das crianças, estremecendo de infelicidade.

9 Pat vinha balançando pelo caminho; na mão segurava uma pequena machadinha que piscava ao sol.

— Venham comigo — disse às crianças —, e eu vou mostrar a vocês como os reis da Irlanda cortam a cabeça de um pato.

Elas recuaram — não acreditavam nele, e, além disso, os meninos Trout nunca tinham visto Pat antes.

— Vamos, agora — coaxou ele, sorrindo e estendendo a mão para Kezia.

— É uma cabeça de pato de verdade? Um do pasto?

— É — disse Pat.

Ela pôs a mão na dele, dura e seca, e ele enfiou a machadinha no cinto e estendeu a outra para Rags. Amava criancinhas.

— É melhor eu segurar a cabeça de Snooker se vai ter sangue por aí — disse Pip —, porque ver sangue o deixa terrivelmente feroz.

Correu na frente, arrastando Snooker pelo lenço.

— Você acha que devemos ir? — sussurrou Isabel. — Não pedimos licença nem nada. Pedimos?

No fundo do pomar havia um portão na cerca de tábuas. Do outro lado, um barranco íngreme descia até uma ponte que atravessava o riacho, e, uma vez subida a margem do outro lado, chegava-se à beira dos pastos. Um velho estábulo pequeno no primeiro pasto fora transformado em galinheiro. As galinhas tinham se afastado muito pelo pasto, descendo até um depósito de lixo numa depressão, mas os patos ficavam perto da parte do riacho que corria sob a ponte.

Arbustos altos se debruçavam sobre a corrente, com folhas vermelhas e flores amarelas e cachos de amoras. Em certos pontos, o riacho era largo e raso, mas em outros tombava em pequenas poças fundas, com espuma nas bordas e bolhas trêmulas. Era nessas poças que os grandes patos brancos haviam se instalado, nadando e se fartando ao longo das margens cheias de ervas.

Nadavam para cima e para baixo, alisando os peitos deslumbrantes, e outros patos de peitos igualmente deslumbrantes e bicos amarelos nadavam de cabeça para baixo junto deles.

— Ali está a pequena marinha irlandesa — disse Pat —, e olhem aquele velho almirante ali, de pescoço verde e um belo mastrozinho de bandeira no rabo.

Tirou um punhado de grãos do bolso e começou a caminhar para o galinheiro, preguiçoso, o chapéu de palha de copa quebrada puxado sobre os olhos.

— Lid. Lid—lid—lid—lid... — chamou.

— Quá. Quá—quá—quá—quá... — responderam os patos, rumando para a terra, e, batendo as asas e se arrastando barranco acima, correram atrás dele numa longa fila bamboleante. Ele os seduzia, fingindo atirar o grão, sacudindo-o nas mãos e chamando-os, até que eles o cercaram em um anel branco.

De longe, as galinhas ouviram o clamor e também vieram correndo pelo pasto, as cabeças projetadas para a frente, as asas abertas, virando os pés daquela maneira tola com que as galinhas correm e resmungando enquanto vinham.

Então Pat espalhou o grão, e os patos vorazes começaram a engolir. Rapidamente ele se abaixou, agarrou dois, um debaixo de cada braço, e atravessou até as crianças. Suas cabeças agitadas e olhos redondos assustaram as crianças — todas, menos Pip.

— Vamos, suas bobas — gritou ele —, eles não mordem. Não têm dentes. Só têm aqueles dois buraquinhos no bico para respirar.

— Você segura um enquanto eu acabo com o outro? — perguntou Pat.

Pip soltou Snooker.

— Se seguro? Se seguro? Me dê um. Não me importo nem um pouco com o tanto que ele espernear.

Ele quase soluçou de prazer quando Pat lhe entregou o vulto branco nos braços.

Havia um velho toco ao lado da porta do galinheiro. Pat agarrou o pato pelas pernas, deitou-o atravessado no toco e, quase no mesmo instante, a pequena machadinha desceu, e a cabeça do pato voou para fora do toco. O sangue esguichou sobre as penas brancas e sobre a mão dele.

Quando as crianças viram o sangue, já não ficaram com medo. Amontoaram-se em volta dele e começaram a gritar. Até Isabel saltava, exclamando:

— O sangue! O sangue!

Pip esqueceu completamente seu pato. Simplesmente o atirou para longe de si e gritou:

— Eu vi. Eu vi.

E pulou em volta do cepo.

Rags, com as faces brancas como papel, correu até a cabecinha, estendeu um dedo como se quisesse tocá-la, recuou outra vez e então estendeu de novo um dedo. Tremia por inteiro.

Até Lottie, a pequena Lottie assustada, começou a rir e apontou para o pato, berrando:

— Olhe, Kezia, olhe.

— Vejam isto! — gritou Pat.

Ele pôs o corpo no chão, e o corpo começou a andar bamboleando — com apenas um longo jorro de sangue onde a cabeça estivera; começou a se afastar sem ruído em direção ao barranco íngreme que levava ao riacho... Aquilo foi a maravilha suprema.

— Vocês estão vendo? Estão vendo? — berrou Pip.

Correu entre as meninas, puxando-lhes os aventais.

— Parece um motorzinho. Parece uma locomotiva engraçadinha — guinchou Isabel.

Mas Kezia de repente se lançou contra Pat, passou os braços em torno das pernas dele e bateu a cabeça com toda a força contra seus joelhos.

— Ponha a cabeça de volta! Ponha a cabeça de volta! — gritou.

Quando ele se inclinou para afastá-la, ela não o soltou nem levantou a cabeça. Agarrou-se com toda a força e soluçou:

— Cabeça de volta! Cabeça de volta!

Até que aquilo soou como um soluço estranho e alto.

— Parou. Tombou. Está morto — disse Pip.

Pat puxou Kezia para cima, para seus braços. Seu chapéu de sol caíra para trás, mas ela não o deixou olhar seu rosto. Não, pressionou o rosto contra um osso no ombro dele e apertou os braços em torno de seu pescoço.

As crianças pararam de gritar tão de repente quanto haviam começado. Ficaram em torno do pato morto. Rags já não tinha medo da cabeça. Agora se ajoelhava e a acariciava.

— Acho que a cabeça ainda não está bem morta — disse. — Vocês acham que ela continuaria viva se eu lhe desse alguma coisa para beber?

Mas Pip ficou muito zangado.

— Bah! Seu bebê.

Assobiou para Snooker e foi embora.

Quando Isabel se aproximou de Lottie, Lottie se afastou de supetão.

— Por que você fica sempre me tocando, Isabel?

— Pronto — disse Pat a Kezia. — Aí está a grande garotinha.

Ela ergueu as mãos e tocou as orelhas dele. Sentiu alguma coisa. Lentamente ergueu o rosto trêmulo e olhou. Pat usava pequenos brincos redondos de ouro. Ela nunca soubera que homens usavam brincos. Ficou muito surpresa.

— Eles saem e entram? — perguntou, rouca.

10 Lá em cima, na casa, na cozinha morna e arrumada, Alice, a criada, preparava o chá da tarde. Estava “vestida”. Usava um vestido preto de tecido que cheirava debaixo dos braços, um avental branco como uma grande folha de papel, e um laço de renda preso ao cabelo com dois grampos de azeviche. Além disso, seus confortáveis chinelos de tapete tinham sido trocados por um par de couro preto que apertava de maneira terrível o calo de seu dedinho do pé...

Fazia calor na cozinha. Uma mosca varejeira zumbia, um leque de vapor esbranquiçado saía da chaleira, e a tampa mantinha uma dança ruidosa enquanto a água borbulhava. O relógio tiquetaqueava no ar quente, lento e deliberado, como o clique da agulha de tricô de uma velha, e às vezes — sem razão alguma, pois não havia brisa — a persiana balançava para fora e para dentro, batendo na janela.

Alice fazia sanduíches de agrião. Tinha um pedaço de manteiga sobre a mesa, um pão comprido de barracouta, e os agriões tombavam sobre um pano branco.

Mas, encostado ao prato de manteiga, havia um livrinho sujo e ensebado, meio descosturado, de bordas enroladas, e enquanto esmagava a manteiga ela lia:

“Sonhar com baratas negras puxando um carro fúnebre é mau. Significa morte de alguém que se tem próximo ou querido, seja pai, marido, irmão, filho ou prometido. Se as baratas rastejam para trás enquanto se observam, isso significa morte pelo fogo ou por grande altura, como lance de escadas, andaime etc.

“Aranhas. Sonhar com aranhas rastejando sobre a pessoa é bom. Significa grande soma de dinheiro em futuro próximo. Caso a parte esteja em estado de gravidez, pode-se esperar parto fácil. Mas deve-se tomar cuidado no sexto mês e evitar comer provável presente de mariscos...”

Quantos milhares de pássaros vejo.

Oh, vida. Era Miss Beryl. Alice largou a faca e enfiou o Livro dos Sonhos debaixo do prato de manteiga. Mas não teve tempo de escondê-lo por completo, pois Beryl correu para dentro da cozinha e até a mesa, e a primeira coisa em que seus olhos pousaram foram aquelas bordas engorduradas. Alice viu o sorrisinho significativo de Miss Beryl e o modo como ela ergueu as sobrancelhas e apertou os olhos, como se não tivesse muita certeza do que aquilo poderia ser. Decidiu responder, caso Miss Beryl perguntasse: “Nada que lhe pertença, Miss.” Mas sabia que Miss Beryl não perguntaria.

Alice era uma criatura branda na realidadearia.

Alice era uma criatura branda na realidade, mas tinha as réplicas mais maravilhosas prontas para perguntas que sabia que nunca lhe seriam feitas. Compor essas respostas e virá-las e revirá-las na mente a confortava tanto quanto se tivessem sido expressas. Na verdade, eram elas que a mantinham viva em lugares onde fora tão atormentada que tivera medo de ir para a cama à noite com uma caixa de fósforos sobre a cadeira, receosa de morder as pontas durante o sono, por assim dizer.

— Oh, Alice — disse Miss Beryl. — Há uma pessoa a mais para o chá, então aqueça um prato dos scones de ontem, por favor. E ponha o bolo Victoria, além do bolo de café. E não se esqueça de pôr toalhinhas de renda sob os pratos — está bem? Você se esqueceu ontem, sabe, e o chá ficou tão feio e vulgar. E, Alice, não ponha outra vez aquela horrível capa velha rosa e verde no bule da tarde. Aquela é só para as manhãs. Na verdade, acho que deveria ser guardada para a cozinha — está tão surrada, e cheira bastante mal. Ponha a japonesa. Você compreende perfeitamente, não compreende?

Miss Beryl terminou.

Cantando alto em cada árvore...

cantou ao deixar a cozinha, muito satisfeita com sua firme condução de Alice.

Oh, Alice estava furiosa. Ela não era de se importar em receber ordens, mas havia algo no modo como Miss Beryl lhe falava que ela não suportava. Oh, isso ela não suportava. Fazia-a se encolher por dentro, por assim dizer, e ela chegava a tremer. Mas o que Alice realmente odiava em Miss Beryl era que ela a fazia sentir-se baixa. Falava com Alice numa voz especial, como se ela não estivesse inteiramente ali; e nunca perdia a paciência com ela — nunca. Mesmo quando Alice derrubava alguma coisa ou esquecia algo importante, Miss Beryl parecia ter esperado que aquilo acontecesse.

— Se me permite, Mrs. Burnell — disse uma Alice imaginária, enquanto passava manteiga nos scones —, eu preferiria não receber minhas ordens de Miss Beryl. Posso ser apenas uma criada comum que não sabe tocar violão, mas...

Esse último golpe a agradou tanto que seu humor se recompôs por completo.

— A única coisa a fazer — ouviu, ao abrir a porta da sala de jantar — é cortar as mangas inteiramente e deixar apenas uma faixa larga de veludo preto sobre os ombros...

11 O pato branco não parecia jamais ter tido cabeça quando Alice o pôs diante de Stanley Burnell naquela noite. Jazia, em bela resignação regada, sobre uma travessa azul — as pernas amarradas com um pedaço de barbante e uma guirlanda de pequenas bolas de recheio em volta.

Era difícil dizer qual dos dois, Alice ou o pato, parecia mais bem regado; ambos tinham uma cor tão rica e ambos tinham o mesmo ar de brilho e tensão. Mas Alice era vermelho-fogo, e o pato, mogno espanhol.

Burnell correu os olhos pela lâmina da faca de trinchar. Orgulhava-se muito de trinchar, de fazer disso um trabalho de primeira classe. Detestava ver uma mulher trinchar; elas eram sempre lentas demais e nunca pareciam se importar com a aparência da carne depois. Ele sim; tinha verdadeiro orgulho em cortar lâminas delicadas de rosbife frio, pequenos nacos de carneiro, exatamente da espessura certa, e em dividir uma galinha ou um pato com bela precisão...

— Este é o primeiro dos produtos da casa? — perguntou, sabendo perfeitamente bem que era.

— Sim, o açougueiro não veio. Descobrimos que ele só passa duas vezes por semana.

Mas não havia necessidade de pedir desculpas. Era uma ave soberba. Nem era carne, na verdade, mas uma espécie de geleia muito superior.

— Meu pai diria — disse Burnell — que esta deve ter sido uma daquelas aves cuja mãe tocou flauta alemã para ela na infância. E os doces sons do instrumento dulcíssimo atuaram com tamanho efeito sobre a mente infantil... Quer mais um pouco, Beryl? Você e eu somos os únicos nesta casa com verdadeiro sentimento pela comida. Estou perfeitamente disposto a declarar, num tribunal, se necessário, que amo boa comida.

O chá foi servido na sala de visitas, e Beryl, que por alguma razão fora muito encantadora com Stanley desde que ele chegara em casa, sugeriu uma partida de cribbage. Sentaram-se a uma mesinha perto de uma das janelas abertas. Mrs. Fairfield desapareceu, e Linda jazia numa cadeira de balanço, os braços acima da cabeça, balançando para a frente e para trás.

— Você não quer a luz — quer, Linda? — disse Beryl.

Moveu a luminária alta de modo a ficar sob sua luz macia.

Como pareciam remotos aqueles dois, de onde Linda se sentava e se embalava. A mesa verde, as cartas polidas, as mãos grandes de Stanley e as pequeninas de Beryl, tudo parecia parte de um único movimento misterioso. O próprio Stanley, grande e sólido, em seu terno escuro, punha-se à vontade, e Beryl lançava a cabeça brilhante e fazia beicinho. Em volta da garganta usava uma fita de veludo desconhecida. Ela a transformava, de algum modo — alterava a forma de seu rosto — mas era encantadora, decidiu Linda. O quarto cheirava a lírios; havia dois grandes jarros de copos-de-leite na lareira.

— Quinze dois — quinze quatro — e um par é seis, e uma sequência de três é nove — disse Stanley, tão deliberado que poderia estar contando carneiros.

— Não tenho nada além de dois pares — disse Beryl, exagerando sua desgraça porque sabia o quanto ele adorava vencer.

Os pinos do cribbage eram como duas pessoinhas subindo a estrada juntas, dobrando a esquina aguda e descendo a estrada outra vez. Perseguiam-se. Não queriam tanto avançar quanto ficar perto o bastante para conversar — ficar perto, talvez fosse só isso.

Mas não, havia sempre um que era impaciente e saltava para longe quando o outro se aproximava, e não escutava. Talvez o pino branco tivesse medo do vermelho, ou talvez fosse cruel e não desse ao vermelho a chance de falar...

Na frente do vestido, Beryl usava um ramo de amores-perfeitos, e certa vez, quando os pequenos pinos estavam lado a lado, ela se inclinou e os amores-perfeitos caíram e os cobriram.

— Que pena — disse ela, apanhando os amores-perfeitos. — Justo quando tinham uma chance de voar um para os braços do outro.

— Adeus, minha menina — riu Stanley, e lá foi o pino vermelho saltando para longe.

A sala de visitas era longa e estreita, com portas de vidro que davam para a varanda. Tinha um papel creme com desenho de rosas douradas, e os móveis, que haviam pertencido à velha Mrs. Fairfield, eram escuros e simples. Um pequeno piano ficava contra a parede, com seda amarela plissada encaixada na frente entalhada. Acima dele pendia uma pintura a óleo, feita por Beryl, de um grande cacho de clemátis de ar surpreso. Cada flor era do tamanho de um pires pequeno, com um centro como um olho espantado, franjado de preto. Mas a sala ainda não estava pronta. Stanley pusera no coração um Chesterfield e duas cadeiras decentes. Linda gostava mais dela como estava...

Duas grandes mariposas entraram voando pela janela e giraram e giraram em torno do círculo de luz da lâmpada.

“Voem embora antes que seja tarde demais. Voem para fora outra vez.”

Elas voavam e voavam; pareciam trazer consigo o silêncio e o luar nas asas silenciosas...

— Tenho dois reis — disse Stanley. — Serve?

— Serve bastante — disse Beryl.

Linda parou de se balançar e se levantou. Stanley olhou para ela.

— Algum problema, querida?

— Não, nada. Vou procurar mamãe.

Saiu da sala e, parada ao pé da escada, chamou, mas a voz da mãe lhe respondeu da varanda.

A lua que Lottie e Kezia tinham visto da carroça do homem do armazém estava cheia, e a casa, o jardim, a velha e Linda — tudo estava banhado numa luz deslumbrante.

— Estive olhando o aloé — disse Mrs. Fairfield. — Acredito que ele vai florescer este ano. Olhe ali em cima. Aqueles são botões, ou é apenas um efeito da luz?

Enquanto permaneciam nos degraus, o alto barranco de relva sobre o qual o aloé repousava se erguia como uma onda, e o aloé parecia cavalgar sobre ele como um navio de remos levantados. O claro luar pendia dos remos erguidos como água, e sobre a onda verde o orvalho cintilava.

— Você também sente? — disse Linda, e falou com a mãe naquela voz especial que as mulheres usam à noite umas com as outras, como se falassem durante o sono ou do fundo de alguma caverna oca. — Não sente que ele está vindo em nossa direção?

Ela sonhou que era arrebatada para fora da água fria e posta no navio de remos erguidos e mastro em botão. Agora os remos desciam, batendo depressa, depressa. Remavam para longe, por cima das árvores do jardim, dos pastos e do mato escuro além. Ah, ela ouviu a si mesma gritar: “Mais depressa! Mais depressa!” para aqueles que remavam.

Como esse sonho era muito mais real do que a ideia de voltarem para a casa onde as crianças dormiam e onde Stanley e Beryl jogavam cribbage.

— Acredito que são botões — disse ela. — Vamos descer ao jardim, mãe. Gosto desse aloé. Gosto dele mais do que de qualquer coisa aqui. E tenho certeza de que vou me lembrar dele muito depois de ter esquecido todas as outras coisas.

Pôs a mão no braço da mãe, e elas desceram os degraus, contornaram a ilha e seguiram para a alameda principal que levava aos portões da frente.

Olhando-o de baixo, ela podia ver os espinhos longos e agudos que orlavam as folhas do aloé, e à vista deles seu coração se endureceu... Gostava particularmente dos espinhos longos e agudos... Ninguém ousaria chegar perto do navio ou segui-lo.

“Nem mesmo meu cão de Terra Nova”, pensou, “de quem gosto tanto durante o dia.”

Pois realmente gostava dele; amava-o, admirava-o e o respeitava tremendamente. Oh, mais do que qualquer outra pessoa no mundo. Conhecia-o de ponta a ponta. Ele era a alma da verdade e da decência, e, apesar de toda a sua experiência prática, era terrivelmente simples, fácil de agradar e fácil de ferir...

Se ao menos ele não saltasse tanto sobre ela, e não latisse tão alto, e não a observasse com aqueles olhos tão ansiosos, tão amorosos. Era forte demais para ela; desde criança, sempre odiara coisas que corriam para cima dela. Havia momentos em que ele era assustador — realmente assustador. Quando ela quase gritara com toda a força da voz: “Você está me matando.” E, nesses momentos, ansiara por dizer as coisas mais grosseiras, mais odiosas...

“Você sabe que sou muito delicada. Sabe tão bem quanto eu que meu coração está afetado, e o médico lhe disse que eu posso morrer a qualquer momento. Já tive três grandes blocos de crianças...”

Sim, sim, era verdade. Linda arrancou a mão do braço da mãe. Apesar de todo o seu amor, respeito e admiração, ela o odiava. E como ele era sempre terno depois de momentos assim, como submisso, como atencioso. Faria qualquer coisa por ela; ansiava por servi-la... Linda ouviu a si mesma dizer, numa voz fraca:

— Stanley, você acenderia uma vela?

E ouviu a voz jubilosa dele responder:

— Claro que acendo, minha querida.

E ele saltou da cama como se fosse saltar até a lua por ela.

Nunca lhe parecera tão claro quanto naquele momento. Ali estavam todos os seus sentimentos por ele, nítidos e definidos, um tão verdadeiro quanto o outro. E ali estava aquele outro, aquele ódio, tão real quanto o resto. Ela poderia embrulhar seus sentimentos em pequenos pacotes e entregá-los a Stanley. Ansiava por lhe dar aquele último, como surpresa. Podia ver os olhos dele ao abri-lo...

Abraçou os braços cruzados e começou a rir em silêncio. Como a vida era absurda — era risível, simplesmente risível. E por que aquela mania dela de se manter viva a todo custo? Pois era mesmo uma mania, pensou, zombando e rindo.

“Por que me protejo com tanto zelo? Continuarei tendo filhos, e Stanley continuará ganhando dinheiro, e as crianças e os jardins crescerão cada vez mais, com frotas inteiras de aloés para eu escolher.”

Ela caminhara com a cabeça baixa, sem olhar para nada. Agora ergueu os olhos e olhou ao redor. Estavam junto às camélias vermelhas e brancas. Belas eram as folhas ricas e escuras, salpicadas de luz, e as flores redondas que se empoleiravam entre elas como pássaros vermelhos e brancos. Linda puxou um pedaço de verbena, amassou-o e levou as mãos até a mãe.

— Delicioso — disse a velha. — Está com frio, criança? Está tremendo? Sim, suas mãos estão frias. É melhor voltarmos para casa.

— Em que você estava pensando? — disse Linda. — Conte-me.

— Na verdade, eu não estava pensando em nada. Ao passarmos pelo pomar, perguntei-me como seriam as árvores frutíferas e se conseguiríamos fazer bastante geleia neste outono. Há esplêndidos e saudáveis arbustos de groselha na horta. Notei-os hoje. Gostaria de ver aquelas prateleiras da despensa muito bem abastecidas com nossa própria geleia...

12 “MINHA QUERIDA NAN,

Não pense que sou uma porquinha porque ainda não escrevi. Não tive um instante, querida, e mesmo agora me sinto tão exausta que mal consigo segurar a pena.

Bem, o ato terrível está consumado. Nós realmente deixamos o turbilhão vertiginoso da cidade, e não vejo como algum dia poderemos voltar, pois meu cunhado comprou esta casa ‘com porteira fechada’, para usar as palavras dele.

De certo modo, é claro, é um alívio tremendo, pois ele vinha ameaçando arranjar uma casa no campo desde que moro com eles — e devo dizer que a casa e o jardim são terrivelmente bons — um milhão de vezes melhores do que aquele cubículo horrível na cidade.

Mas enterrada, minha querida. Enterrada não é a palavra.

Temos vizinhos, mas são apenas fazendeiros — grandes brutamontes de rapazes que parecem estar tirando leite o dia inteiro, e duas fêmeas medonhas de dentes de coelho que nos trouxeram scones quando estávamos de mudança e disseram que teriam prazer em ajudar. Mas minha irmã, que mora a uma milha daqui, não conhece viva alma por aqui, então tenho certeza de que nós jamais conheceremos. É quase certo que ninguém virá da cidade nos ver, porque, embora haja um ônibus, é uma coisa velha e horrorosa, toda chacoalhante, com laterais de couro preto, em que qualquer pessoa decente preferiria morrer a viajar por seis milhas.

Assim é a vida. É um fim triste para a pobre pequena B. Em um ou dois anos vou virar uma solteirona desleixada e horrível e irei vê-la de capa impermeável e chapéu de marinheiro amarrado com um véu de automóvel de seda chinesa branca. Tão bonito.

Stanley diz que agora que estamos instalados — pois, depois da semana mais horrível da minha vida, realmente estamos instalados — vai trazer dois homens do clube aos sábados à tarde para jogar tênis. Na verdade, dois estão prometidos como grande prêmio para hoje. Mas, minha querida, se você pudesse ver os homens do clube de Stanley... meio gorduchos, o tipo que parece terrivelmente indecente sem colete — sempre com os pés um pouco virados para dentro — tão chamativos quando se anda por uma quadra de sapatos brancos. E ficam puxando as calças para cima a cada minuto — sabe como é — e golpeando coisas imaginárias com as raquetes.

Eu costumava jogar com eles no clube no verão passado, e tenho certeza de que você conhecerá o tipo quando eu lhe disser que, depois de eu ter ido lá umas três vezes, todos me chamavam de Miss Beryl. É um mundo exaustivo. É claro que mamãe simplesmente adora o lugar, mas então suponho que, quando eu tiver a idade de mamãe, me contentarei em sentar ao sol e debulhar ervilhas numa bacia. Mas não estou — não estou — não estou.

O que Linda pensa de toda essa história, como sempre, não faço a menor ideia. Misteriosa como nunca...

Minha querida, você conhece aquele meu vestido de cetim branco. Tirei as mangas inteiramente, pus faixas de veludo preto sobre os ombros e duas grandes papoulas vermelhas do chapeau da minha querida irmã. É um grande sucesso, embora eu não saiba quando o usarei.”

Beryl estava sentada, escrevendo essa carta numa mesinha em seu quarto. De certo modo, é claro, era tudo perfeitamente verdadeiro, mas de outro modo era tudo a maior bobagem, e ela não acreditava numa palavra. Não, isso não era verdade. Ela sentia todas aquelas coisas, mas não as sentia realmente daquele jeito.

Fora seu outro eu que escrevera aquela carta. Ele não apenas entediava, como desgostava um pouco seu eu verdadeiro.

“Leviana e tola”, disse seu eu verdadeiro. No entanto, sabia que a enviaria e que sempre escreveria aquele tipo de disparate para Nan Pym. Na verdade, era um exemplo muito brando do tipo de carta que costumava escrever.

Beryl apoiou os cotovelos na mesa e leu tudo outra vez. A voz da carta parecia subir da página até ela. Já era débil, como uma voz ouvida pelo telefone, aguda, efusiva, com algo amargo no som. Oh, hoje ela a detestava.

— Você tem sempre tanta animação — dizia Nan Pym. — É por isso que os homens se interessam tanto por você.

E acrescentara, um tanto melancólica, pois os homens não se interessavam nem um pouco por Nan, que era um tipo sólido de moça, de quadris gordos e cor viva:

— Não consigo entender como você consegue manter isso. Mas suponho que seja sua natureza.

Que estupidez. Que absurdo. Não era de modo algum sua natureza. Santo Deus, se algum dia ela tivesse sido seu verdadeiro eu com Nan Pym, Nannie teria pulado pela janela de surpresa... Minha querida, você conhece aquele meu cetim branco... Beryl fechou com força o estojo de cartas.

Levantou-se de um salto e, meio inconsciente, meio conscientemente, derivou até o espelho.

Ali estava uma moça esguia, de branco — uma saia de sarja branca, uma blusa de seda branca e um cinto de couro apertado com força na cintura minúscula.

Seu rosto tinha forma de coração, largo nas sobrancelhas e com queixo pontudo — mas não pontudo demais. Seus olhos, seus olhos eram talvez seu melhor traço; tinham uma cor tão estranha e incomum — azul-esverdeados, com pontinhos de ouro.

Tinha sobrancelhas negras e finas e cílios longos — tão longos que, quando pousavam em suas faces, positivamente apanhavam a luz, alguém lhe dissera.

Sua boca era um tanto grande. Grande demais? Não, não realmente. O lábio inferior se projetava um pouco; ela tinha um jeito de sugá-lo para dentro que outra pessoa lhe dissera ser terrivelmente fascinante.

O nariz era seu traço menos satisfatório. Não que fosse realmente feio. Mas não era nem metade tão fino quanto o de Linda. Linda tinha de fato um narizinho perfeito. O dela se alargava um pouco — não muito. E, com toda probabilidade, ela exagerava essa largura justamente porque era seu nariz, e ela era tão terrivelmente crítica consigo mesma. Apertou-o com o polegar e o indicador e fez uma pequena careta...

Lindos, lindos cabelos. E uma massa tão grande deles. Tinham a cor de folhas recém-caídas, castanhas e vermelhas, com um lampejo de amarelo. Quando fazia deles uma longa trança, sentia-a nas costas como uma longa serpente. Adorava sentir o peso puxando-lhe a cabeça para trás, e adorava senti-los soltos, cobrindo seus braços nus. “Sim, minha querida, não há dúvida, você é de fato uma coisinha adorável.”

Àquelas palavras, seu peito se ergueu; ela respirou longa e deliciosamente, semicerrando os olhos.

Mas, ainda enquanto olhava, o sorriso se apagou de seus lábios e olhos. Oh, Deus, ali estava ela, de volta, jogando o mesmo velho jogo. Falsa — falsa como sempre. Falsa como quando escrevera a Nan Pym. Falsa até quando estava sozinha consigo mesma, agora.

O que aquela criatura no espelho tinha a ver com ela, e por que estava encarando? Deixou-se cair de um lado da cama e enterrou o rosto nos braços.

— Oh — exclamou —, sou tão infeliz — tão terrivelmente infeliz. Sei que sou tola, maldosa e vaidosa; estou sempre representando um papel. Nunca sou meu eu verdadeiro nem por um momento.

E claramente, claramente, viu seu falso eu correndo para cima e para baixo pelas escadas, rindo uma risada especial e trêmula se havia visitas, ficando debaixo da lâmpada se um homem vinha jantar, para que ele visse a luz nos seus cabelos, fazendo beicinho e fingindo ser uma menininha quando lhe pediam que tocasse violão. Por quê? Ela até mantinha isso para benefício de Stanley. Ainda na noite anterior, enquanto ele lia o jornal, seu falso eu ficara ao lado dele e se encostara de propósito em seu ombro. Não pusera a mão sobre a dele, apontando alguma coisa para que ele visse como sua mão era branca ao lado da mão morena dele?

Que desprezível! Desprezível! Seu coração estava frio de raiva.

— É maravilhoso como você mantém isso — disse ao falso eu.

Mas então era apenas porque ela era tão infeliz — tão infeliz. Se fosse feliz e levasse sua própria vida, sua vida falsa deixaria de existir. Viu a Beryl verdadeira — uma sombra... uma sombra. Débil e insubstancial, ela brilhava. O que havia dela, exceto o resplendor? E em que momentos minúsculos ela era realmente ela. Beryl quase podia se lembrar de cada um deles. Nessas ocasiões sentira: “A vida é rica, misteriosa e boa, e eu sou rica, misteriosa e boa também.” Serei algum dia essa Beryl para sempre? Serei? Como posso ser? E houve algum tempo em que eu não tivesse um falso eu?... Mas, justo quando chegara até aí, ouviu o som de passinhos correndo pelo corredor; a maçaneta chocalhou. Kezia entrou.

— Tia Beryl, mamãe mandou perguntar se você pode descer, por favor. Papai chegou com um homem e o almoço está pronto.

Que aborrecimento! Como havia amassado a saia, ajoelhando-se daquele jeito idiota.

— Muito bem, Kezia.

Foi até a penteadeira e empoou o nariz.

Kezia também se aproximou e desenroscou um potinho de creme e o cheirou. Debaixo do braço carregava um gato de algodão muito sujo.

Quando tia Beryl saiu correndo do quarto, ela sentou o gato sobre a penteadeira e enfiou a tampa do pote de creme sobre sua orelha.

— Agora olhe para você — disse, severa.

O gato de algodão ficou tão dominado pela visão que tombou para trás e bateu, e bateu, até o chão. E a tampa do pote de creme voou pelo ar e rolou como uma moeda, em círculo, pelo linóleo — e não quebrou.

Mas para Kezia ela havia se quebrado no instante em que voou pelo ar, e ela a apanhou, quente no corpo inteiro, e a colocou de volta na penteadeira.

Depois saiu na ponta dos pés, rápida e leve demais...

Êxtase e outros contos

Sinopse

Edição Literunico em português brasileiro de Bliss, and Other Stories, volume de Katherine Mansfield publicado originalmente em 1920. A seleção reúne catorze contos marcados pela observação psicológica, tensão íntima e delicadeza formal da autora neozelandesa.

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Trilha sonora oficial

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