Leia agora
Elogio da Loucura

Universo da obra

Elogio da Loucura

Capítulo 2 · Elogio da Loucura

Parte 02

2 de 45 ≈ 5 min de leitura

Parte 02

Mas por que precisei ser tão impertinente a ponto de vos dizer isto, como se meus próprios traços não denunciassem suficientemente o que sou? Ou, supondo que haja alguém tão crédulo que me tome por alguma venerável matrona ou deusa da sabedoria, como se um só olhar meu não corrigisse de imediato seu engano, enquanto meu semblante, reflexo exato de minha alma, supriria e dispensaria o incômodo de quaisquer outras confissões. Pois apareço sempre em minhas cores naturais, e em veste sem artifício, e jamais deixo que meu rosto finja uma coisa enquanto meu coração oculta outra; antes, em tudo sou tão fiel a meus princípios que nem sequer posso ser contrafeita, mesmo por aqueles que reclamam para si o nome de engenhosos, mas que, em verdade, não passam de macaquinhos enfeitados com roupas vistosas e asnos pavoneando-se em peles de leão; e, por mais astutamente que se conduzam, aparecem-lhes as longas orelhas e traem o que são. Estes, na verdade, são muito rudes e desleais, pois, embora pertençam manifestamente ao meu partido, entre o vulgo se envergonham tanto de seu parentesco comigo que o lançam no prato dos outros como vergonha e opróbrio. Portanto, já que estão tão ávidos por serem tidos como sábios, quando na verdade são extremamente tolos, que tal se, para lhes dar o devido, eu os condecorasse com o título de sábios loucos? E nisso copiam o exemplo de certos oradores modernos, que incham a tal proporção de presunção que se vangloriam como tantos gigantes da eloquência, se, com fluência de língua dupla, conseguem pleitear indiferentemente por qualquer dos lados; e reputam façanha muito valorosa conseguir entremeiar uma sentença latina com alguma palavra grega, que, por parecer ornamento, enfiam ali ao acaso. E, antes que lhes faltem alguns vocábulos emperrados, abastecem-se de uma longa lista de termos velhos e obsoletos, tirados de algum autor bolorento, e os introduzem sorrateiramente para maravilhar o leitor; de modo que aqueles que os entendem possam deleitar-se com a felicidade de conhecê-los, e aqueles que não os entendem, quanto menos sabem, tanto mais admirem. Ao passo que sempre foi costume entre os do nosso lado desprezar e subestimar tudo quanto é estranho e incomum, enquanto os que têm melhor conceito de si mesmos meneiam a cabeça, sorriem e arrebitam as orelhas, para que se pense que apreendem facilmente aquilo de que talvez não entendam uma só palavra. E basta disso; perdoai a digressão, agora retorno.

De meu nome vos informei, senhores; que epíteto adicional vos dar, não sei, a menos que vos contenteis com o de muitíssimo loucos; pois com que designação mais própria poderia a deusa Loucura saudar seus devotos? Mas, visto que poucos conhecem minha família e origem, darei agora alguma notícia de minha ascendência.

Primeiramente, pois, meu pai não foi nem o Caos, nem o Inferno, nem Saturno, nem Júpiter, nem qualquer daqueles velhos deuses-avôs gastos pelo tempo, mas Plutus, esse mesmo que, malgrado Homero, Hesíodo e, sim, a despeito do próprio Jove, foi o pai primordial. Nascida entre esses deleites, eu não vim ao mundo, como as outras crianças, chorando, mas ergui-me lépida e ri imediatamente no rosto de minha mãe. E não há razão para que eu inveje Jove por ter tido uma cabra como ama, pois fui mais honrosamente amamentada por duas ninfas joviais: a primeira, de nome Embriaguez, uma das filhas de Baco; a outra, Ignorância, filha de Pã. Ambas podeis contemplar aqui, entre várias outras de meu séquito e de minhas acompanhantes, cujos nomes particulares, se tanto desejais saber, vos darei em breve. Esta, que caminha com passo afetado e mantém a cabeça tão alta, é o Amor-Próprio. Aquela que parece tão lampeira, e faz tanto ruído e alvoroço, é a Lisonja. A outra, sentada em pasmaceira, como se estivesse meio adormecida, chama-se Esquecimento. Aquela que se apoia no cotovelo e, de vez em quando, estende os braços bocejando, é a Preguiça. Esta, que traz uma grinalda trançada de flores e cheira tão perfumada, é o Prazer. A outra, que se mostra com pele tão lisa e carnes tão cevadas, é a Sensualidade. Aquela que fita com olhar tão desvairado e revira os olhos, é a Loucura Furiosa. Quanto aos dois deuses que vedes brincando entre as moças, o nome de um é Intemperança; o do outro, Sono Profundo. Com a ajuda e o serviço desse séquito, trago todas as coisas para dentro da órbita de meu poder, senhoreando-me dos maiores reis e potentados.

Já ouvistes falar de minha descendência, de minha educação e de minha companhia; para que eu não seja acusada de presunçosa por tomar emprestado o título de deusa, passo agora, em seguida, a informar-vos quais favores benévolos por toda parte concedo, e quão largamente se estende minha jurisdição. Pois, se, como alguém observou engenhosamente, ser deus não é outra coisa senão ser benfeitor da humanidade; e se foram julgados merecidamente divinizados aqueles que inventaram o uso do vinho, do trigo ou de qualquer outra conveniência para o bem-estar dos mortais, por que não posso eu, com justiça, marchar à frente de todo o tropel dos deuses, eu que, em tudo e para com todos, exerço uma generosidade e uma beneficência sem par?

Elogio da Loucura

Sinopse

Tradução literária em português-BR da sátira filosófica de Erasmo de Roterdã, preparada pelo Literunico a partir de uma edição inglesa em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.

Elogio da Loucura

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Elogio da Loucura

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de Elogio da Loucura

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Elogio da Loucura Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 2 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Elogio da Loucura

Todos os capítulos 45 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir