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Elogio da Loucura

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Elogio da Loucura

Capítulo 42 · Elogio da Loucura

Parte 42

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Parte 42

Além disso, não há ninguém mais tolo, ou mais próximo de perder o juízo, do que aqueles que são religiosamente supersticiosos em demasia: são profusamente pródigos em sua caridade; convidam novas afrontas pelo fácil perdão das injúrias passadas; deixam-se enganar e ludibriar por reivindicarem a inocência da pomba; não tornam interesse de pessoa alguma agradá-los, porque amarão e farão bem a seus inimigos tanto quanto aos amigos mais queridos; banem todo prazer, alimentando-se da penitência de vigílias, prantos, jejuns, tristeza e opróbrio; não prezam a vida, mas, com São Paulo, desejam ser dissolvidos e cobiçam a prova ardente do martírio. Numa palavra, parecem de todo tão destituídos de senso comum que sua alma já parece separada do corpo morto e inativo. E que outra coisa podemos imaginar que tudo isso seja senão pura loucura? É, portanto, menos estranho que, na festa de Pentecostes, os apóstolos fossem julgados bêbados de vinho novo; ou que São Paulo fosse censurado por Festo como estando fora de si.

E, visto que tive a confiança de chegar até aqui, aventurar-me-ei ainda um pouco mais adiante, e serei ousada bastante para dizer isto também: toda aquela felicidade final pela qual os cristãos, através de tantos tropeços e espinheiros de dificuldades, contendem, no fim não é melhor que uma espécie de loucura e demência. Isto, sem dúvida, será tido por fala extravagante; mas considerai por um instante, e ponde o caso deliberadamente.

Primeiro, então, os cristãos concordam tanto com os platônicos que creem que o corpo não é melhor que prisão ou calabouço para o confinamento da alma. Portanto, enquanto a alma está agrilhoada às paredes da carne, suas asas altaneiras ficam impedidas, e todas as suas faculdades vivificantes, embaraçadas e acorrentadas pelas partículas grosseiras da matéria, de modo que ela não pode nem livremente ir em busca de seu próprio objeto, a verdade, nem, quando felizmente o alcança, contemplá-lo com tranquilidade.

Além disso, Platão define a filosofia como meditação da morte, porque uma desempenha o mesmo ofício que a outra: a saber, retira a mente de todos os objetos visíveis e corpóreos. Assim, enquanto a alma pacientemente anima os diversos órgãos e membros do corpo, por tanto tempo o homem é tido como de disposição boa e sã; mas, quando a alma, cansada de seu confinamento, luta para romper a prisão e voar para além de sua gaiola de carne e sangue, então o homem é censurado, no mínimo, como extravagante e de miolos rachados; sim, se houver algum defeito nos órgãos externos, isso é então chamado de pura loucura. E, contudo, muitas vezes pessoas assim afetadas terão êxtases proféticos de predizer coisas vindouras, falarão em arrebatamento línguas que nunca antes aprenderam, e em tudo parecerão movidas por algo divino e extraordinário. E tudo isso, sem dúvida, é apenas efeito de a alma estar mais desprendida de seu vínculo com o corpo, pelo que pode, com menor impedimento, exercer a energia da vida e do movimento. Daí, sem dúvida, nasceu uma observação de natureza semelhante, agora confirmada em opinião assentada: que algumas almas há muito experimentadas no mundo, antes de desalojarem-se, chegam à altura de espíritos proféticos.

Se essa desordem nasce de uma intemperança na religião e de uma tensão demasiado alta da devoção, embora seja de espécie um tanto diferente, ainda assim é tão aparentada à anterior que grande parte da humanidade a apreende como mera loucura; especialmente quando pessoas desse humor supersticioso são tão pragmáticas e singulares que se separam e vivem à parte, por assim dizer, de todo o resto do mundo. De sorte que parecem ter experimentado aquilo que Platão sonha haver acontecido entre alguns que, encerrados numa caverna escura, apenas ruminavam ideias e especulações abstratas das entidades; e outro de sua companhia que saíra para a luz aberta e, ao retornar, lhes conta o cego engano em que jaziam; que ele vira a substância daquilo que o delírio da imaginação deles alcançava apenas em sombra; que, portanto, não podia senão apiedar-se e condoer-se de seus sonhos ilusórios, enquanto eles, por outro lado, não menos lamentavam seu frenesi e o expulsavam de sua sociedade como lunático e louco.

Assim, o vulgo se ocupa inteiramente daqueles objetos que são mais familiares aos seus sentidos, para além dos quais é propenso a pensar que tudo não passa de terra encantada; enquanto aqueles que são devotamente religiosos desdenham pôr seus pensamentos ou afetos em quaisquer coisas abaixo, mas elevam a alma à perseguição de seres incorpóreos e invisíveis. Os primeiros, ao ordenar os requisitos da felicidade, põem as riquezas na frente, os dotes do corpo na fila seguinte, e deixam os aperfeiçoamentos da alma para trazer a retaguarda; sim, alguns mal acreditarão que exista tal coisa como alma, porque não conseguem ver literalmente uma razão para sua fé. Os outros, porém, pagam as primícias de seu serviço àquele Ser sumamente simples e incompreensível, Deus; em seguida empregam-se em prover a felicidade daquilo que mais se aproxima de sua alma imortal, não cuidando em nada de suas corruptas carcaças corporais e desprezando o dinheiro como a lama e o entulho do mundo; ou, se em algum momento ocasiões urgentes exigem que se enredem em negócios seculares, fazem-no com pesar e uma espécie de má vontade, observando aquilo que São Paulo aconselha a seus Coríntios: tendo esposas, e contudo sendo como se não as tivessem; comprando, e contudo permanecendo como se nada possuíssem.

Elogio da Loucura

Sinopse

Tradução literária em português-BR da sátira filosófica de Erasmo de Roterdã, preparada pelo Literunico a partir de uma edição inglesa em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.

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