Universo da obra
Universo da obra
E aqui, em primeiro lugar, já se reconheceu que todas as paixões estão alistadas sob meu regimento, uma vez que se resolveu ser esta a única distinção entre um sábio e um tolo: que este último é governado pela paixão, enquanto o outro é guiado pela razão. Por isso os estoicos não consideram as paixões senão como infecção e moléstia da alma, que desordena a constituição do homem inteiro e, pondo os espíritos em fermento febril, muitas vezes ocasiona algum distúrbio mortal. E, contudo, estas paixões, por mais desacreditadas que sejam, não são apenas nossas tutoras, a instruir-nos rumo à obtenção da sabedoria, mas também nos tornam ousados e nos esporeiam a uma execução mais rápida de todos os nossos empreendimentos. Isto, suponho, será mal digerido pelo estoico Sêneca, que pretende que o único emblema da sabedoria seja o homem sem paixão; quando supor qualquer pessoa assim é despojá-la perfeitamente de sua humanidade, ou então transformá-la em alguma divindade fabulosa que nunca existiu nem jamais existirá. Ou, para falar mais claramente, é apenas fazer dela uma mera estátua, imóvel, insensível e de todo inativa. E, se este é o sábio deles, que o tomem para si e o removam para a república de Platão, para a Nova Atlântida, ou para alguma outra terra encantada semelhante. Pois quem não odiaria e evitaria tal pessoa, que fosse surda a todos os ditames do senso comum; que não tivesse mais poder de amor ou piedade que um cepo ou uma pedra; que permanecesse indiferente a todos os perigos; que pensasse nunca poder enganar-se, mas pudesse prever todas as contingências à maior distância e tomar providências contra os piores presságios; que se alimentasse de si mesma e de seus próprios pensamentos; que monopolizasse saúde, riqueza, poder, dignidade e tudo para si; que não amasse ninguém, nem fosse amada por pessoa alguma; que tivesse a impudência de acusar até a divina providência de má disposição, e que, soberbamente, invejasse — ou antes, pisoteasse — a reputação de todos os outros homens? E este é o sábio completo dos estoicos. Mas, dizei-me, que cidade escolheria tal magistrado? Que exército estaria disposto a servir sob tal comandante? Ou que mulher se contentaria com tal marido inútil? Quem convidaria tal hóspede? Ou que servo seria mantido por tal senhor? O mais iletrado artífice seria, em todos os aspectos, homem mais aceitável: folgazão com sua esposa, franco com seus amigos, jovial num banquete, maleável na conversa e agradável em toda companhia. Mas estou fatigada desta parte de meu assunto, e por isso devo passar a outros tópicos.
E agora, se alguém fosse colocado naquela torre de onde Jove é imaginado pelos poetas a contemplar o mundo, discerniria ao redor quantos agravos e calamidades cercam por todos os lados toda a nossa vida: quão impuro é nosso nascimento, quão trabalhoso nosso trato no berço, quão sujeita é nossa infância a mil infortúnios, quão fatigantes e cheios de labuta os nossos anos mais maduros, quão pesada e desconfortável a velhice, e, por fim, quão mal-vinda a inevitabilidade da morte. Além disso, em cada curso da vida, quantos estragos pode haver de doenças torturantes, quantos acidentes infelizes podem ocorrer por acaso, quantos desastres inesperados podem surgir, e que estranhas alterações um só momento pode produzir! Sem mencionar tais misérias de que os homens são mutuamente causa, como pobreza, prisão, calúnia, opróbrio, vingança, traição, malícia, logro, engano, e tantas outras mais que enumerá-las todas seria aritmética tão embaraçosa quanto contar as areias.
Como a humanidade veio a ser cercada por circunstâncias tão duras, ou que divindade impôs estas pragas como penitência aos mortais rebeldes, não tenho agora vagar para investigar. Mas quem quer que as tome seriamente em consideração deve necessariamente louvar o valor das virgens milesianas, que voluntariamente se mataram para livrar-se de um mundo incômodo. E quantos sábios tomaram o mesmo caminho, tornando-se seus próprios carrascos! Entre eles, para não mencionar Diógenes, Xenócrates, Catão, Cássio, Bruto e outros heróis, nunca é bastante louvado o abnegado Quíron, que, quando Apolo lhe ofereceu o privilégio de ficar isento da morte e viver até o fim do mundo, recusou a proposta sedutora, julgando-a merecidamente castigo antes que recompensa.
Tradução literária em português-BR da sátira filosófica de Erasmo de Roterdã, preparada pelo Literunico a partir de uma edição inglesa em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.
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