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Elogio da Loucura

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Elogio da Loucura

Capítulo 33 · Elogio da Loucura

Parte 33

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Parte 33

Depois dos próprios reis podem vir seus cortesãos, que, embora sejam em sua maior parte uma espécie baixa, servil, rastejante e pusilânime de aduladores, ainda assim fazem cara de importância, inflam-se de grandeza e têm altos pensamentos de sua honra e magnificência. Sua confiança aparece em todas as ocasiões; contudo, numa coisa são muito modestos: contentam-se em adornar o corpo com ouro, joias, púrpura e outros gloriosos emblemas de virtude e sabedoria, mas deixam a mente vazia e desguarnecida; e, tomando para si a semelhança da bondade, transferem aos outros sua verdade e realidade. Julgam-se poderosamente felizes por poderem chamar o rei de senhor e serem admitidos à familiaridade de falar com ele; por poderem recitar voluvelmente seus vários títulos de augusta alteza, supereminente excelência e sereníssima majestade; por poderem introduzir com ousadia qualquer discurso, e por possuírem o perfeito jeito da insinuação e da lisonja; pois estas são as artes que os tornam verdadeiramente gentis e nobres. Se fizerdes investigação mais estrita de seus outros dotes, achá-los-eis meros bêbados e paspalhões. Dormirão geralmente até o meio-dia, e então seus capelães mercenários virão à beira do leito entretê-los talvez com uma breve oração matinal. Assim que se vestem, devem ir ao desjejum, e, terminado este, imediatamente ao jantar. Quando a toalha é retirada, então passam às cartas, aos dados, ao gamão ou a alguma diversão semelhante. Depois disso, devem ter um ou dois banquetes da tarde, e assim, à noite, à ceia. Quando ceiam, começa então o jogo de beber; as garrafas são alinhadas, os copos dispostos em fileiras, e circulam brindes e taças cheias até serem levados para a cama. E este é o método constante de passar suas horas, dias, meses, anos e eras. Muitas vezes tive grande satisfação em postar-me na corte e ver como essas borboletas vistosas competem umas com as outras: as damas medem a altura de seus caprichos pelo comprimento de suas caudas, que devem ser erguidas por um pajem atrás delas. Os nobres se empurram para chegar mais perto do cotovelo do rei, e usam correntes de ouro de tal peso e tamanho que exigem não menos força para carregá-las do que riqueza para comprá-las.

E agora algumas reflexões sobre papas, cardeais e bispos, que em pompa e esplendor quase igualaram, se não ultrapassaram, os príncipes seculares. Ora, se alguém considerar que seu roquete superior de linho branco deve significar sua pureza e inocência sem mancha; que suas mitras bifurcadas, com ambas as divisões atadas pelo mesmo nó, devem denotar o conhecimento conjunto do Antigo e do Novo Testamento; que usarem sempre luvas representa conservarem as mãos limpas e incontaminadas de lucro e cobiça; que o báculo pastoral implica o cuidado de um rebanho confiado ao seu encargo; que a cruz levada diante deles exprime sua vitória sobre todos os afetos carnais; quem considerar isto, digo eu, e muito mais de natureza semelhante, deve necessariamente concluir que lhes foi confiado ofício muito pesado e difícil. Mas, ai de nós, eles julgam suficiente se apenas conseguem alimentar a si mesmos; e, quanto a seu rebanho, ou o recomendam ao cuidado do próprio Cristo, ou o entregam à condução de alguns vigários e curas inferiores; nem sequer se lembrando do que importa seu nome de bispo, a saber: labor, dores e diligência. Mas, por contratos simoníacos vis, são, em sentido profano, Episcopi, isto é, supervisores de seu próprio ganho e rendimento.

Elogio da Loucura

Sinopse

Tradução literária em português-BR da sátira filosófica de Erasmo de Roterdã, preparada pelo Literunico a partir de uma edição inglesa em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.

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