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Elogio da Loucura

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Elogio da Loucura

Capítulo 14 · Elogio da Loucura

Parte 14

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Parte 14

E isto podemos provar por um exemplo familiar. A saber: pode haver alguma espécie de homens que se gozem melhor do que aqueles a quem chamamos idiotas, trocados, tolos e simplórios de nascença? Talvez soe áspero, mas, após devida consideração, ver-se-á que é abundantemente verdadeiro que essas pessoas, em todas as circunstâncias, passam melhor e vivem com mais conforto. Primeiro, são vazias de todo medo, o que é privilégio muito grande de que se estar isento; não são perturbadas por remorso algum, nem por aguilhões da consciência; não se assustam com histórias espantalhosas de outro mundo; não estremecem diante da aparição imaginada de fantasmas ou espectros; não são torturadas pelo pavor de males iminentes, nem arremessadas pelas esperanças de prazeres esperados; em suma, não são assaltadas por todas aquelas legiões de cuidados que fazem guerra à quietude das almas racionais. Não se envergonham de nada, não temem homem algum, banem a inquietação da ambição, da inveja e do amor; e, para acrescentar a reversão de uma felicidade futura ao gozo da presente, também não têm pecado algum por que responder, sustentando unanimemente os teólogos que uma ignorância grosseira e inevitável não apenas atenua e diminui a gravidade, mas expia por completo a culpa de qualquer imoralidade.

Vinde agora, pois, todos vós que reivindicais o respeito de serdes tidos por sábios, confessai ingenuamente quantas insurreições de pensamentos rebeldes e quantas dores de uma mente em trabalho vos arremessam e torturam perpetuamente; enumerai todos aqueles incômodos aos quais estais inevitavelmente sujeitos, e então dizei-me se os tolos, por estarem isentos de todos esses enredos, não são infinitamente mais livres e felizes que vós. Acrescentai a isto que os tolos não riem, cantam e fazem de bons companheiros apenas para si mesmos; mas, como é da natureza do bem ser comunicativo, também comunicam sua alegria aos outros, divertindo toda a companhia em que porventura se encontrem, como se a providência os houvesse designado de propósito por antídoto contra a melancolia. Por isso tornam todas as pessoas tão afeiçoadas à sua sociedade que são bem-vindos em todos os lugares, abraçados, acariciados e defendidos, sendo-lhes dada a liberdade de dizer ou fazer qualquer coisa; são tão bem-amados que ninguém ousa oferecer-lhes a menor injúria; não, até as mais vorazes feras de rapina passam por eles sem tocá-los, como se por instinto fossem advertidas de que tal inocência não deve receber dano. Além disso, sua conversa é tão aceitável na corte dos príncipes que poucos reis banquetearão, passearão ou tomarão qualquer outra diversão sem sua presença; sim, e preferem muito mais sua companhia à de seus conselheiros mais graves, que mantêm mais por decoro do que por afeição. Nem é tão estranho que esses tolos sejam preferidos aos políticos mais sisudos, visto que estes últimos, por seus conselhos ásperos e azedos, e por dizerem a verdade fora de tempo, servem apenas para tirar o príncipe de humor, enquanto os outros riem, falam e gracejam sem perigo algum de desagradar.

Há ainda uma propriedade muito louvável dos tolos: eles sempre dizem a verdade, e nada há mais nobre e heroico que isso. Pois, embora Platão relate como sentença de Alcibíades que no mar da embriaguez a verdade nada à superfície, e assim o vinho seja o único contador da verdade, esse caráter pode ser assumido com mais justiça por mim, como posso comprovar pela autoridade de Eurípides, que estabelece isto como axioma: uwpa uwpos heyei. Crianças e tolos sempre dizem a verdade. O que quer que o tolo tenha no coração, ele o trai no rosto; ou, o que é mais revelador, descobre-o por suas palavras; enquanto o sábio, como observa Eurípides, traz uma língua dupla: uma para dizer o que pode ser dito, outra o que convém; uma para o que é verdade, outra para o que o momento exige. Por meio disso, pode num átimo alterar de tal modo seu juízo que prove ser agora branco aquilo que pouco antes jurara ser negro; como o sátiro diante de sua papa, soprando quente e frio no mesmo fôlego; professando nos lábios uma coisa, quando no coração quer dizer outra.

Além disso, os príncipes, em seu maior esplendor, parecem infelizes por esta razão: perdem a vantagem de ouvir a verdade e são enganados por um bando de cortesãos insinuantes, que se desempenham mais como aduladores do que como amigos. Mas alguns talvez objetem que os príncipes não gostam de ouvir a verdade, e que, portanto, os sábios devem ser muito cautelosos em seu comportamento diante deles, para que não tomem liberdade demasiada em dizer o que é verdadeiro, em vez do que é aceitável. Deve-se confessar isto: a verdade, de fato, raramente é palatável aos ouvidos dos reis; contudo, os tolos têm privilégio tão grande que possuem licença franca não apenas para dizer verdades nuas, mas também as mais amargas; de modo que a mesma repreensão que, se viesse da boca de um sábio, lhe custaria a cabeça, quando escapulida da boca de um tolo é não apenas perdoada, mas bem recebida e recompensada. Pois a verdade possui naturalmente uma mistura de prazer, se nada trouxer consigo de ofensivo à pessoa a quem se aplica; e o feliz talento de ordená-la assim é concedido somente aos tolos. É pela mesma razão que esta espécie de homens é mais ternamente amada pelas mulheres, que gostam que eles as derrubem e brinquem com elas, por mais turbulentos que sejam; fingindo tomar apenas em gracejo aquilo que gostariam que fosse entendido a sério, pois esse sexo é muito engenhoso em paliar e dissimular a inclinação de suas tendências lascivas.

Mas voltemos. Uma felicidade adicional desses tolos aparece ainda nisto: quando correm alegremente até a última etapa da vida, não encontram medo nem sentem dor alguma ao morrer, mas marcham contentes para o outro mundo, onde sua companhia certamente deve ser tão aceitável quanto foi aqui na terra.

Façamos agora uma comparação entre a condição de um tolo e a de um sábio, e vejamos quão infinitamente uma supera a outra.

Elogio da Loucura

Sinopse

Tradução literária em português-BR da sátira filosófica de Erasmo de Roterdã, preparada pelo Literunico a partir de uma edição inglesa em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.

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