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Elogio da Loucura

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Elogio da Loucura

Capítulo 43 · Elogio da Loucura

Parte 43

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Parte 43

Há, entre essas duas espécies de pessoas, muitas diferenças em vários outros aspectos. Primeiro, embora todos os sentidos tenham a mesma relação mútua com o corpo, alguns são mais grosseiros que outros; como aqueles cinco corpóreos: tocar, ouvir, cheirar, ver, provar; ao passo que outros são mais refinados e menos adulterados pela matéria, tais como a memória, o entendimento e a vontade. Ora, a mente será sempre mais pronta e expedita naquilo a que é naturalmente mais inclinada. Daí vem que uma alma piedosa, empregando todo o seu poder e suas habilidades em avançar rumo às coisas mais afastadas dos sentidos, é perfeitamente estúpida e bruta no manejo de quaisquer negócios mundanos; enquanto, por outro lado, o vulgo está tão atento a seus negócios e ocupações que não tem tempo de conceder um pobre pensamento à eternidade futura. De tal ardor de meditação divina procedeu que São Bernardo, em seu estudo, bebesse azeite em vez de vinho, e contudo seus pensamentos estavam tão absorvidos que ele jamais notou o engano.

Além disso, entre as paixões da alma, algumas têm comunicação maior com o corpo que outras; como a luxúria, o desejo de comida e de sono, a ira, o orgulho e a inveja. Com estas, o homem piedoso está em contínua guerra e inimizade irreconciliável, enquanto o vulgo as acaricia e fomenta como os melhores confortos da vida.

Há outros afetos de natureza mediana, comuns e inatos a todo homem; tais são o amor à pátria, o dever para com os pais, o amor aos filhos, a bondade para com os amigos e coisas semelhantes. A estes o vulgo presta algum respeito; mas os religiosos esforçam-se por suplantá-los e erradicá-los da alma, a menos que possam elevá-los e sublimá-los ao grau mais refinado da virtude; de modo a amar ou honrar os pais não simplesmente sob esse caráter — pois que fizeram eles além de gerar um corpo? Sim, mesmo por isso somos primariamente devedores a Deus, primeiro pai de toda a humanidade —, mas apenas como homens bons, sobre os quais está impressa a imagem viva daquela natureza divina que eles estimam como o bem principal e único, para além do qual nada merece ser amado, nada desejado.

Pela mesma regra medem todos os outros ofícios ou deveres da vida; em cada um dos quais tudo quanto for terreno e corpóreo, se não for inteiramente rejeitado, ao menos será posto atrás daquilo que a fé faz ser a substância das coisas não vistas. Assim, nos sacramentos e em todos os outros atos da religião, fazem diferença entre a aparência externa ou corpo deles, e a alma ou espírito mais interior. Por exemplo, no jejum, julgam muito ineficaz abster-se de carne ou privar-se de uma refeição — embora isto seja tudo quanto o vulgo entende por esse dever —, a menos que igualmente refreiem suas paixões, subjuguem sua ira e mortifiquem seu orgulho; para que a alma, assim desembaraçada do enredo do corpo, possa ter melhor sabor pelos objetos espirituais e tomar um antegozo do céu. Assim — dizem eles —, na santa Eucaristia, embora a forma exterior e as cerimônias não devam ser inteiramente desprezadas, contudo são prejudiciais, ou ao menos inúteis, se, como meros sinais, não forem acompanhadas da coisa significada, que é o corpo e o sangue de Cristo; cuja morte, até sua segunda vinda, devemos representar por este meio, vencendo e sepultando nossos afetos vis para que possam erguer-se em novidade de vida e unir-se primeiro uns aos outros, depois todos a Cristo.

Estas são as ações e meditações da pessoa verdadeiramente piedosa; enquanto o vulgo põe toda a sua religião em se apinhar junto ao altar, em escutar as palavras do sacerdote e em ser muito circunspecto na observância de cada cerimônia insignificante. Nem é apenas em casos tais como os que aqui demos por exemplos, mas por todo o curso de sua vida, que o homem piedoso, sem qualquer consideração pelos materiais mais baixos do corpo, se consome inteiramente numa atenção fixa aos objetos espirituais, invisíveis e eternos.

Ora, visto que essas pessoas se afastam e mantêm distância tão larga entre si, é costume que ambas se julguem mutuamente loucas; e, se eu tivesse de dar minha opinião sobre a qual das duas o nome pertence com mais propriedade, confessaria que o adjudicaria aos religiosos; de cuja razoabilidade podeis ficar ainda mais convencidos se eu prosseguir demonstrando aquilo que antes insinuei, a saber, que aquela felicidade última que a religião propõe não é outra coisa senão alguma espécie de loucura.

Elogio da Loucura

Sinopse

Tradução literária em português-BR da sátira filosófica de Erasmo de Roterdã, preparada pelo Literunico a partir de uma edição inglesa em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.

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