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Elogio da Loucura

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Elogio da Loucura

Capítulo 18 · Elogio da Loucura

Parte 18

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Parte 18

Quase todos os cristãos estão miseravelmente escravizados à cegueira e à ignorância, que os sacerdotes estão tão longe de prevenir ou remover que antes enegrecem ainda mais as trevas e promovem a ilusão; prevendo sabiamente que o povo — como as vacas, que nunca dão tão bem o leite como quando são suavemente acariciadas — entregaria menos se soubesse mais, pois sua liberalidade procede apenas de um equívoco de caridade. Ora, se algum grave sábio se levantasse e, fora de tempo, dissesse a verdade, ensinando a cada um que uma vida piedosa é o único caminho para assegurar uma morte feliz; que o melhor título para o perdão de nossos pecados se compra por uma sincera aversão à nossa culpa e firmes resoluções de emenda; que a melhor devoção que se pode prestar a quaisquer santos é imitá-los em sua vida exemplar; se ele procedesse assim, informando-os de seus vários enganos, outro preço inteiramente se daria às lágrimas, vigílias, missas, jejuns e outras severidades, antes tão valorizadas, pois agora as pessoas se afligiriam por perder aquela satisfação que outrora encontravam nelas.

Na mesma categoria dos tolos devem ser classificados aqueles que, ainda vivos e em boa saúde, tomam tão grande cuidado com a maneira como serão enterrados ao morrer, que ordenam solenemente quantas tochas, quantos escudos funerários, quantas luvas serão dadas e quantos carpidores terão em seu funeral; como se pensassem que eles próprios, dentro de seus caixões, pudessem ser sensíveis ao respeito prestado a seus cadáveres; ou como se duvidassem que haveriam de repousar um pouco menos tranquilos no túmulo caso fossem enterrados com menos aparato e pompa.

Ora, embora eu esteja com tanta pressa que de bom grado não gostaria de ser detida ou retardada, não posso passar adiante sem conceder algumas observações a outra espécie de tolos; os quais, embora sua primeira descendência talvez não seja melhor que a de um taberneiro ou funileiro, ainda assim se estimam enormemente por seu nascimento e parentela. Um vai buscar sua linhagem em Eneias; outro, em Bruto; um terceiro, no rei Artur. Penduram os retratos roídos de vermes de seus antepassados como registros de antiguidade, e mantêm uma longa lista de seus predecessores, com a enumeração de todos os seus cargos e títulos, enquanto eles próprios não passam de transcrições das mudas estátuas de seus avós, e degeneram até nos próprios animais que trazem no brasão como insígnias de sua nobreza. E, contudo, por uma forte presunção de nascimento e qualidade, não apenas vivem eles mesmos da maneira mais agradável e despreocupada, como tampouco faltam outros que elevem esses brutos quase à altura dos deuses. Mas por que deveria eu demorar-me em um ou dois exemplos de Loucura, quando há tantos de igual natureza? A presunção e o amor-próprio fazem muitos, pela força da fantasia, crerem-se felizes, quando na realidade são miseráveis e desprezíveis. Assim, o sujeito mais feio e de rosto mais simiesco de toda a cidade se julgará um espelho de beleza; outro será tão orgulhoso de seus talentos que, se consegue apenas traçar um triângulo com um compasso, pensa ter dominado todas as dificuldades da geometria e poder superar o próprio Euclides. Um terceiro se admirará como músico arrebatador, embora não tenha mais habilidade no manejo de qualquer instrumento que um porco tocando órgão; e outro, que chocalha a garganta tão roucamente quanto o canto de um galo, orgulhar-se-á de sua voz e pensará cantar como um rouxinol.

Há outra espécie muito agradável de loucura, pela qual as pessoas atribuem a si mesmas qualquer qualidade que percebam nos outros. Assim aquele feliz ricaço rústico de Sêneca, que tinha memória tão curta que não podia contar a mais simples história sem um criado ao lado para soprar-lhe as palavras, e ao mesmo tempo era tão fraco que mal conseguia andar direito, ainda assim julgava poder aventurar-se a aceitar um desafio para duelo, porque mantinha em casa alguns sujeitos vigorosos e robustos, em cuja força confiava em lugar da sua.

É quase desnecessário insistir nos vários professores de artes e ciências, todos tão egregiamente presunçosos que antes abririam mão de seu título sobre uma propriedade em terras do que da reversão de seus talentos; entre estes, mais especialmente, atores de palco, músicos, oradores e poetas, cada um dos quais, quanto mais burrice possui, e quanto mais orgulho, maior é sua ambição. E, por mais notoriamente obtusos que sejam, encontram seus admiradores; sim, quanto mais tolos são, mais alto são exaltados, pois a Loucura — como já insinuamos — nunca deixa de receber respeito e estima. Se, portanto, cada um, quanto mais ignorante é, maior satisfação dá a si mesmo e mais é louvado pelos outros, para que suar e labutar na busca do verdadeiro saber, que custará tantos espasmos e dores ao cérebro para ser adquirido, e, uma vez obtido, apenas tornará o estudante laborioso mais inquieto consigo mesmo e menos agradável aos demais?

Elogio da Loucura

Sinopse

Tradução literária em português-BR da sátira filosófica de Erasmo de Roterdã, preparada pelo Literunico a partir de uma edição inglesa em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.

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