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Elogio da Loucura

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Elogio da Loucura

Capítulo 39 · Elogio da Loucura

Parte 39

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Parte 39

É uma imitação do mesmo modelo, eu vos garanto, que nossos jovens teólogos, deixando de fora quatro ou cinco palavras numa passagem, e pondo uma falsa construção sobre o restante, consigam tornar qualquer trecho útil a seu próprio propósito; embora, pela coerência do que veio antes ou se segue depois, o sentido genuíno pareça ou bastante amplo, ou talvez inteiramente contrário ao que eles desejariam nele enfiar e impor. Neste artifício os teólogos tornaram-se agora tão peritos que os próprios advogados começam a ficar ciumentos de uma invasão daquilo que antes era seu privilégio e prática exclusivos. E, de fato, que podem eles desesperar de provar, já que o comentador acima mencionado — quase me escapou seu nome, mas sou contida pelo medo do mesmo sarcasmo proverbial grego — pôs sobre um texto de São Lucas uma interpretação não mais conforme ao sentido do lugar do que uma qualidade contrária o é a outra? A passagem é esta: quando a traição de Judas se preparava para ser executada e, por conseguinte, parecia necessário que todos os discípulos estivessem providos para guardar e proteger seu Mestre assaltado, nosso Salvador, para adverti-los piedosamente contra a confiança em qualquer força mundana para sua libertação, pergunta-lhes se em toda a sua embaixada lhes faltara alguma coisa, quando os enviara tão desguarnecidos para a realização de uma longa jornada que não tinham sequer sapatos para defender os pés das injúrias das pedras e espinhos, nem bolsa para levar uma refeição; e, quando eles responderam que nada lhes faltara, acrescenta: Mas agora aquele que tem bolsa, tome-a, e também alforje; e aquele que não tem espada, venda a sua veste e compre uma. Ora, quando toda a doutrina de nosso Salvador nada inculca mais frequentemente que mansidão, paciência e desprezo deste mundo, não é claro qual é o sentido da passagem? A saber: para que pudesse agora despedir seus embaixadores em condição mais nua e indefesa, ele não apenas os aconselha a não se preocuparem com sapatos ou alforje, mas até lhes ordena que se desfaçam das próprias roupas das costas, para que tenham menos embaraço e enredamento ao cumprir seu ofício e função. Adverte-os, é verdade, a se munirem de uma espada; contudo, não de uma espada carnal, como usam malfeitores e salteadores para assassinato e derramamento de sangue, mas da espada do Espírito, que penetra o coração e esquadrinha os retiros mais íntimos da alma, podando toda a nossa luxúria e afetos corruptos, e deixando nada em posse de nosso peito senão piedade, zelo e devoção. Esta, digo eu, em minha opinião, é a interpretação mais natural.

Mas vede como aquele teólogo entende mal o lugar: por espada — diz ele — entende-se defesa contra perseguição; por alforje ou bolsa, quantidade suficiente de provisão; como se Cristo, considerando melhor o caso, houvesse mudado de ideia em referência àquela pobre equipagem com que antes enviara seus discípulos, e por isso viesse agora retratar-se do que anteriormente instituíra; ou como se houvesse esquecido o que outrora lhes dissera: Bem-aventurados sois quando os homens vos injuriarem, vos perseguirem e disserem todo mal contra vós por minha causa. Não retribuais mal por mal, pois bem-aventurados são os mansos, não os cruéis; como se houvesse esquecido que os encorajou, pelos exemplos dos pardais e dos lírios, a não se preocuparem com o amanhã. Agora lhes dá outra lição e lhes ordena que, antes de irem sem espada, vendam sua veste e comprem uma; como se andar com frio e nu fosse mais desculpável do que marchar desarmado. E, assim como esse autor julga implicados sob o nome de espada todos os meios requeridos para a prevenção ou retaliação de injúrias, também sob o de alforje deseja que se compreenda tudo quanto a necessidade ou a conveniência da vida requer.

Assim esse previdente comentador equipa os discípulos com alabardas, lanças e arcabuzes para a empresa de pregar Cristo crucificado; ao mesmo tempo, supre-os de bolsos, sacolas e malas, para que pudessem sempre levar consigo seus armários tanto quanto seus ventres. Não toma nota de como nosso Salvador, depois, repreende Pedro por desembainhar aquela espada que pouco antes, segundo ele, tão rigorosamente lhe ordenara comprar; nem de que jamais se registra que os cristãos primitivos tenham resistido de algum modo a seus perseguidores pagãos senão com lágrimas e orações, que teriam trocado com mais eficácia por espadas e broquéis se tivessem pensado que este texto lhes daria amparo.

Há outro, e de não pequeno crédito, a quem, por respeito à sua pessoa, deixarei de nomear, que, comentando aquele versículo do profeta Habacuque — Vi as tendas de Cusã em aflição, e tremeram as cortinas da terra de Midiã —, porque as tendas eram às vezes feitas de peles, pretendeu que a palavra tendas significava aqui a pele de São Bartolomeu, que foi esfolado como mártir.

Elogio da Loucura

Sinopse

Tradução literária em português-BR da sátira filosófica de Erasmo de Roterdã, preparada pelo Literunico a partir de uma edição inglesa em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.

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