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Elogio da Loucura

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Elogio da Loucura

Capítulo 29 · Elogio da Loucura

Parte 29

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Parte 29

Além disso, fazem tantas repartições e divisões no inferno e no purgatório, e descrevem tantas diferentes espécies e graus de castigo, como se estivessem muito bem familiarizados com o solo e a situação daquelas regiões infernais. E, para preparar no alto uma morada aos bem-aventurados, inventam novos orbes e um majestoso céu empíreo, tão vasto e espaçoso como se o houvessem planejado de propósito para que os santos glorificados tivessem bastante lugar para passear, banquetear-se ou tomar qualquer recreação.

Com estas e mil outras ninharias semelhantes, têm a cabeça mais atulhada e inchada que Jove, quando andava prenhe de Palas no cérebro e foi forçado a recorrer à parteira do machado de Vulcano para aliviar-se de sua carga fecunda.

Não vos maravilheis, portanto, de que, nas disputas públicas, prendam a cabeça com tantos barretes, uns sobre os outros; pois isto é para impedir a perda dos miolos, que de outro modo irromperiam de seu incômodo confinamento. Também oferece uma cena agradável de riso escutar esses teólogos em suas disputas acaloradamente conduzidas; ver como se orgulham de falar tão duro algaraviar e de gaguejar distinções tão desastradas, que os ouvintes talvez por vezes contemplem boquiabertos, mas raramente compreendem. E tomam tal liberdade ao falar latim que desdenham deter-se na exatidão da sintaxe ou da concordância; pretendendo que está abaixo da majestade de um teólogo falar como pedagogo e ficar preso à observância servil das regras da gramática.

Finalmente, têm enorme orgulho, entre outras citações, em alegar a autoridade de seu respectivo mestre, palavra à qual prestam respeito tão profundo quanto os judeus prestavam ao seu inefável tetragrammaton; e, por isso, terão o cuidado de nunca escrevê-la senão em letras grandes: MAGISTER NOSTER. E, se alguém acaso inverter a ordem das palavras e disser noster magister em vez de magister noster, logo clamarão contra ele como herege pestilento e solapador da fé católica.

Depois destes vêm outra espécie de tolos de cérebro enfermo, que se intitulam monges e membros de ordens religiosas, embora assumam ambos os títulos com grande injustiça: pois, quanto ao último, têm muito pouca religião em si; e, quanto ao primeiro, a etimologia da palavra monge implica solidão, ou estar só, ao passo que eles são tão numerosos por toda parte que não podemos passar por rua ou viela alguma sem encontrá-los. Ora, não posso imaginar que classe de homens seria mais desesperadamente miserável, se eu não me pusesse como sua amiga e não os mantivesse à tona naquele lago de miséria em que, pelos compromissos de um voto sagrado, eles voluntariamente se mergulharam. Mas, quando esta espécie de homens é tão mal-vinda aos outros que a própria vista deles é tida por agourenta, ainda assim eu os faço altamente enamorados de si mesmos e afetuosos admiradores da própria felicidade. O primeiro passo para isso eles estimam ser uma profunda ignorância, julgando o conhecimento carnal grande inimigo de seu bem-estar espiritual, e parecem confiantes de se tornarem maiores proficientes nos mistérios divinos quanto menos envenenados estiverem por qualquer saber humano. Imaginam que fazem doce concerto com o coro celeste quando entoam sua conta diária de salmos, que recitam apenas de cor, sem permitir que seu entendimento ou seus afetos acompanhem a voz. Entre estes, alguns fazem bom e proveitoso comércio da mendicância, indo de casa em casa, não como os apóstolos, para partir, mas para pedir o pão; sim, metem-se em todas as tavernas, sobem a bordo dos barcos de passagem, entram nas carroças de viagem e não omitem oportunidade alguma de tempo ou lugar para solicitar a caridade alheia; causando grande prejuízo aos mendigos comuns das estradas por intrometerem-se em seu tráfico de esmolas. E, quando assim são voluntariamente pobres, destituídos, não providos de duas túnicas, nem de dinheiro algum na bolsa, têm a impudência de pretender que imitam os primeiros discípulos, a quem seu Mestre expressamente enviou em tal equipagem. É bonito observar como regulam todas as suas ações, por assim dizer, a peso e medida, em proporção tão exata como se toda a perda de sua religião dependesse da omissão do menor pontilho. Assim, devem ser muito críticos quanto ao número preciso de nós para amarrar suas sandálias; quais as cores distintas de seus respectivos hábitos, e de que tecido feitos; quão largos e compridos seus cíngulos; quão grandes, e de que feitio, seus capuzes; se suas coroas tonsuradas estão, por um fio de cabelo, no corte correto; quantas horas devem dormir, em que minuto erguer-se para as preces, etc. E esses vários costumes se alteram conforme os humores de diferentes pessoas e lugares. Enquanto estão juramentados à observância supersticiosa dessas ninharias, não apenas desprezam todos os outros, mas são muito inclinados a desentender-se entre si; pois, embora façam profissão de caridade apostólica, ainda assim arranjarão querela e se tornarão implacavelmente passionais por provocações tão pobres como cingir uma túnica pelo lado errado, usar roupas de cor um pouco escura demais, ou qualquer sutileza semelhante que nem merece ser mencionada.

Elogio da Loucura

Sinopse

Tradução literária em português-BR da sátira filosófica de Erasmo de Roterdã, preparada pelo Literunico a partir de uma edição inglesa em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.

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