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Elogio da Loucura

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Elogio da Loucura

Capítulo 23 · Elogio da Loucura

Parte 23

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Parte 23

Mas alto lá; eu apenas me exporia demais e incorreria na culpa de ser redondamente ridicularizada se prosseguisse a enumerar as várias espécies de loucura do vulgo. Portanto, limitarei meu discurso seguinte apenas àqueles que reivindicam a reputação de sabedoria e, em aparência, passam por homens dos mais sólidos intelectos. Entre estes, os gramáticos se apresentam na linha de frente, espécie de homens que seriam os mais miseráveis, os mais servis e os mais odiosos de todos, se eu não aliviasse de algum modo os pesos e misérias de sua profissão, abençoando-os com uma espécie encantadora de loucura; pois eles não estão sujeitos apenas àquelas cinco maldições que tantas vezes recitam dos cinco primeiros versos de Homero, mas a quinhentas outras de pior natureza: condenados sempre à sede e à fome, a serem sufocados pela poeira em suas escolas nunca varridas — escolas, hei de chamá-las, ou antes oficinas de suplício, ou mesmo casas de correção e cárceres? —, a se consumirem em irritação e labuta; a ficarem surdos com o ruído dos meninos boquiabertos; e, em suma, a serem asfixiados pelo calor e pelo mau cheiro. E, contudo, eles alegremente se acomodam a todos esses incômodos e, com o auxílio de uma presunção querida, julgam-se tão felizes quanto quaisquer homens vivos, tomando grande orgulho e deleite em franzir o cenho e fazer cara de importância diante dos moleques trêmulos, em esbofeteá-los, retalhá-los, golpeá-los com a palmatória e exercer todos os seus outros métodos de tirania. Enquanto assim senhoreiam um bando de pequenos fedelhos jovens e fracos, imitam o asno cumeano e julgam-se tão majestosos quanto um leão que domina todo o rebanho inferior. Elevados por essa presunção, podem tomar a imundície e a sordidez por ornamento; podem reconciliar o nariz com os odores mais intoleráveis; e, por fim, considerar sua miserável servidão como o mais absoluto dos reinos, que não trocariam pela jurisdição do mais soberano potentado. E são ainda mais felizes por uma forte persuasão de seus próprios dotes e capacidades; pois assim, quando seu ofício é apenas repetir histórias tolas e ficções poéticas, ainda se julgam mais sábios que o filósofo mais experimentado; sim, têm a arte de fazer com que pessoas ordinárias, como os pais babosos de seus alunos, os considerem tão importantes quanto seu próprio orgulho os fez crer que são. Acrescentai a isto outra espécie de prazer arrebatador: quando algum deles descobriu quem foi a mãe de Anquises, ou topou com alguma palavra antiga e incomum, como bubsequa, bovinator, manticulator, ou outros termos obsoletos e emperrados semelhantes; ou consegue, depois de muito debruçar-se, decifrar a inscrição de algum monumento maltratado, Senhor! Que júbilo, que triunfo, que congratulações por seu sucesso, como se houvessem conquistado a África ou tomado Babilônia, a Grande! Quando recitam alguns de seus versos espumosos e bombásticos, se alguém acaso os admira, inflamam-se de imediato ao menor indício de louvor e devotamente agradecem a Pitágoras por sua grata hipótese, pela qual estão agora animados por uma descida da alma poética de Virgílio. Nem há divertimento mais agradável do que quando se reúnem para lisonjear-se e afagar-se mutuamente; contudo, são tão críticos que, se algum deles por acaso comete o menor deslize ou aparente engano, outro logo o corrigirá por isso, e então lá vão eles a um combate de línguas, com todo o fervor, rancor e avidez imagináveis. Que o próprio Prisciano seja meu inimigo se o que agora vou dizer não for exatamente verdadeiro. Conheci um velho sofista que era grego, latinista, matemático, filósofo, músico, e tudo isso na mais alta perfeição, o qual, depois de sessenta anos de experiência no mundo, passara os últimos vinte deles apenas mourejando para vencer as críticas da gramática, e fazia a parte principal de suas preces que sua vida fosse poupada por tanto tempo quanto bastasse para aprender a distinguir corretamente entre as oito partes do discurso, coisa que nenhum gramático, fosse grego ou latino, ainda fizera com exatidão. Se alguém, por acaso, pôs como conjunção aquilo que deveria ser usado como advérbio, é alarme suficiente para levantar uma guerra em nome da justiça à palavra injuriada. E, visto que houve tantas gramáticas quantos gramáticos particulares — ou antes, mais, pois Aldo sozinho escreveu cinco gramáticas distintas por sua própria conta —, o mestre-escola deve ser obrigado a consultá-las todas, sem poupar tempo nem trabalho, por maior que seja, para que não seja surpreendido por alguma crítica despercebida e assim, por desonra irreparável, perca a recompensa de todo o seu esforço. Pouco me importa se chamais isto de loucura ou de demência, pois deveis confessar necessariamente que é por minha influência que esses tiranos escolares, por mais desprezível que seja sua condição, são tão felizes em seus próprios pensamentos que não trocariam de fortuna com o mais ilustre Sofi da Pérsia.

Os poetas, embora um tanto menos obrigados a mim, confessam uma dependência professada de minha pessoa, sendo uma espécie de sujeitos sem lei que, por costume, reivindicam uma licença proverbial, enquanto todo o intento de sua profissão é apenas alisar e fazer cócegas nos ouvidos dos tolos; os quais, por meros brinquedos e imposturas fabulosas, com que — por mais ridículas que sejam — se veem tão sustentados numa imaginação aérea, prometem a si mesmos um nome eterno e prometem, por sua algaravia, celebrar ao mesmo tempo a memória imorredoura de outros. Para esses engenhos arrebatados, o amor-próprio e a lisonja são acompanhantes infalíveis; nem há quem se prove devoto mais zeloso ou constante da Loucura.

Também os retóricos, embora ambicionem ser classificados entre os filósofos, são manifestamente de minha facção, como se vê, entre outros argumentos, mais especialmente por este: entre seus vários tópicos para completar a arte da oratória, todos insistem particularmente no jeito de gracejar, que é uma espécie de loucura; como fica evidente nos livros de oratória escritos a Herênio, postos entre as obras de Cícero, mas feitos por algum outro autor desconhecido; e em Quintiliano, aquele grande mestre da eloquência, há um extenso capítulo dedicado a prescrever os métodos de provocar riso. Em suma, bem podem atribuir grande eficácia à loucura, visto que, em qualquer argumento, muitas vezes conseguem, por uma leve risada, passar por cima daquilo que jamais poderiam refutar seriamente.

Elogio da Loucura

Sinopse

Tradução literária em português-BR da sátira filosófica de Erasmo de Roterdã, preparada pelo Literunico a partir de uma edição inglesa em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.

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