Leia agora
Elogio da Loucura

Universo da obra

Elogio da Loucura

Capítulo 44 · Elogio da Loucura

Parte 44

44 de 45 ≈ 6 min de leitura

Parte 44

Primeiro, portanto, Platão sonhou algo dessa natureza quando nos diz que a loucura dos amantes era, entre todas as disposições do corpo, a mais desejável; pois aquele que uma vez é inteiramente ferido por essa paixão já não vive dentro de si, mas transferiu sua alma para o mesmo lugar onde fixou seus afetos, e perde a si mesmo para encontrar o objeto que tanto adora. Ora, esse extravio e vaguear de uma alma para fora de sua própria morada, que é melhor que um claro transporte de loucura? Que outro pode ser o sentido daquelas frases proverbiais: non est apua se, não está em si; ad te redi, volta a ti; e sibi redditus est, voltou a si? E, conforme o amor é mais ardente e ansioso, tanto mais incurável é a loucura que dele decorre, e contudo tanto mais feliz. Ora, que será aquela felicidade futura dos santos glorificados, pela qual as almas piedosas aqui na terra tão ardentemente gemem, senão que o espírito, como vencedor mais potente e prevalecente, sobrepujará e tragará o corpo; e isso tanto mais facilmente porque, aqui embaixo, os vários membros, por terem sido mortificados e mantidos em sujeição, foram mais bem preparados para essa mudança separadora; e, depois, o próprio espírito será perdido e afogado no abismo da visão beatífica, de tal modo que o homem inteiro estará então perfeitamente além de todos os seus próprios limites, e não será feliz de outro modo senão quando, transportado em êxtase e maravilha, sentir alguma influência indizível daquele Ser onipotente, que torna todas as coisas completamente bem-aventuradas ao assimilá-las à sua própria semelhança. Ora, embora essa felicidade só seja então consumada, quando as almas, na ressurreição geral, forem reunidas a seus corpos, e ambos revestidos de imortalidade; contudo, porque a vida religiosa não passa de uma meditação contínua sobre as alegrias do céu, e como que uma transcrição delas, concede-se a tais pessoas algum sabor e antegozo, já aqui, daquele prazer que há de ser sua recompensa depois. E, embora isto, de fato, não seja senão pequena porção de satisfação em comparação com aquela futura fonte inexaurível de bem-aventurança, ainda assim supera abundantemente todos os deleites mundanos, ainda que todos juntos fossem postos em seu maior esplendor; tão grande é a precedência das coisas espirituais sobre as corpóreas, das invisíveis sobre as materiais e visíveis. É isto que o apóstolo descreve eloquentemente quando diz, por modo de encorajamento, que o olho não viu, nem o ouvido ouviu, nem entrou no coração do homem conceber aquelas coisas que Deus preparou para os que o amam.

Esta é igualmente aquela melhor parte que Maria escolheu, que não lhe será tirada, mas aperfeiçoada e completada quando seu mortal se revestir de imortalidade.

Ora, aqueles que são assim devotamente afetados — embora poucos haja tais — sofrem uma estranha alteração, que se aproxima muitíssimo da loucura; dizem muitas coisas de modo abrupto e incoerente, como se fossem movidos por algum demônio que os possuísse; emitem ruído inarticulado, sem sentido ou significado distinguível; às vezes torcem e distorcem o rosto em expressões esquisitas e grotescas; ora estão alegre além de toda medida, ora imoderadamente sombrios; agora soluçando, depois rindo, e logo em seguida suspirando, como se estivessem perfeitamente transtornados e fora dos sentidos. Se têm algum intervalo sóbrio em que tornam a si mesmos, então, como São Paulo, confessam que foram arrebatados não sabem para onde, se no corpo ou fora do corpo, não podem dizer; como se estivessem em sono morto ou transe, nada recordam do que ouviram, viram, disseram ou fizeram. Isto apenas sabem: que sua ilusão passada foi uma felicidade sumamente desejável; e que, portanto, nada lamentam mais que a perda dela, nem desejam alegria maior que seu pronto retorno e sua permanência mais duradoura para sempre. E isto, como já disse, é o antegozo ou antecipação da bem-aventurança futura.

Mas temo ter-me esquecido de mim mesma e já ter transgredido os limites da modéstia. Contudo, se eu disse alguma coisa com confiança ou impertinência excessiva, dignai-vos considerar que foi dita pela Loucura, e sob a pessoa de uma mulher; mas, ao mesmo tempo, lembrai a aplicabilidade daquele provérbio grego:

Um tolo muitas vezes diz uma verdade oportuna.

A menos que sejais tão espirituosos a ponto de objetar que isso não me serve de apologia, porque a palavra aunp significa homem, não mulher, e, consequentemente, meu sexo me exclui do benefício dessa observação.

Percebo agora que, como mimo conclusivo, esperais um epílogo formal e o resumo de tudo numa breve recitação; mas eu vos asseguro que estais grosseiramente enganados se supondes que, depois de tamanha mistura e confusão de discurso, eu seria capaz de recordar alguma coisa que proferi. Além disso, assim como é velho provérbio: Odeio companheiro de copo que tem boa memória; também, com igual verdade, posso dizer: Odeio ouvinte que leve consigo alguma coisa. Portanto, em suma:

Adeus! Vivei longamente, bebei fundo, sede joviais,
Ó ilustríssimos votários da Loucura!

UM POEMA SOBRE A OBRA PRECEDENTE.

Não há na cidade um só sujeito de honra,
Que, se acaso o chamais de tolo e palhaço,
Logo satisfação reclama, e depressa
Tempo, lugar e comprimento da espada se decretam.
Prodigiosos janotas, juro, que não concordam
Em ser chamados aquilo em que consiste sua felicidade:
Benditos idiotas!
Que em humilde esfera se movem seguros,
E ali provam os doces de uma segura obtusidade,
Nem invejam as alturas orgulhosas dos que vagam acima.
A Loucura, amiga certa de uma vontade extraviada,
Oferece gentil desculpa ao mal praticado;
E Sócrates, aquele prudente instrumento pensante,
Se os deuses o estimassem, teria provado ser tolo.
Parece-me que nosso autor, quando sem defeito
Desenha as graças de sua senhora,
Deseja — se a Metempsicose for verdadeira,
E as almas mudam de condição e tornam a agir —,
Que na próxima vida apenas pudesse aspirar
Aos poucos miolos de algum suave fidalgo rural,
Cuja cabeça se enche de rudimentos tais
Como, em sua juventude, lhe ensinou a cuidadosa avó.

Elogio da Loucura

Sinopse

Tradução literária em português-BR da sátira filosófica de Erasmo de Roterdã, preparada pelo Literunico a partir de uma edição inglesa em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.

Elogio da Loucura

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Elogio da Loucura

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de Elogio da Loucura

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Elogio da Loucura Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 44 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Elogio da Loucura

Todos os capítulos 45 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir