Leia agora
Elogio da Loucura

Universo da obra

Elogio da Loucura

Capítulo 3 · Elogio da Loucura

Parte 03

3 de 45 ≈ 6 min de leitura

Parte 03

Por exemplo, em primeiro lugar, que pode haver mais caro e precioso do que a própria vida? E, contudo, por ela ninguém é devedor senão a mim somente. Pois não é a lança de Palas, nascida da cabeça, nem o broquel de Jove, ajuntador de nuvens, que multiplica e propaga o gênero humano; mas sim meu recreio brincalhão e cócegante, que precedeu os velhos e carrancudos filósofos, e aqueles que hoje lhes ocupam o lugar, os monges e frades mortificados; bem como reis, sacerdotes e papas, e mesmo toda a tribo dos deuses poéticos, que por fim se tornaram tão numerosos que, no acampamento do céu — por mais espaçoso que seja —, se acotovelam por um pouco de lugar. Mas não basta ter feito parecer que sou a fonte e a origem de toda a vida, se eu não mostrar igualmente que todos os benefícios da vida estão também à minha disposição. E que benefícios são esses? Ora, pode-se dizer propriamente que vive alguém a quem se nega o prazer? Haveis de dar-me vosso assentimento; pois não há, que eu saiba, entre vós, ninguém tão sábio — direi eu? — ou tão tolo que seja de opinião contrária. Os estoicos, é verdade, desprezam o prazer e fingem bani-lo; mas isso não passa de um artifício dissimulado, e de pôr o vulgo de mal com ele, para que possam mais tranquilamente açambarcá-lo para si. Mas desafio-os agora a confessar que fase da vida não é melancólica, apagada, cansativa, tediosa e incômoda, se não a temperarmos com o prazer, esse hautgoust da Loucura. Da verdade disso é autoridade bastante Sófocles, nunca suficientemente louvado, que me dá o mais alto caráter naquela sentença sua:

Nada saber é a vida mais doce.

Ainda assim, deixando isto de parte, examinemos o caso mais de perto. Quem não sabe que a primeira cena da infância é de longe a mais agradável e deleitosa? Que há, então, nas crianças, que nos faz beijá-las, abraçá-las e brincar com elas, e que faz com que o mais sanguinário inimigo mal tenha coração para feri-las, senão seus ingredientes de inocência e Loucura, com os quais a natureza, por previdência, compôs e temperou de propósito a tenra infância delas, para que, por um franco retorno de prazer, pudessem dar alguma espécie de compensação pelo trabalho de seus pais, e oferecer, por assim dizer, caução para o dispêndio de uma futura educação? O avanço seguinte à meninice é a juventude; e com que favor é ela tratada! Quão benignos, corteses e respeitosos são todos para com ela! E quão prontos a lhe prestar serviço em todas as ocasiões! E donde colhe ela essa felicidade? Donde, com efeito, senão de mim somente, por cuja intervenção é provida de pouca sabedoria e, por isso, de menor inquietação? E quando, uma vez, os rapazes começam a crescer e a tentar fazer-se homens, logo decai sua graça, esmorece seu viço, estagnam seus humores, cessa sua jovialidade, e seu sangue esfria; e quanto mais avançam em anos, tanto mais recuam no gozo de si mesmos, até que lhes chega a velhice irritadiça, fardo para si e para os outros, e fardo tão pesado e opressivo que ninguém suportaria seu peso, se não fosse por piedade de seus padecimentos. Intervenho eu novamente, e estendo uma mão auxiliadora, socorrendo-os no extremo aperto, do mesmo modo como os poetas fingem que seus deuses socorrem os homens moribundos, transformando-os em novas criaturas; o que faço reconduzindo-os, depois de terem já um pé na cova, à infância outra vez. De sorte que há muita verdade encerrada naquele velho provérbio: Uma vez velho, duas vezes criança. Ora, se alguém tem curiosidade de entender que caminho tomo para efetuar tal alteração, meu método é este: levo-os ao meu poço do esquecimento — cuja fonte fica nas Ilhas Afortunadas, sendo o rio Letes, no inferno, apenas um pequeno regato dele —, e, depois que ali encheram bem o ventre e afogaram a preocupação, pela virtude e operação disso tornam-se novamente jovens.

Sim, mas — direis vós — eles apenas caducam e fazem papel de tolos. Pois sim: é justamente isso que entendo por tornarem-se jovens outra vez. Pois que outra coisa é ser criança senão ser tolo e idiota? É ser assim que torna essa idade tão aceitável; pois quem não considera algo agourento ver um menino dotado da discrição de um homem? E por isso, para refrear talentos demasiado precoces, temos um provérbio depreciativo: Cedo maduro, cedo podre. E ainda: quem quereria fazer companhia ou ter qualquer trato com um velho veterano que, depois do desgaste e do tormento de tantos anos, continuasse de cabeça tão clara e juízo tão são quanto tivera em qualquer tempo de sua meia-idade? Por isso é grande bondade minha que os velhos se tornem tolos, já que somente assim se libertam de tais vexames, que os atormentariam se fossem mais sábios: podem beber com vivacidade, sustentar-se com valentia e passar de leve por tais enfermidades que uma constituição muito mais forte mal conseguiria dominar. Às vezes, como o velho companheiro de Plauto, são levados de volta à cartilha, para aprender a soletrar sua sorte no amor.

Miserabilíssimos seriam, necessariamente, se tivessem juízo bastante para sentir sua dura condição; mas, com minha assistência, levam tudo a bom termo e, perante seus respectivos amigos, mostram-se bons, sociáveis e joviais companheiros. Assim Homero faz do velho Nestor um orador célebre, de língua lisa e untuosa, enquanto a fala de Aquiles era apenas áspera, rude e hesitante; e o mesmo poeta, em outra parte, nos fala de velhos que se sentavam sobre as muralhas e discursavam com grande ornato e elegância. E nesse ponto, de fato, superam e ultrapassam as crianças, que são bastante adiantadas numa tagarelice suave e inocente, mas, fora isso, têm a língua demasiado presa e carecem do ornamento mais aceitável dos outros: uma loquacidade perpétua. Acrescentai a isto que os velhos gostam de brincar com crianças, e as crianças se deleitam igualmente com eles, para verificar o provérbio de que aves da mesma plumagem voam juntas. E, com efeito, que diferença se pode discernir entre eles, senão que um está mais sulcado de rugas e viu um pouco mais do mundo que o outro? Pois, quanto ao mais, seus cabelos esbranquiçados, a falta de dentes, a pequenez da estatura, a dieta de leite, as coroas calvas, o tagarelar, o brincar, a memória curta, o descuido e todos os demais dotes concordam exatamente; e quanto mais avançam em anos, tanto mais se aproximam de volta do berço, até que, como crianças de fato, por fim deixam o mundo sem qualquer remorso pela perda da vida ou senso das pontadas da morte.

Elogio da Loucura

Sinopse

Tradução literária em português-BR da sátira filosófica de Erasmo de Roterdã, preparada pelo Literunico a partir de uma edição inglesa em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.

Elogio da Loucura

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Elogio da Loucura

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de Elogio da Loucura

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Elogio da Loucura Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 3 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Elogio da Loucura

Todos os capítulos 45 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir