Universo da obra
Universo da obra
E agora que alguém compare a excelência de meu poder metamorfoseador com aquele que Ovídio atribui aos deuses. Suas estranhas façanhas em algumas paixões embriagadas omitiremos, em favor de seu crédito, e tomaremos por exemplo apenas aquelas pessoas a quem eles fingem grande afeição: a estas transformaram em árvores, aves, insetos e, por vezes, serpentes. Mas, ai de nós, a própria mudança delas em alguma outra coisa já prova a destruição do que antes eram; ao passo que eu posso restituir o mesmo homem numérico ao seu estado primitivo de juventude, saúde e vigor. Sim, e mais ainda: se os homens apenas consultassem em tal medida o próprio interesse, a ponto de descartar todos os pensamentos de sabedoria e entregar-se inteiramente à minha guia e condução, a velhice seria um paradoxo, e os anos de cada homem uma primavera perpétua. Pois vede como vossos estudantes duros e laboriosos, pelo estreito confinamento sedentário junto aos livros, tornam-se atoleimados, pálidos e esquálidos, como se, por uma contínua tortura dos miolos e suplício da invenção, suas veias fossem bombeadas até secar, e todo o corpo espremido até ficar sem seiva; enquanto meus seguidores são lisos, roliços e viçosos, e de todo tão robustos quanto porcos cevados ou bezerros de leite, jamais detidos, em sua carreira de prazer, pela velhice, se apenas conseguissem manter-se incontaminados do contágio da sabedoria, com cuja lepra, se em algum momento são infectados, é apenas por prevenção, para que de outro modo não fossem felizes demais.
Para confirmação mais ampla da verdade do que precede, confessa-se por todos os lados que a Loucura é o melhor preservativo da juventude e o antídoto mais eficaz contra a idade. E é observação que nunca falha, feita a respeito do povo de Brabante, que, ao contrário do provérbio Mais velho, mais sábio, quanto mais antigos se tornam, mais loucos são; e não há país algum cujos habitantes se gozem melhor e atravessem o mundo com mais facilidade e sossego. A estes estão estreitamente aparentados, tanto por afinidade de costumes como por vizinhança, meus amigos holandeses; meus posso bem chamá-los, pois se apegam a mim tão estreita e amorosamente que se tornaram proverbiais como loucos, e ainda assim desdenham envergonhar-se de seu nome. Pois bem, que os mortais crédulos sigam agora em busca desnecessária de alguma Medeia, Circe, Vênus, ou de alguma fonte encantada, para restaurar a idade, quando a execução acurada desse feito repousa apenas na habilidade de minha arte e engenho.
Sou eu somente quem possui a receita de fazer aquele licor com que a filha de Memnon prolongou os dias declinantes de seu avô; sou eu aquela Vênus que restaurou a tal ponto o lânguido Faon que fez Safo apaixonar-se profundamente por sua beleza. Minhas são aquelas ervas, meus aqueles encantos que não apenas atraem de volta o tempo veloz, já passado e ido, mas, o que é mais digno de admiração, cortam-lhe as asas e impedem qualquer voo posterior. Assim, pois, se todos concordardes com meu veredito de que nada é mais desejável do que ser jovem, nem coisa alguma mais detestada do que a velhice desprezível, deveis necessariamente reconhecer como obrigação impagável para comigo o fato de eu afastar uma e perpetuar a outra.
Mas por que devo limitar meu discurso ao estreito assunto da humanidade apenas? Observai o próprio céu inteiro e então dizei-me qual daquela tribo divina não seria vil e desprezível se meu nome não lhe emprestasse algum respeito e autoridade. Por que Baco é sempre pintado como um jovem, senão porque é caprichoso, bêbado e louco, e, gastando seu tempo em beber, dançar, mascarar-se e folgar, parece não ter a menor coisa a ver com a sabedoria? Não, tão longe está ele da afetação de ser tido por sábio que se contenta em que todos os direitos de devoção que lhe são pagos consistam em macaquices e bufonarias. Além disso, que zombarias e motejos não lhe lançavam os antigos comediógrafos? Ó deus suíno de pança bojuda, dizem eles, que cheira acre ao chiqueiro em que foi costurado, e assim por diante. Mas, dizei-me, quem, nesse caso, sempre alegre, juvenil, embebido em vinho e afogado em prazer, quem, digo eu, em tal caso, trocaria de condição, seja com o altivo Jove de olhar ameaçador, seja com o grave, mas timorato Pã, com a majestosa Palas, ou, de fato, com qualquer outro senhorio do céu? Por que Cupido é fingido como menino, senão porque é um moleque de pouco juízo, que nem age nem pensa coisa alguma com discrição? Por que Vênus é adorada como espelho da beleza, senão porque ela e eu reivindicamos parentesco, sendo ela da mesma compleição de meu pai Plutus, e por isso chamada por Homero de Deusa Dourada? Além disso, imita-me em estar sempre rindo, se devemos crer nos poetas ou em seus parentes próximos, os pintores: os primeiros a mencionam, os outros a desenham constantemente nessa postura. Acrescentai ainda: a que divindade os romanos prestaram respeito mais cerimonioso do que a Flora, essa alcoviteira da obscenidade? E se alguém vasculhar os poetas em busca de uma notícia histórica dos deuses, há de encontrá-los todos famosos por travessuras lúbricas e devassidões. É desnecessário insistir nos desmandos dos outros, quando são tão notórios os enredos luxuriosos do próprio Jove, e quando a pretensamente casta Diana tantas vezes desnudou sua modéstia para correr à caça de seu amado Endimião. Mas não direi mais, pois antes prefiro que eles ouçam suas faltas de Momo, que outrora costumava ferroá-los com algumas reflexões certeiras, até que, eriçados por sua troça abusiva, expulsaram-no do céu a pontapés, por sua insolência de ousar repreender aqueles que estavam além de qualquer correção. E agora, em seu banimento do céu, encontra aqui na terra uma acolhida fria; ou melhor, é-lhe negada toda admissão na corte dos príncipes, onde, entretanto, minha criada Lisonja encontra as mais animadoras boas-vindas. Mas, expulso porta afora esse monitor petulante, os deuses podem agora fanfarronar e folgar mais livremente, e entregar-se por completo ao ímpeto de seus prazeres.
Tradução literária em português-BR da sátira filosófica de Erasmo de Roterdã, preparada pelo Literunico a partir de uma edição inglesa em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.
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