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Elogio da Loucura

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Elogio da Loucura

Capítulo 6 · Elogio da Loucura

Parte 06

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Parte 06

A Loucura, digo eu, que faz amigos e os conserva assim. Falo apenas dos homens mortais, entre os quais não há nenhum que não tenha suas pequenas faltas; mais feliz é aquele que as tem em menor número. Se passarmos aos deuses, veremos que possuem tanta sabedoria quanto pouca amizade; ou antes, nada daquela que é verdadeira e cordial. A razão por que os homens fazem maior progresso nessa virtude é somente porque são mais crédulos e de natureza mais fácil; pois os amigos devem ser também do mesmo humor e inclinação, ou então a aliança da amizade, embora firmada com muitíssimos protestos, logo se romperá. Assim, homens graves e carrancudos raramente se mostram amigos constantes: são demasiado melindrosos e censuradores, e não suportam as fraquezas uns dos outros; têm olhos de águia para espiar as faltas alheias, enquanto fecham os olhos para si mesmos e nunca reparam na trave que trazem nos próprios olhos. Em suma, sendo o homem por natureza tão propenso às fragilidades, tão caprichoso e atravessado, e culpado de tantos deslizes e desmandos, nenhuma amizade firme poderia ser contraída, se não se fizesse tal concessão às faltas recíprocas, aquilo que os gregos chamam 'Eunoeia, e que podemos traduzir por boa índole, que não é senão outro nome para Loucura. E então? Cupido, primeiro pai de toda afeição, não é ele completamente cego? Pois, assim como ele próprio não pode distinguir as cores, também quer tornar-nos igualmente míopes ao julgar falsamente todos os assuntos do amor, e nos enredar na crença de que estamos sempre certos. Assim, cada João se agarra à sua Joana; cada funileiro estima sua própria rameira; e o pretendente de tamancos ferrados prefere Joana, a leiteira, a qualquer das filhas de minha senhora. Estas coisas são verdadeiras e ordinariamente provocam riso; e, contudo, por mais ridículas que pareçam, é somente delas que todas as sociedades recebem seu cimento e consolidação.

Elogio da Loucura

Sinopse

Tradução literária em português-BR da sátira filosófica de Erasmo de Roterdã, preparada pelo Literunico a partir de uma edição inglesa em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.

Elogio da Loucura

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