Universo da obra
Universo da obra
O mesmo que se disse da amizade aplica-se muito mais ao estado do matrimônio, que não é senão o mais alto avanço e aperfeiçoamento da amizade no mais estreito vínculo de união. Santo Deus! Que frequentes divórcios, ou males ainda piores, não sucederiam muitas vezes tristemente, se marido e mulher não fossem discretos o bastante para passar por cima de leves ocasiões de querela com risos, gracejos, dissimulações e semelhantes modos de bancar o tolo! Não, quão poucos enlaces seguiriam adiante, se o amante apressado primeiro soubesse de quantos pequenos ardis de luxúria e lascívia — e talvez de faltas mais grosseiras — sua esquiva e aparentemente pudica senhora já fora antes culpada! E quão menos casamentos, uma vez consumados, continuariam felizes, se o marido não fosse ou estupidamente insensível, ou não fechasse de propósito os olhos e deixasse passar a leviandade e o atrevimento de sua esposa de boa índole! Esta paz e quietude devem-se ao meu governo, pois de outro modo haveria contínuos rangidos, disputas e desvarios, se a falta de engenho não fizesse ao mesmo tempo um corno contente e uma casa silenciosa. Se o cuco canta à porta dos fundos, o cornudo irrefletido não toma nota do agouro infeliz de ovos alheios postos em seu próprio ninho, mas ri disso, beija sua cara esposa, e tudo fica bem. E, de fato, é muito melhor ser pacientemente um tal fantoche dominado pela mulher do que estar sempre dilacerado e torturado pelos ásperos pressentimentos da suspeita e do ciúme. Enfim, não há sociedade alguma, relação alguma em que os homens se encontrem, que seria confortável, ou mesmo tolerável, sem minha assistência; não poderia haver entendimento correto entre príncipe e povo, senhor e servo, preceptor e aluno, amigo e amigo, marido e mulher, comprador e vendedor, ou quaisquer pessoas, por mais diversamente relacionadas que estejam, se elas não suportassem covardemente pequenos abusos, não se encolhessem e se submetessem servilmente, ou, afinal, não se coçassem e lisonjeassem umas às outras com adulação. Isto direis que é muito, mas ainda ouvireis o que é mais. Dizei-me, então: pode alguém amar outro se primeiro odeia a si mesmo? É provável que alguém concorde com um amigo se antes está em desacordo com o próprio juízo? Ou é provável que agrade de algum modo a outro aquele que é uma perpétua peste e tormento para si mesmo? Este é um paradoxo tal que ninguém pode ser tão louco a ponto de sustentá-lo. Pois bem: se eu for excluída e barrada, cada homem estará tão longe de poder suportar os outros que será um fardo para si mesmo e, consequentemente, incapaz de qualquer alívio ou satisfação. A natureza, que para alguns de seus produtos faz o papel de madrasta antes que de mãe indulgente, dotou certos homens daquela infeliz rabugice de disposição que os faz nausear e desgostar de tudo quanto é seu, e admirar muito o que pertence a outras pessoas, de tal modo que não podem, de maneira alguma, gozar aquilo que seu nascimento ou sua fortuna lhes concedeu. Pois que graça há na maior beleza, se está sempre anuviada por carrancas e mau humor? Ou que vigor há na juventude, se é atormentada por um temperamento melindroso, teimoso, mordaz e ruim? Nenhum, certamente. Nem, de fato, pode haver aquisição honrosa de nós mesmos em qualquer estado da vida, pois afundaríamos sem resgate na miséria e no desespero se não fôssemos sustentados e mantidos à tona pelo amor-próprio, que é, por assim dizer, a irmã mais velha da Loucura, e sua constante amiga e assistente. Pois que é, ou que pode ser, mais tolo do que sermos amantes e admiradores de nós mesmos? E, contudo, se assim não fosse, não haveria sabor algum em nossas palavras ou ações. Tirai esta única propriedade de um tolo, e o orador se tornará tão mudo e silencioso quanto o púlpito em que se posta; o músico pendurará na parede seus instrumentos intocados; os atores mais completos serão vaiados para fora do palco; o poeta será ridicularizado com suas próprias rimas de má qualidade; o pintor desaparecerá ele mesmo numa paisagem imaginária; e o médico terá mais falta de alimento do que seus pacientes de remédios. Em suma, sem o amor-próprio, em vez de belo, julgar-vos-eis uma velha bruxa de oitenta anos; em vez de jovem, parecereis já tombando na sepultura; em vez de eloquente, um mero gago; e, em lugar de gentil e cortês, aparecereis como um grosseirão da roça; sendo tão necessário que cada um pense bem de si mesmo antes de esperar a boa opinião dos outros. Finalmente, quando a parte principal e essencial da felicidade consiste em desejar não ser outra coisa senão aquilo que já somos, este expediente deve-se novamente por inteiro ao amor-próprio, que tanto infla os homens com boa opinião de si mesmos que ninguém se arrepende de sua forma, de seu engenho, de sua educação ou de sua pátria; de sorte que o holandês sujo e meio afogado não se mudaria para as agradáveis planícies da Itália, o rude trácio não trocaria seu solo pantanoso pelo melhor lugar de Atenas, nem o brutal cita deixaria seus desertos espinhosos para tornar-se habitante das Ilhas Afortunadas. E oh, incomparável artifício da natureza, que dispôs todas as coisas em método tão equilibrado que, onde quer que tenha sido menos generosa em seus dons, ali compensa com dose maior de amor-próprio, que supre os defeitos anteriores e iguala tudo. Para ampliar ainda mais, posso bem presumir afirmar que não há façanhas consideráveis realizadas, nem artes úteis inventadas, das quais eu não seja a respectiva autora e administradora. Primeiro: que há de mais elevado e heroico do que a guerra? E, contudo, que há de mais tolo do que, por alguma afronta pequena e trivial, tomar uma vingança em que ambos os lados certamente sairão perdedores, e em que a querela deve ser decidida ao preço de tantos membros e vidas? E quando chegam ao combate, que serviço podem prestar esses estudantes de rosto pálido que, labutando aos remos da sabedoria, gastaram toda a sua força e atividade? Não: a única utilidade está nos sujeitos rudes e robustos que têm pouco engenho e, por isso, mais resolução; a menos que queirais fazer soldado de outro Demóstenes, que largou as armas quando avistou o inimigo e perdeu no acampamento o crédito que ganhara no púlpito.
Tradução literária em português-BR da sátira filosófica de Erasmo de Roterdã, preparada pelo Literunico a partir de uma edição inglesa em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.
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