Universo da obra
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Mas o conselho, a deliberação e o parecer — direis vós — são muito necessários para o manejo da guerra. Muito verdadeiro; mas não tal conselho como o que é prescrito pelas regras estritas da sabedoria e da justiça. Pois uma batalha será travada com maior sucesso por criados, carregadores, meirinhos, salteadores de estrada, patifes, aves de cadeia e semelhante ralé da humanidade do que pelos filósofos mais consumados. Estes últimos, quão infelizes são no manejo de tais assuntos, Sócrates — julgado pelo oráculo o mais sábio dos mortais — é exemplo notável; pois, quando apareceu para tentar alguma atuação pública diante do povo, tropeçou logo no primeiro assalto, e nunca conseguiu recompor-se, mas foi enxotado para casa entre vaias e assobios. Contudo, esse filósofo foi menos tolo por recusar a denominação de sábio e não aceitar o cumprimento do oráculo; bem como por aconselhar que os filósofos não tivessem parte alguma no governo da república. Deveria, ao mesmo tempo, ter acrescentado que fossem banidos de toda sociedade humana.
E que fez esse grande homem envenenar-se para prevenir a malícia de seus acusadores? Que fez dele o instrumento da própria morte, senão apenas seu excesso de sabedoria? Pois, enquanto investigava a natureza das nuvens, enquanto labutava e contemplava ideias, enquanto exercitava sua geometria na medida de uma pulga, e mergulhava nos recessos da natureza em busca de explicação para como pequenos insetos, sendo tão diminutos, podiam produzir tão grande zumbido e rumor; enquanto estava absorto nessas tolices, não cuidava em nada do mundo nem de suas preocupações ordinárias.
Depois de Sócrates vem seu discípulo Platão, famoso orador, decerto, que podia ser tão desconcertado por uma turba iletrada a ponto de parar, pigarrear e hesitar antes de chegar ao fim de uma frase curta. Teofrasto era outro covarde semelhante, que, começando a fazer uma oração, era logo abatido pelo medo, como se tivesse visto algum espectro ou duende. Isócrates era tão acanhado e tímido que, embora ensinasse retórica, nunca teve confiança para falar em público. Cícero, mestre da eloquência romana, costumava iniciar seus discursos com voz baixa e trêmula, exatamente como um escolar receoso de não dizer sua lição com perfeição suficiente para escapar à vara; e, contudo, Fábio louva essa propriedade de Túlio como argumento de um orador ponderado, sensível à dificuldade de sair-se com crédito. Mas que faz ele com isso senão confessar claramente que a sabedoria não passa de embaraço e impedimento ao bom manejo de qualquer assunto? Como se encolheriam esses heróis, e se reduziriam a nada, à vista de espadas desembainhadas, eles que assim são abatidos e aturdidos pela simples emissão de palavras nuas?
Que se exalte então a bela sentença de Platão, segundo a qual “felizes são aquelas repúblicas em que ou os filósofos são eleitos reis, ou os reis se tornam filósofos”. Ai de nós, isso está tão longe de ser verdade que, se consultarmos todos os historiadores em busca de relato das eras passadas, não encontraremos príncipes mais fracos, nem povo algum mais servil e miserável, do que onde a administração dos negócios caiu sobre os ombros de algum governador letrado e livresco. Da verdade disso são exemplos os dois Catões: o primeiro embrulhou a cidade e cansou o senado com suas arengas tediosas, defendendo a si mesmo e acusando os outros; o mais jovem foi ocasião infeliz da perda da liberdade do povo, enquanto, por métodos impróprios, pretendia mantê-la. A estes podem-se acrescentar Bruto, Cássio, os dois Gracos e o próprio Cícero, que não foi menos fatal a Roma do que seu paralelo Demóstenes o foi a Atenas; bem como Marco Antonino, a quem podemos conceder que tenha sido bom imperador, tanto menos, porém, por ser filósofo. E certamente ele não fez metade de tanto bem a seu império por sua própria prudente administração dos negócios quanto fez mal ao deixar sucessor tão degenerado como provou ser seu filho Cômodo. Mas é observação comum que um pai sábio muitas vezes tem um filho tolo, dispondo-o assim a natureza para que a mácula da sabedoria, como doenças hereditárias, não descesse de outro modo por propagação. Assim, Marco, filho de Túlio, embora criado em Atenas, revelou-se alma pesada e insípida; e os filhos de Sócrates tinham, como alguém expressou engenhosamente, “mais da mãe que do pai”, frase para dizer que eram tolos. Entretanto, seria tanto mais desculpável que os sábios sejam tão desajeitados e ineptos na ordenação dos negócios públicos, se não fossem tão maus, ou piores, no manejo de seus assuntos ordinários e domésticos. Mas, ai, também aqui ficam muito aquém. Pois ponde um sábio formal a uma festa, e ele, ou por seu silêncio carrancudo, desanimará toda a mesa, ou por suas perguntas frívolas desagradará e cansará todos os que se sentam perto dele. Chamai-o para dançar, e ele não se moverá com mais agilidade que um camelo. Convidai-o para qualquer espetáculo público, e por seus próprios ares apagará a alegria de todos os espectadores, e por fim será forçado, como Catão, a deixar o teatro, porque não consegue desengomar sua gravidade nem pôr no rosto semblante mais agradável. Se entra em algum discurso, ou interrompe-se abruptamente, ou esgota a paciência de toda a companhia, caso prossiga. Se tem algum contrato, venda ou compra a fazer, ou qualquer outro negócio mundano a tratar, comporta-se mais como cepo sem sentidos do que como homem racional; de modo que não pode ser de uso nem proveito para si mesmo, para seus amigos ou para sua pátria, porque nada sabe de como anda o mundo e é inteiramente desacostumado ao humor do vulgo, que não pode deixar de odiar pessoa tão discrepante de seu próprio temperamento.
E, de fato, todo o curso do mundo nada mais é que uma cena contínua de Loucura, sendo todos os atores igualmente tolos e loucos; e por isso, se alguém é tão pragmaticamente sábio a ponto de ser singular, terá mesmo de converter-se num segundo Timão, ou inimigo dos homens, e, retirando-se para algum deserto desfrequentado, tornar-se recluso de toda a humanidade.
Tradução literária em português-BR da sátira filosófica de Erasmo de Roterdã, preparada pelo Literunico a partir de uma edição inglesa em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.
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