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Elogio da Loucura

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Elogio da Loucura

Capítulo 9 · Elogio da Loucura

Parte 09

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Parte 09

Mas, para voltar ao que primeiro propus, que foi, na infância do mundo, que fez os homens, naturalmente selvagens, unirem-se em sociedades civis, senão apenas a Lisonja, uma de minhas principais virtudes? Pois outra coisa não significam as fábulas de Anfião e Orfeu com suas harpas: o primeiro fazendo as pedras saltarem para dentro de uma muralha bem construída; o outro induzindo as árvores a arrancarem as pernas do chão e dançarem a dança mourisca atrás dele. Que foi que aquietou e apaziguou o povo romano quando irrompeu em motim para a reparação de seus agravos? Foi alguma oração nervuda e engomada? Não, ai de nós; foi apenas uma história tola e ridícula, contada por Menênio Agripa, sobre como os outros membros do corpo brigaram com o ventre, resolvendo não continuar mais a ser seus provedores laboriosos, até que, pela penitência que julgavam impor-lhe assim por vingança, logo acharam sua própria força tão diminuída que, pagando o preço de experimentar um engano, voltaram de bom grado a seus respectivos deveres. Assim, quando a ralé de Atenas murmurou contra as exações dos magistrados, Temístocles satisfez-a com outra fábula semelhante, a da raposa e do ouriço: a primeira, presa num lodaçal, via as moscas virem em enxame ao seu redor e quase lhe sugarem todo o sangue; o segundo, oficiosamente, oferece seus serviços para espantá-las. Não, diz a raposa; se estas, que já estão quase empanturradas, forem afugentadas, virá um novo bando faminto, dez vezes mais ávido e devorador. A moral disso ele pretendia aplicar ao povo, que, se removesse aqueles magistrados de cuja extorsão se queixava, certamente teria sucessores ainda piores.

Com que mais altos avanços de política poderia Sertório ter mantido os bárbaros tão bem em respeito quanto por meio de uma corça branca, que ele fingia ter-lhe sido presenteada por Diana e trazer-lhe notícia de todos os desígnios de seus inimigos? Que foi o grande argumento de Licurgo para demonstrar a força da educação, senão trazer dois filhotes da mesma cadela, criados de modo diferente, e pôr diante deles um prato e uma lebre viva? Um deles, que fora criado para a caça, correu atrás da presa; ao passo que o outro, cujo canil fora uma cozinha, pôs-se logo a lamber a travessa. Assim, o já mencionado Sertório fez seus soldados perceberem que engenho e artifício podiam mais que a força nua, pondo dois homens a arrancar a cauda de dois cavalos: o primeiro, puxando tudo de uma só vez, esforçou-se em vão; enquanto o outro, embora muito mais fraco, arrancando fio por fio, logo cumpriu a tarefa que lhe fora designada.

Exemplos de natureza semelhante são Minos e o rei Numa, ambos os quais lograram o povo para a obediência por mera trapaça e embuste: o primeiro, fingindo ser aconselhado por Júpiter; o segundo, fazendo o vulgo acreditar que tinha a deusa Egéria por assistente em todos os debates e transações. E, de fato, é por tais engodos que o povo comum é mais facilmente logrado e enganado.

Além disso, que cidade jamais se submeteria às rigorosas leis de Platão, às severas injunções de Aristóteles, ou aos preceitos ainda mais impraticáveis de Sócrates? Não; estes teriam sido estreitos e irritantes demais, pois não faziam concessão bastante às fraquezas do povo.

Para passar a outro ponto: que foi que tornou os Décios tão prontos a oferecerem-se em sacrifício de expiação aos deuses irados, para resgatar e caucionar sua pátria endividada? Que fez Cúrcio, em ocasião semelhante, lançar fora a vida com tamanho desespero, senão apenas a vanglória, condenada e unanimemente votada pelos sábios como ramo principal da Loucura? Que há de mais irrazoável e afetado — dizem eles — do que um homem, por ambição de algum cargo, curvar-se, raspar o chão e rastejar diante da ralé boquiaberta, comprar-lhe o favor com subornos e donativos, ter seu nome apregoado nas ruas, ser carregado por aí, como espetáculo vistoso, sobre os ombros da multidão, mandar esculpir sua efígie em bronze e erguê-la na praça do mercado como monumento de sua popularidade? Acrescentai a isso a afetação de novos títulos e insígnias distintivas de honra; ou mesmo a própria deificação daqueles que foram os tiranos mais sanguinários. Tudo isso é tão extremamente ridículo que haveria necessidade de mais de um Demócrito para rir de tais coisas. E, contudo, foi somente daí que nasceram aqueles feitos memoráveis dos heróis, que tanto ocuparam as penas de muitos escritores laboriosos.

É a Loucura que, sob variados trajes, governa cidades, nomeia magistrados e sustenta tribunais; e, em suma, faz de todo o curso da vida humana um simples jogo de crianças, pior que passatempo de alfinetes. A invenção de todas as artes e ciências deve-se igualmente à mesma causa: pois que homens sedentários e pensativos teriam martelado os miolos na busca de mistérios novos e inauditos, se não fossem instigados pelas borbulhantes esperanças de crédito e reputação? Julgam que um pequeno lampejo cintilante de vanglória é recompensa suficiente por todo o seu suor, labor e tediosa labuta, enquanto aqueles que são supostamente mais tolos colhem proveito dos trabalhos alheios.

Elogio da Loucura

Sinopse

Tradução literária em português-BR da sátira filosófica de Erasmo de Roterdã, preparada pelo Literunico a partir de uma edição inglesa em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.

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