Universo da obra
Universo da obra
E agora, uma vez que comprovei meu direito ao valor e à diligência, que tal se eu reclamasse também parte igual na sabedoria? Como! — direis vós — isto é absurdo e contraditório; mais depressa o oriente e o ocidente apertariam as mãos do que a Loucura e a Sabedoria se reconciliariam. Pois bem, tende um pouco de paciência, e eu vos garanto que farei valer minha pretensão. Primeiro, então, se a sabedoria — como se deve confessar — não é mais que uma prontidão em fazer o bem e um método expedito de tornar-se útil ao mundo, a quem pertence mais propriamente essa virtude? Ao sábio, que, parte por modéstia, parte por covardia, não pode avançar resolutamente em tentativa alguma; ou ao tolo, que vai de cabeça, salta antes de olhar, e assim se aventura pelo empreendimento mais arriscado sem qualquer noção ou perspectiva do perigo? Ao empreender qualquer empresa, o sábio correrá a consultar seus livros e se atordoará de tanto debruçar-se sobre autores bolorentos, enquanto o tolo despachado avançará às cegas e terá concluído o negócio quando o outro ainda estiver pensando nele. Pois os dois maiores embaraços e impedimentos ao êxito de qualquer realização são a modéstia, que lança uma névoa diante dos olhos dos homens, e o medo, que os faz recuar e afastar-se de qualquer proposta; ambos são banidos e dispensados pela Loucura, e em seu lugar se introduz um hábito de temeridade tola que contribui poderosamente para o sucesso de todos os empreendimentos. Além disso, se quiserdes tomar a sabedoria em outro sentido, como reto juízo das coisas, vereis quão aquém ficam os sábios também nessa acepção.
Primeiro, pois, é certo que todas as coisas, como outros tantos Janos, trazem dupla face, ou antes ostentam falsa aparência, sendo a maioria das coisas, em si mesmas, muito diversa daquilo que parecem aos outros: de modo que aquilo que à primeira vista se mostra vivo, em verdade está morto; e aquilo que, por sua vez, parece morto, visto de mais perto revela-se vivo; o belo parece feio, o rico, pobre; o escandaloso é tido por honroso, o próspero passa por infeliz, o amigável por seu contrário mais extremo, e o inocente por nocivo e pernicioso. Em suma, se invertermos a mesa, todas as coisas se encontram postas em postura inteiramente diversa daquela em que, pouco antes, pareciam estar.
Se isto parece expresso de modo demasiado obscuro e ininteligível, explicá-lo-ei pelo exemplo familiar de algum grande rei ou príncipe, a quem todos supõem nadar em luxo e riqueza, e ser poderoso senhor e mestre; quando, ai de nós, de um lado ele tem pobreza de espírito bastante para fazer dele um mero mendigo, e, de outro, é pior que um escravo de galé de suas próprias luxúrias e paixões.
Se eu tivesse vontade de estender-me mais, poderia alongar-me em vários exemplos de natureza semelhante; mas este, por ora, pode bastar.
Pois bem, mas qual é o sentido — dirá alguém — de tudo isso? Ora, observai a aplicação. Se alguém, num teatro, fosse tão impertinente e rude a ponto de arrancar dos atores suas roupas emprestadas, fazê-los depor a personagem assumida e forçá-los a regressar a seu eu nu, não desarranjaria por completo e estragaria o entretenimento? E não mereceria ser vaiado e apedrejado até que o tolo pragmático aprendesse melhores maneiras? Pois, por tal perturbação, toda a cena se alteraria: aqueles que representavam homens talvez aparecessem como mulheres; quem estava vestido como jovem amante vivaz seria encontrado como um velho grosseiro; e aquele que representava um rei restaria apenas como um criado comum e humilde. Pôr assim as coisas às claras é estragar toda a diversão, que consiste somente em fingimento e disfarce. Ora, o mundo não é outra coisa senão uma comédia desse mesmo gênero, em que cada um, no camarim, é primeiro trajado conforme o papel que deve representar; e, quando chega sucessivamente sua vez, sai ao palco, onde aquele que agora personifica um príncipe, em outra parte da mesma peça, mudará de traje e se tornará mendigo, estando todas as coisas sob máscara e disfarce particular, pois de outro modo a peça jamais poderia ser apresentada. Agora, se surgisse algum doutor engomado e formal, que apontasse para os vários atores e dissesse como este, que parece um pequeno deus, é na verdade pior que um bruto, por estar cativo da tirania da paixão; que aquele outro, que sustenta a personagem de rei, é de fato o mais servil dos criados, por estar sujeito ao senhorio da luxúria e da sensualidade; que um terceiro, que tanto se gaba de sua linhagem, não é melhor que um bastardo, por degenerar da virtude, que deveria ser de maior consideração na heráldica; e assim prosseguisse expondo todos os demais, não pensaria qualquer um que tal pessoa está inteiramente frenética e madura para o manicômio? Pois, assim como nada é mais tolo que a sabedoria fora de propósito, nada é mais indiscreto que uma repreensão irrazoável. Portanto, deve ser expulso a vaias de toda sociedade aquele que não quiser ser maleável, conforme e disposto a ajustar seu humor ao dos outros homens, lembrando a lei dos clubes e reuniões: quem não quiser fazer como os demais deve retirar-se da companhia. E é certamente um grande grau de sabedoria que cada um considere ser apenas homem e que, por isso, não deve lançar seus pensamentos altaneiros para além do nível da mortalidade, mas aparar as asas de sua ambição elevada e, com urbanidade, submeter-se e condescender à fraqueza dos outros, sendo muitas vezes uma peça de cortesia sair do caminho por amor à companhia.
Não — direis vós —, isto é uma grande peça de Loucura. Verdade; e, contudo, toda a nossa vida não é mais que esse gênero de tolice; o que, embora possa parecer áspero afirmar, não é tão estranho quanto verdadeiro.
Para melhor demonstrá-lo, talvez fosse necessário invocar o auxílio das musas, a quem os poetas devotamente recorrem por ocasiões muito mais leves. Vinde, pois, e assisti-me, ó donzelas heliconianas, enquanto tento provar que não há método para chegar à sabedoria, e, consequentemente, nenhuma trilha para a meta da felicidade, sem as instruções e direções da Loucura.
Tradução literária em português-BR da sátira filosófica de Erasmo de Roterdã, preparada pelo Literunico a partir de uma edição inglesa em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.