Universo da obra
Universo da obra
Mas, se todos fossem assim sábios, vede quão depressa o mundo se despovoaria, e que necessidade haveria de um segundo Prometeu para rebocar a imagem decadente da humanidade. Venho eu, portanto, e me ponho nessa brecha de perigo, prevenindo males maiores; em parte pela ignorância, em parte pela inadvertência; pelo esquecimento de tudo quanto seria áspero recordar, e pelas esperanças de tudo quanto possa ser grato esperar, mitigando todas as dores com uma mistura de prazer. Por isso faço os homens tão longe de se cansarem de suas vidas que, quando seu fio já foi fiado até a extensão completa, ainda assim se mostram relutantes em morrer, e só com enorme dificuldade são levados a dar o último adeus aos amigos. Assim, alguns velhos decrépitos, que parecem tão ocos quanto a cova em que estão caindo, que chocalham na garganta a cada palavra que dizem, que não podem comer carne senão bastante tenra para ser chupada, que têm mais pelos na barba do que cabelos na cabeça, e caminham curvados para o pó a que em breve hão de voltar; cuja pele já parece curtida em pergaminho, e cujos ossos já secaram em esqueleto; essas sombras de homens serão maravilhosamente ambiciosas de viver mais, e por isso rechaçam os ataques da morte com todos os ardis e imposturas imagináveis. Um tingirá de novo os cabelos grisalhos, por medo de que a cor lhe denuncie a idade; outro se enfeitará com uma peruca leve; um terceiro reparará a perda dos dentes com uma arcada de marfim; e um quarto talvez se apaixone perdidamente por uma moça jovem e, de acordo com isso, a corteje com tanta alegria e vivacidade quanto o galã mais vivo de toda a cidade. E não podemos deixar de saber que, para um velho, casar-se com uma esposa jovem e sem dote, a fim de servir de resfriador à luxúria de outros homens, tornou-se tão comum que virou moda dos tempos. E, o que é ainda mais cômico, vereis algumas velhas enrugadas, cujos próprios semblantes são antídoto suficiente contra a lascívia, cantarolando: Ah, a vida é coisa doce, e então sairão em miados amorosos, contratando alguns garanhões de lombo forte para recobrar seu quase perdido sentido do tato; e, para melhor se realçarem, pintarão e besuntarão o rosto, ficarão sempre a enfeitar-se diante do espelho, andarão de pescoço nu, seios à mostra, rirão de gracejos obscenos, dançarão entre as moças jovens, escreverão cartas de amor e farão todos os outros pequenos artifícios de atrair pretendentes de sangue quente. Enquanto isso, embora sejam motivo de riso, gozam-se a si mesmas até o fim, vivem conforme o desejo do coração e não carecem de nada que possa completar sua felicidade. Quanto aos que julgam essas coisas tão ridículas, eu gostaria que dessem resposta sincera a esta única pergunta: se lhes fosse deixada a escolha entre a loucura e a forca, não prefeririam muito mais viver como tolos a morrer como cães? Mas que importa que tais coisas sejam ressentidas pelo vulgo? Sua má palavra não causa dano aos tolos, que ou são de todo insensíveis a qualquer afronta, ou ao menos não a levam muito a peito. Se lhes rachassem a cabeça, ou lhes espatifassem os miolos, teriam algum motivo de queixa; mas, ai de nós, difamação, calúnia e desonra não são nocivas senão conforme são interpretadas, nem são más de outro modo senão conforme se julga que sejam. Que mal há, então, se todas as pessoas vos escarnecem e motejam, contanto que vos sustenteis em vossos próprios pensamentos e estejais plenamente convencidos de vossos merecimentos? E dizei-me, por que se deveria considerar escândalo ser tolo, se sê-lo é parte de nossa natureza e essência? E, sendo assim, nossa falta de sabedoria não pode ser-nos imputada como culpa com mais razão do que seria próprio rir de um homem porque não pode voar pelos ares como aves e pássaros; porque não anda de quatro como os animais do campo; porque não traz um par de chifres visíveis como crista na fronte, à maneira de touros ou veados. Pela mesma figura, poderíamos chamar infeliz a um cavalo por nunca lhe terem ensinado gramática, e miserável a um boi por nunca ter aprendido esgrima. Mas, certamente, assim como um cavalo, por não conhecer uma letra, nem por isso deixa de ter valor, também um homem, por ser tolo, não é mais desafortunado, tendo assim sido ordenado pela natureza e pela providência para cada qual.
Sim, mas — dizem nossos patronos da sabedoria — o conhecimento das artes e ciências é propositalmente alcançável pelos homens, para que o defeito dos dotes naturais seja suprido pelo auxílio do adquirido. Como se fosse provável que a natureza, tão exata e curiosa no mecanismo das flores, ervas e moscas, houvesse atrapalhado mais justamente em sua obra-prima, e feito o homem, por assim dizer, pela metade, para depois ser polido e refinado por sua própria indústria na obtenção de tais ciências como as que os egípcios fingiram terem sido inventadas por seu deus Teuth, como praga e castigo seguro para a humanidade; ciências tão longe de aumentar sua felicidade que nem sequer atendem ao fim para o qual foram primeiro concebidas, que era o aperfeiçoamento da memória, como Platão, em seu Fedro, espirituosamente observa.
Na primeira idade de ouro do mundo, não havia necessidade dessas perplexidades; não havia então outra espécie de saber senão aquele naturalmente colhido do senso comum de cada homem, melhorado por uma experiência fácil. Que uso poderia haver para a gramática, quando todos os homens falavam a mesma língua materna e não aspiravam a grau mais alto de oratória do que simplesmente serem entendidos uns pelos outros? Que necessidade havia de lógica, quando eram sábios demais para entrar em qualquer disputa? Ou que ocasião para a retórica, onde não surgia diferença que exigisse uma decisão laboriosa? E tampouco tinham motivo para serem atados por quaisquer leis, uma vez que os ditames da natureza e da moral comum eram restrição e obrigação suficientes. Quanto a todos os mistérios da providência, faziam-nos antes objeto de seu assombro do que de sua curiosidade; e, portanto, não eram tão presunçosos a ponto de mergulhar nas profundezas da natureza, de labutar para resolver todos os fenômenos da astronomia, ou de torturar os miolos na divisão de entidades e no desdobramento das especulações mais delicadas, julgando crime que qualquer homem mirasse aquilo que foi posto além do alcance de sua rasa apreensão.
Tradução literária em português-BR da sátira filosófica de Erasmo de Roterdã, preparada pelo Literunico a partir de uma edição inglesa em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.
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