Universo da obra
Universo da obra
Assim, a ignorância, na infância do mundo, foi tão mãe da felicidade quanto depois tem sido da devoção; mas, tão logo a idade de ouro começou, pouco a pouco, a degenerar em metais mais grosseiros, também foram inventadas as artes; a princípio, porém, poucas em número, e raramente compreendidas, até que, no decurso posterior do tempo, a superstição dos caldeus e a curiosidade dos gregos geraram tantas sutilezas que agora mal basta a obra de uma vida para conhecer a fundo todas as críticas da gramática somente. E, entre todas as várias artes, são proporcionalmente mais estimadas aquelas que mais se aproximam da fraqueza e da loucura. Assim, os teólogos podem roer as unhas, os naturalistas soprar os dedos, os astrólogos saber que sua própria fortuna é ser pobres, e o lógico fechar o punho e agarrar o vento.
Enquanto todos esses sujeitos de nomes difíceis não conseguem fazer
Figura tão grande quanto um só charlatão.
E, nessa profissão, aqueles que têm mais confiança, embora possuam menos habilidade, estarão certos de ter a maior clientela; e, com efeito, toda essa arte, tal como hoje é praticada, não passa de um composto incorporado de ardil e impostura.
Depois do médico vem — aquele que talvez me mova um processo por não ter sido colocado antes dele, quero dizer — o advogado, que é tão tolo que se tornou ignoramus proverbial; e, contudo, por tais homens são resolvidas todas as dificuldades, determinadas todas as controvérsias e administrados todos os negócios, tão a seu próprio proveito que acabam ficando para si com os bens que foram contratados para recuperar em favor de seus clientes; enquanto o pobre teólogo, nesse meio-tempo, terá piolhos rastejando sobre sua batina puída antes que, com todo o seu suor e labuta, consiga dinheiro bastante para comprar uma nova. Assim, portanto, como aquelas artes são mais vantajosas a seus respectivos professores quanto mais distantes estão da sabedoria, também são incomparavelmente mais felizes aquelas pessoas que menos têm a ver com qualquer uma delas, mas seguem trotando pela estrada comum da natureza, que nunca nos desviará, a menos que voluntariamente saltemos por cima daqueles limites que ela cautelosamente fixou para nossos seres finitos. A natureza mais resplandece em seu próprio traje simples e caseiro, e então dá o maior brilho quando está imaculada de todo ornamento artificial.
Assim, se investigarmos o estado de todas as criaturas mudas, veremos que passam melhor aquelas deixadas à condução da natureza; para tomar por exemplo as abelhas, que há de mais admirável que a indústria e o engenho desses pequenos animais?
Que arquiteto poderia jamais formar estrutura tão curiosa quanto a que elas dão por modelo em seus favos inimitáveis? Que reino pode ser governado com melhor disciplina do que aquela que elas observam exatamente em suas respectivas colmeias? Enquanto o cavalo, tornando-se rebelde à natureza e fazendo-se escravo do homem, sofre a pior das tiranias: às vezes é esporeado para a batalha por tanto tempo que acaba arrastando as entranhas como jaez, e por fim cai e morde o chão em vez da relva; sem mencionar a pena de ter as mandíbulas refreadas, a cauda cortada, o dorso torcido, os flancos feridos pelas esporas, o estreito cárcere numa estrebaria, as peias e grilhões quando corre no pasto, e muitíssimas outras pragas, que poderia ter evitado se houvesse permanecido naquele primeiro estado de liberdade em que a natureza o colocou. Quão mais desejável é o voo livre das moscas e dos pássaros, que, vivendo por instinto, nada careceriam para completar sua felicidade, se algum Domiciano bem ocupado não perseguisse as primeiras, nem o astuto passarinheiro armasse laços e ciladas para prender os outros! E se os passarinhos, antes que suas asas ainda implumes possam levá-los para fora dos ninhos, são capturados e encerrados numa gaiola para aprenderem a cantar ou assobiar, todas as suas novas melodias não fazem música metade tão doce quanto suas notas selvagens e sua melodia natural: tanto aquilo que é apenas esboçado pela natureza supera e excede toda a tinta e verniz acrescentados pela arte. E certamente não podemos deixar de louvar e admirar aquele galo pitagórico que, como relata Luciano, fora sucessivamente homem, mulher, príncipe, súdito, peixe, cavalo e rã; depois de toda a sua experiência, resumiu seu juízo nesta censura: que o homem era a mais miserável e deplorável de todas as criaturas, todas as outras pastando pacientemente dentro dos cercados da natureza, enquanto apenas o homem irrompia para fora e se desgarrava além daqueles limites mais seguros aos quais fora justamente confinado. E Grilo deve ser julgado mais sábio que o muito conselheiro Ulisses, visto que, tendo sido transformado em porco pelo encantamento de Circe, não quis depor sua condição suína nem abandonar seu amado chiqueiro para correr o perigo de uma viagem arriscada. Para confirmação maior disso, tenho a autoridade de Homero, capitão de toda a poesia, que, assim como dá à humanidade em geral o epíteto de miserável e infeliz, também confere particularmente a Ulisses o título de desgraçado, que jamais atribui a Páris, Ájax, Aquiles ou qualquer outro dos comandantes; e isso pela razão de que Ulisses era mais astuto, cauteloso e sábio que todos os demais.
Assim, portanto, como aqueles que mais alto aspiram à sabedoria ficam mais aquém da felicidade, encontrando maior repulsa por alçarem voo além das fronteiras de sua natureza e, sem se lembrarem de que são apenas homens, ousarem, como os anjos caídos, competir com a Onipotência e, à maneira de gigantes, escalar o céu com as máquinas de seu próprio cérebro; assim também são mais exaltados na estrada da bem-aventurança aqueles que mais perto degeneram em brutos e tranquilamente se despojam de todo uso e exercício da razão.
Tradução literária em português-BR da sátira filosófica de Erasmo de Roterdã, preparada pelo Literunico a partir de uma edição inglesa em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.
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