Universo da obra
Universo da obra
Ainda não determinei se é próprio incluir todos os defeitos dos sentidos e do entendimento sob o gênio comum da loucura. Pois, se alguém é tão míope que toma uma mula por asno, ou tão cabeça-oca que admira uma balada reles como poema elegante, nem por isso é imediatamente censurado como louco. Mas, se alguém deixa não apenas seus sentidos, mas seu juízo, ser enganado nas ocupações comuns mais ordinárias, virá a cair sob o escândalo de ser tido quase por demente. Suponde, por exemplo, que alguém ouvisse um asno zurrar e o tomasse por música arrebatadora; ou que alguém, nascido mendigo, imaginasse ser tão grande quanto um príncipe, e coisas semelhantes. Mas essa espécie de loucura, se — como é mais usual — vier acompanhada de prazer, traz grande satisfação tanto aos que estão possuídos por ela quanto aos que a ridicularizam nos outros, embora nem todos sejam igualmente frenéticos. E essa espécie de loucura é de extensão maior do que o mundo comumente imagina. Assim, toda a tribo dos loucos se diverte entre si, enquanto um ri do outro; aquele que é mais louco muitas vezes zombando daquele que o é menos. Mas, de fato, quanto maior é a loucura de cada homem, maior é sua felicidade, contanto que seja de tal sorte que proceda de excesso de tolice, que é uma enfermidade tão epidêmica que é difícil encontrar um só homem tão não infectado que não tenha às vezes um ou dois acessos de algum gênero de frenesi. Há apenas esta diferença entre os diversos pacientes: aquele que toma um cabo de vassoura por uma mulher de talhe esguio é, sem mais delongas, sentenciado como louco, porque tal erro é tão estranho que raramente acontece; ao passo que aquele cuja esposa é uma rameira pública, que mantém armazém aberto para todos os fregueses, e ainda assim jura que ela é tão casta quanto uma virgem intacta, e se abraça a si mesmo em seu satisfeito engano, mal é notado, porque não lhe vai pior que a muitíssimos de seus bondosos vizinhos. Entre estes devem ser classificados os que têm deleite imoderado na caça e pensam que nenhuma música se compara ao soar das trompas e ao ganir dos sabujos; e, se tivessem de tomar remédio, não hesitariam em crer que as virtudes mais soberanas se acham no album Graecum de um excremento de cão. Quando derrubam sua presa, que estranho prazer têm em esquartejá-la! Vacas e ovelhas podem ser abatidas por açougueiros comuns, mas aquilo que é morto na caça não deve ser aberto por ninguém abaixo de um cavalheiro, o qual atirará o chapéu ao chão, cairá devotamente de joelhos e, sacando de um facão cortante — pois uma faca comum não é boa o bastante —, depois de várias cerimônias dissecará todas as partes tão artificiosamente quanto o anatomista mais hábil, enquanto todos os que estiverem ao redor olharão com grande atenção e parecerão poderosamente surpreendidos com a novidade, embora tenham visto a mesma coisa cem vezes antes; e aquele que puder apenas molhar o dedo e provar o sangue julgará que o seu próprio sangue ficou melhor por isso. E, embora alimentar-se constantemente de tal dieta não faça senão assimilá-los à natureza daquelas feras de que comem, ainda assim jurarão que a carne de caça é manjar de príncipes, e que viver dela os torna tão grandes quanto imperadores.
Muito aparentados a estes são os que tomam grande gosto por construir: erguem, derrubam, começam de novo, alteram o modelo, e nunca descansam até consumirem toda a própria fortuna, tomando tão grande extensão para as construções que não deixam para si nem um pé de terra onde viver, nem uma pobre choupana onde se abrigar do frio e da fome; e, contudo, durante todo esse tempo, orgulham-se enormemente de seus artifícios e cantam um doce requiem à própria felicidade.
A estes devem ser acrescentados aqueles laboriosos virtuoses que saqueiam os recessos mais íntimos da natureza em busca do despojo de uma nova invenção, e remexem mar e terra para desenterrar algum mistério até então latente; e são tão continuamente excitados pelas esperanças de sucesso que não poupam custo nem dores, mas seguem arrastando-se, e, frustrados numa tentativa, corajosamente mudam de rumo para outra e se lançam a novos experimentos, nunca desistindo até terem calcinado toda a fortuna em cinzas, sem lhes restar dinheiro não derretido bastante para comprar um só cadinho ou alambique. E, contudo, depois de tudo, não ficam tão desanimados que não continuem sonhando belas coisas, e animam outros, tanto quanto podem, a empreendimentos semelhantes; sim, quando suas esperanças chegam ao último suspiro, depois de todos os desapontamentos, ainda têm um salvo para seu crédito:
Nas grandes façanhas, bastam nossas simples tentativas.
E assim invectivam contra a brevidade da vida, que não lhes concede tempo bastante para levar seus desígnios à maturidade e perfeição.
Se os jogadores de dados podem ser tratados com tal favor que sejam admitidos entre os demais, eis o que mal está ainda resolvido; mas é certo que é imensamente vão e ridículo ver certas pessoas tão devotamente afeiçoadas a essa diversão que, ao primeiro chocalhar do copo, o coração lhes treme dentro do peito e faz concerto com o movimento dos dados. São instigados por tanto tempo pela esperança de sempre ganhar, até que, por fim, em sentido literal, lançam fora toda a sua fortuna e fazem naufrágio de tudo quanto têm, mal escapando à praia com as roupas às costas; julgando, enquanto isso, grande peça de religião serem exatos no pagamento de suas apostas, e antes enganarão qualquer credor do que aquele que lhes fia no jogo. E que velhos encarquilhados, que não conseguem discernir sua jogada sem ajuda de óculos, suem no mesmo passatempo; sim, que tais decrépitos veteranos, que pela gota perderam o uso dos dedos, fiquem olhando e contratem outros para lançar por eles. Isto, de fato, é prodigiosamente extravagante; mas sua consequência acaba tantas vezes em pura loucura que parece antes pertencer às fúrias do que à Loucura.
Tradução literária em português-BR da sátira filosófica de Erasmo de Roterdã, preparada pelo Literunico a partir de uma edição inglesa em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.
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