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Elogio da Loucura

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Elogio da Loucura

Capítulo 17 · Elogio da Loucura

Parte 17

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Parte 17

Os próximos a serem colocados entre o regimento dos tolos são aqueles que fazem ofício de contar ou inquirir histórias incríveis de milagres e prodígios; sem jamais recear que uma mentira os engasgue, arregimentam mil diversas e estranhas relações de espíritos, fantasmas, aparições, conjurações do diabo e semelhantes espantalhos da superstição, que, quanto mais longe estão de ser provavelmente verdadeiras, tanto mais avidamente são engolidas e tanto mais devotamente cridas. E esses absurdos não trazem apenas um prazer vazio e um divertimento barato, mas são também bom comércio, e proporcionam confortável renda a tais padres e frades que, por esse artifício, granjeiam seu ganho. A estes, por sua vez, estão estreitamente aparentados outros que atribuem estranhas virtudes aos santuários e imagens de santos e mártires, e assim querem fazer seus crédulos prosélitos acreditar que, se prestarem sua devoção a São Cristóvão pela manhã, serão guardados e protegidos no dia seguinte contra todos os perigos e infortúnios; que, se os soldados, ao tomarem as armas pela primeira vez, vierem murmurar certa oração diante da imagem de Santa Bárbara, voltarão sãos e salvos de todos os combates; ou que, se alguém rezar a Erasmo em determinadas festas, com a cerimônia de velas de cera e outras frivolidades, será em pouco tempo recompensado com abundante aumento de bens e riquezas. Os cristãos têm agora seu gigantesco São Jorge, assim como os pagãos tinham seu Hércules; pintam o santo a cavalo e, representando o cavalo com esplêndidos jaezes, gloriosamente ajaezado, mal se abstêm, em sentido literal, de adorar o próprio animal. Que direi daqueles que apregoam e sustentam o logro dos perdões e indulgências? Que por eles calculam o tempo de permanência de cada alma no purgatório, e lhes assinalam duração mais longa ou mais curta conforme comprem mais ou menos desses perdões miseráveis e dessas isenções vendáveis? Ou que se poderá dizer de suficientemente mau acerca de outros que pretendem que, pela força de tais encantamentos mágicos, ou pelo tatear de suas contas na recitação de tais e tais súplicas — inventadas por alguns impostores religiosos, seja por divertimento, seja, o que é mais provável, por proveito —, obterão riquezas, honra, prazer, saúde, longa vida, uma velhice vigorosa e, sim, depois da morte, assento à mão direita de nosso Salvador em seu reino; embora, quanto a esta última parte de sua felicidade, pouco se importem que seja adiada por longo tempo, tendo escasso apetite de provar as alegrias do céu até que estejam enfastiados, empanturrados e já não possam saborear seus prazeres na terra. Por esse fácil caminho de comprar perdões, qualquer salteador notório, qualquer soldado saqueador ou qualquer juiz subornado desembolsará alguma parte de seus ganhos injustos, e então julgará suficientemente expiadas todas as suas mais grosseiras impiedades; tantos perjúrios, luxúrias, bebedeiras, querelas, derramamentos de sangue, fraudes, traições e toda sorte de devassidões serão, por assim dizer, objeto de barganha, e se fará tal contrato como se houvessem quitado todos os atrasados e pudessem agora começar nova conta.

E que pode haver de mais ridículo do que alguns outros estarem confiantes de ir para o céu repetindo diariamente aqueles sete versículos dos Salmos que o diabo ensinou a São Bernardo, pensando com isso pregar-lhe uma peça, mas sendo ultrapassado em sua própria astúcia?

Várias dessas tolices, tão grosseiras e absurdas que eu mesma quase me envergonho de reconhecê-las, são praticadas e admiradas não apenas pelo vulgo, mas por tais proficientes em religião de quem se poderia muito bem esperar mais juízo.

Dos mesmos princípios da loucura procede o costume de cada país reivindicar seu santo guardião particular; sim, cada santo tem seu ofício distinto a ele atribuído, e é, em conformidade, invocado nas respectivas ocasiões: um para a dor de dente; outro para conceder parto fácil; um terceiro para ajudar pessoas a recuperar bens perdidos; outro para proteger marinheiros numa longa viagem; um quinto para guardar as vacas e ovelhas do lavrador, e assim por diante; pois recitar todos os exemplos seria extremamente tedioso.

Há alguns santos mais católicos, peticionados em todas as ocasiões, como mais especialmente a Virgem Maria, cujos devotos cegos julgam agora ser boa educação colocar a mãe antes do Filho.

E, de todas as preces e intercessões feitas a esses respectivos santos, a substância não é mais que pura Loucura. Entre todos os troféus que, como sinais de gratidão, são pendurados nas paredes e tetos das igrejas, não encontrareis relíquias apresentadas como memorial de alguém que tenha sido curado da Loucura, ou que tenha ficado um dracma mais sábio. Um, talvez, depois de um naufrágio, chegou salvo à praia; outro se recuperou depois de ter sido trespassado por um inimigo; um, quando todos os seus companheiros de armas foram mortos no local, escapou do campo talvez tão astutamente quanto covardemente; outro, enquanto era enforcado, teve a corda rompida, e assim salvou o pescoço e renovou sua licença para exercer o velho ofício de furtar; outro arrombou a prisão e fugiu; um paciente, contra a vontade de seu médico, recuperou-se de uma febre perigosa; outro bebeu veneno, que, pondo-o numa violenta soltura, fez a seu corpo mais bem que mal, para grande pesar de sua esposa, que esperava, nessa ocasião, tornar-se alegre viúva; outro teve a carroça virada, e contudo nenhum de seus cavalos ficou manco; outro sofreu uma queda terrível, e ainda assim se recuperou da contusão; outro andava metendo-se com a mulher do vizinho, e escapou por um triz de ser apanhado no próprio ato pelo cornudo enfurecido. Depois de todos esses reconhecimentos por escaparem de perigos tão singulares, não há ninguém — como antes insinuei — que dê graças por ter sido libertado da Loucura; sendo a Loucura tão doce e saborosa que é antes suplicada como felicidade do que afastada como punição. Mas por que deveria eu lançar-me a tão vasto mar de superstições?

Tivesse eu tantas línguas quantos olhos tinha Argo, e mãos como Briareu, nem todas bastariam para epitomar a Loucura em todas as suas formas.

Elogio da Loucura

Sinopse

Tradução literária em português-BR da sátira filosófica de Erasmo de Roterdã, preparada pelo Literunico a partir de uma edição inglesa em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.

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