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Elogio da Loucura

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Elogio da Loucura

Capítulo 19 · Elogio da Loucura

Parte 19

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Parte 19

Assim como a natureza, em sua distribuição da presunção, tratou as pessoas particulares, também deu a cada país e nação uma pitada especial de amor-próprio. Por esse motivo é que os ingleses reivindicam a prerrogativa de possuir as mulheres mais formosas, de serem os mais consumados na habilidade da música e de manterem as melhores mesas; os escoceses gabam-se de sua nobreza e pretendem que o gênio de seu solo natal os inclina a ser bons disputadores; os franceses julgam-se notáveis pela cortesia e boa educação; os sorbonistas de Paris pretendem, antes de quaisquer outros, ter feito o maior progresso na teologia polêmica; os italianos prezam-se por seu saber e eloquência e, como os gregos de outrora, reputam bárbaro todo o mundo em comparação consigo mesmos; vaidade a que os habitantes de Roma são mais especialmente dados, pretendendo-se donos de todas aquelas virtudes heroicas pelas quais sua cidade, tantos séculos atrás, foi merecidamente famosa. Os venezianos fazem finca-pé em seu nascimento e linhagem. Os gregos se orgulham de haver sido os primeiros inventores da maior parte das artes, e de ser seu país famoso por ter produzido tantos filósofos eminentes. Os turcos, e todo o restante refugo do maometismo, pretendem professar a única religião verdadeira e riem de todos os cristãos como tolos supersticiosos e de alma estreita. Os judeus até hoje esperam seu Messias com tanta devoção quanto creem em seu primeiro profeta, Moisés. Os espanhóis reivindicam a reputação de serem tidos por bons soldados. E os alemães são notados por sua estatura alta e bem-proporcionada, e por sua habilidade em magia. Mas, para não mencionar mais nada, suponho que já estais convencidos de quão grande acréscimo e melhoria à felicidade da vida humana é ocasionado pelo amor-próprio; o passo seguinte a ele é a lisonja, pois assim como o amor-próprio não é senão o afago que damos a nós mesmos, assim o mesmo alisamento e agrado feito aos outros se chama lisonja.

A lisonja, é verdade, hoje é tida por nome escandaloso, mas apenas por aqueles que consideram mais as palavras que as coisas. Estão prevenidos contra ela por suporem que empurra para fora toda verdade e sinceridade; quando, de fato, sua propriedade é inteiramente contrária, como se vê pelos exemplos de várias criaturas brutas. Que há de mais adulador que um cão spaniel?

E, contudo, que há de mais fiel a seu dono? Que há de mais afeiçoado e amoroso que um esquilo domesticado? E, contudo, que há de mais brincalhão e inofensivo? Essa criaturinha saltitante é mantida numa gaiola para brincar; enquanto leões, tigres, leopardos e outros selvagens emblemas de rapina e crueldade são exibidos apenas por aparato e raridade, e, fora isso, não dão prazer algum a seus respectivos guardiões.

Há, de fato, uma espécie perniciosa e destrutiva de lisonja, com que trapaceiros e espertalhões alcançam seus vários fins sobre aqueles de quem podem fazer presa, atraindo-os a armadilhas e laços sem remédio; mas aquela que é efeito da loucura é de natureza muito diversa: procede de uma suavidade de espírito e de uma flexibilidade de bom humor, e chega muito mais perto da virtude do que o outro extremo da amizade, a saber, uma rigidez azeda, teimosa e carrancuda. Ela refresca nossos ânimos quando cansados, anima-os quando melancólicos, reforça-os quando lânguidos, revigora-os quando pesados, recupera-os quando enfermos e pacifica-os quando rebeldes; põe-nos no método de obter amigos e de conservá-los; induz as crianças a engolir os amargos rudimentos do saber; dá novo fermento às almas quase estagnadas dos velhos; repreende e instrui os príncipes sem ofensa, sob a máscara do louvor; em suma, faz cada homem afeiçoado e indulgente consigo mesmo, o que não é, de fato, pequena parte da felicidade de cada um, e ao mesmo tempo torna-o obsequioso e complacente em toda companhia, onde é agradável ver como os asnos se esfregam e coçam uns aos outros.

Esta, por sua vez, é grande qualidade num orador, maior ainda num médico, e a única num poeta; enfim, é o melhor adoçante de todas as aflições e dá verdadeiro sabor aos prazeres de nossa vida inteira, que de outro modo seriam insípidos. Sim, mas — direis vós — lisonjear é enganar; e enganar é muito áspero e nocivo. Não: antes o contrário. Nada é mais bem-vindo e encantador do que ser enganado. Muito se deve censurar a cabeça sem discernimento dos que fazem juízo das coisas segundo aquilo que elas são em si mesmas, quando sua natureza inteira consiste apenas nas opiniões que delas se têm. Pois todas as matérias sublunares estão envolvidas em tal nuvem de obscuridade que a miopia do entendimento humano não consegue penetrá-las nem chegar a conhecimento algum compreensivo delas. Daí a seita dos filósofos acadêmicos ter modestamente resolvido que, sendo todas as coisas não mais que prováveis, nada pode ser conhecido como certo; ou, se pudesse, isso apenas interromperia e diminuiria o prazer de uma ignorância mais feliz. Finalmente, nossas almas são formadas e moldadas de tal maneira que são mais depressa cativadas pelas aparências do que pelas verdades reais; e, se alguém desejasse um exemplo disso, pode encontrar um muito familiar nas igrejas, onde, se o que se entrega do púlpito é um discurso grave, sólido e racional, toda a congregação se enfada e adormece, até que sua paciência seja libertada; ao passo que, se o pregador — perdoai a impropriedade da palavra, tagarela eu deveria ter dito — é zeloso em seus golpes na almofada, em gestos grotescos, e gasta sua ampulheta contando histórias agradáveis, seus amados então se levantam, metem os cabelos atrás das orelhas e ficam muito devotamente atentos. Assim, entre os santos, são mais procurados aqueles que têm mais de romanesco e fabuloso: por exemplo, um poético São Jorge, um São Cristóvão ou uma Santa Bárbara serão mais frequentemente invocados que São Pedro, São Paulo, sim, talvez até que o próprio Cristo; mas isto, é possível, talvez caiba mais propriamente em outro lugar.

Elogio da Loucura

Sinopse

Tradução literária em português-BR da sátira filosófica de Erasmo de Roterdã, preparada pelo Literunico a partir de uma edição inglesa em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.

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