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Elogio da Loucura

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Elogio da Loucura

Capítulo 20 · Elogio da Loucura

Parte 20

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Parte 20

Entretanto, observai que compra barata da felicidade se faz pela força da fantasia. Pois, enquanto muitas coisas, mesmo de valor insignificante, custariam grande dose de trabalho e talvez de dinheiro para serem obtidas, a opinião poupa despesas, e ainda assim nos dá essas coisas, pela presunção, de modo tão amplo como se as possuíssemos na realidade. Assim, aquele que se alimenta de um prato de peixe tão fedorento que outro teria de tapar o nariz a uma jarda de distância, se o come de bom grado e o saboreia com paladar, para ele é tão bom como se tivesse sido pescado de fresco; ao passo que, por outro lado, se alguém é convidado para a mais delicada cabeça de esturjão, se seu estômago se revolta contra tal comida, poderá ficar sentado, faminto, e roer as unhas com maior apetite que o dos manjares. Ainda que uma mulher seja feíssima e nauseante, se o marido consegue apenas julgá-la formosa, para ele tanto faz como se ela realmente o fosse. Se algum homem tem um desenho por mais ordinário e borrado que seja, ainda assim, se admira sua excelência e pode supor que foi traçado por algum antigo Apeles ou moderno Van Dyck, orgulha-se dele como se de fato houvesse saído das mãos de um deles. Conheci um amigo meu que presenteou sua noiva com várias pedras falsas e contrafeitas, fazendo-a crer que eram joias verdadeiras e lhe haviam custado muitas centenas de milhares de coroas; nesse engano, a pobre mulher tinha tanto apreço por seixos e vidros pintados como se fossem rubis e diamantes naturais, enquanto o marido sutil poupava muito no bolso e ainda deixava a esposa tão satisfeita como se tivesse gasto mil vezes mais. Que diferença há entre aqueles que, na masmorra mais escura, podem, com uma mente platônica, contemplar o mundo inteiro em ideia, e aquele que está ao ar livre e toma do universo uma visão menos enganosa? Se o mendigo de Luciano, que sonhou ser príncipe, jamais tivesse despertado, seu reino imaginário teria sido tão grande quanto um real. Entre aquele, portanto, que é verdadeiramente feliz, e aquele que se julga assim, não há distinção perceptível; ou, se houver alguma, o tolo leva vantagem: primeiro, porque sua felicidade lhe custa menos, ficando apenas ao preço de um simples pensamento; e depois, em segundo lugar, porque tem mais companheiros e participantes de sua boa fortuna. Pois nenhum gozo é confortável onde o benefício não se comunica aos outros; nem é desejável estado algum da vida em que não possamos conversar com pessoas da mesma condição que nós. E, contudo, este é o duro destino dos sábios, que se tornaram tão raros que, como Fênices, aparecem apenas um por era. Os gregos, é verdade, contaram sete dentro dos estreitos limites de seu próprio país; mas creio que, se refizessem agora suas contas, não encontrariam meio, não, nem a terça parte de um, em extensão muito maior.

Além disso, quando, entre as várias boas propriedades de Baco, esta é tida como a principal, a saber, que ele afoga os cuidados e ansiedades da mente — embora, na verdade, apenas por breve tempo, pois, depois de uma pequena soneca, quando nossos miolos se assentam um pouco, todos eles voltam a suas antigas corrosões —, quão maior é a vantagem mais durável que eu trago! Pois, por um acesso ininterrupto de embriaguez imaginária, engano perpetuamente a mente com desordens, folguedos e todo o excesso e energia da alegria.

Acrescentai a isto que sou tão comunicativa e generosa que não deixo pessoa alguma passar sem algum sinal de meu favor; enquanto as outras divindades concedem seus dons parcamente, apenas a seus eleitos. Baco não julgou conveniente que todo solo produzisse a mesma uva cheia de suco; Vênus não deu a todos igual porção de beleza; Mercúrio dota poucos com o dom de uma eloquência perfeita; Hércules não dá a todos a mesma medida de bens e riquezas; Júpiter ordenou que apenas poucos nascessem para o reino; Marte, na batalha, concede vitória completa a apenas uma das partes; sim, muitas vezes faz ambas perdedoras; Apolo não responde à expectativa de todos os que consultam seus oráculos; Jove amiúde troveja; Febo às vezes dispara a peste, ou alguma outra infecção, na ponta de seus dardos; e Netuno engole mais do que sustenta. Para não mencionar seus Veioves, seus Plutos, sua deusa Até da perdição, seus gênios malignos e outros monstros semelhantes de divindade, que tinham mais do carrasco que do deus, e eram adorados apenas para afastar o mal que costumavam infligir; eu digo, sem mencionar estes, sou aquela alta e poderosa deusa cuja liberalidade tem extensão tão larga quanto sua onipotência. Dou a todos que pedem; nunca apareço carrancuda, nem mal-humorada, nem jamais exijo expiação ou satisfação pela omissão de qualquer pontilho cerimonioso em meu culto; não me enfureço nem esbravejo se os mortais, em suas súplicas aos outros deuses, passam por mim sem me notar, sem reconhecimento algum de respeito ou invocação. Ao passo que todos os outros deuses são tão escrupulosos e exigentes que muitas vezes se mostra menos perigoso desprezá-los virilmente do que tentar servilmente a difícil tarefa de agradá-los. Assim, há certos homens de humor tão melindroso e perverso que é melhor ser-lhes de todo estranho do que amigo, por mais íntimo que se seja.

Elogio da Loucura

Sinopse

Tradução literária em português-BR da sátira filosófica de Erasmo de Roterdã, preparada pelo Literunico a partir de uma edição inglesa em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.

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