Universo da obra
Universo da obra
Da mesma quadrilha são aqueles janotas escrevinhadores que pensam eternizar sua memória arvorando-se em autores; entre os quais, embora todos me sejam de algum modo devedores, são-no mais especialmente aqueles que estragam papel, manchando-o com meras ninharias e impertinências. Quanto àqueles mais graves mourejadores da imprensa, que escrevem doutamente, para além do alcance de um leitor comum, e ousam submeter seus trabalhos à revisão do crítico mais severo, estes não são tanto de invejar por sua honra quanto de lastimar por seu suor e servidão. Fazem acréscimos, alterações, riscam, escrevem de novo, corrigem, entrelinham, viram tudo de cabeça para baixo, e ainda assim nunca conseguem agradar seu juízo volúvel; antes, na hora seguinte, desgostam do que haviam escrito na anterior. E tudo isso para comprar os louvores aéreos de uns poucos leitores entendidos, o que, no máximo, é pobre recompensa por todos os seus jejuns, vigílias, clausuras e torturas de invenção que lhes racham o cérebro. Acrescentai a isso o prejuízo da saúde, o enfraquecimento da constituição, o contraírem olhos doloridos, ou talvez ficarem completamente cegos; sua pobreza, sua inveja, sua exclusão de todos os prazeres, seu apressar da velhice, sua morte prematura, e quaisquer outros incômodos de natureza semelhante ou pior que se possam imaginar. E, contudo, a recompensa por toda essa severa penitência não é, na melhor das hipóteses, mais que um ou dois bocados de louvor espumoso. Estes, assim como são mais laboriosos, são também menos felizes que aqueles outros escrevinhadores de aluguel que mencionei primeiro, os quais nunca se detêm muito a considerar, mas escrevem ao acaso o que lhes vem em seguida, sabendo que, quanto mais tolas forem suas composições, tanto mais serão compradas pelo maior número de leitores, que são tolos e cabeças-duras. E, se acaso forem condenados por uns poucos juízosos, é coisa fácil abafar sua censura com clamor e fazê-los calar, alegando os louvores mais numerosos dos outros. Mais sábios ainda são aqueles que transcrevem discursos inteiros de outros e depois os reimprimem como seus. Fazendo isso, tomam para si, de modo barato e fácil, aquela reputação que tanto tempo e trabalho custou ao primeiro autor adquirir. Se alguma vez são um pouco aguilhoados pela consciência, por medo de serem descobertos, ainda assim se alimentam desta esperança: que, se por fim forem achados plagiários, ao menos por algum tempo terão tido o crédito de passar por autores genuínos. É agradável ver como todos esses vários escritores se inflam com o menor sopro de aplauso, sobretudo se chegam à honra de serem apontados enquanto caminham pelas ruas, quando suas diversas peças estão expostas em cada banca de livreiro, quando seus nomes aparecem em relevo, com caracteres diferentes, na página de título, às vezes apenas com as duas primeiras letras, e às vezes com termos fictícios e emperrados, cujo sentido poucos entenderão; e, daqueles que entenderem, nem todos concordarão em seu veredito sobre a obra: uns censurando-a, outros aprovando-a, pois os juízos dos homens são tão diferentes quanto seus paladares, sendo saboroso para um aquilo que é insosso e nauseante para outro. Embora seja um ato rasteiro de covardia que autores ponham nomes fingidos em suas obras, como se, à maneira de bastardos de seu cérebro, tivessem medo de reconhecê-las como suas. Assim, um se intitula Telêmaco; outro, Esteleno; um terceiro, Polícrates; outro, Trasímaco, e assim por diante. Pela mesma liberdade, poderíamos saquear o alfabeto inteiro e embaralhar quaisquer letras que primeiro nos viessem à mão. É ainda muito agradável quando esses peralvilhos empregam suas penas em escrever epístolas congratulatórias, poemas e panegíricos uns aos outros, nos quais um será cumprimentado com o título de Alceu; outro será caracterizado como o incomparável Calímaco; este será louvado como orador mais completo que o próprio Túlio; a um quarto dirá seu companheiro de tolice que o divino Platão lhe fica aquém em alma filosófica. Às vezes, por sua vez, tomam os bastões e desafiam um antagonista, e assim ganham nome por um combate de disputa e controvérsia, enquanto os leitores incautos tomam partido conforme seus diferentes juízos. Quanto mais a querela dura, mais irreconciliável se torna; e, quando ambas as partes se cansam, cada uma se declara vencedora, e ambas reivindicam o crédito de haver saído com a vitória. Essas tolices divertem os sábios, por serem altamente absurdas, ridículas e extravagantes. Verdade; e, contudo, esses combatentes de papel, com minha assistência, ficam tão inflamados pela presunção de sua própria grandeza que preferem resolver um silogismo a saquear Cartago; e, ao derrotarem uma pobre objeção, conduzem-se mais triunfantes que o mais vitorioso Cipião.
Sim, até os eruditos e mais judiciosos, que têm engenho bastante para rir da loucura dos outros, devem muitíssimo à minha bondade; o que — a menos que a ingratidão lhes tenha afogado a engenhosidade — devem estar prontos a confessar em todas as ocasiões. Entre estes, suponho que os advogados se esgueirarão para obter precedência, e eles, de todos os homens, têm a maior presunção de suas próprias capacidades. Argumentarão com tanta confiança como se falassem evangelho em vez de lei; citar-vos-ão seiscentos precedentes diversos, embora nenhum deles chegue perto do caso em questão; arregimentarão a autoridade de sentenças, escrituras, glosas e repertórios, e revirarão tantos registros bolorentos que fazem de seu ofício, embora em si fácil, a maior escravidão imaginável, sempre considerando melhor a peça em que mais trabalho puseram.
Tradução literária em português-BR da sátira filosófica de Erasmo de Roterdã, preparada pelo Literunico a partir de uma edição inglesa em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.
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