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Elogio da Loucura

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Elogio da Loucura

Capítulo 25 · Elogio da Loucura

Parte 25

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Parte 25

A estes, por trazerem grande semelhança com eles, podem ser acrescentados os lógicos e sofistas, sujeitos que falam tanto de cor quanto um papagaio; capazes de abafar toda a mexericada de um bando de velhas, sim, de silenciar até o próprio ruído de um campanário, com badalos mais altos que os do sino. E, se sua clamorosidade insaciável fosse sua única falta, ainda admitiria alguma desculpa; mas são ao mesmo tempo tão ferozes e querelentos que disputarão sanguinariamente pela menor ninharia, e se mostrarão tão excessivamente atentos e ávidos que muitas vezes perdem a caça no encalço e espantam aquela verdade que perseguiam. Contudo, a presunção faz desses disputadores ágeis campeões tão valorosos que, armados de três ou quatro silogismos bem encadeados, entrarão na liça com os maiores mestres da razão, sem duvidar de que os derrotarão de maneira irresistível; sim, sua obstinação os torna tão confiantes de estarem certos que todos os argumentos do mundo jamais os convencerão do contrário.

Depois destes vêm os filósofos, com suas longas barbas e mantos curtos, que se estimam os únicos favoritos da sabedoria e olham para o restante da humanidade como a lama e o entulho da criação; contudo, a felicidade desses homens não é senão uma frenética loucura do cérebro. Constroem castelos no ar e infinitos mundos no vacuum. Dar-vos-ão, com a exatidão de um fio de cabelo, as dimensões do sol, da lua e das estrelas, tão facilmente quanto dariam as de uma jarra ou panelinha; prestarão conta pontual da origem do trovão, do nascimento dos ventos, da natureza dos eclipses e de todas as outras dificuldades mais abstrusas da física, sem o menor reparo ou hesitação, como se tivessem sido admitidos ao conselho secreto da natureza, ou houvessem sido testemunhas oculares de todos os métodos exatos da criação. Embora, ai de nós, a natureza apenas ria de todas as suas conjecturas franzinas; pois nunca fizeram ainda uma só descoberta considerável, como se vê pelo fato de não concordarem unanimemente em ponto algum da menor importância; nada há tão claro ou evidente que não seja por um ou outro oposto e contraditado. Mas, embora ignorem a contextura artificiosa do menor inseto, vangloriam-se contudo e se gabam de saber todas as coisas, quando na verdade são incapazes de interpretar o mecanismo de seu próprio corpo; sim, quando são tão cegos que não conseguem ver a distância de uma pedrada diante de si, ainda assim serão tão perspicazes quanto possível em espiar ideias, universais, formas separadas, matérias primeiras, quididades, formalidades e uma centena de semelhantes sutilezas, tão diminutamente pequenas que, se seus olhos não fossem extremamente ampliadores, toda a arte da óptica jamais as tornaria discerníveis. Mas então mais desprezam o baixo e rasteiro vulgo quando trazem à cena seus paralelos, triângulos, círculos e outras figuras matemáticas, dispostos em ordem de batalha como tantos feitiços e encantamentos de conjuração em revista, com letras para remeter à explicação dos vários problemas; erguendo, por assim dizer, demônios apenas para ganhar o crédito de abatê-los, e pasmando os espectadores ordinários de assombro, porque não têm engenho bastante para entender o truque. Destes, alguns se incumbem de professar-se astrólogos judiciários, pretendendo manter correspondência com os astros e, assim, por suas informações, poder resolver qualquer questão; e, embora tudo não passe de uma impostura presunçosa, ainda assim certamente alguns serão tolos o bastante para acreditar neles.

Elogio da Loucura

Sinopse

Tradução literária em português-BR da sátira filosófica de Erasmo de Roterdã, preparada pelo Literunico a partir de uma edição inglesa em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.

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