Universo da obra
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Além disso, os apóstolos mencionam muitas vezes a Graça, mas nunca distinguem entre gratia, gratis data e gratia gratificans. Exortam-nos também com ardor às boas obras, mas nunca explicam a diferença entre Opus operans e Opus operatum. Com muita frequência instam e convidam-nos a buscar a caridade, sem dividi-la em infusa e adquirida, nem determinar se é substância ou acidente, ser criado ou incriado. Eles próprios detestavam o pecado e advertiam os outros contra cometê-lo; e, contudo, estou certa de que jamais poderiam tê-lo definido tão dogmaticamente como os escotistas depois fizeram. São Paulo, que, no juízo alheio, não é menos o principal dos apóstolos do que era, em seu próprio, o principal dos pecadores, tendo sido educado aos pés de Gamaliel, foi certamente mais eminentemente letrado que qualquer dos demais; e, contudo, muitas vezes exclama contra a vã filosofia, adverte-nos contra o delírio de questões e contendas de palavras, e ordena-nos evitar falatórios profanos e vãos, e oposições da ciência falsamente assim chamada; o que ele não teria feito se houvesse julgado que valia a pena tomar conhecimento delas, coisa que bem depressa poderia ter feito, sendo as disputas daquela época pequenas e sofismas mais inteligíveis, em comparação com as muitíssimo maiores intricâncias a que agora foram aperfeiçoadas. E, contudo, nossos teólogos escolásticos são tão modestos que, se encontram em São Paulo, ou em qualquer outro escritor da santa Escritura, alguma passagem que não esteja tão bem modelada ou criticamente disposta quanto desejariam, não a condenam rudemente, mas antes a dobram a uma interpretação favorável, por reverência à antiguidade e respeito às santas Escrituras; embora, na verdade, fosse irrazoável esperar dos apóstolos qualquer coisa dessa natureza, pois seu Senhor e Mestre lhes dera conhecer os mistérios de Deus, mas não os da filosofia. Se os mesmos teólogos encontram algo de semelhante natureza, pouco palatável, em São Crisóstomo, São Basílio, São Jerônimo ou outros dos Padres, não hesitam em apelar de sua autoridade e, com muita elegância, resolvem que eles estavam em erro. Contudo, esses antigos Padres foram aqueles que refutaram tanto os judeus como os gentios, embora ambos aderissem obstinadamente a seus respectivos preconceitos; refutaram-nos, digo, mais por suas vidas e milagres do que por palavras e silogismos. E as pessoas que assim proselitavam eram gente francamente honesta, bem-intencionada, que entendia melhor o senso claro do que qualquer pompa artificial de raciocínio; ao passo que, se nossos teólogos se pusessem agora a ganhar convertidos do paganismo por suas sutilezas metafísicas, descobririam que a maior parte das pessoas a quem se dirigissem ou seria tão ignorante que de modo algum os compreenderia, ou tão impudente que zombaria e escarneceria deles, ou, por fim, tão bem exercitada nas mesmas armas que seria capaz de manter a guarda e aparar todos os assaltos da convicção. E, por este último caminho, a vitória seria tão desesperada quanto se duas pessoas de força tão igual se enfrentassem que fosse impossível uma sobrepujar a outra.
Se meu juízo pudesse ser tomado em conta, eu aconselharia os cristãos, em sua próxima expedição para uma guerra santa, que, em lugar daquelas muitas legiões malsucedidas que até agora enviaram para enfrentar turcos e sarracenos, aparelhassem seus clamorosos escotistas, seus obstinados occamistas, seus invencíveis albertistas e todas as suas forças de disputadores duros, ásperos e profundos. O combate, imagino, seria poderosamente agradável, e a vitória, podemos supor, não estaria em dúvida do nosso lado. Pois qual dos inimigos não baixaria seus turbantes diante de tão solene aparição? Qual dos mais ferozes janízaros não lançaria fora o alfanje, e que luas crescentes não seriam eclipsadas pela interposição de tão glorioso exército?
Suponho que suspeitais que digo tudo isto por modo de escárnio e ironia; e bem posso fazê-lo, pois entre os próprios teólogos há alguns tão engenhosos que desprezam essas impertinências cavilosas e frívolas. Consideram uma espécie de sacrilégio profano, e pouco menos que ímpia blasfêmia, determinar tais sutilezas em matéria de religião, que deveriam antes ser assunto de uma fé humilde e sem contradição do que de uma razão escrupulosa e inquisitiva. Abominam macular os mistérios do cristianismo com uma mistura de filosofia pagã, e julgam muito impróprio reduzir a divindade a uma obscura ciência especulativa, cujo fim é uma felicidade que só pode ser alcançada pelos meios da prática. Mas, ai de nós, esses teólogos nocionais, por mais condenados que sejam pelo juízo mais sóbrio de outros, ainda assim estão poderosamente satisfeitos consigo mesmos e tão laboriosamente atentos em prosseguir seus estudos ásperos que não podem conceder tempo sequer para ler um único capítulo de qualquer livro de toda a Bíblia. E, enquanto assim desperdiçam suas horas mal gastas em lixo e tagarelice, julgam sustentar a Igreja Católica com os escoras e pilares de proposições e silogismos, não menos eficazmente do que Atlas é fingido pelos poetas sustentar sobre os ombros o fardo de um mundo cambaleante.
Seus privilégios, também, e sua autoridade são muito consideráveis: podem tratar qualquer texto da Escritura como nariz de cera, amassando-o na forma que melhor convenha a seus interesses; e quaisquer conclusões que tenham dogmaticamente resolvido, querem que sejam ratificadas de modo tão irrevogável quanto as leis de Sólon, e com tanta força quanto os próprios decretos da cátedra papal. Se alguém for tão ousado a ponto de protestar contra suas decisões, eles o porão de joelhos para uma retratação de sua impudência. Pronunciarão, tão irrevogavelmente quanto um oráculo: esta proposição é escandalosa; aquela, irreverente; esta tem sabor de heresia; aquela é chã e imprópria. De sorte que não é ser batizado na Igreja, crer nas Escrituras, dar crédito a São Pedro, São Paulo, São Jerônimo, Santo Agostinho, nem sequer ao próprio São Tomás de Aquino, que fará de um homem cristão, se ele não tiver o sufrágio conjunto desses noviços do saber, que sem dúvida abençoaram o mundo com muitíssimas descobertas, as quais jamais teriam vindo à luz se eles não houvessem arrancado o fogo da sutileza da pederneira da obscuridade. Decerto tais tolices devem ser uma feliz ocupação.
Tradução literária em português-BR da sátira filosófica de Erasmo de Roterdã, preparada pelo Literunico a partir de uma edição inglesa em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.
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