Universo da obra
Universo da obra
Alguns são tão obstinadamente supersticiosos que vestem por fora uma túnica de alguma áspera fazenda de pelo de cão, e junto à pele uma tão macia quanto seda; outros, ao contrário, trazem hábitos de linho por cima, e camisas de lã ou de cilício. Alguns, por sua vez, não tocarão numa moeda, embora não façam escrúpulo do pecado da embriaguez e da concupiscência da carne. Todas as suas várias ordens nada têm mais em mente do que distinguir-se umas das outras por seus diferentes costumes e hábitos. Parecem, de fato, não tão cuidadosas em se tornar semelhantes a Cristo e serem conhecidas como seus discípulos, quanto em ser dessemelhantes entre si e distinguíveis como seguidoras de seus vários fundadores. Grande parte de sua religião consiste em seu título: alguns querem ser chamados cordeleiros, e estes subdivididos em capuchinhos, menores, mínimos e mendicantes; alguns, por sua vez, são denominados beneditinos, outros da ordem de São Bernardo, outros da de Santa Brígida; alguns são monges agostinianos, alguns guilhermitas, e outros jacobitas, como se o nome comum de cristão fosse demasiado baixo e vulgar. A maioria deles põe o maior peso de sua salvação numa estrita conformidade a suas cerimônias afetadas, e na crença em suas tradições lendárias; nas quais imaginam haver-se desempenhado com tanta supererrogação que um só céu jamais poderia ser recompensa condigna para sua vida meritória, pouco pensando que o Juiz de toda a terra, no último dia, os despedirá com um “quem requereu estas coisas de vossas mãos?”, e os chamará a prestar contas apenas da administração de seu legado, que foi o preceito do amor e da caridade. Será bonito ouvir suas alegações diante do grande tribunal: um se gabará de como mortificou seu apetite carnal alimentando-se apenas de peixe; outro alegará que passou a maior parte de seu tempo na terra no divino exercício de cantar salmos; um terceiro dirá quantos dias jejuou e que severa penitência impôs a si mesmo para trazer o corpo à sujeição; outro produzirá em seu favor tantas cerimônias quantas bastariam para carregar uma frota de navios mercantes; um quinto pleiteará que, em sessenta anos, jamais tocou sequer numa moeda, exceto quando a manuseou através de um grosso par de luvas; um sexto, para testemunhar sua antiga humildade, trará consigo seu sagrado capuz, tão velho e imundo que qualquer marinheiro preferiria ficar de cabeça descoberta no convés a pô-lo para defender as orelhas nas mais ásperas tempestades; o próximo que vier responder por si alegará que, por cinquenta anos seguidos, viveu como uma esponja no mesmo lugar e se contentou em nunca mudar sua morada caseira; outro sussurrará baixinho e dirá ao juiz que perdeu a voz de tanto cantar continuamente hinos e antífonas sagradas; o seguinte confessará que caiu em letargia por uma vida estrita, reservada e sedentária; e o último insinuará que esqueceu como se fala, por haver sempre guardado silêncio, em obediência à injunção de tomar cuidado para não ofender com a língua. Mas, em meio a todas as suas belas desculpas, nosso Salvador os interromperá com esta resposta: Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas; em verdade, não vos conheço. Deixei-vos apenas um preceito, o de amar-vos uns aos outros, e não ouço nenhum de vós alegar que o cumpriu fielmente. Disse-vos claramente em meu evangelho, sem parábola alguma, que o reino de meu Pai foi preparado não para aqueles que dele se arrogassem por austeridades, orações ou jejuns, mas para os que se tornassem dignos dele pelo exercício da fé e pelos ofícios da caridade. Não posso reconhecer os que dependem dos próprios méritos sem confiança em minha misericórdia; portanto, todos vós que confiais nos caniços quebrados de vossos próprios merecimentos podeis ir procurar um novo céu, pois jamais entrareis naquele que, desde a fundação do mundo, foi preparado apenas para os verdadeiros de coração. Quando esses monges e frades receberem tão vergonhosa repulsa e virem que lavradores e artífices são admitidos naquele reino de que eles próprios são excluídos, com que olhar rasteiro olharão, e quão lastimosamente se esgueirarão para longe! Contudo, até essa última prova, tiveram mais conforto de uma felicidade futura, porque dela tiveram mais esperanças que quaisquer outros homens. E essas pessoas não são apenas grandes aos próprios olhos, mas altamente estimadas e respeitadas pelos outros, especialmente os da ordem dos mendicantes, a quem ninguém ousa oferecer afronta alguma, porque, como confessores, são depositários de todos os segredos das intrigas particulares, que por juramento estão obrigados a não descobrir; contudo, muitas vezes, quando estão quase bêbados, não conseguem manter a língua tão presa na boca que não deixem escapar algumas insinuações, mostrando-se tão cheios que sofrem para dar à luz. Se alguém lhes dá a menor provocação, certamente se vingarão dele e, em sua próxima arenga pública, lhe darão tão astutas ferroadas e alusões que toda a congregação necessariamente perceberá a quem são dirigidas; nem jamais desistirão desse modo de declamar até que lhes tapem a boca com suborno para calarem a língua. Toda a sua pregação é mero teatro, e sua elocução, os próprios transportes do ridículo e da bufonaria. Bom Deus! Quão mímicos são seus gestos! Que altos e baixos na voz! Que entoação, que berros, que cantoria, que guinchos, que caretas, bocas torcidas, faces de macaco e distorções de semblante! E esta arte da oratória, como mistério escolhido, eles transmitem por tradição uns aos outros. O modo dela eu talvez me aventure a ampliar um pouco mais assim. Primeiro, numa espécie de arremedo, imploram a assistência divina, costume que tomaram emprestado da prática solene dos poetas; depois, se o texto deles, suponhamos, é sobre a caridade, tomarão o exórdio de tão longe quanto uma descrição do rio Nilo no Egito; ou, se devem discorrer sobre o mistério da Cruz, começarão com a história de Bel e o Dragão; ou, porventura, se o assunto for o jejum, como entrada do sermão passarão pelos doze signos do zodíaco; ou, por fim, se devem pregar sobre a fé, dirigir-se-ão a uma longa explicação matemática da quadratura do círculo. Eu mesma ouvi certa vez um grande tolo — um grande douto, eu queria dizer — que se punha, num discurso laborioso, a explicar o mistério da Santíssima Trindade; no desdobramento do qual, para mostrar seu engenho e leitura, e ao mesmo tempo satisfazer ouvidos ansiosos, procedeu por um novo método, insistindo nas letras, sílabas e proposição, na concordância de nome e verbo, e naquela de substantivo e adjetivo; todos os ouvintes se maravilharam, e alguns resmungaram consigo aquele hemistíquio de Horácio,
Tradução literária em português-BR da sátira filosófica de Erasmo de Roterdã, preparada pelo Literunico a partir de uma edição inglesa em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.
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