Leia agora
Elogio da Loucura

Universo da obra

Elogio da Loucura

Capítulo 32 · Elogio da Loucura

Parte 32

32 de 45 ≈ 6 min de leitura

Parte 32

Contudo, esses pregadores, por mais ridículos que sejam, encontram ouvintes que os admiram tanto quanto o povo de Atenas admirava Demóstenes, ou os cidadãos de Roma poderiam admirar Cícero; entre esses admiradores estão principalmente lojistas e mulheres, cuja aprovação e boa opinião eles cortejam apenas porque os primeiros, se forem agradados, lhes dão alguma fatia de ganhos injustos; e as últimas vêm aliviar junto deles suas dores em todas as ocasiões apertadas, especialmente quando os maridos se mostram de algum modo contrariantes ou pouco afetuosos.

Isto, suponho, pode bastar para vos fazer perceber quanto esses eremitas de cela e reclusos devem à minha generosidade; eles que, quando tiranizam as consciências do laicato iludido com frivolidades, embustes e imposturas, ainda assim se julgam tão eminentemente piedosos quanto São Paulo, Santo Antão ou qualquer outro dos santos. Mas desses teólogos de palco, não menos ingratos em negar suas obrigações para com a Loucura do que impudentes em pretender a profissão da piedade, despeço-me de bom grado e passo agora a reis, príncipes e cortesãos, os quais, prestando-me devoto reconhecimento, podem com justiça reclamar de volta o respeito de serem por mim mencionados e notados. E, primeiro, se tivessem sabedoria bastante para fazer um juízo verdadeiro das coisas, descobririam que sua própria condição é mais desprezível e servil que a dos súditos mais subalternos. Pois certamente ninguém pode estimar que perjúrio ou parricídio sejam preço barato por uma coroa, se apenas refletir seriamente sobre aquele peso de cuidados de que está carregado um diadema principesco. Aquele que se senta ao leme do governo age em capacidade pública e, assim, deve sacrificar todo interesse privado à obtenção do bem comum; deve ele próprio conformar-se às leis que sua prerrogativa exige, ou então não poderá esperar que os outros lhes prestem obediência; deve ter olhar atento sobre todos os seus magistrados e oficiais inferiores, ou, de outro modo, é de temer que eles desempenhem apenas descuidadamente seus respectivos deveres. Cada rei, dentro de seus territórios, é posto como exemplo luminoso, por assim dizer, no firmamento de seus domínios vastamente estendidos, para provar-se ou estrela gloriosa de influência benigna, se sua conduta for notavelmente justa e inocente, ou então para pender como cometa ameaçador, se seu poder flamejante for pestilento e nocivo. Os súditos movem-se numa esfera mais obscura, e por isso seus desvios e falhas são menos discerníveis; ao passo que os príncipes, fixados em orbe mais elevado e cercados de brilho mais claro e ofuscante, têm suas manchas mais aparentemente visíveis, e seus eclipses, ou outros defeitos, influem sobre tudo o que lhes é inferior. Os reis são iscas de tantas tentações e oportunidades para o vício e a imoralidade — como alimentação farta, liberdade, lisonja, luxo e coisas semelhantes — que devem estar perpetuamente de guarda, para aparar aqueles assaltos sempre prontos a investir contra eles. Enfim, descontando traição, ódio, perigos, medo e mil outros males que pairam sobre cabeças coroadas, por mais incontroláveis que sejam deste lado do céu, ainda assim, depois de seu reinado aqui, devem comparecer perante um juiz mais supremo, e ali ser chamados a prestar contas exatas do cumprimento daquela grande mordomia confiada à sua guarda. Se os príncipes apenas considerassem seriamente — e considerariam, se fossem sábios — essas muitas durezas de uma vida régia, ficariam tão perplexos no resultado de seus pensamentos que mal poderiam comer ou dormir em paz. Mas agora, com minha assistência, deixam todos esses cuidados aos deuses e atentam apenas para seu próprio repouso e prazer; e, portanto, não admitem em sua presença senão aqueles que os divirtam com folguedo e alegria, para que, de outro modo, não sejam tomados e abatidos pelo sobressalto de pensamentos sóbrios. Pensam ter-se desempenhado suficientemente do dever de governar se apenas cavalgam constantemente para caçar, criam bons cavalos de corrida, vendem lugares e ofícios aos cortesãos que mais derem por eles, e descobrem novos meios de invadir a propriedade de seu povo e fisgar receita maior para seu próprio erário; para obter o que sempre terão alguma pretensa reivindicação e título, de modo que, embora seja manifesta extorsão, possa ainda ostentar aparência de lei e justiça. E então besuntam sua opressão com um proceder submisso e lisonjeiro, para insinuar-se tanto nos afetos do vulgo que este não se tumultue nem se rebele, mas se curve pacientemente a fardos e exações. Figuremos agora uma pessoa ignorante das leis e constituições do reino em que vive, inimiga do bem público, estudiosa apenas do próprio interesse privado, inteiramente entregue a prazeres e deleites, inimiga do saber, inimiga declarada da liberdade e da verdade, descuidada e esquecida dos interesses comuns, tomando todas as medidas de justiça e honestidade pela falsa balança do interesse e da vantagem próprios. Depois disso, pendurai-lhe ao pescoço uma corrente de ouro, para indicar que deveria ter todas as virtudes ligadas entre si; então colocai-lhe sobre a cabeça uma coroa de ouro e joias, como sinal de que deveria sobrepujar e eclipsar os outros em todas as qualidades louváveis; em seguida, ponde-lhe na mão um cetro real, como símbolo de justiça e integridade; por fim, vesti-o de púrpura, como hieróglifo de um terno amor e afeição pela república. Se um príncipe contemplasse esse retrato e traçasse uma comparação entre ele e si mesmo, certamente se envergonharia de suas insígnias de majestade e temeria ser delas expulso pelo riso.

Elogio da Loucura

Sinopse

Tradução literária em português-BR da sátira filosófica de Erasmo de Roterdã, preparada pelo Literunico a partir de uma edição inglesa em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.

Elogio da Loucura

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Elogio da Loucura

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de Elogio da Loucura

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Elogio da Loucura Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 32 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Elogio da Loucura

Todos os capítulos 45 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir