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Elogio da Loucura

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Elogio da Loucura

Capítulo 34 · Elogio da Loucura

Parte 34

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Parte 34

Assim também os cardeais, se apenas considerassem que a Igreja os supõe sucessores no lugar dos apóstolos; que, portanto, devem comportar-se como seus predecessores e, assim, não ser senhores, mas dispensadores de dons espirituais, de cuja distribuição um dia terão de prestar rigorosa conta; ou se refletissem um pouco sobre seu hábito e assim arrazoassem consigo mesmos: que significa esta veste branca exterior, senão uma inocência sem mácula? Que significa minha púrpura interior, senão um ardente amor e zelo por Deus? Que importa meu manto mais externo, tão largo e comprido que cobre toda a mula quando cavalgo, sim, que deveria ser bastante grande para cobrir um camelo, senão uma caridade difusiva, que deveria estender-se em socorro e proteção de todos, ensinando, exortando, consolando, repreendendo, admoestando, compondo diferenças, resistindo corajosamente a príncipes perversos e sacrificando pela segurança de nosso rebanho nossa vida e nosso sangue, assim como nossos bens e riquezas; embora, na verdade, riquezas não devessem ser possuídas de modo algum por aqueles que se gabam de sucessores dos apóstolos, os quais foram pobres, necessitados e destituídos. Digo que, se apenas levassem tais considerações a peito, jamais seriam tão ambiciosos de ser elevados a essa honra; de bom grado a resignariam quando lhes fosse conferida, ou ao menos seriam tão industriosos, vigilantes e laboriosos quanto foram os apóstolos primitivos. Ora, quanto aos papas de Roma, que pretendem ser vigários de Cristo, se apenas imitassem sua vida exemplar, empregando-se num curso ininterrupto de pregação; vivendo acompanhados de pobreza, nudez, fome e desprezo deste mundo; se considerassem apenas o que importa a palavra papa, que significa pai; ou se apenas praticassem seu sobrenome de santíssimo, que ordem ou grau de homens estaria em pior condição? Não haveria então, na vacância daquela sé, tão vigorosa formação de partidos e compra de votos no conclave; e aqueles que, por suborno ou outros caminhos indiretos, se fizessem eleger, jamais assegurariam sua firme permanência na cadeira por pistola, veneno, força e violência. Quanto de seu prazer seria diminuído se fossem dotados de um dracma de sabedoria! Sabedoria, disse eu? Não, de um só grão daquele sal cujo sabor nosso Salvador ordenou que não perdessem. Todas as suas riquezas, toda a sua honra, suas jurisdições, seu patrimônio de Pedro, seus ofícios, suas dispensas, suas licenças, suas indulgências, seu longo séquito e acompanhamento — vede em quão curto espaço abreviei todo o seu comércio de religião —, numa palavra, todos os seus proventos seriam confiscados e perdidos; e, em lugar deles, sucederiam vigílias, jejuns, lágrimas, orações, sermões, estudos árduos, suspiros de arrependimento e mil severas penalidades semelhantes; sim, e o que é ainda mais deplorável, seguir-se-ia então que todos os seus escrivães, amanuenses, notários, advogados, procuradores, secretários, os ofícios de moços de estrebaria, cavalariços, criados, alcoviteiros — e algo mais que, por modéstia, não mencionarei —, em suma, todas essas tropas de assistentes que dependem de sua santidade, perderiam todas os seus vários empregos.

Isto, de fato, seria duro; mas o que ainda resta seria mais terrível: o próprio Cabeça da Igreja, o príncipe espiritual, seria então rebaixado de todo o seu esplendor ao pobre equipamento de alforge e bordão. Mas tudo isso está apenas na suposição de que entendessem as circunstâncias em que se encontram; ao passo que agora, por um salutar descuido de pensar, vivem tão bem quanto o coração pode desejar. Tudo quanto de esforço e labuta pertence a seu ofício, eles o transferem a São Pedro ou a São Paulo, que têm tempo bastante para cuidar disso; mas, se há alguma coisa de prazer e grandeza, assumem-na para si, como se a isso fossem chamados. De modo que, por minha influência, nenhuma espécie de gente vive com mais conforto e contentamento próprios. Pensam satisfazer aquele Mestre a quem pretendem servir, nosso Senhor e Salvador, com seu grande aparato e magnificência, com as cerimônias de investidura, com os títulos de reverência e santidade, e com o exercício de sua função episcopal apenas em abençoar e amaldiçoar. Fazer milagres é coisa velha e fora de moda; ensinar o povo é laborioso demais; interpretar a Escritura é invadir a prerrogativa dos escolásticos; rezar é ocioso demais; derramar lágrimas é covarde e pouco viril; jejuar é demasiado baixo e sórdido; ser simples e familiar está abaixo da grandeza daquele que, sem ser suplicado e rogado, mal concederá aos príncipes a honra de beijar-lhe o pé; enfim, morrer pela religião é renúncia excessiva de si mesmo; e ser crucificado como seu Senhor da Vida é vil e ignominioso. Suas únicas armas deveriam ser as do Espírito; e destas, de fato, são poderosamente liberais: seus interditos, suas suspensões, suas denúncias, suas agravações, suas excomunhões maiores e menores, e suas bulas rugidoras, que apavoram quem quer que seja contra quem trovejem. E esses santíssimos padres nunca as expedem com mais frequência do que contra aqueles que, por instigação do diabo e sem ter o temor de Deus diante dos olhos, tentam feloniosa e maliciosamente diminuir e prejudicar o patrimônio de São Pedro. E embora esse apóstolo diga a nosso Salvador no Evangelho, em nome de todos os outros discípulos: deixamos tudo e te seguimos, eles reivindicam como sua herança campos, cidades, tesouros e vastos domínios; para defender os quais, inflamados de santo zelo, combatem a ferro e fogo, com grande perda e efusão de sangue cristão, julgando-se mantenedores apostólicos da esposa de Cristo, a Igreja, quando assassinaram todos aqueles a quem chamam inimigos dela. Embora, na verdade, a Igreja não tenha inimigos mais sanguinários e tirânicos do que tais papas ímpios, que concedem dispensas para que Cristo não seja pregado; esvaziam o principal efeito e desígnio de nossa redenção por seus subornos e vendas pecuniárias; adulteram o Evangelho por suas interpretações forçadas e tradições solapadoras; e, por fim, por suas luxúrias e perversidades, entristecem o Espírito Santo e fazem sangrar de novo as feridas de seu Salvador.

Elogio da Loucura

Sinopse

Tradução literária em português-BR da sátira filosófica de Erasmo de Roterdã, preparada pelo Literunico a partir de uma edição inglesa em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.

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