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Elogio da Loucura

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Elogio da Loucura

Capítulo 35 · Elogio da Loucura

Parte 35

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Parte 35

Além disso, quando a Igreja cristã foi desde o princípio plantada, depois confirmada e, desde então, estabelecida pelo sangue de seus mártires, como se Cristo, sua cabeça, ainda houvesse de faltar aos mesmos meios de protegê-la, eles invertem a ordem e agora propagam sua religião pelas armas e pela violência, coisa que outrora costumava fazer-se apenas com paciência e sofrimentos. E embora a guerra seja tão bruta que convenha antes às feras que aos homens; tão extravagante que os poetas a fingiram efeito das fúrias; tão licenciosa que interrompe o curso de toda justiça e honestidade; tão desesperada que é melhor travada por rufiões e bandoleiros; e tão anticristã que contraria os mandamentos expressos do Evangelho; contudo, malgrado tudo isso, a paz é quieta demais, inativa demais, e eles precisam lançar-se à turbulência da guerra. Entre tais papas empreendedores, haverá alguns tão velhos que mal conseguem arrastar-se, e ainda assim revestir-se-ão de uma resolução jovem e viva; decidirão não recuar diante de trabalho algum, não poupar custo algum, nem esquivar inconveniente algum, contanto que possam envolver leis, religião, paz e todos os demais interesses, sagrados ou civis, em tumultos e desordens irremediáveis. E, contudo, alguns de seus cortesãos doutos e aduladores interpretarão essa loucura notória como zelo, piedade e fortaleza, tendo descoberto o modo pelo qual um homem pode sacar a espada e enterrá-la nas entranhas do irmão, sem ainda assim ofender o dever da segunda tábua, pela qual somos obrigados a amar nossos próximos como a nós mesmos. Ainda é incerto se esses padres romanos tomaram exemplo de outros bispos alemães, ou lhes deram precedente; estes, omitindo o hábito eclesiástico e outras cerimônias, aparecem abertamente armados da cabeça aos pés, como tantos campeões e guerreiros, pensando, sem dúvida, que ficam aquém do dever de sua função se morrerem em qualquer outro lugar que não o campo aberto, combatendo as batalhas do Senhor. O clero inferior, julgando falta de educação não se conformar a seus patronos e diocesanos, puxa e luta devotamente por seus dízimos com silogismos e argumentos, tão ferozmente quanto com espadas, paus, pedras ou qualquer coisa que lhes venha primeiro à mão. Quando leem os rabinos, os Padres ou outros escritos antigos, quão perspicazes são em espiar quaisquer sentenças com que possam amedrontar o povo e fazê-lo acreditar que mais que a décima parte é devida, passando por alto tudo quanto encontram nos mesmos autores que os lembre do dever e da dificuldade de seu próprio ofício. Nunca consideram que sua coroa raspada é sinal de que deveriam aparar e cortar todas as luxúrias supérfluas deste mundo, e entregar-se inteiramente à meditação divina; mas, em vez disso, nossos sacerdotes calvos julgam ter feito o bastante se apenas resmungam tal fardo de preces, que seria de admirar se Deus as ouvisse ou entendesse, quando as sussurram tão baixo e em língua tão desconhecida que mal as ouvem ou entendem eles próprios. Têm isto em comum com outros mecânicos: são sutilíssimos na arte de ganhar dinheiro, e maravilhosamente versados em seus respectivos direitos de dízimos, ofertas, proventos etc. Assim, todos se contentam em colher o proveito; mas, quanto ao fardo, esse lançam como bola de uma mão a outra, e o transferem a qualquer um que possam obter ou contratar. Pois, assim como os príncipes seculares têm seus juízes e ministros subordinados para agir em seu nome e lhes suprir o lugar, também os governantes eclesiásticos têm seus deputados, vigários e curas; sim, muitas vezes transferem todo o cuidado da religião aos leigos. Os leigos, supondo não ter nada que ver com a Igreja — como se seu voto batismal não os houvesse iniciado como membros dela —, entregam-na aos sacerdotes. Dos sacerdotes, por sua vez, os seculares, pensando que seu dízimo os torna um pouco profanos demais, transferem essa tarefa aos regulares; os regulares, aos monges; os monges a atiram de uma ordem a outra, até que recaia sobre os mendicantes; estes a impõem aos cartuxos, única ordem entre eles que conserva honestidade e piedade, mas que, na verdade, as conserva tão encerradas que ninguém jamais pôde vê-las. Assim, os papas, enfiando apenas a foice na colheita do lucro, deixam todo o resto da labuta da lavoura espiritual aos bispos; os bispos a concedem aos pastores; os pastores, a seus curas; e os curas a cometem aos mendicantes, que a devolvem àqueles que bem sabem tirar proveito do rebanho pelo benefício de sua lã.

Elogio da Loucura

Sinopse

Tradução literária em português-BR da sátira filosófica de Erasmo de Roterdã, preparada pelo Literunico a partir de uma edição inglesa em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.

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