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Elogio da Loucura

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Elogio da Loucura

Capítulo 36 · Elogio da Loucura

Parte 36

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Parte 36

Mas não quero que se pense que exponho de propósito as fraquezas de papas e sacerdotes, para que eu não pareça recuar de meu título e fazer uma sátira em vez de um panegírico; nem imagine alguém que censuro os bons príncipes ao louvar os maus. Fiz isto apenas em breve, para mostrar que não há pessoa alguma em particular que possa levar vida confortável, a menos que entre em minha sociedade e me conserve por amiga. Nem, de fato, poderia ser de outro modo, visto que a fortuna, essa imperatriz do mundo, está tão ligada a mim em aliança e amizade que, para os sábios, é sempre avara e parcimoniosa em seus dons, mas é profusamente liberal e pródiga para os tolos. Assim Timóteo, o comandante ateniense, em todas as suas expedições, foi espelho de boa sorte, porque era um tanto curto de juízo; dele nasceu o provérbio grego, 'H evdovtos kvptos aipel, a rede se enche, embora o pescador durma; há também outro provérbio favorável, yhavf itttatai, a coruja voa, presságio de sucesso. Mas contra os sábios são apontados estes provérbios de mau agouro: 'Ev tetpadi. yewnoevtas, nascido sob má estrela; equum habet seianum, não consegue montar o cavalo dianteiro; aurum tholosanum, bens mal adquiridos nunca prosperam; e outros no mesmo sentido. Mas abstenho-me de continuar proverbializando, para que não se pense que saqueei os Adágios de meu Erasmo. Para voltar, portanto, encontramos a fortuna sempre favorecendo os broncos e inflamando os atrevidos; acaricia e alisa os tolos, coroando todos os seus empreendimentos com sucesso; mas a sabedoria torna seus seguidores acanhados, rasteiros e tímidos, e por isso vedes que eles são comumente reduzidos a duros expedientes, devem lutar com pobreza, frio e fome, devem viver reclusos, desprezados e sem consideração, enquanto os tolos rolam em dinheiro, são elevados a dignidades e ofícios e, numa palavra, têm o mundo inteiro sob comando. Se alguém julga felicidade ser favorito na corte e administrar a distribuição de cargos e preferências, ai de nós, essa felicidade está tão longe de ser alcançável pela sabedoria que a própria suspeita dela bastaria para pôr fim a todo avanço. Tem algum homem desejo de erguer para si boa fortuna? Ai, que negociante no mundo jamais ganharia um centavo, se fosse tão sábio a ponto de ter escrúpulo diante do perjúrio, corar diante de uma mentira, ou deter-se diante de qualquer fraude e logro?

Além disso, apresenta-se alguém como candidato a alguma dignidade eclesiástica? Ora, um asno ou um lavrador grosseiro a obterá mais depressa que um sábio. Ainda mais: estais enamorado de alguma bela dama? Ai de nós, o gênero feminino é tão dado à loucura que de modo algum dará ouvidos ao cortejo de um pretendente sábio. Por fim, onde quer que haja preparativos para alegria e jovialidade, todos os sábios estão certos de ser excluídos da companhia, para que não restrinjam o prazer nem esfriem o folguedo. Numa palavra, para qualquer lado que nos voltemos — papas, príncipes, juízes, magistrados, amigos, inimigos, ricos ou pobres —, todos os negócios deles são manejados por dinheiro; e, como este é subestimado pelos sábios, por vingança, certamente, nunca chega até eles.

Mas agora, embora meu louvor e recomendação pudessem muito bem ser intermináveis, é necessário que eu ponha algum termo a meu discurso. Caminharei, portanto, para o fim, depois de primeiro confirmar o que disse pela autoridade de vários autores. E insistirei nisso como prova adicional, em parte para que não se pense que falei em meu favor mais do que será justificado por outros; e em parte para que os advogados não me repreendam por não citar precedentes nem alegações. Para imitá-los, portanto, produzirei alguns relatos e autoridades, embora talvez, como os deles, nada tenham a ver com o propósito.

Primeiro, então, confessa-se quase como provérbio que a arte de dissimular é um talento muito necessário; e por isso há um verso comum entre escolares:

Fingir-se tolo quando a ocasião convém
Prova ser sábio mais completo também.

É fácil, portanto, concluir quão grande valor deve ser posto na loucura real, quando sua própria sombra e mera imitação são tão estimadas. Horácio, que em suas epístolas assim se intitula:

Meu corpo de pele lisa, tão polido como se eu jazesse
Entre os porcos cevados do chiqueiro de Epicuro.

Esse poeta, digo eu, dá este conselho em uma de suas odes:

Misturai breve Loucura a vossos conselhos.

O epíteto breve, é verdade, é um pouco impróprio. O mesmo poeta, em outro lugar, tem esta passagem:

A Loucura, em tempo certo, tem doce sabor.

E em outra parte:

Muito antes prefiro ser censurado como tolo
A sentir o açoite e a dor da escola da sabedoria.

Homero louva Telêmaco tanto quanto qualquer um de seus heróis, e contudo lhe dá o epíteto de Nuttios, tolo; e os gregos em geral usam a mesma palavra para exprimir crianças, como sinal de sua inocência. E qual é o argumento de toda a Ilíada de Homero, senão apenas, como observa Horácio:

Contêm os desvarios de reis e súditos?

Elogio da Loucura

Sinopse

Tradução literária em português-BR da sátira filosófica de Erasmo de Roterdã, preparada pelo Literunico a partir de uma edição inglesa em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.

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