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Elogio da Loucura

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Elogio da Loucura

Capítulo 40 · Elogio da Loucura

Parte 40

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Parte 40

Eu mesma estive recentemente numa disputa de teologia — onde assiduamente marco presença —, na qual um dos oponentes pediu a razão por que se deveria julgar mais próprio silenciar todos os hereges pela espada e pela fogueira do que convertê-los por argumentos moderados e sóbrios. Certo velho cínico, que trazia o caráter de teólogo legível nas carrancas e rugas do rosto, respondeu, não sem grande desdém, que era injunção expressa do próprio São Paulo, naquelas instruções a Tito — Ao homem que é herege, depois da primeira e segunda admoestação, rejeita-o —, citando-o em latim, onde a palavra rejeita é devita. Enquanto todo o auditório se admirava dessa citação e a julgava de modo algum aplicável a seu propósito, ele por fim se explicou, dizendo que devita significava de vita tollendum hereticum, isto é, que o herege deve ser tirado da vida. Alguns sorriram de sua ignorância, mas outros a aprovaram como comentário ortodoxo. E, embora alguns desagradassem de que tamanha violência fosse feita a um texto tão fácil, nosso doutor irrefragável e rachador de cabelos prosseguiu em triunfo. Para prová-lo ainda mais inegavelmente — diz ele —, está ordenado na antiga lei: [Não deixarás viver a feiticeira]. Ora, todo Maleficus, ou feiticeiro, deve ser morto; mas o herege é Maleficus, que na tradução latina é posto por feiticeiro; ergo, etc. Todos os presentes se maravilharam com a engenhosidade da pessoa e abraçaram muito devotamente sua opinião, sem jamais sonhar que a lei se restringia apenas a magos, feiticeiros e encantadores; pois, do contrário, se a palavra Maleficus significasse aquilo que mais naturalmente implica, isto é, todo malfeitor, então a embriaguez e a fornicação deveriam receber a mesma pena capital que a feitiçaria. Mas por que deveria eu desperdiçar meu tempo numa prossecução demasiado tediosa deste tópico, que, se levado ao máximo, daria assunto para a eternidade? Não viso aqui senão a isto: visto que esses graves doutores tomam tão vasto alcance e latitude, eu, que sou apenas uma noviça semidouta em teologia, posso ter maior tolerância para quaisquer deslizes ou enganos.

Agora, portanto, volto a São Paulo, que usa estas expressões: [Vós suportais os tolos de boa vontade], aplicando-as a si mesmo; e outra vez: [Recebei-me como tolo], e [Aquilo que digo, não o digo segundo o Senhor, mas como que loucamente]; e em outro lugar: [Somos tolos por amor de Cristo]. Vede como estes louvores da Loucura são iguais ao autor deles, ao mesmo tempo grandes e sagrados. A mesma santa pessoa ainda ordena e manda ser tolo, como virtude, entre todas, sumamente requerida e necessária; pois diz: [Se alguém parece ser sábio neste mundo, torne-se tolo para que se faça sábio]. Assim São Lucas registra como nosso Salvador, depois de sua ressurreição, unindo-se a dois de seus discípulos que viajavam para Emaús, logo em sua primeira saudação os chama de tolos, dizendo: [Ó tolos, e tardos de coração para crer]. Nem isto pode parecer estranho em comparação com o que ainda mais é proferido por São Paulo, que se aventura a atribuir algo de Loucura até ao próprio Deus sapientíssimo: [A loucura de Deus — diz ele — é mais sábia que os homens]; texto em que Santo Orígenes não quer que a palavra loucura seja de modo algum referida aos homens, nem aplicável ao mesmo sentido em que deve ser entendida aquela outra passagem de São Paulo: [A pregação da cruz é loucura para os que perecem]. Mas por que me dou ao trabalho de citar tantas provas, quando esta só pode bastar por todas, a saber, que naqueles salmos místicos em que Davi representa o tipo de Cristo, ali é reconhecido por nosso Salvador, em forma de confissão, que até ele mesmo era culpado de Loucura: Tu — diz ele — ó Deus, conheces a minha loucura. E não é sem alguma razão que os tolos, por sua simplicidade e sinceridade de coração, sempre foram os mais aceitáveis a Deus Todo-Poderoso. Pois, assim como os príncipes deste mundo suspeitaram astutamente e mantiveram olhar ciumento sobre aqueles de seus súditos que eram os mais observadores e mais profundos políticos — pois assim César temia o laborioso Cássio e Bruto, julgando-se bastante seguro contra o descuidado e beberrão Antônio; Nero, do mesmo modo, desconfiava de Sêneca, e Dionísio de bom grado se teria livrado de Platão —, ao passo que todos eles podem depositar maior confiança naqueles que têm menos sutileza e artifício, assim também nosso Salvador, de modo semelhante, desgosta dos sábios e astutos e os condena, como São Paulo declara expressamente nestas palavras: Deus escolheu as coisas loucas do mundo; e de novo: aprouve a Deus salvar o mundo pela loucura; implicando que pela sabedoria ele jamais poderia ter sido salvo. Sim, o próprio Deus testemunha o mesmo quando fala pela boca de seu profeta: Destruirei a sabedoria dos sábios e reduzirei a nada o entendimento dos doutos. De novo, nosso Salvador rende solenemente graças a seu Pai por haver ocultado os mistérios da salvação aos sábios e os revelado aos pequeninos, isto é, aos tolos; pois a palavra original vnpriois, sendo oposta a oooois, se uma significa sábios, a outra deve significar tolos. Com o mesmo propósito, nosso bendito Senhor frequentemente condenou e censurou os escribas, fariseus e doutores da lei, enquanto se portava bondoso e complacente com a multidão iletrada; pois que outro sentido pode ter aquela denúncia acerba, Ai de vós, escribas e fariseus, senão ai de vós, sábios, ao passo que ele parece principalmente deleitar-se com crianças, mulheres e pescadores iletrados?

Podemos ainda notar que, entre todas as diversas espécies de criaturas brutas, ele mostra maior apreço pelas que estão mais afastadas da sutileza da raposa. Assim, em sua entrada em Jerusalém, escolheu cavalgar sentado sobre um asno, embora, se lhe aprouvesse, pudesse ter montado as costas de um leão com mais aparato e tão pouco perigo. O Espírito Santo igualmente preferiu descer do céu sob a forma de uma simples pomba sem fel, e não sob a de uma águia, milhafre ou outra ave mais altiva.

Elogio da Loucura

Sinopse

Tradução literária em português-BR da sátira filosófica de Erasmo de Roterdã, preparada pelo Literunico a partir de uma edição inglesa em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.

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