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Elogio da Loucura

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Elogio da Loucura

Capítulo 41 · Elogio da Loucura

Parte 41

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Parte 41

Assim, ao longo de todas as santas Escrituras, há frequentes metáforas e similitudes das criaturas mais inofensivas, tais como cervos, corças, cordeiros e semelhantes. Sim, aquelas almas benditas que, no dia do juízo, hão de ser colocadas à direita de nosso Salvador são chamadas ovelhas, que são os mais insensatos e estúpidos de todos os rebanhos, como evidencia o provérbio grego de Aristóteles: um temperamento ovino, um humor obtuso, bronco, sonolento e pouco viril. Contudo, de tal rebanho Cristo não se envergonha de professar-se pastor. Sim, não quis apenas que todos os seus prosélitos fossem chamados ovelhas, mas até ele mesmo quis ser chamado cordeiro; como quando João Batista vê Jesus vindo até ele e diz: Eis o Cordeiro de Deus; título este que é dado muitas vezes a nosso Salvador no Apocalipse.

Tudo isto equivale a nada menos que todos os homens mortais são tolos, tanto os justos e piedosos quanto os pecadores; sim, em certo sentido, até nosso bendito Senhor, que, embora fosse a sabedoria do Pai, para reparar as enfermidades do homem caído, tornou-se em alguma medida participante da Loucura humana, quando tomou sobre si a nossa natureza e foi achado em figura de homem; ou quando Deus o fez pecado por nós, a ele que não conheceu pecado, para que nele fôssemos feitos justiça de Deus. Tampouco quis ele curar aquelas brechas que nossos pecados haviam feito por qualquer outro método senão pela loucura da cruz, publicada pelos apóstolos ignorantes e iletrados, aos quais frequentemente recomenda a excelência da Loucura, advertindo-os contra o contágio da sabedoria pelos vários exemplos que lhes propõe imitar, tais como crianças, lírios, pardais, mostarda e seres semelhantes, os quais são ou inteiramente inanimados, ou ao menos destituídos de razão e engenho, guiados por nenhuma outra condução senão a do instinto, sem cuidado, inquietação ou artifício. Com o mesmo intento, os discípulos foram advertidos por seu Senhor e Mestre de que, quando fossem levados às sinagogas, aos magistrados e às potestades, não deveriam preocupar-se com como ou que coisa responderiam, nem com o que diriam; foram de novo estritamente proibidos de indagar os tempos e as estações, ou de pôr qualquer confiança nas próprias capacidades, mas depender inteiramente do auxílio divino.

No primeiro povoamento do paraíso, o Todo-Poderoso jamais teria imposto a nosso pai Adão mandamento tão estrito de abster-se de comer da árvore do conhecimento, se com isso não houvesse prevenido que o gosto do conhecimento seria a ruína de toda felicidade. São Paulo diz expressamente que o conhecimento incha, isto é, é fatal e venenoso. Em conformidade com isso, São Bernardo interpreta aquele monte sobremodo alto sobre o qual o diabo erigira seu assento como sendo o monte do conhecimento. E talvez este seja outro argumento que não deva ser omitido, a saber, que a Loucura é aceitável, ao menos desculpável, junto aos deuses, na medida em que eles facilmente deixam passar as faltas descuidadas dos tolos, enquanto os desmandos daqueles que são sabidos por ter mais engenho dificilmente obterão perdão; sim, quando um sábio vem suplicar absolvição de alguma culpa, deve abrigar-se sob o patrocínio e pretexto da Loucura. Pois assim, no duodécimo capítulo de Números, Aarão roga a Moisés que detenha a lepra de sua irmã Miriã, dizendo: Ai, meu senhor, suplico-te que não ponhas sobre nós o pecado em que procedemos loucamente. Assim também, quando Davi poupou a vida de Saul, ao encontrá-lo dormindo numa tenda de Haquilá, não querendo estender a mão contra o ungido do Senhor, Saul desculpa sua antiga severidade confessando: Eis que procedi como tolo, e errei sobremaneira. Também o próprio Davi, de forma muito semelhante, suplica a Deus Todo-Poderoso a remissão de seu pecado com esta prece: Senhor, rogo-te que retires a iniquidade de teu servo, pois procedi mui loucamente; como se não pudesse esperar obter perdão de outro modo, a não ser pedindo-o sob o abrigo e a mitigação da Loucura. A prática benigna de nosso Salvador é ainda mais convincente: quando pendia na cruz, orou por seus inimigos, dizendo: Pai, perdoa-lhes, não alegando em favor deles outro argumento senão o de sua ignorância, pois não sabem o que fazem. Com o mesmo efeito, São Paulo, em sua primeira epístola a Timóteo, reconhece ter sido blasfemo e perseguidor, mas — diz ele — alcancei misericórdia, porque o fiz ignorantemente, na incredulidade. Ora, que significa a frase [o fiz ignorantemente] senão apenas isto? Minha falta foi ocasionada por uma Loucura mal informada, não por malícia deliberada. Que significa [alcancei misericórdia] senão apenas que eu não a teria alcançado de outro modo, se a loucura e a ignorância não tivessem sido minha vindicação? Com o mesmo propósito está aquela outra passagem do misterioso salmista, que esqueci de mencionar em seu lugar próprio, a saber: Oh, não te lembres dos pecados e ofensas de minha juventude! A palavra que traduzimos por ofensas é, em latim, ignorantias, ignorâncias. Observai: as duas coisas que ele alega em sua desculpa são, primeiro, a verdura da idade, da qual a Loucura e a falta de experiência são constantes acompanhantes; e, segundo, suas ignorâncias, expressas no plural para reforço e agravamento de sua tolice.

Mas, para não alongar demasiado este assunto, caminhando agora para uma conclusão, é observável que a religião cristã parece ter alguma relação com a Loucura, e nenhuma aliança com a sabedoria. Da verdade disso, se desejais prova além de minha simples palavra, podeis, primeiro, considerar que crianças, mulheres, velhos e tolos, conduzidos como que por secreto impulso da natureza, são sempre os mais constantes em acorrer à igreja, e os mais zelosos, devotos e atentos no cumprimento das várias partes do serviço divino; sim, os primeiros promulgadores do Evangelho e os primeiros convertidos ao cristianismo foram homens de simplicidade e singeleza, inteiramente alheios à política ou ao saber secular.

Elogio da Loucura

Sinopse

Tradução literária em português-BR da sátira filosófica de Erasmo de Roterdã, preparada pelo Literunico a partir de uma edição inglesa em domínio público do Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.

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