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Eline Vere

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Eline Vere

Capítulo 3 · Eline Vere

Capítulo III

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Capítulo III

Eline Vere era a mais nova das duas irmãs, mais escura de cabelos e olhos, mais esguia, com uma figura menos plenamente amadurecida.

Seus olhos castanho-escuros, de sombra profunda, e a palidez marfim da tez, junto com a languidez de alguns de seus movimentos, davam-lhe algo da natureza sonhadora de uma odalisca de harém. A beleza que lhe coubera, ela a prezava como uma joia preciosa; e, na verdade, às vezes ficava como que meio embriagada pelo fascínio de seus próprios encantos.

Por vários instantes seguidos, podia ficar contemplando a própria imagem no espelho, enquanto seus dedos de pontas rosadas acariciavam de leve o arco delicado da sobrancelha ou os longos cílios sedosos, ou arranjavam em torno da cabeça a riqueza dos cabelos castanhos, na exuberância selvagem de uma gitana alegre.

Sua toalete lhe proporcionava ocupação infinita, meditação contínua e séria, enquanto experimentava os efeitos, harmoniosos ou não, dos tons amortecidos dos cetins, das colorações mais quentes da pelúcia e da auréola de tule e gaze, musselina e renda, que envolvia tudo. Em suma, tudo nela, desde o odor tênue e aderente das violetas até o brilho dos drapeados macios, estava cheio de uma sugestão refinada e encantadora.

De natureza um tanto sonhadora e romântica, havia momentos em que, numa crise de languidez, pensava com certo pesar demorado em sua infância, trazendo à memória toda sorte de lembranças daqueles dias e guardando-as como preciosas relíquias. Era então que, consciente ou inconscientemente, comunicava uma nova cor sentimental àquelas recordações esmaecidas de tempos idos. Desse modo, o episódio mais trivial de sua infância se idealizava e se inundava de um encanto poético.

Betsy, com sua inclinação prática, jamais perdia oportunidade, com razão ou sem ela, de depreciar tudo que tivesse a mais tênue semelhança com idealismo; e Eline, em seu estado transitório de meia felicidade, meia melancolia, costumava conseguir, depois das demonstrações práticas da irmã, distinguir o estado real das coisas das fantasias luxuriantes evocadas pela própria imaginação.

Às vezes, sua memória voltava ao pai — um pintor, de temperamento refinado e artístico, elegante, mas sem a força de uma faculdade criadora; casara-se ainda jovem com uma mulher muitos anos mais velha que ele, e muito superior em força de vontade e individualidade.

À mão dominadora dela, sua natureza maleável cedera prontamente, pois o dele era um temperamento de cordas finíssimas que, como as de um instrumento precioso, teria estremecido sob aquele toque rude, tal como o de Eline às vezes estremecia sob o toque da irmã.

Ela evocava esse pai, com sua tez de marfim amarelado e seus dedos transparentes, sem sangue, deitado em lânguida apatia, enquanto o cérebro ativo concebia alguma grande criação, destinada a ser posta de lado depois dos primeiros toques do pincel.

Muitas vezes ele a fizera sua confidente, e a confiança que depositava nela levava sua natureza infantil a contemplá-lo com uma mistura de devotamento afetuoso e reverência adoradora, de modo que, a seus olhos, ele assumia a aparência de um Rafael poético, de olhos sonhadores e longos cabelos.

A mãe, por outro lado, sempre lhe inspirara certa dose de medo; e a lembrança das trivialidades desiludidoras da vida cotidiana, às quais a figura materna se tornara inseparavelmente ligada, tornava impossível a Eline idealizá-la em seus pensamentos.

Lembrava-se de que, depois da morte do pai — ainda cedo, mas já após muitos anos de esforços desanimados e fracassos sombrios —, e depois do falecimento da mãe, abatida por uma súbita crise cardíaca, passara os dias de sua primeira juventude sob a tutela de uma tia viúva. Antiga, reservada e cerimoniosa, com feições regulares entristecidas, ruína de uma mulher outrora bela, ela se lembrava muito bem daquelas duas mãos ossudas em movimento perpétuo sobre quatro agulhas de tricô claras e reluzentes.

Ali viveu, naquele quarto grande, num repouso sem energia e num luxo plácido, num paraíso de conforto aconchegante, em meio a uma profusão de drapeados e tapetes macios e de tudo quanto agradava e acalmava os sentidos. As duas irmãs, crescendo lado a lado sob a mesma educação e no mesmo ambiente, desenvolveram em si uma condição mental e moral um tanto semelhante, que, contudo, com o passar dos anos, seguiu a inclinação de seus diferentes temperamentos.

Em Eline, que, de natureza lânguida e linfática, sentia necessidade de apoio terno e de um calor suave de afeto, e cujos nervos, delicados como pétalas de flor, mesmo naquele ambiente macio, revestido de veludo, eram muitas vezes feridos com rudeza pela menor oposição, desenvolveu-se uma espécie de reserva tímida, que lhe enchia o espírito de milhares de pequenos sinais de uma dor secreta.

Então, quando a medida de suas mágoas meio imaginárias se completava, ela se aliviava numa onda única, avassaladora e espumante, de paixão lacrimosa. Na natureza mais sanguínea de Betsy cresceu, alimentado pela necessidade de apoio de Eline, um desejo de dominação, por meio do qual ela podia forçar todo o seu ser psicológico para dentro da irmã maleável, a quem, depois do primeiro choque, isso sempre trazia uma sensação de repouso e contentamento.

Mas nem o medo de Eline de ferir seu temperamento de cordas finíssimas, nem o egoísmo dominador de Betsy, jamais poderiam ter levado a uma crise trágica, pois os contrastes agudos de cada caráter, na atmosfera macia e enervante que as cercava, misturavam-se e se dissolviam num tom opaco de cinza neutro.

Depois de um ou dois bailes, nos quais os pezinhos de cetim branco de Eline haviam deslizado em acompanhamento rítmico a uma harmonia deslumbrante de luz e cor brilhantes, suaves frases de melodia e tons dulcíssimos de admiração, ela recebeu duas propostas de casamento, ambas recusadas. Aquelas duas propostas permaneceram ainda em sua memória como dois triunfos facilmente conquistados, mas às vezes a lembrança da primeira fazia brotar-lhe do peito um leve suspiro.

Foi então que conheceu Henri van Raat, e desde então perguntava a si mesma como era possível que aquela massa de fleuma, como ela o chamava, com tão pouca semelhança com o herói de seus sonhos, tocasse tão fortemente sua simpatia — sim, a tal ponto que, com frequência, era tomada por um impulso súbito e irresistível de estar perto dele. Os heróis de seus sonhos tinham alguma semelhança com a imagem idealizada do pai, com as concepções da imaginação fantasiosa de Ouida.

Mas nada tinham em comum com van Raat, com seu temperamento sanguíneo, equilibrado e complacente, seus olhos macios, sonolentos, azul-acinzentados, sua fala laboriosa e sua risada pesada. E, contudo, havia em sua voz, em seu olhar, algo que a atraía, assim como em sua bonomia espontânea. Em tudo isso ela encontrava apoio, de modo que às vezes se surpreendia com o desejo vago de repousar a cabeça cansada em seu ombro. E ele também percebia, com certo orgulho, que era alguma coisa para ela.

Esse orgulho desaparecia, porém, no instante em que Betsy se interpunha entre eles. Diante da irmã de Eline, ele tinha consciência de tamanha inferioridade moral que muitas vezes ficava sem resposta às suas pilhérias leves e aéreas. Nessas ocasiões, ela achava um prazer requintado, cruel como era, fazê-lo falar, tentá-lo a dizer coisas pelas quais depois o esmagava com uma falsa admiração, apenas para ridicularizá-las em seguida diante de seu próprio rosto; isso costumava reduzir sua mente lenta a uma confusão abjeta.

Então ela desatava a rir, e o som daquela risada plena e franca, cheia de escárnio e autoconfiança, inflamava-lhe a imaginação ainda mais do que o encanto terno e feminino da presença de Eline.

O encanto de Eline era o de uma sereia chorosa, de olhos suaves, erguendo os braços em languidez tentadora do azul do oceano, apenas para ser novamente arrastada às profundezas por uma força irresistível; o de Betsy, porém, era a feitiçaria impetuosa de uma bacante alegre, acorrentando-lhe os sentidos com vinhas emaranhadas, ou arremessando-lhe ao rosto a taça transbordante e espumante, e embriagando-o com a impetuosidade selvagem de sua natureza jubilosa.

E assim aconteceu — como, ele próprio não poderia dizer ao certo — que, certa noite, à luz indecisa do fim do outono, como levado por um impulso súbito, pediu-lhe que fosse sua esposa. Fora, de fato, uma noite estranha para ele. A única coisa de que tinha consciência era que se sentira como que impelido a isso, como que hipnotizado por algo indefinível nos olhos de Betsy; não podia deixar de lhe fazer, enfim, a pergunta que fez.

Ela, calma e controlada, aceitou sua proposta, cuidando de ocultar a alegria íntima diante da perspectiva de ter uma casa — e, mais especialmente, um domínio próprio — sob uma aparência exterior de calma indiferença. Ansiava por uma atmosfera diferente daquela estagnação respeitável do quarto grande, com os móveis antigos e solenes e o ambiente digno que a cercava.

Mas, quando Eline veio oferecer-lhe seus parabéns inocentes, ele de súbito se deu conta de uma surpresa interior e de uma insatisfação consigo mesmo tão fortes que não encontrou palavras para responder aos votos fraternos dela.

E Eline, rudemente abalada por aquela rápida sucessão de acontecimentos, recuou, tomada de súbito terror diante de Betsy, para dentro de sua reserva melancólica, ao mesmo tempo em que fazia todos os esforços — resultando apenas na perda da própria paz de espírito — para resistir à influência dominadora que por tanto tempo permitira à irmã exercer sobre sua mente. Betsy e Henk estavam casados havia um ano quando a tia morreu.

Foi então que, instigado por ela, ele procurara alguma ocupação, pois, com sua indolência eternamente calma e bonachona, muitas vezes a entediava quase do mesmo modo que um cão fiel que, sempre aos pés do dono, recebe muitos pontapés dos quais uma criatura menos devotada teria escapado. Ele também sentia, de maneira vaga, que um rapaz, por mais confortável que fosse sua renda, devia fazer alguma coisa.

Contudo, embora procurasse, não encontrou nada; e, nesse meio-tempo, seu ardor esfriara consideravelmente, agora que a própria Betsy já não o importunava a esse respeito. E, sem dúvida, ele também não a incomodava muito.

De manhã, em geral, estava fora, fazendo quanto exercício podia a cavalo, seguido por seus dois cães de caça cinzentos; à tarde, cedendo aos pedidos da esposa, acompanhava-a em diversas visitas ou, quando livre desse dever, ia ao clube; as noites, em geral, passava-as acompanhando sua esposa-borboleta a concertos e teatros, onde cumpria seu papel mais ou menos à maneira do fiel cão pastor de Becky Sharp: um acessório incômodo, mas indispensável.

Adaptava-se como podia àquela vida demasiado agitada; sabia que sua vontade não era forte o bastante para resistir à de Betsy, e julgava muito mais conforme ao seu temperamento vestir-se quietamente e acompanhar a esposa do que perturbar a paz doméstica com a intromissão de suas próprias ideias.

Além disso, as poucas noites que ela passava em casa lhe proporcionavam, com seu amor instintivo pela sociabilidade, certa felicidade sensual e sonhadora que, afinal, fazia mais por conquistar seu amor do que quando ele contemplava a esposa fora de seu alcance, a figura mais brilhante no salão de baile mais esplêndido. Isso apenas o tornava irritadiço e taciturno. Para ela, porém, as poucas noites passadas em casa eram um tédio terrível.

O sibilo da chama de gás a deixava sonolenta, e, de seu canto no sofá, lançava muitos olhares furiosos ao marido, enquanto ele folheava o jornal ilustrado ou sorvia preguiçosamente o chá. Num momento desses, sentia um impulso irresistível de exortá-lo, pelo amor de Deus, a procurar alguma ocupação; ao que ele, espantado por ser assim despertado de seu dolce far niente, respondia em frases pesadas e incoerentes. No fundo, porém, ela era muito feliz.

Pois não era glorioso poder gastar quanto quisesse com seus vestidos? E, ao fim da semana, muitas vezes se lembrava, com um sorriso de felicidade, de que não passara uma única noite em casa. Eline, nesse meio-tempo, passara o ano em melancólica solidão na casa da tia Vere.

Ela lia muito, sentindo-se especialmente encantada pela luxuriante fantasmagoria de Ouida de uma vida idealizada, cintilante de riqueza cromática e banhada no sol dourado dos céus italianos, vívida e ardente como um caleidoscópio faiscante. Lia e literalmente devorava aquelas páginas até que, com as orelhas dobradas e amarrotadas, elas lhe esvoaçassem das mãos. Mesmo à cabeceira da tia enferma, onde, com certo sentimento de satisfação romântica, ficava em vigília noite após noite, tornava a lê-las, uma e outra vez.

Na atmosfera daquele quarto de doente, impregnada de um odor eterizado de remédios, as virtudes e proezas dos nobres heróis, as belezas imaculadas das heroínas arquiperversas ou divinamente justas, revestiam-se de um encanto irresistível de tentadora irrealidade; e Eline muitas vezes sentia um anseio apaixonado de estar numa daquelas velhas mansões inglesas, onde condes e duquesas se entregavam a tão requintados galanteios amorosos e tinham encontros tão românticos sob as árvores enluaradas de um grande parque antigo.

A tia morreu, e Henk e Betsy convidaram Eline a fazer da casa deles o seu lar. A princípio, ela recusou, vencida por uma estranha tristeza diante da relação de seu cunhado com sua irmã. Mas, por um imenso esforço de vontade, acabou por dominar esses sentimentos.

Não se havia ela sempre espantado com a atração misteriosa que sentia por Henk? E agora que ele era marido de sua irmã, surgia de repente em sua mente um obstáculo tão intransponível entre ambos, um obstáculo erguido pelas leis da decência e do costume, que ela podia, sem qualquer risco, entregar-se à simpatia fraterna; por isso, julgou muito infantil permitir que a lembrança do passado e sentimentos que nunca havia realmente compreendido se interpusessem entre ela e a perspectiva de um lar confortável.

A isso se acrescentava o fato de que seu tio tutor, Daniel Vere, que vivia em Bruxelas e era solteiro, era jovem demais para oferecer morada a uma moça ainda na adolescência. Por fim, Eline renunciou às objeções e, estipulando que lhe fosse permitido contribuir com uma pequena quantia para sua pensão, instalou-se na casa do cunhado.

Henk, a princípio, recusara-se a concordar com tal condição, mas Betsy observou que a compreendia perfeitamente; se estivesse no lugar de Eline, também teria feito o mesmo em nome da própria independência. Da soma deixada a ela pelos pais, Eline tirava uma renda anual de cerca de 160 libras; e, pondo em prática as lições de economia que aprendera com a tia, conseguia vestir-se com tanta elegância quanto Betsy, que sempre tinha à disposição uma bolsa bem abastecida.

E assim transcorreram três anos de existência monótona.

Eline Vere

Sinopse

Romance de Louis Couperus, marco da literatura holandesa fin-de-siècle, em tradução brasileira Literunico preparada a partir da tradução inglesa de J. T. Grein, em domínio público. A edição acompanha o percurso íntimo de Eline entre salões, afetos, hesitações e a corrosão silenciosa de uma sensibilidade excessiva.

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LITEBN-978655093177830883983056
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