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Eline Vere

Universo da obra

Eline Vere

Capítulo 4 · Eline Vere

Capítulo IV

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Capítulo IV

Quando, na manhã seguinte à sua explosão apaixonada, Eline desceu para o café, Henk já havia saído, rumo às estrebarias, para cuidar de seus cavalos e cães. Na sala de almoço não havia ninguém além do pequeno Ben, comendo — ou antes brincando — com uma fatia de pão com manteiga. Ouvia Betsy correr de um lado para outro com muita animação, dando à cozinheira instruções apressadas.

Frans e Jeanne Ferelyn, a senhorita de Woude van Bergh e seu irmão vinham jantar naquele dia. Eline estava muito asseada e elegante num vestido de lã cinza-escura, uma fita cinza em torno da cintura e uma pequena seta dourada cintilando-lhe à garganta. Não usava anéis nem braceletes. Sobre a testa encaracolavam-se algumas mechas finas, em guirlandas frisadas, macias e lustrosas como seda desfiada.

Com um aceno amistoso, deu a volta até onde a criança estava sentada e, levantando-lhe o rosto com ambas as mãos, imprimiu-lhe na testa um beijo carinhoso. Depois sentou-se, sentindo-se muito bem consigo mesma, os sentidos agradavelmente acalmados pelo calor macio que irradiava da lareira acesa, enquanto lá fora os flocos de neve envolviam silenciosamente tudo num manto leve como penugem.

Com um sorriso involuntário de satisfação, esfregou as mãos brancas e finas e fitou as unhas rosadas, de pontas brancas; então, lançando um olhar para fora, onde uma velha, quase dobrada em dois, empurrava à frente um carrinho de laranjas cobertas de neve, abriu um pequeno pãozinho de café, enquanto escutava, com divertida indiferença, a discussão irritada entre Betsy e a cozinheira.

Betsy entrou, com uma expressão mal-humorada nos olhos fortemente sombreados e cintilantes, os lábios curtos e grossos comprimidos de irritação. Carregava um conjunto de bandejas de sobremesa de cristal lapidado, que estava prestes a lavar, pois a cozinheira quebrara uma delas. Cuidadosamente, apesar da raiva, pôs as bandejas sobre a mesa e encheu uma bacia com água morna.

— Aquela idiota! Imagine lavar uma das minhas travessas finas de cristal em água fervente! Mas bem feito para mim, por confiar que aquelas imbecis façam qualquer coisa.

Sua voz soava áspera e ríspida, enquanto empurrava Ben para fora do caminho com brusquidão. Eline, de um humor extraordinariamente bom, ofereceu ajuda, que Betsy aceitou de pronto.

Ainda tinha muitas coisas a fazer, disse; mesmo assim, sentou-se, observando Eline lavar e enxugar cuidadosamente as travessas uma a uma, com movimentos leves e graciosos, sem molhar os dedos nem derramar uma gota; e tinha consciência do contraste entre seu próprio modo rude e expedito de fazer as coisas — resultado de sua saúde robusta — e a graça lânguida de Eline, misturada a certo receio de se cansar ou de se respingar.

— A propósito, quando estive ontem nos Verstraeten, soube que eles não iriam à ópera esta noite, pois estavam cansados por causa da noite passada; tia me perguntou se eu queria o camarote. Você gostaria de ir à ópera?

— E os seus convidados?

— Jeanne Ferelyn vai embora cedo, porque a filha não está bem, e eu queria pedir também a Emilie e ao irmão que viessem. Henk pode ficar em casa. É um camarote para quatro, sabe.

— Muito bem; não me importo.

Muito satisfeita consigo mesma, Eline acabava de pôr no lugar a última bandeja quando, de repente, irrompeu na cozinha uma altercação violenta, acompanhada pelo tilintar prateado de garfos e colheres. Eram Grete e Mina empenhadas numa discussão bastante enérgica. Betsy saiu apressada da sala e, muito em breve, ordens secas e respostas insolentes se sucederam em rápida sequência.

Enquanto isso, Ben permanecera de pé, de boca aberta e um tanto sonolento, no lugar para onde a mãe o empurrara, cheio de silencioso alarme diante de todo aquele alvoroço.

— Venha, Ben, para o quarto da titia — disse Eline; e, sorrindo, estendeu-lhe a mão.

Ele veio, e os dois subiram. Eline ocupava dois aposentos no térreo: um quarto de dormir e um boudoir.

Com a economia e o bom gosto que lhe eram próprios, conseguira imprimir àqueles aposentos uma aparência de luxo, com certo polimento artístico. O piano ocupava um recanto da parede; a folhagem espessa de uma azaleia gigante lançava uma sombra suavizante sobre o divã baixo, coberto de damasco. Num canto havia uma mesinha carregada de inúmeras miudezas preciosas. Estatuetas, quadros, plumas, ramos de palmeira enchiam todos os recantos.

O console da lareira de mármore rosa era coroado por um pequeno espelho veneziano, suspenso por cordões e borlas vermelhas. Diante dele erguia-se um Amor e Psiquê, segundo Canova, o grupo representando uma jovem no ato de retirar o véu e um deus apaixonado, de asas leves. Quando Eline entrou com Ben, o rubro clarão da lareira lhe iluminou as faces. Jogou para a criança alguns volumes puídos de gravuras, e ele se acomodou no sofá, logo absorvido pelas imagens.

Eline entrou no quarto de dormir, cujas janelas ainda estavam cobertas de folhas e flores delicadamente desenhadas, efeito da geada da noite. Mais adiante ficava uma penteadeira duchesse — uma visão de tule e renda —, realçada aqui e ali pelos laços de cetim de velhos buquês de baile, e carregada de frascos de perfume de Sèvres e de fino cristal lapidado. Em meio a toda aquela riqueza de rosa e branco, o espelho cintilava como uma lâmina de prata brunida.

A cama estava oculta entre drapeados vermelhos, e, no canto junto à porta, um alto espelho de pé refletia uma torrente de sol líquido. Por um instante, Eline olhou ao redor, para ver se a criada havia arrumado tudo a seu contento; depois, arrepiando-se naquela atmosfera fria, voltou à saleta e fechou a porta. Com seu luxo semioriental, o aposento era agradabilíssimo, e seu conforto parecia aumentado pelo brilho branco e frio refletido pela neve lá fora.

Eline sentia-se como se transbordasse de melodia — sensação que só podia encontrar expressão adequada no canto. Escolheu a valsa de Mireille. E cantou-a com variações próprias, com modulações que ora se avolumavam num caudal pleno e rico de melodia, ora se desfaziam no mais tênue diminuendo, com trilos brilhantes e roulades límpidas como as de uma cotovia. Já não pensava no frio nem na neve lá fora.

Então, lembrando-se subitamente de que não praticava havia três dias, começou a cantar escalas, a polir as notas agudas e a tentar um portamento difícil. Sua voz ressoava com uma sonoridade metálica, um tanto fria, mas clara e brilhante como cristal.

Ben, embora bastante habituado àqueles tons jubilosos, que reverberavam por toda a casa, ficou sentado a escutar, de boca aberta e maravilhado, sem lançar mais um olhar sequer às gravuras, sobressaltando-se sempre que algum si ou dó agudíssimo lhe penetrava os ouvidos. A própria Eline não conseguia explicar a tristeza da véspera.

Como e de onde viera aquela crise de melancolia, sem causa definida? E que alegria avassaladora era aquela que conseguira dissipar tão de repente essas nuvens? Hoje sentia-se animada, feliz, jubilosa; lamentava não ter visto os quadros-vivos no dia anterior, e temia que o sr. e Madame Verstraeten não tivessem levado sua indisposição au sérieux. Que homem agradável e simpático era o sr. Verstraeten, sempre cheio de graça! E Madame Verstraeten, que alma querida e boa! Não conhecia ninguém igual a ela, tão encantadora e gentil.

E então, sentada ao piano, ora exercitando um trilo, ora uma escala cromática, deixava os pensamentos vagarem por outras pessoas agradáveis entre seus conhecidos. Sim; todos tinham suas boas qualidades: os Ferelyn, Emilie de Woude, a velha Madame van Raat, Madame van Erlevoort, até Madame van der Stoor. Quanto a Cateau, era uma boneca.

E ocorreu-lhe a ideia de que gostaria bastante de juntar-se àquela companhia de intérpretes. Sim; eles tinham uma concepção admirável das amenidades da vida. Frédérique, Marie, Lili, Paul e Etienne, sempre alegres, sempre juntos, cheios de planos divertidos para seu entretenimento. De fato, devia ser delicioso, belamente envergando trajes românticos, tornar-se objeto de admiração geral. Paul tinha uma voz muito bonita; seria esplêndido cantar duetos com ele.

Escapou-lhe por completo à memória que, apenas alguns dias antes, assegurara ao mestre de canto que a voz dele era absolutamente desprovida de timbre. Mas naquele dia estava de humor agradável, e cantou uma segunda valsa, a de “Juliette”, na ópera de Gounod. Ela adorava Gounod.

Acabavam de soar dez e meia quando bateram à porta.

— Entre — gritou ela; e, olhando ao redor, deixou os dedos esguios repousarem sobre o teclado. Paul van Raat entrou.

— Bon jour, Eline. Olá, jovem patife!

— Ora, Paul, você? — Ela se levantou, um tanto surpresa ao vê-lo.

Ben correu para o tio e subiu-lhe aos joelhos.

— Como chegou cedo! Pensei que viesse cantar só à tarde. Mas é bem-vindo do mesmo modo; está ouvindo? Sente-se e conte-me sobre os quadros-vivos — exclamou Eline com muita animação; depois, lembrando-se da doença do dia anterior, continuou em voz lânguida: — Fiquei terrivelmente triste por ter estado tão doente ontem. Tive uma dor de cabeça horrível.

— Você não parece muito abatida por isso.

— É verdade, Paul, é mesmo. Se eu estivesse bem, você acha que eu não teria ido admirar seu talento? Vamos, conte-me, conte-me tudo — e ela o puxou consigo para o sofá e atirou as gravuras ao chão. Paul teve certa dificuldade em se libertar de Ben, que lhe agarrava as pernas.

— Vamos, solte, Ben. E a dor de cabeça está melhor agora?

— Ah, sim; passou completamente. Esta tarde irei à casa do sr. Verstraeten para dar meus parabéns.

— Mas, Paul, conte-me...

— Eu estava justamente para lhe dizer que não venho cantar esta tarde; está ouvindo, Elly? Não conseguiria emitir uma nota; estou completamente rouco com os berros e gritos de ontem. Mas nos saímos esplendidamente — e começou a descrever os quadros-vivos.

Fora tudo ideia dele, e boa parte obra de suas próprias mãos; mas as moças também haviam trabalhado duro durante o último mês, preparando os vestidos, cuidando de mil ninharias. Naquela tarde, Losch viria fotografar o último grupo; de modo que, mesmo que estivesse em boa voz, Paul não poderia ter vindo cantar. E como sentia as articulações rígidas! Pois trabalhara como um cavador, e as moças também deviam estar inteiramente exaustas. Não; ele não figurara no agrupamento; estivera ocupado demais com todos os arranjos. Deixou-se cair um pouco sobre as ricas almofadas de damasco do sofá, sob os ramos sombreadores da azaleia, e alisou os cabelos.

Eline pensou no quanto ele se parecia com Henk, embora fosse dez anos mais moço, mais esguio de corpo, mais vivo, com traços mais delicados e uma expressão de inteligência muito maior. Mas um simples gesto ou movimento, um erguer das sobrancelhas, de vez em quando ilustrava essa semelhança com nitidez; e, embora seus lábios fossem mais finos sob o bigode claro que o lábio superior de Henk, pesadamente barbado, sua risada era profunda e plena como a do irmão.

— Por que você não toma aulas de pintura com um bom mestre, Paul? — perguntou Eline. — Se você tem talento...

— Mas não tenho — riu ele. — Não valeria o esforço. Eu apenas brinco um pouco com isso, como faço com o canto. Não dá em absolutamente nada, nenhuma dessas coisas.

E suspirou diante da própria falta de energia para tirar proveito do pequeno talento que talvez possuísse.

— Você me lembra papai — disse ela; e suas palavras assumiram um tom de tristeza, enquanto a imagem idealizada do pai lhe subia à memória. — Sim; ele tinha grandes talentos, mas nos últimos tempos a saúde lhe faltou, e não pôde produzir a grande criação de que sua alma era capaz. Lembro-me muito bem de que estava trabalhando numa tela imensa, uma cena do Paraíso de Dante, creio, quando... quando morreu. Pobre papai! Mas você é jovem e forte, e não consigo compreender por que não faz alguma coisa grande, alguma coisa fora do comum.

— Você sabe, suponho, que vou trabalhar no escritório de Hovel. Tio Verstraeten arranjou isso para mim.

Hovel era advogado, e, como Paul, ainda bastante jovem e depois de um período alternado de estudo e ociosidade, fora aprovado no exame de direito, tio Verstraeten julgou que prestaria um bom serviço ao jovem advogado se o recomendasse ao amigo. Ficara combinado, portanto, que Paul continuaria trabalhando no escritório de Hovel até poder estabelecer-se por conta própria.

— No escritório de Hovel? Um homem muito agradável; gosto muito da mulher dele. Ah, isso será esplêndido, Paul.

— Espero que sim.

— Mas, ainda assim, se eu fosse homem, tentaria tornar-me famosa. Vamos, Ben, não seja importuno agora; vá olhar as belas gravuras no chão. Você não acharia esplêndido ser famoso? De verdade, se eu não fosse Eline Vere, seria atriz.

E soltou uma série de trilos brilhantes, que lhe caíram dos lábios como uma cadeia cintilante de diamantes.

— Famoso! — e ele deu de ombros com desprezo. — Que ideia tola, francamente. Famoso! Não; não quero ser famoso, nem um pouco. Apesar disso, gostaria de pintar bem, ou cantar bem, ou alguma coisa assim.

— Então por que não toma aulas, seja de pintura, seja de música? Quer que eu fale com meu mestre?

— Não, obrigado; não com aquele velho resmungão do Roberts, se eu puder evitar. Além disso, Eline, na verdade não vale a pena; eu nunca conseguiria manter coisa alguma. Sou sujeito a acessos repentinos, entende? Então penso que posso fazer qualquer coisa, fico ansioso por encontrar algum grande tema para um quadro...

— Como papai — interrompeu ela, com um sorriso triste.

— Em outras ocasiões, o acesso me leva a querer aproveitar o pouco de voz que tenho; mas, pouco depois, todas essas grandes ideias morrem por si mesmas de pura inanição, e então continuo na mesma velha rotina arrastada de antes.

— Você devia ter vergonha de si mesmo.

— Doravante irei esconder as aspirações do meu gênio em processos judiciais — respondeu ele, rindo, enquanto se levantava. — Mas agora preciso ir à Princesse-gracht, aos Verstraeten. Portanto, não conte comigo esta tarde; ainda temos vários detalhes a combinar antes que Losch chegue. Adieu, Eline; bye-bye, Ben.

— Bon jour; espero que logo se livre dessa rouquidão.

Paul saiu, e Eline tornou a sentar-se ao piano. Por algum tempo ficou pensando que pena era Paul ter tão pouca energia, e dele seus pensamentos voltaram outra vez a Henk.

Mas naquela manhã ela se sentia alegre demais para filosofar muito; e, cheia de uma exuberância de espírito que exigia vazão, continuou a cantar até que o gongo do meio-dia a chamou, junto com Ben, para descer. Paul dissera à mãe que não estaria em casa naquela tarde para o café, pois ficaria nos Verstraeten. Morava na casa de Madame van Raat, na Laan van Meerdervoort.

Madame van Raat, irmã mais velha de Madame Verstraeten, era uma senhora majestosa, de olhos azul-claros pensativos e cabelos grisalhos prateados, vestida à moda antiga, enquanto por todo o seu ser se difundia, por assim dizer, uma calma, uma resignação plácida, que falava inequivocamente de antigos dias livres de aflições e desapontamentos.

Como o exercício de caminhar começava a lhe ser penoso, era encontrada quase sempre sentada em sua poltrona de espaldar alto, a cabeça cinza-opaca pendente sobre o peito, as mãos de veias azuladas cruzadas no colo.

Assim continuava a levar uma existência quieta e monótona, o rescaldo de uma vida plácida, quase sem nuvens, ao lado do marido, em cujo retrato muitas vezes deixava os olhos repousarem, enquanto ele pendia diante dela, ali adiante, em seu vistoso uniforme de general: um rosto belo, franco, viril, com um par de olhos sinceros e inteligentes e uma expressão cativante em torno da boca firme e fechada.

A ela, a vida trouxera poucos grandes sofrimentos, e por isso, na simplicidade de sua fé, sentia-se piedosamente grata. Mas agora, agora estava cansada — oh, tão cansada! —, o espírito inteiramente quebrantado pela morte daquele marido a quem, até o fim, se apegara com um afeto constante e calmo como o leito de uma corrente límpida, para cujas águas plácidas haviam escoado as ondas impetuosas de seu amor juvenil.

Depois da morte dele, começou a inquietar-se com qualquer circunstância trivial, pequenas contrariedades com criados e fornecedores. Encadeava todas essas coisas até que, em sua mente, formavam uma sequência ininterrupta de fardos penosos. Sim, sentia que estava envelhecendo; o tempo tinha pouco mais a lhe oferecer e, assim, num egoísmo silencioso, deixava a vida consumir-se na poesia há muito desaparecida do passado. Tivera três filhos: a mais nova, uma menina, estava morta.

Dos dois filhos homens, seu favorito era Henk, que, forte e grande, mais lhe lembrava o pai; e, a seus olhos, sua bondade sonolenta tinha mais da masculinidade aberta e franca do que a inconstância de nervos mais finos e a jovialidade aérea de Paul.

Paul sempre lhe parecera instável e nervoso demais: antes, nos estudos constantemente interrompidos em Leyden — por fim, graças a uma pequena pressão moral da parte do tio Verstraeten, coroados pela formatura —, e agora, com suas saídas noturnas, sua mania por pintura, tableaux-vivants e duetos, ou seus acessos de indolência, quando passava uma tarde inteira estendido no sofá, diante de um livro que não lia.

Antes de seu casamento, Henk, de caráter mais sóbrio e caseiro que Paul, sentia-se mais à vontade na casa da mãe; embora fosse calado, seu silêncio nunca a irritava: era como o silêncio de um cão fiel, velando de olhos semicerrados por sua dona. Ela se sentia tão à vontade com Henk.

Não gostava de ficar sozinha, pois era na solidão que as lembranças do passado contrastavam, em seu brilho rosado, de maneira demasiado aguda com o cinza de chumbo que era a tonalidade dominante de sua vida presente; e Paul ela via apenas raramente, salvo quando ele engolia às pressas o jantar para não perder algum compromisso. Raras vezes saía, desacostumada como se tornara ao tráfego ruidoso das ruas e ao rumor de muitas vozes.

Henk era seu predileto e, com a visão interior intacta — ao menos quando se tratava de seu filho —, ela lamentava seu casamento com Betsy Vere. Não; aquela não era esposa adequada para seu menino, e, sabendo disso, não conseguira dar-lhe sua aprovação sincera nem sua bênção materna quando ele lhe anunciara o noivado.

Ainda assim, abstivera-se de se opor à escolha do filho amado, receosa de ser causa de infelicidade; por isso, sob uma falsa aparência de franqueza, que a surpreendera a ela própria, ocultara sua má vontade contra a intrusa e a recebera como filha. Mesmo assim, sentia-se profundamente preocupada com Henk.

Madame Vere ela conhecera ligeiramente; apaixonada e dominadora, nunca encontrara nada de atraente em semelhante personalidade, e aquela filha lhe recordava em demasia a mãe.

Embora, a seus olhos, Henk possuísse muito mais firmeza de caráter que Vere — de quem não podia pensar senão como num sofredor pálido e enfermiço, satisfeito demais em permitir que a esposa pensasse e agisse por ele —; embora Henk, como ela julgava, tivesse todo o caráter franco e viril do pai, e não se deixasse dominar, ainda assim, feliz como ela fora com van Raat, jamais caberia a ele sê-lo.

E, diante desse pensamento, suspirava, e seus olhos se umedeciam; o amor materno, apesar da cegueira para os defeitos dele, era o instinto que lhe dava uma intuição da verdade; e, se pudesse tomar seu lugar, de bom grado teria cedido ao filho sua antiga felicidade e sofrido por ele. Seus pensamentos se dispersavam enquanto via Leentje, a criada, pôr a mesa do almoço apenas para ela; e, com resignação fatigada diante da odiosa solidão de seus dias, sentou-se.

O amanhã seria para ela igual ao hoje; o que restava de sua vida não passava de um rescaldo de verão, e embora o outono e o inverno pudessem estar livres de tempestades, a única promessa que traziam era a de uma letargia estéril e sem alma.

Para que fim vivia? E tão cansada se sentia sob a pressão plúmbea daquela solidão que mata a alma, que nem mesmo conseguiu reunir energia para repreender Leentje por sua falta de jeito, embora não pudesse deixar de notar o dano feito a uma de suas velhas travessas de porcelana.

Muito mais cedo do que costumava sair, Eline foi à casa dos Verstraeten naquela tarde. Era perto do fim de novembro, e o inverno já se instalara com extrema severidade.

Havia uma geada cortante; a neve, ainda branca e imaculada, estalava sob o passo leve e regular de Eline, mas seus pés preferiam sentir a lisura da calçada bem varrida; as mãos delicadamente enluvadas estavam escondidas no pequeno manguito. De vez em quando, sob o véu, fazia um cumprimento amistoso a algum conhecido que passava, e seguia pela Java-straat rumo à Princesse-gracht.

Ainda estava de bom humor, sem que o pequeno arrufo que tivera com Betsy por causa de alguma questão insignificante com os criados a perturbasse. Essas pequenas altercações já não eram tão raras ultimamente, embora sempre irritassem Henk além da medida.

Mas Eline não dera muita atenção às palavras de Betsy e lhe respondera com menos aspereza que de costume; não queria permitir que tais ninharias estragassem seu bom humor: a vida lhe era preciosa demais... E, satisfeita por haver refreado o temperamento, dobrou a esquina da Java-straat. Na casa dos Verstraeten ainda reinava uma desordem incomum.

Dien relutou em deixá-la entrar, mas Eline não fez caso e passou para dentro, rumo à grande sala de recepção, onde encontrou Madame Verstraeten, que se desculpou por estar de robe. Losch, o fotógrafo, meio oculto sob o pano verde de seu aparelho, tomava uma vista do grupo que representava os Cinco Sentidos. As moças, Etienne e Paul sorriram para saudar Eline, que disse ser esplêndido ainda poder ver alguma coisa dos quadros-vivos.

Agora, porém, à luz fria do dia refletida pela neve, a cena já não produzia a impressão vívida e incandescente da véspera, nem possuía a mesma riqueza de colorido que uma aplicação generosa de luz de Bengala lhe havia conferido. Os drapeados pendiam em pregas frouxas e amarfanhadas; o tecido de ouro de Frédérique tinha um tom manchado e desbotado; seu arminho parecia mais lã branca e preta. A peruca loura de Etienne estava decididamente sem cachos.

Lili, representando o sentido do Olfato, jazia meio adormecida sobre as almofadas.

— Receio que não dê grande coisa — disse Marie, enquanto Losch ajeitava seus drapeados; mas Toosje van der Stoor pensava de outro modo e permanecia deitada, imóvel, com uma sensação terrivelmente contraída por causa da postura difícil.

Eline, não querendo perturbar os artistas em seu agrupamento, sentou-se ao lado do sr. Verstraeten. Ele pôs de lado o livro, tirou os óculos e, com seus olhos castanhos e cintilantes, lançou à moça graciosa um olhar de prazer não fingido.

— Sabe — disse ela, enquanto desabotoava a pequena capa forrada de pele —, sabe, estou realmente com inveja daquele grupinho ali. Estão sempre juntos, sempre felizes e alegres, cheios de graça e ideias divertidas... de verdade, sinto-me bastante velha ao lado deles.

— Imagine só! — respondeu Madame Verstraeten, rindo. — Você tem a mesma idade de Marie, vinte e três anos, não tem?

— Sim; mas nunca fui mimada como Marie e Lili estão sendo agora, e, ainda assim, acho que não me teria importado nem um pouco. A senhora sabe, claro, quando eu era criança... papai passava a maior parte do tempo doente, e naturalmente isso lançava uma sombra sobre nós; e depois, na casa da tia Vere... tia era uma mulher querida e boa, mas muito mais velha que papai, e certamente nada alegre...

— Você não deve dizer nada contra a tia Vere, Eline! — disse o sr. Verstraeten. — Ela foi uma antiga paixão minha...

— E o senhor também não deve rir dela; eu gostava muito dela; na verdade, foi uma segunda mãe para nós, e quando aquela longa enfermidade terminou em sua morte, senti profundamente a perda; fiquei como que sozinha no mundo. Vê? Todas essas coisas não eram exatamente feitas para tornar minha juventude muito alegre.

E sorriu um sorriso entristecido, enquanto, ao pensar em tudo de que fora privada, seus olhos brilhavam úmidos.

— Mas, quando olho para Paul e Etienne, e para as meninas, é só riso e prazer... de verdade, é o bastante para me deixar com inveja. E aquela Toos também, é uma criança encantadora.

Os artistas desceram do estrado. Losch terminara. Paul e Etienne, com Freddie, Marie e Cateau, aproximaram-se, enquanto Lili foi para a cama, inteiramente exausta pela agitação dos últimos dois dias.

— Bom dia, senhorita Vere — disse Cateau, estendendo a pequena mão a Eline.

Eline sentiu uma súbita, indescritível e irracional simpatia por aquela criança, tão simples e tão inconscientemente cativante; e, ao levantar-se para ir embora, viu-se obrigada a esconder a emoção abraçando-a de brincadeira.

— Adeus, querida — disse ela com ternura. — Estou indo, Madame Verstraeten; ainda há muito para a senhora fazer, agora que toda essa agitação acabou. Ah, sim... prometi a Betsy pedir-lhe os ingressos. Posso levá-los?

Ainda era cedo, apenas duas e meia, e Eline pensou fazia quanto tempo não visitava a velha Madame van Raat; sabia que a senhora gostava dela e ficava sempre contente em conversar um pouco à tarde. Henk jamais deixava de visitar a mãe todas as manhãs depois de seu passeio a cavalo, e os dois cães de caça, que a esposa banira de sua casa, seguiam-no tranquilamente escada acima na casa materna.

Quanto a Betsy, a velha senhora via-a muito pouco; Betsy sabia perfeitamente que Madame van Raat não se importava com ela. Eline, porém, conseguira conquistar-lhe o afeto por meio de certa maneira extremamente cativante que possuía quando estava na companhia de senhoras idosas; no tom de sua voz, em suas pequenas atenções, havia algo, um delicado sabor de respeito, que encantava a velha dama.

Eline voltou pela Java-straat até a Laan van Meerdervoort e encontrou Madame van Raat sozinha, sentada em sua cadeira de espaldar alto, as mãos cruzadas no colo.

Aos olhos da jovem, ela parecia uma imagem de tristeza muda; sobre os móveis ricos e desbotados pairava uma sombra melancólica de antigo conforto; todo o aposento estava cheio de uma atmosfera de pesar, e em torno das pregas das cortinas verde-escuras pendia uma névoa de melancolia tão densa que, ao entrar, Eline sentiu o coração esfriar-lhe dentro do peito, como se uma voz lhe dissesse que a vida não valia a pena. Mas lutou contra essa sensação.

Recordou os pensamentos que, de manhã, lhe haviam trazido tamanha leveza de coração. Sorriu, e sua voz assumiu aquele respeito vago, misturado a certo amor e piedade; e, com muita animação, falou de Paul, dos tableaux, do jantar daquela noite, da ópera — e prometeu a Madame van Raat enviar-lhe alguns livros, literatura leve e agradável, daquelas em que se olha o mundo por óculos cor-de-rosa.

Doía-lhe tagarelar daquele modo; teria preferido sentar-se e chorar com a velha senhora, numa melancolia solidária; mas dominou-se, e até reuniu coragem para tocar num assunto mais sério.

Com sua maneira cativante e respeitosa, repreendeu carinhosamente Madame por tê-la deixado surpreendê-la de olhos úmidos, coisa que agora ela não queria admitir; não era curiosa, mas gostaria tanto de consolá-la e animá-la, se pudesse; e por que não tornava a fazê-la sua confidente, como antes, e assim por diante. E a velha senhora, já posta à vontade pelo encanto daquele modo de ser, sacudiu a cabeça sorrindo: realmente, não havia nada; sentia-se apenas um pouco só.

Ah, a culpa era dela mesma, temia, pois havia muito poucas coisas pelas quais ainda se interessasse. Outros velhos liam jornais e continuavam a se interessar pelas coisas em geral; ela, porém, não. Sim, era tudo culpa sua; mas Eline era uma menina querida; por que Betsy não podia ser um pouco parecida com ela? E, com animação crescente, começou a falar do querido marido; ali adiante estava o retrato dele...

Passava das quatro quando Eline saiu às pressas; escurecia, a neve derretia, e as nuvens baixas ameaçavam cair sobre ela e sufocá-la. Aquela velha senhora fora feliz, muito feliz... e ela, Eline, não era feliz, mesmo em sua idade — oh! como se sentiria quando também fosse velha, feia e enrugada! Para ela, nem as lembranças do passado trariam consolo, nem o pensamento reconfortante de que a felicidade existira, de que ela lhe provara as doçuras; para ela, tudo seria baço e plúmbeo como as nuvens acima.

— Oh, Deus, por que viver, se a vida fosse vazia de felicidade?... Por quê, por quê? — sussurrou, e apressou-se para vestir-se para o jantar. Seria um jantarzinho simples e doméstico.

Às seis e meia chegaram os Ferelyn e, pouco depois, Emilie e Georges. Betsy os recebeu no salão e perguntou a Jeanne como estava a criança.

— Ela está bem melhor agora, a pequenina; a febre passou, mas ainda não está completamente boa. O doutor Reyer disse que ela está progredindo. Foi muito gentil da sua parte nos convidar; uma pequena mudança realmente me é necessária. Mas, veja, tomei sua palavra de que seria uma reunião bem familiar, por isso não me vesti especialmente.

E, com certa apreensão, seus olhos passaram de seu próprio vestido preto simples para o vestido de cetim cinza de Betsy.

— De verdade, não vem mais ninguém além de Emilie aqui e do irmão dela. Mas você me disse que voltaria cedo para casa; por isso combinamos, mais tarde, dar uma passada na ópera, no camarote do tio Verstraeten. Assim, não precisa ficar inquieta; você fez muito bem em vir como está.

Henk, alegre e satisfeito, entrou com seu paletó de fumar; ao vê-lo, Jeanne sentiu-se mais tranquilizada do que com todos os protestos de Betsy. Com Emilie, vivaz como sempre, mantinha relações da maior intimidade, e apenas Georges, com o peitilho imaculado e a grande gardênia, fazia-a sentir certo desconforto diante de seu vestido simples.

Frans Ferelyn, funcionário nas Índias Orientais, estava na Holanda em licença, e sua esposa era antiga colega de escola de Eline e Betsy. Jeanne parecia uma mulherzinha doméstica, muito quieta e abatida sob suas preocupações familiares. Delicada, emagrecida e pálida, com um par de olhos castanhos suaves, sentia-se esmagada sob o duplo fardo das dificuldades financeiras e da ansiedade por seus três filhos adoentados; sentia também uma saudade irresistível da Índia, terra de seu nascimento, e da vida tranquila que lá levava.

Sofria muito com o frio e contava os meses que ainda teria de passar na Holanda. Contou a Emilie sobre sua vida em Temanggoeng, no Kadoe — Frans era controlador de primeira classe —, no meio de uma verdadeira coleção de animais: galinhas da Cochinchina, patos, pombos, uma vaca, duas cabras e uma cacatua.

— Exatamente como Adão e Eva no Paraíso — observou Emilie.

Então Jeanne contou como, todas as manhãs, costumava cuidar de suas rosas persas e de suas lindas azaleias, colher legumes em sua própria horta, e como as crianças, imediatamente ao chegarem à Holanda, adoeceram e começaram a tossir.

— É verdade que, na Índia, elas pareciam um pouco pálidas, mas ao menos lá não precisavam viver em constante medo de correntes de ar e portas abertas.

E lamentava que, por causa das despesas da viagem, tivesse sido obrigada a vir sem sua babu, Saripa. Agora ela estava servindo em Samarang, mas prometera voltar para sua companhia “assim que estivermos em casa outra vez”, e Jeanne levaria para ela alguns vestidos bonitos da Holanda.

Emilie escutava com atenção e fazia o possível para fazê-la falar; sabia como aquelas reminiscências indianas conseguiam tirar Jeanne de sua reserva quieta habitual. Betsy a considerava deslocada em sociedade; por isso, quando a convidava, era sempre junto com o marido e, se possível, com uma ou duas outras pessoas.

Na verdade, achava-a maçante, em geral malvestida, de conversa sem graça e pouco interessante, mas ainda assim não podia deixar de convidá-la de vez em quando, mais por uma espécie de compaixão do que por qualquer outra coisa.

Enquanto Frans Ferelyn falava a Henk sobre sua próxima promoção a residente assistente, e Georges ouvia Jeanne contar-lhe que um dia o cavalo de Frans entrou direto no quarto deles para buscar seu pisang, Betsy recostava-se na cadeira, pensando em como Eline estava demorando.

Teria gostado de jantar cedo, para não chegar tão tarde à ópera, e esperava intimamente que os Ferelyn não fossem indiscretos e não ficassem tempo demais. Divertidos certamente não eram, pensou; e se levantou, ocultando a impaciência, para arrumar um feixe de penas de pavão num dos vasos, entre algumas bugigangas sobre a mesinha central; depois, com o pé, ajeitou a pele de tigre diante da lareira flamejante, sentindo-se o tempo todo irritada com a demora de Eline.

Por fim, a porta se abriu e Eline entrou; Jeanne não pôde deixar de notar como ela parecia bonita e elegante em seu vestido de seda reps cor-de-rosa, simples, mas rico, com um lacinho discreto aqui e ali no corpete em V, nas mangas curtas e na cintura. Nos cabelos castanho-claros, penteados para trás, trazia uma touffe de plumas cor-de-rosa onduladas com uma pequena aigrette; seus pés ágeis calçavam sapatinhos cor-de-rosa; um único fio de pérolas lhe cingia a garganta.

Nas mãos segurava as luvas compridas, o leque de plumas de avestruz cor-de-rosa e o binóculo guarnecido de madrepérola. Ferelyn e de Woude se levantaram, e ela lhes apertou as mãos, beijou Emilie e Jeanne, perguntando ao mesmo tempo pela pequena Dora.

Percebeu como todos, até Henk e Betsy, a examinavam da cabeça aos pés, impressionados com a rica simplicidade de seu traje; e, quando Jeanne lhe falou da filha, ela sorriu para a pequena mulher em luta, inteiramente consciente do efeito de seus encantos brilhantes.

À mesa, Eline conversou agradavelmente com de Woude, ao lado de quem se sentara. Betsy ficou entre seus dois convidados homens, Emilie entre Henk e Frans, Jeanne entre Eline e Henk.

Na sala de jantar um tanto sombria, com seus móveis antigos, a mesa cintilava com damasco branco como neve, prata e cristal fino, enquanto os raios da luz de gás faiscavam nos decantadores e copos, fazendo o vinho vermelho-escuro ou cor de âmbar parecer tremer sob o brilho de sua própria irradiação. Do meio de um ninho de flores numa cesta de prata erguia-se a coroa espinhosa de um magnífico abacaxi.

De Woude começou a contar a Eline sobre a soirée na casa dos Verstraeten e descreveu, em termos entusiasmados, como a senhorita van Erlevoort ficara bem em seus papéis, sucessivamente como Cleópatra e como o sentido da Visão. Com Emilie, Frans e Betsy, a conversa voltou-se para a Índia. Jeanne de vez em quando participava, mas estava sentada longe demais, e sua atenção era desviada pelo tagarelar de de Woude e pela risadinha aguda de Eline, envolvida num leve flerte.

Henk tomava a sopa e comia o peixe em silêncio, dirigindo ocasionalmente uma curta palavra monossilábica a Jeanne ou a Emilie. E Jeanne se tornava cada vez mais calada, tanto por se sentir pouco à vontade quanto pelo cansaço da longa conversa com Emilie, depois de um dia cheio de preocupações. Sentia-se completamente deslocada, ao lado daquele casal coquete: Eline em plena toalete, de Woude em traje de gala, com os quais seu vestidinho preto fazia contraste pobre.

Ainda assim, alegrava-se por estar sentada ao lado de Henk e, em seu próprio mal-estar, percebia uma espécie vaga de simpatia por ele, tão deslocado ali quanto ela mesma. Não podia deixar de se comparar a Eline e Betsy: ela, lutando com três filhos e com a magra ajuda de custo de licença do marido; Eline e Betsy, por outro lado, livres de entraves e sempre girando num turbilhão de prazeres e excitação.

Onde estava a antiga e feliz amizade que as unia num só laço, quando as três iam de mãos dadas para a escola, Eline com a capa de seu impermeável cheia de cerejas, e ela mesma, sob a liderança de Betsy, dando livre curso aos seus arroubos infantis em respostas malcriadas à governanta? Sentia-se repelida por aquela jovem esposa, com sua maneira consciente e indiferente, e seu tom dominador para com o marido; repelida também por aquela moça, que lhe parecia frívola e vaidosa em sua conversa, cheia de nadas brilhantes; e por aquele dândi.

Eline, em especial, ela não conseguia compreender; encontrava nela algo incomum, algo indefinível e desconcertante, e certos atributos que pareciam estar sempre em guerra uns com os outros. Seu riso por coisa nenhuma a fatigava, e perguntava a si mesma como era possível que uma moça que, segundo diziam, cantava tão divinamente, tivesse uma risada tão desagradável e afetada. Oh! se ao menos se calassem por um momento!... E, no coração, ansiava por estar de volta a seus humildes aposentos, junto da pequena Dora.

Por que aceitara aquele convite? É verdade que Frans insistira para que ela tivesse alguma mudança e distração, agora que a criança estava fora de perigo; mas aquele jantar não lhe trazia distração alguma; ao contrário, deixava-a nervosa e confusa, e ela recusou a oferta de Henk de mollejas com aspargos, que ele lhe recomendava.

— Ouvi bem, senhorita Emilie; o sr. de Woude é seu irmão? — perguntou Frans em voz baixa.

Era a primeira vez que encontrava Emilie ou Georges, e ficara tão impressionado pela semelhança quanto pelo contraste entre os dois.

— Certamente — sussurrou Emilie —; e tenho orgulho dele também. É um dândi terrível, mas um bom rapaz; trabalha no Ministério das Relações Exteriores. Cuidado, não pense mal dele!

Ela riu e ergueu o dedo em ameaça, como se lesse os pensamentos de Ferelyn.

— Ainda não troquei mais de meia dúzia de palavras com o sr. de Woude, portanto lamentaria emitir uma opinião sobre ele tão cedo — disse ele, um pouco alarmado com a brusquidão de Emilie.

— Muito bem; a maioria das pessoas acaba formando uma opinião muito diferente sobre Georges depois de algum tempo, em comparação com a que tem ao conhecê-lo. Veja, como irmã afetuosa, tomo o partido de meu irmão. Encha meu copo, por favor.

— Sim; a senhora o defende antes mesmo de ele ser atacado! — retomou Ferelyn, sorrindo, enquanto lhe enchia o copo. — Mas isto já posso ver: ele é um mimado das senhoras, não apenas das irmãs, mas também de Madame van Raat e da senhorita Vere.

Betsy juntou-se à conversa com Eline e Georges, atraída pela vivacidade deste último, enquanto ele tagarelava, saltando por toda sorte de assuntos: uma conversa sem substância, sem verdadeiro espírito, mas leve como espuma, aérea como bolhas de sabão, cintilante como bombinhas de fogos.

Numa conversa assim, ela estava em seu elemento; conversas sérias, por mais espirituosas que fossem, eram pesadas demais para ela; mas aquela tintinnabulação de faíscas e flocos de espuma, como vinho cintilando através de taças de cristal, encantava-a extraordinariamente. Achava Georges muito mais divertido do que na véspera, nos Verstraeten, onde ele observara duas vezes que o efeito da luz vermelha era mais lisonjeiro que o da verde.

Hoje ele não se repetia, mas disparava uma sucessão de frases, interrompendo-a com insolência risonha e arredondando os períodos com vivacidade verdadeiramente francesa. Várias vezes Eline tentou atrair Jeanne para aquele círculo de nadas faiscantes, mas Jeanne apenas sorrira um sorriso fraco, ou respondera com um único monossílabo, e por fim Eline desistiu da tentativa de fazê-la falar.

A conversa tornou-se mais geral; Emilie juntou-se a ela com sua nonchalance fácil e suas pilhérias aéreas; e Frans, no meio daquele círculo encantado, não pôde deixar de lançar uma faísca ocasional de graça, embora seus olhos repousassem frequentemente, com olhar ansioso, na esposa quieta. Para Jeanne, parecia que o jantar jamais chegaria ao fim.

Embora não tivesse o menor apetite, não queria continuar recusando; então aceitou um pouco do frango trufado, do gâteau Henri IV, dos abacaxis e da sobremesa seleta; o vinho, porém, apenas tocou com os lábios. Henk, ao seu lado, comia muito e com evidente gosto, perguntando-se por que ela se servia de porções tão pequenas. De Woude comia pouco, impedido por sua conversa incessante; Emilie, contudo, fazia sua parte e não poupava o vinho.

Passava das oito quando se levantaram, e as senhoras se retiraram para o salão. Frans juntou-se a Henk e de Woude para um charuto, pois Jeanne manifestara o desejo de ficar mais meia hora. Betsy lhe pedira isso; não podia deixar que os convidados fossem embora tão cedo, e ainda haveria tempo de sobra para a ópera.

— Dora adoece com frequência, Jeanne? — perguntou Eline, enquanto, com um frufru de sua seda vermelha, sentava-se no sofá ao lado dela e tomava-lhe a mão.

— Da última vez que a vi, ela não tinha nada; e mesmo então achei-a muito pálida e delicada.

Jeanne retirou a mão suavemente e sentiu algo como irritação diante daquela pergunta, depois da conversa à mesa. Respondeu apenas de modo seco. Mas Eline insistiu, como se pretendesse, com sua amabilidade presente, reparar a negligência anterior; e conseguiu dar à voz um tom tão simpático que Jeanne se sentiu bastante tocada.

Jeanne começou a expressar seus receios de que o doutor Reyer não tivesse examinado sua menina com tanto cuidado quanto poderia; e Eline, sorvendo o café, ouvia com evidente interesse suas queixas maternas. Emilie e Betsy tinham, nesse meio-tempo, passado ao boudoir contíguo, para olhar algumas gravuras de moda.

— Pobre querida! Quantos cuidados e preocupações você tem, e ainda não faz nem três meses que está na Holanda! Você chegou apenas em setembro, não foi? — perguntou Eline, pousando a pequena xícara de porcelana sobre a mesa redonda diante de si.

Jeanne ficou calada; mas, de repente, levantou-se e, por sua vez, segurando os dedos delgados de Eline, observou, em seu desejo de afeto:

— Eline, você sabe que sempre fui bastante direta e franca; posso lhe perguntar uma coisa?

— Claro que pode — respondeu Eline, um tanto surpresa.

— Pois então... por que já não somos uma para a outra o que éramos antigamente, quando seus pais ainda estavam vivos? Faz agora quatro anos que me casei e fui para a Índia, e agora que voltamos, agora que torno a vê-la, tudo parece tão diferente entre você e mim. Não tenho conhecidos, e pouquíssimos parentes na Haia, e gostaria tanto de conservar minhas antigas amigas para mim.

— Mas, Jeanne...

— Sim; sei que você acha tolice minha falar assim; mas às vezes me sinto tão terrivelmente deprimida com toda essa futilidade e essa falsa excitação, tenho tanta vontade de desabafar com alguma amiga querida e verdadeira — pois naturalmente não posso dizer tudo que desejo a meu marido.

— Por que não?

— Oh, ele já tem preocupações demais; está doente e... irritadiço.

— Mas, Jeanne, realmente não vejo que mudança houve entre nós.

— Talvez seja apenas fantasia minha, afinal. Veja, antigamente estávamos juntas com mais frequência; agora você circula num meio tão diferente. Você sai muito, e eu... bem, veja, ficamos muito afastadas uma da outra.

— Mas, considerando que não nos vemos há quatro anos...

— Mas mantivemos correspondência.

— Que valor têm três ou quatro cartas ao longo de um ano? Não lhe parece natural que as ideias mudem, à medida que envelhecemos e somos colocadas em circunstâncias diferentes? Sim; eu também tive meus cuidados e preocupações. Primeiro foi o querido papai, depois tia Vere, de quem cuidei durante a doença...

— Você é feliz aqui? Consegue se dar bem com Betsy?

— Oh, sim, admiravelmente, ou, naturalmente, eu não ficaria com ela.

Eline, com sua reserva habitual, julgou desnecessário dizer mais a esse respeito.

— Veja, você não precisa se inquietar com coisa alguma — continuou Jeanne —; as coisas acontecem exatamente como deseja; você é livre e sem amarras, e vive apenas para seus prazeres; comigo é tudo tão diferente.

— Mas certamente tudo isso não justifica você dizer que ficamos afastadas uma da outra. Em primeiro lugar, acho “afastadas” uma palavra desagradabilíssima, e, em segundo lugar, não é verdade, qualquer que seja a palavra que você use.

— É, sim.

— Não, não é. Eu lhe asseguro, minha querida Jeanne: se eu puder ser útil a você de alguma maneira, vai me encontrar inteiramente à sua disposição. Acredita em mim?

— Sim, acredito, e lhe agradeço muito. Mas, Eline...

— Bem?

Várias perguntas subiram aos lábios de Jeanne. Sentia um desejo ardente de pedir-lhe que falasse mais de si mesma, que fosse mais livre e aberta com ela; mas a cordialidade estudada do sorriso que pairava em torno dos lábios delicados e se refletia naqueles olhos sonhadores, amendoados, silenciou-a por completo.

E sentiu um súbito arrependimento por sua franqueza diante de uma moça tão coquete, que manejava habilmente o leque; era pura perda de tempo falar com ela. Por que se deixara levar pelo primeiro impulso? Eram inteiramente inadequadas uma à outra...

— Bem? — repetiu Eline, temendo ao mesmo tempo qual pudesse ser a próxima pergunta.

— Outra vez, quando estivermos novamente sozinhas! — balbuciou Jeanne.

E levantou-se, insatisfeita, aborrecida consigo mesma, pronta a desatar em lágrimas depois daquele jantar pouco sociável e daquela conversa infrutífera. Betsy e Emilie acabavam de sair do boudoir. Jeanne achou que era hora de ir embora. Os três cavalheiros entraram, e Henk a ajudou com a capa. Com cordialidade forçada, despediu-se, agradecendo a Betsy pelo convite, e voltou a estremecer de irritação quando Eline lhe beijou as faces.

— Que tédio terrível, essa Jeanne! — disse Betsy, depois que os Ferelyn se foram. — Mal abriu a boca. Sobre o que vocês duas estavam conversando, Eline?

— Oh... sobre Dora e o marido dela, nada mais.

— Pobre criatura! — disse Emilie, compadecida. — Vamos, Georges, vá buscar minha capa.

Mina, porém, acabava de entrar com as capas das senhoras, e de Woude vestiu seu ulster, enquanto Henk esfregava as grandes mãos, satisfeito com a perspectiva de passar a noite em casa depois de um bom jantar.

A carruagem já esperava do lado de fora, na neve em degelo, havia meia hora, com Dirk, o cocheiro, e Herman, o lacaio, sentados na boleia, meio soterrados em suas grandes capas de pele.

— Oh, Frans, nunca mais me peça que aceite outro convite dos van Raat! — disse Jeanne, em voz suplicante, enquanto, apoiada no braço do marido, seguia aos arrepios, chapinhando pelas ruas enlameadas, e, com as mãozinhas entorpecidas pelo frio, esforçava-se sem cessar para manter a capa fechada, cada vez que uma rajada de vento lhe abria as pontas. — De verdade, já não me sinto em casa com eles, com Betsy e Eline.

Ele encolheu os ombros e nada disse.

Caminharam pesadamente, com os sapatos respingados de lama, à luz tremulante dos lampiões de rua, cujos raios baços se refletiam com regularidade monótona nas inúmeras poças que tinham de atravessar.

O terceiro ato de Le Tribut de Zamora mal começara quando Betsy, Emilie, Eline e Georges entraram em seu camarote.

A casa estava cheia, e a chegada deles rompeu o silêncio que reinava no auditório atento; houve um frufru de seda e cetim; cem olhos e binóculos de teatro se voltaram para o camarote, e aqui e ali se sussurrava a pergunta: “Quem são eles?” Emilie e Eline sentaram-se à frente, Betsy e Georges atrás delas, enquanto Eline pousava o leque e o binóculo orlado de pérolas.

Então começou lentamente a desatar a capa de pelúcia branca, forrada de cetim vermelho, e, como uma nuvem de rosa e branco, ela lhe deslizou dos ombros; de Woude a dobrou sobre o encosto de sua poltrona. E, no triunfo de sua beleza, fazia-lhe bem ver como a fitavam e admiravam.

— Que quantidade de gente há aqui esta noite! Temos sorte — sussurrou Emilie. — Não há nada, acho eu, tão triste quanto ver uma casa vazia.

— Você tem razão! — disse Betsy. — Veja, ali estão os Eekhof, Ange e Léonie, com a mãe. Também estiveram ontem nos Verstraeten; na semana que vem darão uma soirée dansante.

E acenou com a cabeça para as moças.

— O novo barítono de Bruxelas, Théo Fabrice, canta esta noite — disse de Woude a Eline. — Sabe que, desde que começaram os débuts, dois foram dispensados; ele é o terceiro.

— Como são terrivelmente longos esses débuts neste inverno! — observou Eline, em tom indiferente.

— O tenor robusto foi aprovado desde o início, mas dizem que Fabrice também é muito bom. Veja, lá vem ele.

O coro das odaliscas de Ben-Saïd terminara, e o soberano mouro entrou em seu palácio, conduzindo Xaïma pela mão.

Mas Eline prestava pouca atenção; olhava em volta pelo teatro e fazia um cumprimento amistoso de reconhecimento quando seus olhos encontravam os de algum conhecido; e não lançou outro olhar para o palco até que Ben-Saïd e sua escrava estivessem sentados sob o dossel e o balé começasse.

Aquilo a atraiu, e seus olhos seguiram as danseuses quando, deslizando nas pontas dos pés, elas se ordenaram em grupos sob os arcos mouriscos e, sob os véus erguidos e os leques de franjas prateadas, mostraram os corpos presos em corpetes de cetim lustroso, cintilando todos com as lantejoulas dos vestidos leves como gaze.

— Um belo balé! — disse Emilie, bocejando atrás do leque; e recostou-se comodamente na poltrona, um tanto sob a influência generosa do jantar escolhido.

Eline assentiu com a cabeça e, enquanto ouvia atrás de si Betsy e Georges sussurrando juntos, continuou a seguir as hábeis evoluções da première danseuse, que, com movimentos graciosos, pairava sob os leques ondulantes das dançarinas, nas pontas dos pés calçados de cetim, uma aigrette deslumbrante de diamantes nos cabelos.

Com sua natureza sonhadora e idealista, Eline amava apaixonadamente a ópera, não apenas porque esta lhe dava a oportunidade de ser objeto de admiração geral, nem apenas por causa da música, ou porque estivesse ansiosa por ouvir alguma ária cantada por uma célebre prima-dona, mas também pelo enredo intricado, colorido de romantismo, pelos efeitos melodramáticos, um tanto grosseiramente pintados, cheios de ódio, amor e vingança, cuja convencionalidade não a incomodava e nos quais nem sequer procurava verdade alguma.

Não havia necessidade de esquecer, por um só instante, que eram apenas atores e atrizes os que via diante de si, e não cavaleiros e nobres damas; que estava sentada num teatro cheio e brilhantemente iluminado, olhando cenários pintados e ouvindo a harmonia de uma orquestra visível, e não vivendo com herói e heroína alguma época mais ou menos poética da Idade Média; ainda assim, não deixava de se divertir, desde que os atores não cantassem demasiado mal nem representassem com convencionalidade prosaica demais.

Betsy, por outro lado, ia à ópera apenas com o objetivo de ver e ser vista; teria julgado extremamente infantil o intenso prazer de Eline, mas Eline gozava esse prazer em segredo, pois suspeitava da opinião de Betsy, e por isso deixava a irmã acreditar que ela, como a própria Betsy, não encontrava no teatro outro deleite senão ver amigos e conhecidos e ser vista por eles.

O balé terminara.

Ben-Saïd e Xaïma desceram do trono, e ele cantou o recitativo — “Je m’efforce en vain de te plaire!” — e depois a ária: “O Xaïma, daigne m’entendre! Mon âme est à toi sans retour!” A voz do novo barítono era cheia e sonora, mais semelhante à de um basso cantante, e no canto ele a envolvia como que num véu de melancolia.

Mas, em seu rico traje mourisco, tinha aparência pesada; e nem em sua atitude nem em sua representação conseguia dar sequer uma aparência mínima de homenagem amorosa, olhando para a prima-dona, em seu vestido de tecido de prata e longos cabelos louros cobertos de pérolas, mais com ameaça de cólera no olhar do que com a humildade de uma devoção terna.

Eline não era insensível às falhas de sua atuação; ainda assim, agradava-lhe justamente o contraste entre a expressão de superioridade altiva no porte dele e o tom de humildade em sua voz.

Seguiu cada nota da ária e, quando, ao súbito fortissimo do órgão metálico de Ben-Saïd, a atriz pareceu tremer de terror, Eline perguntou a si mesma:

— Por que será que ela está tão assustada? O que há? Ele não parece tão mau.

E, durante os aplausos que se seguiram à ária, lançou um olhar ao teatro; por acaso, seus olhos caíram sobre um grupo de cavalheiros que estava de pé bem à entrada da plateia.

Notou como olhavam fixamente para seu camarote e, com sua languidez graciosa, estava a ponto de recuar um pouco, quando viu um deles olhá-la com um sorriso de reconhecimento.

Por um instante fitou-o de olhos muito abertos e, em sua surpresa, não retribuiu o cumprimento; mas, com um movimento rápido, voltou-se, pousou a mão no ombro de Betsy e sussurrou-lhe ao ouvido:

— Veja só, Betsy; está vendo quem está ali?

— Onde? quem?

— Ali, na plateia... Vincent... não está vendo?

— Vincent! — repetiu Betsy, por sua vez espantada. — É mesmo, Vincent!

Ambas acenaram com a cabeça para Vincent, que, rindo, as focalizou com o binóculo; então Eline escondeu o rosto, coquete, atrás do leque.

— Quem é? Quem é Vincent? — perguntaram Emilie e Georges.

— Vincent Vere, primo em primeiro grau — respondeu Betsy. — Oh, um rapaz tão tolo; ninguém nunca sabe onde ele está; às vezes não o vemos por meses a fio, depois, de repente, ele aparece diante da gente outra vez. Eu não fazia a menor ideia de que estivesse na Haia. Eline, pelo amor de Deus, não mexa tanto nesse leque.

— Não quero que ele fique olhando para mim — disse Eline; e, com um giro gracioso do braço bem modelado, manteve o leque diante do rosto.

— Quando foi a última vez que viu seu primo, Madame van Raat? — perguntou Georges.

— Oh, há mais de dezoito meses. Acho que ia para Londres, onde seria repórter de um jornal, ou coisa desse tipo. Imagine, dizem que esteve por algum tempo na Legião Estrangeira, na Argélia, mas eu não acredito. Esteve em toda parte e nunca tem um sou.

— Sim, agora me lembro, já o vi antes — disse Emilie, bocejando. — Um sujeito curioso.

— Sim, isso ele é. Mas veja, aqui na Haia, onde tem parentes, sabe que precisa comportar-se da melhor maneira possível; por isso toleramos sua presença.

— Sim — observou Emilie, muito filosoficamente —, em geral se encontra uma ovelha negra dessas em toda família.

Eline sorriu e fechou lentamente o leque.

O terceiro ato chegou ao fim sem que ela compreendesse muita coisa da scena com Manoël; mas o grande duo entre Hermosa e Xaïma deu-lhe uma pista: era o reconhecimento mútuo de mãe e filha depois da ária — “Debout, enfants d’Ibérie!” —, e a cortina caiu em meio a trovões de aplausos; as duas atrizes foram chamadas à boca de cena, e cada uma recebeu sua parte de buquês.

— Sr. de Woude, conte-me, afinal, do que trata realmente o enredo? — perguntou Eline, voltando-se para Georges.

— Je n’y vois pas encore clair.

Mas Betsy propôs que fossem ao foyer, e assim se levantaram e deixaram o camarote.

No foyer, sentados num divã, Georges contou-lhe o enredo da ópera, ao qual Eline prestou mais atenção do que quis demonstrar. Agora sabia por que Xaïma estremecia na presença de Ben-Saïd, e teria gostado de ver o leilão das donzelas no primeiro ato e a venda de Xaïma como escrava no segundo.

De repente, avistaram Vincent, que subia os degraus do foyer e se aproximava deles livre e despreocupado, como se tivesse visto as primas apenas na véspera.

— Olá, Vincent, caiu das nuvens outra vez? — exclamou Eline.

— Olá, Eline; olá, Betsy! Encantado em vê-las de novo. Senhorita van Bergh e Woude, creio?

E apertou-lhes as mãos.

— Admiro sua memória; eu já havia esquecido o senhor — respondeu Emilie.

Betsy fez as apresentações:

— Sr. de Woude van Bergh, sr. Vere.

— Muito prazer. E como vai?

— Um pouco espantada — riu Eline. — Imagino que amanhã já parte outra vez, não? Para Constantinopla, ou São Petersburgo, ou algum lugar assim, suponho.

Ele olhou para ela com um sorriso em seus olhos azul-claros, como porcelana desbotada, por trás do pince-nez.

Suas feições eram belas e regulares, até belas demais para um homem, com o nariz grego finamente talhado, a boca pequena, em torno da qual geralmente pairava algo entre um escárnio e um sorriso audacioso, sombreada de leve pelo bigode louro e fino; mas o encanto daquele belo rosto era completamente estragado pela tonalidade amarelada e doentia, e pela expressão de lassidão que o envolvia.

De corpo esguio e proporções delicadas, parecia de bom gosto em suas roupas escuras e simples; ninguém deixaria de notar a pequenez dos pés e a mão bem formada, de dedos brancos, finos e alongados, mão de artista, que lembrava muito a Eline a de seu pai morto.

Sentou-se ao lado deles e, em voz lânguida, contou a Eline que chegara à Haia no dia anterior, a negócios.

Seu último emprego fora em Málaga, numa casa de vinhos; antes disso trabalhara num escritório de seguros em Bruxelas; antes ainda fora, durante algum tempo, sócio de uma manufatura de tapetes em Smyrna, mas a firma falira. Nada dava certo. Agora estava cansado de toda aquela correria; já dera provas suficientes de energia e perseverança, mas o destino estava contra ele; tudo que suas mãos tocavam parecia trazer-lhe má sorte.

Esperava, contudo, obter uma colocação numa fábrica química em Java, mas primeiro precisava de mais algumas informações. Na manhã seguinte esperava visitar van Raat, a quem queria ver. Diante disso, Betsy perguntou se viria para o café, pois van Raat nunca estava em casa pela manhã, apenas à tarde. Ele aceitou de bom grado o convite e então começou a falar da ópera.

— Fabrice? Ah, é o barítono, não é? Sim; uma bela voz, mas um sujeito feio e gordo.

— O senhor acha? Não; acho que ele se apresenta muito bem no palco — observou Emilie.

— Não, senhorita de Woude, a senhora não pensa isso.

Emilie manteve sua opinião, e Eline riu da discordância entre os dois. O tilintar da campainha avisou que o quarto ato estava prestes a começar, e Vincent se despediu, embora Georges lhe oferecesse, com polidez, seu lugar no camarote.

— Não; muito obrigado. Não quero roubá-lo de seu lugar; estou bastante confortável na plateia. Au revoir. Amanhã, então, não é? Adieu, Betsy, Eline; au plaisir, senhorita de Woude; boa noite, sr. de Woude.

Inclinou-se, apertou a mão de Georges e afastou-se devagar, balançando levemente nas mãos a bengala de bambu.

— Que rapaz estranho! — disse Eline, sacudindo a cabeça.

— Vivo com medo de que ele faça alguma coisa que nos escandalize — sussurrou Betsy ao ouvido de Emilie —, mas até agora se comportou bastante bem. Além disso, veja, quero ser simpática e cordial com ele, para não transformá-lo em inimigo. Tenho um pouco de medo dele; nunca se sabe o que um sujeito desses pode fazer.

— Não posso dizer que seja um dos meus grandes favoritos — disse Emilie, e levantaram-se para voltar aos lugares.

— Vamos, Emmie, você só diz isso porque ele não falou coisas agradáveis sobre Fabrice — interveio Georges, em tom provocador.

Emilie encolheu os ombros, e passaram ao vestíbulo.

— Oh, não há quinto ato! Pensei que fossem cinco atos — disse Eline, com certo desapontamento, a de Woude, que lhe contou o fim do enredo.

O quarto ato começou, e Eline sentiu muito interesse pela cena do jardim ao luar, pela cavatina de Manoël, por seu dueto com Xaïma e pelo trio com Hermosa; mas seu interesse aumentou quando o monarca mouro apareceu aos portões do palácio e ordenou à guarda que prendesse Manoël, enquanto, surdo às súplicas dele, arrastava Xaïma consigo, num súbito ímpeto de paixão.

A última cena da ópera, em que Ben-Saïd é assassinado pela mãe que vem em socorro da filha, impressionou-a muito mais do que ela gostaria de confessar. Em suas scenas com as duas personagens femininas, o novo barítono representava com um fogo e uma força que davam ao melodrama um brilho de verdade poética; e, quando, ferido de morte, caiu nos degraus do pavilhão, Eline ergueu o binóculo e fitou seu rosto moreno, com a barba negra e os olhos caídos.

A cortina caiu, mas os quatro atores foram chamados de volta, e Eline tornou a vê-lo, curvando-se ao público com uma expressão calma e indiferente, em forte contraste com os sorrisos radiantes do tenor, da contralto e da soprano. O público levantou-se, as portas dos camarotes se abriram. Georges ajudou as senhoras com as capas, e seguiram pelo corredor e desceram os degraus, até chegar às portas de vidro, onde esperaram que anunciassem sua carruagem.

— Não creio que Le Tribut seja uma das melhores óperas de Gounod; e você, Eline? — perguntou Emilie, quando já estavam na carruagem. — Não se compara a Fausto ou a Romeu e Julieta.

— Também não acho — respondeu Eline, cautelosa, receosa de mostrar o quanto se impressionara. — Mas é tão difícil julgar música quando se ouve pela primeira vez. Achei algumas melodias muito bonitas. Além disso, é preciso lembrar que vimos apenas metade.

— Sim; é muito agradável ir ver só uns dois atos; mas ter de suportar uma ópera inteira, confesso, acho um tédio terrível — disse Betsy, bocejando.

E Georges cantarolou o refrão: “Debout, enfants d’Ibérie.”

Os de Woude foram deixados primeiro no Noordeinde, e Betsy e Eline seguiram, aconchegadas nas almofadas de cetim do landau, para o Nassauplein.

Falaram um pouco sobre Vincent, depois ambas ficaram em silêncio, e Eline deixou a mente vaguear, meditativa, para a valsa de Mireille, para sua discussão com Betsy naquela manhã, para o grupo dos Cinco Sentidos, para Madame van Raat e de Woude, para seu vestido cor-de-rosa e Ben-Saïd.

Eline Vere

Sinopse

Romance de Louis Couperus, marco da literatura holandesa fin-de-siècle, em tradução brasileira Literunico preparada a partir da tradução inglesa de J. T. Grein, em domínio público. A edição acompanha o percurso íntimo de Eline entre salões, afetos, hesitações e a corrosão silenciosa de uma sensibilidade excessiva.

Ver ficha da edição física
LITEBN
LITEBN-978655093177830883983056
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