Universo da obra
Universo da obra
Com a cabeça languidamente apoiada nas almofadas de veludo vermelho, Eline estava sentada sozinha no coupé das senhoras. Escutava mecanicamente o matraquear das rodas sobre os trilhos, e parecia-lhe ouvir um tamborilar nervoso naquela melodia monótona e dura de aço e ferro. Uma ou duas vezes pegou o lenço e limpou o vidro para dar uma olhada lá fora, onde as sombras cinzentas da noite caíam, e uma névoa opaca se erguia sobre os prados. Dentro de poucos minutos estaria em Haia, em Haia, onde não estivera havia dezoito meses; e, depois de suas errâncias contínuas, o lugar agora lhe parecia caro, um lugar onde talvez ainda pudesse encontrar algo de lar.
Durante dezoito meses viajara, e em todo esse tempo vivera com estranhos, sem o menor recanto que pudesse chamar de seu. A vida mutável que levara fizera o tempo passar depressa; mudança, mudança incessante, fora o que tivera. Novas cidades, novas cenas, novas pessoas, para onde quer que fosse, até ficar cansada, mortalmente cansada de toda aquela variedade. Agora ansiava por repouso e calma, por um longo período apagado de repouso sonolento, livre de sonhos e livre de dores.
Algo de lar! Será que de fato encontraria isso junto daquela mulher triste e envelhecida, que a amava, mas que não a compreendia como era agora: quieta, tristemente quieta, e cansada, inteiramente cansada de sua vida jovem? Pois dali em diante seria triste, quieta e cansada de tudo; não se excitaria de novo até um brilho artificial de alegria, como fora obrigada a fazer entre os estranhos com quem estivera.
Ouviu o apito agudo da locomotiva, e as luzes que tremeluziam através da névoa se multiplicavam a cada instante. Aproximava-se lentamente de Haia. Levantou-se, ajeitou o chapéu e o véu, colocou o livro e o frasco de perfume na bolsa de couro e ficou à espera, parecendo um tanto magra e gasta, o rosto amarelado e descarnado, os olhos apagados e fundos nas órbitas. Ficou esperando até que o trem deslizou para dentro da estação e parou.
Seu coração batia, e lágrimas brilhavam nos cílios. Através do vidro coberto de vapor, no brilho baço dos lampiões de gás, podia ver o tumulto agitado da estação, e ouviu as vozes altas dos guardas gritando:
— Haia, Haia!
A porta do vagão se abriu; ela se levantou, trazendo na mão a maleta, a manta de viagem e as sombrinhas. Em meio ao vaivém apressado dos passageiros, seus olhos procuraram Paul; sabia que ele viria buscá-la, e teve um sobressalto repentino quando viu uma forma robusta e familiar abrir caminho pela multidão e aproximar-se dela.
— Henk! — gritou.
Ele a ajudou a descer, e ela quase caiu em seus braços, enquanto Paul, que vinha atrás, aliviava-a da bagagem.
— Elly... minha filha! Elly, querida! — disse Henk com voz sufocada, e beijou-a suavemente, enquanto ela deixava a cabeça soluçante repousar em seu ombro. Mal ouviu a saudação de Paul, e estendeu-lhe a mão de modo inteiramente mecânico. Um soluço selvagem lhe escapou. Mas Henk continuava a falar; tomou-lhe o braço e a conduziu à frente da estação, onde sua carruagem esperava. Ela se deixou conduzir, cheia de pensamentos indefinidos, cheia de uma vaga tristeza, e apoiou-se na mão dele para entrar na carruagem.
— Vamos esperar Paul um momento — disse Henk, sentando-se ao lado dela.
Ela não respondeu, mas recostou-se nas almofadas e cobriu a cabeça com a mão.
— Eu não esperava vê-lo, Henk; é muita bondade sua, muita bondade mesmo — conseguiu enfim dizer. Ele apertou-lhe a mão suavemente e inclinou a cabeça para fora da janela. Paul se aproximava.
— A bagagem está toda certa — disse ele, saltando para dentro da carruagem. — Bem, querida Elly, fico contente em vê-la de novo.
O lacaio fechou a porta, e a carruagem partiu. Paul nada mais disse, nem Eline ou Henk. À luz de cada lampião por que passavam, Paul via Eline recostada imóvel nas almofadas, as mãos cobrindo o rosto, o peito arfando em soluços, e todos permaneceram em silêncio.
Passava das dez quando a carruagem parou diante da casa na Laan van Meerdervoort. O lacaio tocou a campainha, a porta se abriu, eles desceram. No vestíbulo estava Madame van Raat, trêmula de emoção, e Eline correu até ela e lhe lançou os braços em volta do pescoço.
— Querida, querida senhorinha! querida mãezinha! — soluçou. — A senhora me deixará ficar com a senhora, não deixará?
A velha senhora chorava como uma criança, tomou o braço de Eline e a conduziu à sala de jantar; a mesa estava posta, e a ceia as esperava.
— Oh, que velhinha querida a senhora é! — gritou Eline. — Estou tão contente, tão contente por poder vir ficar com a senhora. — Apertou nos braços a velha senhora chorosa, e Madame van Raat a fez sentar-se no sofá e sentou-se a seu lado, com o braço em volta de sua cintura. Havia quanto tempo não via Eline, e como ela estava agora? Bem? — Oh, sim, sim, estou muito bem — gritou Eline, beijando-a uma vez, outra vez.
Mas a velha senhora desfez o véu de Eline e a ajudou a tirar o chapéu e a capa. E, oh, logo viu: aquela figura emagrecida, aquelas faces encovadas, aqueles olhos apagados.
— Minha filha — gritou, incapaz de conter-se —, minha filha, oh, como você mudou, como está com má aparência!
Eline abraçou-a apaixonadamente e escondeu a cabecinha ardente no peito da velha senhora.
— Oh, não repare nisso; estou um pouco cansada da viagem... talvez pareça um pouco pálida, não é? De verdade, a senhora verá: quando eu estiver com a senhora algum tempo outra vez, ficarei fresca como uma flor. — Sorriu para a velha através das lágrimas e beijou-a repetidamente, ora as faces, ora a velha mão enrugada.
Henk e Paul entraram, e também eles se comoveram com a aparência alterada de Eline; mas, embora aquilo os alarmasse, nada disseram. A velha senhora não conseguia tirar os olhos de Eline; enxugou os olhos e perguntou se Eline não gostaria de lavar as mãos.
— Não, não importa — gritou Eline —; sinto-me um pouco empoeirada, mas não faz mal. Oh, Henk, meu querido velho Henk.
Chamou Henk para junto de si, fez com que se sentasse ao lado dela e tomou-lhe a cabeça grande entre as mãos pequenas.
— Você não está... não está mais zangado comigo, Henk? — murmurou bem perto de seu ouvido.
Ele mordeu os lábios de emoção.
— Eu nunca estive... zangado com você — balbuciou com voz sufocada. Ela o beijou, depois o soltou, suspirou aliviada e lançou um longo olhar ao redor. Sim, encontrara algo de lar.
Sentaram-se à mesa, mas Eline não tinha apetite; apenas tocou na sopa, mas comer não conseguiu. Pediu, porém, que Paul lhe enchesse e tornasse a encher o copo, pois tinha sede. O vinho e a emoção trouxeram um rubor às suas faces amareladas, e, quando a velha senhora lhe perguntou por que tio Daniel não a trouxera de volta, ela riu, uma risada alta e nervosa. Oh, podia muito bem viajar de Bruxelas a Haia sozinha; o tio quisera acompanhá-la, mas ela recusara sua escolta; estava tão acostumada a viajar agora. Nada era mais fácil que viajar: bastava arrumar os baús, fazer algumas perguntas aqui e ali e tomar assento no vagão. Ora, não era nada.
Rápida e nervosamente, continuou a falar, segurando nas mãos o copo que levava repetidamente aos lábios. Falou de sua vida em Paris, em Bordeaux e na Espanha. Ah! Espanha, ali ela revivia. Espanha! a terra do romance, a terra da antiga cavalaria mourisca e da elegância. Quanto a Granada e à Alhambra, era grandioso, magnífico; às touradas nunca quisera ir, embora Elise risse dela, mas ela não suportava aquilo, uma coisa tão suja ver aqueles animais mortos, mutilados, sangrando.
Paul riu, e ela também riu, e teve pena dos pobres touros; e ainda continuou a falar. A velha senhora a incitava continuamente a comer alguma coisa, mas ela recusava.
— De verdade, não, senhorinha, de verdade, não, obrigada. Só consigo beber um pouco, estou com tanta sede. Posso tomar outro copo?
— Você pode beber tanto vinho assim, minha filha?
— Oh, sim, faz-me dormir lindamente. Se não tomo vinho, fico acordada a noite inteira, e isso é tão miserável. Córdoba também é uma cidade belíssima; há lá uma mesquita tão grandiosa.
E deixou-se levar pela corrente nervosa de suas impressões de viagem. Por que Paul não viajava mais? Se ela fosse um rapaz e tivesse dinheiro, viajaria sempre, sempre. Faria longas viagens, de Nova York a São Francisco, e depois por mar até o Japão, por todo o mundo. Que beleza! Era esplêndido, esplêndido estar num vagão de trem; poderia passar a vida inteira num trem! A velha senhora sacudiu a cabeça, sorrindo suavemente diante de seu entusiasmo.
— Mas melhor ainda que tudo isso é vir morar aqui com a senhora, minha querida senhorinha, minha pequena joia — gritou; e, com súbita impetuosidade, abraçou a velha senhora de cabelos grisalhos.
Depois da ceia, Madame van Raat sugeriu que Eline subisse para descansar um pouco no quarto. Eline concordou, mas a senhorinha devia ficar com ela — ficaria? Paul tinha um encontro com alguns amigos e se despediu; Henk também se levantou.
— Betsy pode vir vê-la amanhã? — sussurrou ele, um pouco ansioso. Ela sorriu, olhou-o interrogativamente e apertou-lhe a mão.
— Certamente — respondeu. — Dê-lhe um beijo por mim, sim? E como está Ben, cresceu muito?
— Oh, sim, é um menino enorme. Você o verá amanhã. Bem, adeus, Elly, boa noite.
— Adeus, Henk, até amanhã.
Henk saiu, e Madame levou Eline escada acima até seu quarto.
— Por ora, não posso lhe dar uma sala de estar, Elly — disse na escada —, ao menos enquanto Paul estiver comigo.
— Para onde ele pensa ir, então?
— Quer morar sozinho; isso também é melhor para um rapaz, não é? Mas seu quarto de dormir é muito grande, você conhece aquele ao lado do meu?
— Oh, sim, lembro-me; é um quarto esplêndido.
No quarto, o gás estava aceso, e as portas-janelas estavam abertas, de modo que o ar fresco da noite soprava para dentro. Eline tossiu um pouco ao entrar.
— Está um pouco frio; vou fechar a janela — disse a velha senhora.
Eline olhou ao redor, maravilhada, e seus olhos se umedeceram.
— Mas, senhorinha, senhorinha, o que a senhora fez? — exclamou, emocionada.
Pois, para onde quer que olhasse, via alguma lembrança de seus quartos na Nassauplein. Ali estava sua Psique, seus utensílios de toalete; naquele canto, sua escrivaninha, seu porta-cartas; ali pendia seu espelho veneziano; ao seu redor, em profusão de bom gosto, estavam dispostas suas estatuetas; e quase a única coisa nova no quarto era a grande cama, sobre a qual as cortinas azul-escuras pendiam da parede como um baldaquino.
— Agrada-lhe? — perguntou Madame van Raat. — Pensei que você gostaria mais de suas próprias coisas; mas, minha filha, o que há agora, por que está chorando?
Deixou que os braços de Eline a envolvessem, e Eline chorou em seu ombro, beijando-a repetidamente. A velha senhora a fez sentar-se no sofá e sentou-se ao lado dela; e Eline continuou encostada nela, como uma criança chorosa se encosta à mãe.
— Oh, agora, agora enfim começo a sentir o luxo do repouso — disse, fatigada —, pois estou tão cansada, tão cansada.
— Quer que eu a deixe sozinha, então, se deseja dormir?
— Não, não, fique, fique aqui; não foram as cinco horas no trem que me cansaram. Estou cansada, cansada de tudo, e isso o sono não cura; mas ainda assim agora sinto que descanso, não porque estou sentada, mas porque é na senhora que me apoio, e porque sei que a senhora gosta de mim. Veja, eu precisava tanto disso... em todas essas viagens, entre todas aquelas pessoas estranhas... precisava de alguém em quem pudesse me apoiar, alguém que me desse um pouco, um pouquinho de amor e afeição; mas era tudo tão frio, tão mortalmente frio ao meu redor, com toda a amabilidade e cortesia. Tio Daniel também é exatamente como todos os outros: muito amistoso, muito bom, muito cortês, mas tão frio. Com Elise, eu estava sempre brincando sobre uma coisa ou outra; tudo nela é leve e aéreo como espuma, mas ela também é fria, fria e cínica; e com todos aqueles estranhos eu era sempre obrigada a me comportar do modo mais amável, e a sorrir sempre, pois quem se importaria em ser incomodado por uma hóspede que não fosse alegre? E para onde eu iria, se não me hospedasse em algum lugar ou se não estivesse em viagem?
— Mas, minha filha, você sempre poderia ter vindo a mim, e eu lhe teria escrito antes se tivesse imaginado que você era tão infeliz; mas sempre pensei que estivesse muito feliz.
— Feliz! — gemeu Eline. — Sim, feliz como um cavalo que não consegue mais avançar e é levado adiante a golpes e pontapés — e riu, uma risada de amarga tristeza.
A risada cortou a alma de Madame van Raat como uma faca. As lágrimas cintilaram em seus olhos apagados, e ela não conseguiu falar; só pôde apertar Eline mais junto ao peito.
— Sim, assim está bem, segure-me bem junto à senhora — murmurou Eline suavemente. — Isto é repouso, repouso de verdade, minha querida, querida velhinha.
Assim permaneceram sentadas por muito tempo, e nenhuma das duas disse mais uma palavra, até que a velha senhora insistiu para que Eline tentasse dormir. Ficaria perto dela; Eline só precisava abrir uma porta, e ela viria.
— Se quiser alguma coisa, diga, ou tocará a campainha, não é, minha filha? Faça exatamente como se estivesse em casa. Peça o que desejar.
Eline prometeu que sim, e a velha senhora a deixou. Mas o coração de Eline ainda estava cheio demais para que se recolhesse de imediato. Olhou ao redor, e em cada recanto, em cada canto, reconhecia seus próprios vasos, seus pratos, suas fotografias. Então seu olhar caiu sobre uma caixa japonesa em cima da mesa. Seu pequeno molho de chaves estava ao lado; tomou-o, encontrou a chave certa e abriu a caixa. Dentro dela havia várias cartas descoloridas pelo tempo: cartas de antigas colegas de escola, cartas de tia Vere, escritas na época em que Eline estava no internato. As primeiras, ela as rasgaria, pois já não sentia apego pelas efusões sentimentais de moças que nunca via, e que esquecera como elas a haviam esquecido. Encontrou também uma ou duas cartas do pai — seu pai, que lhe fora tão querido — e beijou o papel com veneração, como se fosse sagrado. Mas de repente, enquanto arrumava os papéis, caiu daquelas páginas descoloridas um pequeno pedaço de cartão. Ela se inclinou, apanhou-o do chão — e ficou branca como um lençol, enquanto os olhos fitavam selvagemente à frente.
— Oh! — gemeu, como se uma velha ferida tivesse sido subitamente aberta. — Oh, oh, céus!
Era um pequeno retrato de Otto. Como fora parar ali, entre todas aquelas cartas antigas? Ah, sim, ela se lembrava: era a prova de uma fotografia que ele mandara tirar para ela certa vez. O retrato propriamente dito, que durante o noivado ela levara sempre consigo, ela lhe devolvera, junto com os outros presentes, com o leque de Bucchi. Aquela pequena prova se perdera entre suas cartas, e ela nunca mais pensara nela.
— Oh! — gemeu de novo. — Oh!
Chorou, soluçou, apertou o retrato contra os lábios. Aquela pequena prova era agora seu maior tesouro, e para sempre — sim, para sempre — ela a levaria consigo; era a única coisa que lhe restava de sua grande felicidade, aquela felicidade que lhe escapara por entre os dedos como um pássaro precioso. E aquela era a única peninha que ele deixara para trás.
— Otto... Otto — murmurou. E suas lágrimas e seus beijos cobriram o pequeno pedaço de cartão.
Em seu próprio quarto, Madame van Raat ainda estava sentada, meditando. Tristemente, os olhos cheios de lágrimas, sacudia a cabeça. Como era possível que, enquanto ela fora por tanto tempo feliz com o marido, sua querida pequena Elly tivesse conhecido tão pouco a verdadeira alegria? E, em sua piedade — a piedade e a fé infantil de um coração simples, coração cheio de gratidão por aquilo que um dia lhe fora concedido —, juntou as mãos enrugadas e rezou, rezou por sua querida pequena Elly, rezou para que ela pudesse ser feliz.
Na manhã seguinte, à mesa do desjejum, um súbito impulso moveu Eline.
— Senhorinha — começou em tons suaves e trêmulos, pousando as mãos sobre a mão da velha senhora. — Senhorinha, eu queria lhe perguntar uma coisa. A senhora vê Erlevoort às vezes?
A velha senhora olhou-a como se quisesse adivinhar seus pensamentos, mas nada conseguiu recolher daqueles olhos febris, daqueles dedos que se moviam nervosamente.
— O que a faz perguntar isso, Elly?
Era a primeira vez que falava a Eline sobre Otto desde o rompimento do noivado.
— Oh, eu gostaria tanto de saber se ele sofreu muito, e se está feliz agora. A senhora nunca o encontra?
— Encontrei-o uma ou duas vezes na casa de meu cunhado, na Princessegracht.
— Como ele está?
— Não mudou muito; talvez tenha envelhecido um pouco, mas não é muito perceptível. Está certamente um pouco quieto e bastante sombrio, mas nunca foi muito expansivo, não é?
— Não — murmurou Eline, transbordando de recordações passadas.
— Ele não está em Haia agora; creio que está no Horze.
“Será que fui eu que o afastei?”, pensou Eline; e, num esforço para parecer que o interesse que tinha por ele era por causa dele, não por causa dela, disse suavemente:
— Então suponho que tenha superado; não há nada que eu desejasse mais do que saber que ele é feliz, ele merece. É um homem muito bom.
A velha senhora nada disse, e Eline mal conseguiu impedir-se de chorar. Oh, não era terrível que, até diante de sua querida velhinha, fosse obrigada a violentar-se e a ser hipócrita? Oh, que simulacro oco era tudo aquilo! Ela, ela sempre fingira, para si mesma e para os outros, e ainda fingia agora. Tão habituada se tornara à simulação e à hipocrisia que agora já não conseguia agir de outra forma.
— E agora há uma coisa que quero lhe mostrar, que espero que lhe agrade — disse a velha senhora, que adivinhava algo da tristeza de Eline. — Venha comigo.
Conduziu-a escada abaixo e abriu a porta da sala de visitas.
— Você sabe que eu costumava ter um piano velho, aleijado, porque, veja, era só para Paul, que dedilhava um pouco nele para estudar canto; mas agora olhe aqui.
Entraram, e no lugar do velho aleijado encontraram um Bechstein novíssimo; seus livros de música, em encadernações vermelhas e douradas, repousavam em cima.
— Combinará esplendidamente com sua voz; o timbre é tão claro.
Os lábios de Eline tremeram e repuxaram nervosamente.
— Mas, senhora — balbuciou —, por que fez isso? Oh, por quê, por que fez isso? Eu... eu não canto mais.
— Ora, por que não? — perguntou a velha senhora, muito alarmada.
Eline, com um suspiro, deixou-se cair numa cadeira.
— Não posso mais cantar — exclamou quase amargamente, pois o piano novo despertava de modo cruel a lembrança de sua esplêndida voz de outros tempos. — Os médicos que consultei em Paris me proibiram; veja, tenho tossido durante todo o inverno, e só recentemente a tosse diminuiu. Durante os dois últimos invernos, tossi continuamente e tive uma dor tão forte aqui no peito. No verão fico muito bem.
— Mas, minha filha — disse a velha senhora, ansiosa —, você não cuidou bem de si, então, enquanto estava fora?
— Oh, sim; os Des Luynes me recomendaram alguns especialistas em Paris, e eles me auscultaram, percutiram e bateram em mim até que me cansei; além disso, estive constantemente sob tratamento de dois médicos regulares, mas no fim tive o bastante disso. Não me curaram, e ainda me disseram que eu teria sempre de residir em clima quente. Mas eu não podia ficar vegetando sozinha em Argel, ou Deus sabe onde, e tio Daniel precisava voltar a Bruxelas; portanto, veja — concluiu com uma pequena risada nervosa —, sou uma ruína sem esperança em todos os sentidos.
A velha senhora apertou a cabeça de Eline contra o peito, com lágrimas brilhando nos olhos.
— É uma pena, por causa do piano bonito — disse Eline, soltando-se do abraço da velha senhora e sentando-se nervosamente ao piano. — Que som cheio e claro, que riqueza, que beleza!
Seus dedos deslizaram rapidamente pelas teclas; os sons pareciam soluçar de dor por aquela voz perdida. A velha senhora observava com tristeza; acalentara a crença e a esperança de que Eline cantaria com Paul; que Paul, atraído e encantado pela música, ficaria muito em casa à noite; que uma doce sociabilidade melodiosa tornaria a encher suas salas solitárias e silenciosas. Mas tudo o que ouvia eram as notas altas, semelhantes a soluços, saindo de sob os dedos de Eline, o orvalho choroso de uma bravura cromática, e as grandes lágrimas corridas de staccatos dolorosos.
— Sim, praticarei piano. Nunca fui grande pianista, mas farei o que puder; a senhora ouvirá alguma música, querida. Que timbre, que belo timbre claro!
E as notas claras, líquidas, seguiram-se umas às outras como numa torrente fluida de tristeza.
Em homenagem a Eline, Paul tratou de estar em casa para o café. À tarde, Madame Verstraeten veio com Marie, e foram seguidas por Emilie de Woude. Eline as recebeu cordialmente e mostrou-se satisfeita em vê-las. Uma sensação estranha tomou Marie agora que ouvia e via Eline outra vez; era algo como medo, uma apreensão, se Eline também descobriria alguma mudança nela; mas Eline não pareceu notar nada e continuou falando; falou de suas viagens, das cidades que visitara, das pessoas que vira; falou continuamente, com rapidez nervosa, os pensamentos correndo colados uns aos outros. Não podia evitar; era o estado nervoso em que agora existia, uma nervosidade que a dominava onde quer que estivesse e mantinha sempre seus dedos em movimento, ora amarrotando o lenço, ora puxando a franja da toalha da mesa, ora balançando para a frente e para trás as borlas da poltrona. Sua languidez elegante, sua calma graciosa de outros tempos, desaparecera por completo.
Por volta das quatro horas, a porta da sala de visitas se abriu, e Betsy entrou, conduzindo Ben pela mão. Eline levantou-se e apressou-se em direção a ela, para esconder a confusão sob uma aparência de cordialidade. Abraçou a irmã impetuosamente, e felizmente Betsy encontrou algumas palavras apropriadas para dizer. Então Eline cobriu Ben de beijos. Era um menino grande para seus cinco anos, mas havia em seus olhos aquela expressão indefinível e sonolenta comum a uma criança atrasada. Ainda assim, uma lembrança feliz pareceu insinuar-se nele, pois seus labiozinhos se abriram num sorriso alegre, e em torno do pescoço de Eline ele lançou os bracinhos rechonchudos e a beijou. Depois disso, nenhuma das irmãs pareceu desejar uma conversa muito confidencial, e Betsy partiu, junto com os Verstraeten e Emilie, e Eline não insistiu para que ficasse. Ambas sentiam que nenhum laço mais estreito que o da mera convenção as unia. Durante os últimos dezoito meses, não se haviam visto, e agora que se encontravam, parecia-lhes que eram estranhas, que faziam uma demonstração de polidez e cordialidade, dizendo toda espécie de coisas agradáveis, enquanto uma indiferença fria lhes enchia os corações.
Romance de Louis Couperus, marco da literatura holandesa fin-de-siècle, em tradução brasileira Literunico preparada a partir da tradução inglesa de J. T. Grein, em domínio público. A edição acompanha o percurso íntimo de Eline entre salões, afetos, hesitações e a corrosão silenciosa de uma sensibilidade excessiva.
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