Universo da obra
Universo da obra
— Eline, Eline! — gritaram do jardim. Eline saltou da cama, assustada, ao perceber que eram sete e meia. No Horze, a hora do café da manhã era às oito; por isso apressou-se com a toilette. Meio vestida, caminhou até a janela aberta e olhou para fora. Ali estavam as duas filhas mais velhas de Théodore, Marianne e Henriette, de dezesseis e catorze anos.
— Bom dia! — disse Eline, alegremente.
— Como, já está de pé? Ora, que rapidez, sem dúvida! Vai descer logo?
— Sim; estarei pronta num instante.
— Bom dia, Eline! — ouviu uma nova voz gritar. Eline olhou para fora e avistou Gustave, um rapazinho bonito de dez anos, com um par de atrevidos olhos azuis, um verdadeiro moleque de rua, sempre de mãos sujas, e cômico como um pequeno palhaço.
— Bom dia, Gus — gritou ela.
— Escute, Eline, sabe o que me prometeu?
— Não.
— Que vai se casar comigo, e não com o tio Otto, hein? Você me prometeu, sabe.
— Sim; está bem, Gus. Mas preciso me apressar e me vestir, ou nunca ficarei pronta! — gritou Eline, novamente ocupada com os cabelos diante do espelho.
Podia ouvir o movimento no jardim aumentar a cada instante, e isso a deixava nervosa. Seus belos olhos ainda estavam um pouco pequenos, os cachos frisados não caíam como ela queria. De novo, do jardim cheio de sol e sombra, subiu um alegre murmúrio de vozes, entre as quais distinguia a voz forte de Théodore, assim como os gritos vigorosos dos pequenos van Ryssel.
— Eline, Eline! — veio novamente de muitas, muitas vozes.
— Sim, sim; estou indo! — respondeu Eline quase impaciente, e afivelou o cinto, saiu correndo do quarto, atravessou o longo corredor sombrio com seus lambris de carvalho castanho, desceu a larga escadaria e passou pelo vestíbulo.
No jardim, Cathérine Howard caminhava com Otto, seu irmão. Não era bonita, mas tinha um rosto agradável e alegre, e era quase tão viva em seus movimentos quanto Etienne.
— Oh, Otto, compreendo perfeitamente — disse afetuosamente, pendurada em seu braço. — Acho-a um pontinho de menina. Pelas cartas de Freddie e de Mathilde, eu esperava ver uma espécie de coquete, porque na verdade não me lembrava muito dela, faz tanto tempo que a vi, e mesmo então era só por um momento ou dois de cada vez, quando ela morava com aquela velha tia... uma viúva, uma Madame Vere, creio, não era?
— Sim — disse Otto.
— Mas agora, conhecendo-a melhor, acho-a uma querida. Há algo tão cativante e franco em seu modo de falar, algo muito simples e natural, e ainda assim distingué. E ela é uma bonequinha, realmente muito bonita.
— Acha mesmo? — disse Otto.
— Claro que acho. Você pode muito bem se orgulhar dela; não é qualquer um que consegue uma mulherzinha dessas. Ah, lá vai a campainha! Aqui todos são madrugadores.
Caminharam até a sala aberta que dava para o jardim e entraram. A velha Madame van Erlevoort já estava sentada à longa mesa do café e fez um aceno sorridente ao filho e à filha. Eline estava conversando com Théodore, que, ali diante dela, robusto e largo de ombros, com a estrutura poderosa e bem plantada e a barba curta e cheia, não lhe lembrava nem Otto nem Etienne; mas em sua voz alta, alegre e pesada soava a bondade natural, sadia, dos Erlevoort.
Sua esposa, a jovem Madame van Erlevoort, ou Truus, como ele a chamava, ainda se ocupava, com a ajuda de Mathilde e Frédérique, de fazer alguns preparativos a mais para a refeição. Miss Frantzen instalava os pequenos van Ryssel em suas cadeiras e prendia-lhes os guardanapos ao pescoço. Etienne entrou do jardim com Cor, o filho de dezoito anos de Théodore, que era guarda-marinha e agora passava uma licença no Horze. Foram seguidos pelas meninas e pelos meninos, Willy e Gustave, cheios de gracejos e brincadeiras às custas do tio inglês Howard, a quem não entendiam e a quem deviam ensinar holandês.
— Bom dia, Nily! — disse Otto, aproximando-se de Eline.
— Bom dia, Otto! — respondeu Eline, oferecendo-lhe a mão, e sussurraram algo entre si. Ela se sentia muito feliz no novo encanto que uma vida familiar movimentada lhe abrira. Para ela, que em criança não tivera ninguém além da irmã como companheira de brincadeiras, e cuja primeira mocidade fora meio sonhada no ambiente deprimente da casa da tia idosa, era uma felicidade recém-revelada estar no meio de tamanho alvoroço alegre; e começava a ver a vida de outro ponto de vista, diferente daquele de quando ainda estava sob o fascínio das soirées e dos bailes da Haia. Todos eram alegres e agradáveis, até Frédérique; permitia que as crianças subissem em seu ombro à vontade, deixando-as acariciá-la e mimá-la com seus dedinhos engordurados, sem o menor receio pelo vestido ou pelo penteado. Estava apaixonada por Tina, a pequena senhorita graciosa, que o encanto dos modos de Eline atraía irresistivelmente, como antes atraíra Cateau van der Stoor; e, à mesa, o lugar de Eline ficava sempre entre Otto e Tina. A velha Madame van Erlevoort sentava-se entre suas duas netas mais novas, Edmée e Kitty Howard, a única filha de seu genro inglês, e quando lançava o olhar ao longo da mesa, radiante de alegria juvenil, parecia-lhe que não poderia haver no vasto mundo alguém mais feliz que ela, com seus cabelos grisalhos e seu coração jovem.
Depois do café, Théodore propôs uma visita à chamada "grande árvore", pois declarava que, entre as muitas árvores grandes de Gelderland, a do Horze era a maior. Howard, Etienne e Cor deviam acompanhá-lo; Eline e Otto, com as crianças, juntaram-se a eles; até Edmée e Kitty, sob os cuidados das três meninas, tomaram de assalto a carroça coberta que estava pronta para transportá-las.
Na sala do café, parecia ter passado um vendaval atlântico. A mesa era um caos de pratos e copos; o chão estava juncado de guardanapos, no meio dos quais jaziam o chapéu de Tina, uma pá de Nico e uma bola de Edmée.
— Não é barulho demais para a senhora, mamãe? — perguntou Truus, tomando entre as suas a mão de Madame van Erlevoort, que ainda estava sentada à mesa desordenada do café. — De fato, as crianças fazem uma algazarra tão terrível que parece um alívio quando vão embora.
— Ora — disse a velha senhora —, você devia se envergonhar de falar assim.
— Meus quatro pequenos também quase me levam ao desespero muitas vezes — observou Mathilde. — Mas, com exceção de Cor, que aos poucos vai ficando um pouco mais ajuizado, os seus parecem levar a palma entre os jovens endiabrados e barulhentos.
— Não se preocupe comigo, Truus — disse a velha senhora. — Durante todo o inverno anseio pela chegada do verão, quando posso vir ao Horze, e me faz bem estar com todos vocês. E acho muito gentil de sua parte ter convidado Eline.
— No ano que vem, quando estiverem casados, já os convidei para irem a Londres durante a temporada — observou Cathérine. — Gosto muito dela.
A jovem Madame van Erlevoort pareceu um pouco pensativa enquanto dobrava um guardanapo.
— E você, Truus — perguntou a sogra, que o notara —, também gosta dela, não?
— Que posso dizer, mamãe? Conheço-a tão pouco. Acho muito simpático da parte dela adaptar-se tão inteiramente aos nossos modos e hábitos, de maneira que não tenho motivo para fazer cerimônia, como com uma estranha; não tenho tempo para isso. Então, sim, acho isso simpático. Mas a senhora sabe que não entro imediatamente em êxtase por causa das pessoas.
— Isso soa diplomático demais para me agradar, minha filha. Quanto a mim, ou gosto de uma pessoa ou não gosto.
— Oh, não pense que quero dizer mais do que digo. Conheço Eline há apenas uma semana; ela me causou uma impressão favorável, acho-a muito encantadora, mas ainda não sei bem se realmente sinto afeição por ela ou não.
Mathilde esteve a ponto de dizer que ela, que conhecia Eline havia anos, também não tinha plena certeza disso, mas nada disse.
— E depois, além disso... mas a senhora não deve se aborrecer, mamãe, agora que estamos no assunto, não é?
— Não, não, minha filha.
— Veja, não consigo deixar de pensar que há algo em Eline como se ela nunca fosse se sentir em casa entre nossa família. Ela se adapta a nós, como eu disse, mas não tenho tanta certeza de que isso venha inteiramente do coração. Não a magoo com o que digo, magoo? Não haveria nada que eu desejasse mais do que descobrir que me enganei a respeito de Eline, e quando a conhecer um pouco melhor... não é, mamãe?
Hesitava em dizê-lo abertamente: não gostava de Eline. Era uma mulher sensata e sólida, boa mãe, governando seu pequeno reino com cuidado amoroso e prudência, que, embora sempre cordial e alegre, era também determinada e firme, e fazia sua vontade passar por lei. Na firmeza de seu caráter, em geral dizia diretamente o que queria dizer; mas desta vez sabia que, como futura esposa de Otto, mamãe já via Eline como parte da família. Percebera que Eline podia, com uma única palavra carinhosa ou uma única carícia, tocar a velha senhora, e não queria ferir mamãe na pessoa da noiva do filho. Mas, em sua atmosfera rural — isso não podia negar — Eline introduzia uma dissonância, como algo artificial, algo irreal, e isso irritava Truus. Ela não podia saber que Eline talvez fosse mais ela mesma no Horze do que jamais fora em qualquer outro lugar, que de fato se sentia feliz ali naquela vida familiar simples, que se sentia como se uma vida nova, mais pura e mais fresca, lhe houvesse cabido em sorte; não podia penetrar nos pensamentos interiores de Eline, podia apenas ver a superfície; não via a doce calma daqueles nervos, por tanto tempo distendidos numa vida de cultura excessiva e luxo; via apenas a mundanidade nativa cintilar através de um véu de simplicidade afetada, e isso a irritava, como a irritava a grande faixa de seda azul no vestido estampado de Eline.
Cathérine Howard ficou inteiramente indignada. Como era possível que Truus dissesse uma coisa dessas? Certamente não era muito bonito da parte de uma futura cunhada. E disparou sobre Eline com êxtase quase infantil, em palavras tão afetuosas, que a velha senhora, desconcertada com as ideias da nora, logo voltou a irradiar prazer.
— Não; realmente, Truus, não consigo entendê-la. Eu, pelo contrário, admiro Eline, porque, embora seja uma estranha em nossa família, ela se ambientou tão depressa. Posso lhe garantir que, quando fui para Londres com Howard — eu não conhecia a família dele, é verdade —, devo dizer que me senti um pouquinho como peixe fora d'água entre eles, por mais cordiais que todos fossem. Mas Eline... Santo Deus! É como se eu sempre a tivesse conhecido; ela é tão fácil, tão adaptável, não dá trabalho algum. Não; realmente não consigo compreender que você sequer imagine que ela não se sentirá em casa entre nós; não posso dizer que isso seja muito gentil da sua parte, com certeza.
Truus riu da indignação de Cathérine e se desculpou da melhor maneira que pôde; e, como a criada entrava para retirar a mesa, a velha senhora, com Mathilde e Cathérine, subiu e sentou-se na varanda espaçosa e bem sombreada, enquanto Truus permaneceu invisível pelo resto da manhã, absorvida em suas tarefas domésticas.
A carroça já estava havia muito fora de vista. Théodore, Howard, Etienne e Cor caminhavam à frente, e Otto e Eline os seguiam, sob a sombra de sua grande sombrinha de renda.
A conversa dos quatro homens era uma mistura de inglês e holandês; Howard declarava que podia entender este último, e era até capaz de falar uma palavra ou duas, enquanto Théodore se atrapalhava continuamente com seu inglês nas explicações sobre arrendatários e terras. Alguns trabalhadores em suas roupas de domingo passaram com uma saudação respeitosa.
A estrada jazia banhada de sol entre o ouro ardente do centeio e da aveia, e nem um sopro de vento movia as hastes. Mais adiante, branco e vermelho, resplandecia o trigo-sarraceno em flor. Ao longe, uma fazenda se erguia entre um grupo de árvores, com uma linha de fumaça subindo como uma tênue pluma cinzenta contra o azul do céu.
— Suponho que aqui você se sinta como um rei em seu próprio país? — disse Howard.
— Oh, não! — respondeu Théodore. — Sinto-me mais camponês que rei. Mas olhe ao redor por um momento; ali, bem além do jardim, está nosso palácio.
Viraram-se e ficaram parados, de modo que Otto e Eline logo os alcançaram. Por uma abertura na folhagem densa, via-se o Horze ao longe, branco como leite, com suas pequenas venezianas e esbeltas torrezinhas brancas, os grandes balcões cobertos de videiras quebrando a monotonia branca com intervalos de folhagem. O lago jazia como um espelho redondo no meio do gramado fresco, salpicado por um voo branco e trêmulo de pombos.
— Que vista bonita! — disse Eline, arrebatada. — Mas vejam, quem é que está acenando para nós?
— Oh, suponho que sejam vovó e as tias — gritou Cor.
Perceberam, na sombra de uma varanda, várias figuras de contornos escuros que pareciam acenar lenços, e todos retribuíram o sinal, enquanto Etienne gritava "Hurra!".
— Vamos, precisamos nos apressar agora — disse Théodore —, ou nunca chegaremos à grande árvore.
Eline falava inglês razoavelmente bem, e com ela Howard se entendia melhor. Ele a envolveu numa conversa animada, enquanto Eline, no braço de Otto, sob a sombra da sombrinha que ele segurava, respondia-lhe rindo. E a própria Eline se perguntava como era que, sem o menor esforço, causava impressão agradável em todo homem com quem entrava em contato, ao passo que só conseguia conquistar a simpatia das mulheres à força de exercer todas as artes de sua afeição amorosa.
Por entre a conversa, cheia de brincadeiras alegres, passou-lhe como um relâmpago o pensamento de que Madame van Erlevoort gostava dela apenas por causa de Otto; Cathérine gostava dela por leviandade bem-humorada, mas a simpatia de ambas não estava firmemente enraizada em afeição; com a velha Madame van Raat, com a pequena Cateau, com Tina, era diferente. E, com um sorriso, apoiou-se mais pesadamente em Otto; que lhe importavam todos eles? O amor dele a compensava bem pelo que lhe faltava nos outros; o amor dele era sua riqueza, e da simpatia dos demais ela nada queria saber.
Até a grande árvore havia uma boa meia hora de caminhada. A estrada dobrava por campos dourados de cereais, ao longo de sebes rosadas de flores, junto de bosques de pinheiros em pequenas elevações, perfumados de aromas penetrantes, cuja folhagem escura e sombria oferecia uma sombra agradável contra os raios brilhantes do sol.
De repente, numa curva da estrada, a pequena aldeia de Horze revelou-se como uma surpresa aos olhos do grupo: algumas casas, uma padaria, a casa do pastor, uma estalagem, alguns estábulos, tudo espalhado em torno de uma igrejinha; e Eline olhou ao redor, admirada. Não via a aldeia, disse.
— Mas aqui está... ali... aquela é a aldeia — disse Otto.
— Como! Aquela casa e meia? — perguntou Eline, os olhos grandes de surpresa.
Todos riram, e Etienne lhe perguntou se esperava encontrar uma espécie de Nice ou Biarritz.
— Ao menos algo como Scheveningen, com um Kurhaus, não é, Elly? Escute, Elly, já sabe a diferença entre centeio e aveia?
— Não exatamente. O trigo-sarraceno eu reconheço quando vejo; o linho eu reconheço, muito amarelo-claro; e campos de batatas eu reconheço. Mas centeio, aveia e cevada, não; deles não sei absolutamente nada. Não me importune com isso, Etienne! Mas, Théodore, isto é mesmo Horze? O senhor é realmente senhor e mestre destes... um, dois, três, quatro celeiros?
E desatou a rir sob a larga aba do grande chapéu de palha; todos riram da surpresa inocente de Eline, embora Théodore se sentisse um pouco ferido.
Eline, porém, logo se arrependeu da brincadeira, que sentiu não estar inteiramente em harmonia, e declarou que o lugar era cheio de recantos pitorescos: uma casinha como aquela, com um grupo de árvores, muito bonito, realmente.
— E a grande árvore, onde está a grande árvore? — perguntou Eline.
Passaram pela aldeia, entre as galinhas que bicavam o chão e fugiam assustadas, enquanto o ferreiro e dois lavradores, a cada um dos quais Théodore dirigiu algumas palavras, saudavam cordialmente seu senhorio e ficavam por algum tempo olhando seus convidados se afastarem. Atravessaram um prado, e Théodore gritou a um menino que segurasse uma vaca perto deles, pois Eline tinha medo da enorme criatura gorda, com seus grandes olhos fixos e a boca mastigando.
— Etienne, Cor... parem com isso, Cor! — gritou ela, no braço de Otto, para Etienne e Cor, que, para assustar a vaca, soltavam um melancólico mu! mu!
— Está vendo, Eline, isso é porque você riu de Horze — gritou Théodore, em seu grande baixo; mas ela o olhou rindo, tão suavemente entre os cílios semicerrados, que ele ficou completamente desarmado e pediu a Etienne e Cor que parassem com aquele barulho tolo. No fim do prado erguia-se a grande árvore, um carvalho de tronco colossal, alto e poderoso como um gigante. Frédérique, Marianne, Henriette e as crianças já tinham se instalado entre suas raízes espalhadas. Howard e Eline foram instados por todos os lados a manifestar sua admiração pela árvore. Eline reuniu algumas palavras, como colossal, imensa; mas Théodore notou, pelo sorrisinho zombeteiro que brincava em suas feições, que o carvalho não lhe causara impressão alguma, e ergueu o dedo para ela, ameaçador, até que ela desatasse numa gargalhada, renovada quando Howard, em tom muito sério, declarou:
— Uma árvore grande, de fato! Nunca vi uma tão grande! Muito interessante!
— Espere, eu lhe mostro! — gritou Théodore, e correu atrás de Eline, que fugiu soltando gritos de riso até cair no gramado, arfante, e, estendendo as mãos, gritou:
— Théodore, pare, está ouvindo? Vou chamar Otto!
— Vou lhe mostrar! Menina levada! Chame Otto se quiser. Vou lhe mostrar! — e agarrou-lhe os pulsos e a sacudiu de brincadeira, enquanto ela fingia que ele a machucava terrivelmente. Depois ajudou-a a levantar-se, e ela prometeu, ainda rindo, não demonstrar outra vez tão pouca apreciação pelas belezas da natureza.
As crianças, com o tio inglês, estavam de mãos dadas tentando medir a árvore.
— Absurdo Théodore correr atrás de Eline daquele jeito — resmungou Frédérique, e Etienne a ouviu.
— Escute, você está ficando cansativa — gritou ele. — Ora, já não suporta uma brincadeira.
Ao lado da igrejinha havia um bosque de pinheiros em terreno ondulado. Ali Eline sentou-se no musgo e apoiou a cabeça na mão. Otto sentou-se ao lado dela. Podiam ouvir apenas o tilintar fraco de um sino distante. Era hora de igreja. Alguns camponeses, em casimira lustrosa e aventais de seda brilhante, caminhavam pela estrada com o livro de orações na mão, e Eline os seguia com os olhos, quase invisíveis por trás dos troncos cerrados. Os fiéis dispersos eram poucos; alguns retardatários os seguiram às pressas, e tudo ficou quieto sob a influência pacífica de um repouso dominical rústico. Ao longe, ouvia-se o balido de uma cabra.
É verdade que Eline imaginara o Horze mais grandioso e luxuoso, e a vida tão simples que se levava na casa de campo às vezes a fazia sorrir quando se lembrava dos castelos ingleses de Ouida, cheios de duques e príncipes, tais como aqueles em que habitava durante sua vigília junto ao leito de tia Vere. Era certamente muito diferente aquele esplendor de uma aristocracia ideal e esta simplicidade de uma aristocracia abastada, mas necessariamente econômica; e, no entanto, ela não teria trocado sua situação presente por coisa alguma, e falou sorrindo a Otto sobre Ouida e os castelos ingleses, declarando preferir o Horze, assim como preferia a ele, seu pobre fidalgo rural, ao rico duque escocês, do tipo de um Erceldoune ou de um Strathmore, como aqueles com que sonhava outrora.
Sim; Eline sentia sua felicidade crescer cada vez mais naquela solidão pacífica sob as folhas escuras dos pinheiros, enquanto a voz de Otto, profunda e cheia, lhe soava aos ouvidos. Ele lhe dizia que ainda não conseguia compreender que ela fosse sua para sempre, e que em pouco tempo seriam como um só; e dizia que ela tinha apenas um defeito: julgava mal a si mesma. Ele, sim, ele a conhecia como ela realmente era; dizia-lhe que havia tesouros latentes escondidos nela, e que seria seu privilégio tentar trazê-los à luz. Na plenitude de sua felicidade, ela se tornou franca e aberta, até consigo mesma, como nunca fora; olhou-o quase com pena e respondeu que ele ainda descobriria nela muito de ruim, quando a conhecesse melhor. Não, de fato, ele não a conhecia inteiramente, embora pensasse que sim. Havia tanta coisa acontecendo no coração de uma pessoa que nem sempre se podia revelar; ao menos era assim com ela, e precisava confessar que seus pensamentos nem sempre eram os melhores, nem ela era sempre tão equilibrada quanto parecia quando ele a via. Podia ser irritadiça, nervosa e melancólica sem causa real; mas certamente, por ele, se esforçaria para transformar-se em algo parecido com a imagem que ele formara dela para si; mas que idealista ele era! Sentia-se pura e boa naquela confissão; agora sabia que podia revelar-lhe livremente pensamentos que nem sempre teria confessado a si mesma; e já não temia perdê-lo por alguma palavra descuidada; via como ele a amava, e como devia ser mais querida para ele nos momentos em que lhe falava de si mesma daquela maneira simples, e muitas vezes lhe parecia que ele era sua consciência, à qual podia dizer tudo o que uma moça poderia dizer. E quanto mais ela se depreciava nesses momentos de sinceridade, mais ele a adorava, mais julgava poder ler-lhe a própria alma sob aquele encanto de beleza e graça.
Ouviram os hinos dos camponeses vindos da igreja, como um rio profundo e largo de piedade simples, e, no estado de espírito em que se encontravam, aquela torrente inábil de canto parecia cheia de uma poesia que se misturava à poesia dos tons escuros da folhagem, ao perfume do pinhal, ao amor que havia em seus corações. E Eline sentiu o coração dilatar-se; ergueu-se um pouco e, repousando a cabecinha encaracolada no peito dele, não pôde impedir-se de entrelaçar os braços em torno de seu pescoço; e, ao sentir-se assim apoiada nele, com o seio sobre o coração dele, um súbito soluço a sacudiu.
— Eline, querida, o que... o que foi? — perguntou ele suavemente.
— Nada — respondeu ela, quase morrendo no êxtase delicado de seu amor e de sua grande felicidade. — Nada; deixe-me... estou tão... tão feliz!
E ficou chorando em seus braços.
No Horze, as horas de levantar e deitar eram cedo, e os dias fugiam. A vida ali, com exceção de alguns dias chuvosos, era quase exclusivamente uma vida ao ar livre. As faces e as mãozinhas ficavam queimadas de sol, e começavam a parecer pequenos negros os jovens van Ryssel, os dois meninos, Willy e Gustave, e Edmée e Kitty Howard. Entre os pombos que esvoaçavam de sua casa sobre o lago, eles também esvoaçavam ao redor, às vezes seguidos ansiosamente por Miss Frantzen, a governanta de Truus, e pela ama inglesa de Cathérine; especialmente por Miss Frantzen, que vivia em constante medo ao pensar em Nico e na água. Inspecionavam o viveiro de pássaros e os estábulos, e mantinham as melhores relações com o jardineiro e seus ajudantes, com o cocheiro e o moço da estrebaria. Alimentavam os pássaros, as galinhas e os patos, e passeavam, firmemente segurados pelo estábulo bondoso, no cavalo de montaria sem sela de Théodore, ou iam nadar, ou visitavam o ginásio, onde observavam as façanhas de Théodore, de constituição muito poderosa, e de Howard, mais ágil e flexível, enquanto Otto declarava ter perdido a arte, e Etienne balançava loucamente de argola em argola e saltava sobre o cavalo. Mas era para Cor que os pequenos van Ryssel olhavam de boca aberta, admirados, ao vê-lo, com expressão um tanto convencida, executar com muita calma e deliberação os exercícios mais difíceis, em toda a força juvenil de seus longos membros esguios. Depois do café, os rapazes jogavam críquete com Howard, ou, à sombra das árvores altas do parque, jogavam lawn-tennis com as meninas, ou se deitavam preguiçosamente debaixo de uma árvore com um livro, sem fazer nada, as mãos cruzadas atrás da cabeça. Depois do jantar, passeavam ou flutuavam um pouco no pequeno barco sobre o lago, e a noite chegava, e eram dez horas antes que percebessem.
E sua felicidade, e o luxo daquela vida campestre ensolarada, faziam Eline sentir-se tão inteiramente ela mesma que se perguntava se era realmente a mesma moça de alguns meses antes. Sentia-se um ser inteiramente outro; parecia-lhe que sua alma escapara de suas roupagens lustrosas e agora estava diante dela em toda a sua simplicidade, na brancura nua de uma estátua. Já não se velava em sua afetação, já não representava um papel; era seu próprio eu, a querida de Otto, e essa sinceridade emprestava um encanto tão novo a seus movimentos, à menor palavra que pronunciava, que Truus, para triunfo de Cathérine, admitiu ter se enganado a respeito dela; que Frédérique às vezes se sentava a conversar com ela por horas, com franqueza de irmã; que Madame van Erlevoort a chamava de anjo. Quando estava sozinha e por algum tempo se deleitava em seu novo curso de pensamentos e emoções, as lágrimas lhe vinham aos olhos, em gratidão por todo o bem que lhe fora concedido, e desejava apenas que o tempo não voasse, que o momento presente permanecesse para sempre. Além disso, nada desejava, e em torno dela pairava um repouso infinito, uma calma etérea, um êxtase de bem-aventurança.
No Horze, recolhiam-se cedo; às dez e meia todos estavam em repouso. Eline conversara durante uma hora no quarto de Frédérique, e sentia-se feliz com a simpatia cada vez maior de Frédérique. Estivera sentada à beira da cama, enquanto Freddie já estava deitada, e tinham conversado sobre todo tipo de assunto. Às vezes riam muito, mas abafavam o riso, pois a casa estava muito silenciosa. Por fim, Eline saiu suavemente, na ponta dos pés, e encontrou-se de novo sozinha em seu quartinho. Acendeu a vela e começou lentamente a se despir, com um sorriso inconsciente e feliz em torno dos lábios. Por um momento permaneceu sentada, pensativa, com os cabelos espessos caídos, os braços e a garganta nus, e o mesmo sorriso ainda nos lábios. Nada desejava, nada mais; tinha tudo o que seu coração desejava.
Então abriu a janela e olhou para fora. A chuva cessara, e um odor de folhagem úmida vinha até ela. O céu estava claro, salvo por algumas nuvenzinhas diáfanas, e o crescente brilhante da lua parecia colocado em relevo contra o azul profundo dos céus; os campos estendiam-se silenciosos diante dela; um único pequeno moinho erguia suas asas negras, imóveis, no pálido luar; os fossos brilhavam como riscas de prata, e uma frescura perfumada subia da paisagem adormecida como um leve e suave suspiro. Eline encostou-se à janela e cruzou os braços sobre a garganta nua. Parecia-lhe que aquela frescura perfumada, aquele leve suspiro, refrescava e adoçava todos os seus pensamentos como um odor de flores do campo, que afastava o miasma malsão e enervante de suas antigas emoções, como um perfume opressivo de almíscar e opoponax. Sentia-se tão jovem como nunca se sentira antes, e, oh! disso tinha certeza: nunca amara como amava agora, nunca, nunca! Seu Otto! Quando pensava nele, não sentia necessidade de evocar alguma imagem idealizada; pensava nele como era de fato, tão viril e franco em sua simplicidade genial, e com um único pensamento que governava todo o seu ser: o pensamento nela. O amor dele era tão rico, tão pleno, o amor dele o preenchia completamente. E o dela crescia a cada dia, pensava... não, já não podia crescer mais! Nenhum desejo ulterior era seu, nenhum devaneio a mais sobre o futuro. A seu tempo, ele se desdobraria diante dela, uma perspectiva resplandecente de luz e ouro! Nada mais restava senão a quietude daquele lago em que sua alma deslizara, nada além do repouso e do amor daquele êxtase azul, cheio de bem-aventurança! Apenas isso, nada mais, nada além! Que poderia ainda desejar uma alma humana?
Apenas uma pequena faixa escura em meio a todo aquele azul. Apenas o medo, o medo de que algum dia fosse diferente. Fazia tanto tempo que não rezava, nem sabia mais como rezar; mas agora, agora teria gostado de fazê-lo, de rezar para que fosse sempre assim, para que nunca mudasse, sempre aquela felicidade suave, sempre aquele repouso e aquela paz, aquele éter azul.
— Nunca, nunca mais como antes! Deus... sempre assim, sempre como agora! Se mudasse, eu morreria — sussurrou inaudivelmente, e, ao cruzar as mãos, uma lágrima tremeu em seus cílios. Mas era uma lágrima de alegria, pois em sua felicidade aquele medo vago se dissolvia como uma gota no oceano.
Romance de Louis Couperus, marco da literatura holandesa fin-de-siècle, em tradução brasileira Literunico preparada a partir da tradução inglesa de J. T. Grein, em domínio público. A edição acompanha o percurso íntimo de Eline entre salões, afetos, hesitações e a corrosão silenciosa de uma sensibilidade excessiva.
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