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Eline Vere

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Eline Vere

Capítulo 20 · Eline Vere

Capítulo XX

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Capítulo XX

Na Haia, agosto passou abrasadoramente quente, mas as noites eram frescas no terraço de Scheveningen ou na tenda do Bosch. Era domingo à noite, e Betsy ficou em casa; a velha Madame van Raat não vinha vê-la havia tanto tempo que ela pediu à sogra que aparecesse; domingo não era grande dia em Scheveningen. Tomariam chá no jardim de inverno, cujas portas de vidro já estavam abertas. Henk caminhava com Madame van Raat pelo jardim, e a velha senhora admirava suas esplêndidas rosas. Betsy e Vincent estavam a sós.

— Recebi uma carta de Eline: ela volta com os Erlevoort na quarta-feira. Os Howard ficarão mais um pouco no Horze — disse ela.

— É mesmo? — respondeu Vincent. — E quando Eline voltar, suponho que eu tenha de ir embora? — perguntou, secamente.

Betsy sentiu-se alarmada, mas sorriu de modo muito agradável.

— Que ideia! De modo algum. Você sabe que nossa casa está sempre aberta para você, até encontrar alguma coisa para si. Não recebeu notícias daquele... como se chama aquele amigo em Nova York?

— Lawrence St. Clare. Não; há algum tempo não recebo nada dele. Veja, a gente esquece os amigos quando estão tão longe. Não posso culpá-lo.

Recostou-se em sua cadeira de vime com um ar de algo semelhante à resignação. Enquanto isso, sentia-se muito à vontade e agradavelmente acalmado pelo luxo que o cercava. O jardim era bem cuidado, rico em flores e estatuária. E naquele ambiente, na presença de Betsy, muito elegante em seu vestido leve de verão, sob o suave brilho da prata e da porcelana japonesa, sentia-se protegido contra os muitos dissabores da vida. Era descanso, monótono, se quisessem, mas repousante e refrescante. Betsy, ele sabia como dominar; mas era desnecessário fazê-la sentir seu poder; além disso, era preguiçoso demais para isso. Sua vida presente não era fácil? Com que deveria se preocupar?

— O que você diria se eu procurasse uma esposa? — perguntou de repente, pensando intimamente nos prazeres que um casamento rico poderia lhe proporcionar.

— Uma esposa! Oh, uma ideia esplêndida! Quer que eu tente encontrar uma para você? Que tipo deseja?

— Bonita não precisa ser, apenas elegante. Não muito ingênua nem idealista. Dinheiro, é claro.

— É claro. Um caso de amor tolo eu certamente não espero de você. Que acha das Eekhof?

— Está louca? Duas bobocas risonhas... e sem dinheiro, não é?

— Alguns dizem que há, outros afirmam que vivem com extravagância demais; de qualquer modo, você poderia tentar descobrir. Mas estava falando sério, Vincent, ou era só por dizer alguma coisa?

— De modo algum. Acho que me sairia bem se me casasse. Não acha que tenho razão?

Betsy olhou-o atentamente, e seu olhar estava cheio de secreto desprezo. Com seus olhos sem brilho, seus movimentos lânguidos, sua voz indolente, ele não lhe causava grande impressão como marido ideal para uma moça.

— Não exatamente. Acho que você é um terrível egoísta; e também não creio que uma esposa encontrasse muito apoio em você. Você é fraco — quero dizer, moralmente, é claro.

Logo se arrependeu das palavras e se irritou com a própria imprudência. Quase estremeceu quando ele a olhou com aquele sorriso misterioso, com aqueles olhos suaves, opacos, de serpente.

— E uma esposa sempre precisa de apoio, não é? — disse ele, em tons medidos. — Você também, não? Você encontra seu apoio em Henk? Depende inteiramente dele, e ele é bastante forte... quero dizer, fisicamente, é claro?

Cada palavra que pronunciava ele enfatizava como que com um sentido maldoso, e cada palavra penetrava, aguda como uma agulha, em sua natureza dominadora; mas ela não ousou responder, recuou com medo e apenas sorriu, como se ele tivesse feito uma simples brincadeira. Ele também riu, uma risada bondosa e suave como a dela, mas cheia de vingança velada.

Ambos ficaram em silêncio por algum tempo, conscientes da luta sob aquela aparência exterior de boa índole, até que Betsy começou a murmurar docemente algumas queixas contra a velha Madame van Raat, que sempre a entendia mal e com quem nunca conseguia concordar; e, enquanto ele a escutava indiferentemente, ela sentia como o detestava, como teria ficado satisfeita, depois de tê-lo em casa por um mês, em lhe dar congé; mas sabia que jamais poderia fazê-lo sem arriscar uma cena terrível. Ele continuaria rondando até o fim dos tempos, e ela não conseguia imaginar nenhum meio de afastá-lo. Tudo era culpa de Henk; se ao menos ele lhe tivesse dado aquela quantiazinha miserável, a ideia de convidá-lo para a casa nunca lhe teria ocorrido. Detestava Vincent, e detestava a si mesma por seu medo dele. Era rica e feliz; que mal poderia ele lhe fazer? Mas quanto mais argumentava, mais o medo se agarrava a ela, como uma idiossincrasia enervante da qual não conseguia se libertar.

Madame van Raat e Henk voltavam lentamente do jardim e se sentaram no jardim de inverno, junto a uma das portas de vidro abertas. Mas, depois de algumas palavras sobre as rosas, a velha senhora ficou calada e pensativa. Em meio ao luxo da casa do filho, uma certa frieza, um vazio, parecia apoderar-se dela e torná-la melancólica, ainda mais melancólica do que em sua própria casa solitária. Nunca tivera antes essa sensação quando estava com Henk; mas agora parecia que o amor pelo filho não lhe dava calor suficiente para dissipar aquele vazio frio. E de repente a verdade a atingiu. Sentia falta de Eline — Eline, que por onde passava irradiava a luz de seu fascínio; sentia falta de sua querida menina, tão diferente de Betsy, tão amorosa e simpática. E não pôde deixar de dizer, com sua voz triste:

— Sua casa parece deserta sem Elly. Como será quando ela estiver casada e for embora de vez? Querida Elly!

Não ouviu o que Betsy e Vincent responderam; não ouviu o que Henk disse; deixou a cabeça grisalha cair sobre o peito e ficou olhando à frente, as mãos ossudas cruzadas no colo. A vida lhe parecia oca, uma existência cinzenta cheia de dor, cheia de separações e lágrimas, na qual os homens pairavam ao redor, sombrios e tristes, como tantos fantasmas trágicos. E estremeceu quando Betsy lhe perguntou se estava com frio.

Betsy, embora nunca o tivesse confessado, também, assim como a sogra, apesar de Vincent, que "era tão sociável", achara a casa solitária e miserável. Havia tão pouca mudança no verão; era eternamente a tenda e eternamente Scheveningen; ela estava realmente ficando cansada daquilo. E agora que Eline voltara, radiante em sua fresca felicidade, que parecia difundir um odor campestre pela sala de visitas de Betsy; agora que Eline estava cheia de histórias sobre o Horze, sobre Théodore e Truus e as crianças, sobre os Howard e os pequenos van Ryssel, Betsy percebeu que Madame van Raat tinha razão: Eline era o encanto de sua casa. Agora a própria Betsy começou a esperar com certa apreensão o tempo em que Eline a deixaria, e essa apreensão suavizava muito sua acidez habitual. Otto, que antes lhe parecera formal e afetado demais, agora lhe parecia encantador, desde que o via com frequência, pois insistira para que ele viesse jantar muitas vezes.

À mesa, a conversa tornou-se novamente viva e alegre, bem diferente do discurso lento e arrastado entre ela, o marido e Vincent. Com Eline, seus modos se tornaram suaves, por gratidão pela antiga alegria que ela trouxera de volta; e mantinham consultas intermináveis sobre o enxoval de Eline, do qual agora era tempo de cuidar, se ela queria se casar no inverno seguinte. Passavam as tardes juntas com costureiras e em lojas; viajaram com Otto a Bruxelas, onde Eline queria encomendar o vestido de noiva, rico mas simples, nada além de cetim branco, sem renda nem babados.

Eline, entretanto, em toda essa agitação e movimento, ficava com pouco tempo para pensar, e apenas à noite conseguia algum repouso. À noite, muitas vezes ficavam em casa. Era setembro. Scheveningen perdia pouco a pouco suas atrações, e agora que Otto vinha jantar, geralmente ficava tarde sem que percebessem. Ela se sentava com ele no jardim ou no boudoir violeta, e acostumava-se inteiramente à sua felicidade calma; parecia, na verdade, que nunca conhecera outra coisa. Tudo dentro dela era tão repousado e contente que quase desejava alguma emoção. Mas não, amava Otto; aquela única emoção lhe bastava. Nunca nada além disso; sempre aquela calma, sempre aquele éter azul!

Eline Vere

Sinopse

Romance de Louis Couperus, marco da literatura holandesa fin-de-siècle, em tradução brasileira Literunico preparada a partir da tradução inglesa de J. T. Grein, em domínio público. A edição acompanha o percurso íntimo de Eline entre salões, afetos, hesitações e a corrosão silenciosa de uma sensibilidade excessiva.

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LITEBN-978655093177830883983056
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