Leia agora
Eline Vere

Universo da obra

Eline Vere

Capítulo 25 · Eline Vere

Capítulo XXV

25 de 30 ≈ 10 min de leitura

Capítulo XXV

Um mês se passara, mês que Eline passara com os Ferelyn, pois Jeanne não permitia que ela partisse antes de estar completamente restabelecida. Reyer lhes dissera que Eline contraíra um resfriado severo que, com o menor descuido, poderia revelar-se fatal. Jeanne, enquanto isso, cuidava dela com delicada solicitude; mandara preparar especialmente para ela o pequeno escritório de Frans, e, quando Eline protestava e voltava a falar em hotel, o próprio Frans declarava que julgava não dever trabalhar tanto, que um pouco de repouso lhe era necessário. Eline, portanto, abraçava Jeanne com gratidão apaixonada e ficava, enquanto seus violentos acessos de tosse enchiam a casinha como um eco doloroso.

A tosse estava agora um pouco melhor; já não sentia tanta dor no peito. Mas emagrecera muito, seus olhos estavam fundos e apagados, e o rosto estava pálido e amarelado. Sentava-se numa poltrona grande, perto do pequeno fogão, e olhava pela janela, distraindo-se um pouco ao observar os vendedores — o açougueiro, o verdureiro, o leiteiro — que iam chamando de casa em casa; distraía-se vendo as criadas que abriam a porta: aqui uma gorda, de rosto vermelho; ali uma alta e magra; depois, outra vez, a própria dona da casa, de avental preto e uma touquinha de renda suja.

Então se levantou e olhou no pequeno espelho de moldura preta, simples como tudo ao seu redor. Esperava alguém e examinou avidamente o próprio rosto; fazia tanto tempo que não o via; que impressão causaria nele, com aquele rosto amarelado e aqueles olhos encovados?

Pois Betsy escrevera uma longa carta ao tio, Daniel Vere, que durante a menoridade de Eline fora seu tutor, e que só havia pouco se casara e vivia em Bruxelas. Quando a velha tia Vere morreu, ele ainda era solteiro, de modo que estava fora de questão Eline ir morar com ele. Raramente vinha a Haia, e, quando recebeu a carta de Betsy, na qual lhe era descrita a fuga de Eline, pareceu-lhe que o arrastavam para assuntos que não lhe diziam respeito. Respondeu, porém, e ao mesmo tempo escreveu a Eline, pedindo-lhe uma entrevista. A carta a surpreendeu, e agradavelmente, e ela pensou que, por meio dele, poderia vislumbrar uma saída para sua situação presente, que, quando estivesse completamente restabelecida, certamente já não lhe seria suportável. Respondeu-lhe, portanto, nos termos mais amáveis, prometendo fazer o que ele exigisse dela, sob uma única condição: que não lhe pedisse para fazer as pazes com a irmã e voltar a morar com os Van Raat; isso ela teria de recusar a qualquer custo, pois o passado já lhe ensinara que Betsy e ela não podiam dar-se bem; de quem era a culpa, não cabia a ela dizer.

Vere então telegrafou o dia e a hora em que viria ver Eline. E agora ela o esperava, examinando seus traços emagrecidos, temendo, ao se ver tão gasta e descarnada, não ser capaz de irradiar ao redor de si aquele encanto todo-poderoso com que atraía todos os homens para ela. Puxou um pouco a cortina, para que a luz não caísse com tanto brilho sobre sua tez amarelada. À tarde, ele veio.

Era alto e esguio, com os movimentos um tanto lânguidos próprios de todos os Vere, exceto Betsy, que se parecia mais com a mãe. Em Eline, que não o via havia dois anos, causou uma impressão muito favorável. Tinha a aparência de um verdadeiro homem do mundo, e ela sentiu um pouco de vergonha de recebê-lo naquele quartinho e naquele ambiente humilde. Ergueu-se devagar e languidamente de sua cadeira e caminhou até ele, enquanto Jeanne fechava a porta e se retirava.

— Como vai, tio? — disse Eline suavemente. — Estou muito contente em vê-lo, muito contente.

Estendeu-lhe a mão e indicou uma cadeira. Ele sentou-se, olhou-a de modo bastante perscrutador, sorriu um pequeno sorriso triste e sacudiu a cabeça.

— Que vergonha, Eline — começou devagar. — Que tristeza você me causou. Sabe que estou muito descontente com você, minha pequena?

— Suponho que Betsy lhe tenha escrito todo tipo de coisa a meu respeito? — perguntou ela com indiferença fingida, mas verdadeira curiosidade.

— O que Betsy me escreveu caiu sobre mim como um raio. Eu não fazia ideia de que você estava tão em desacordo com sua irmã. Pensava que era muito feliz na casa dos Van Raat. Na primavera passada, você me escreveu uma carta tão entusiasmada sobre seu noivado, e agora Betsy me conta que você liberou Van Erlevoort de sua palavra. Mas eu ainda não tinha a menor ideia de que tais cenas houvessem ocorrido. Eline, Eline, como pode deixar-se arrastar assim por seus sentimentos, sem a menor tentativa de autocontrole?

Ele procurava um pouco as palavras, avançando com cautela, com muito receio de que ela lhe permitisse persuadi-la a outro rumo. A notícia da fuga lhe dera a ideia de que ela era uma criatura muito violenta, impetuosa. Agora, sua suave reserva lhe parecia muito suspeita, e ele temia a cada momento que ela se levantasse de um salto e fizesse algo desesperado. Mas ela respondeu com muita calma:

— Veja, tio. Fugi de Henk e Betsy, é verdade; mas isso não é razão para imaginar que eu só faça tolices. Estava fora de mim de paixão por causa do modo provocador de Betsy. Agora me arrependo de não ter me controlado, de não ter simplesmente lhe dado as costas, para deixar a casa dela no dia seguinte, em paz e sossego. Mas creio que o senhor concordará comigo que há momentos na vida em que... sim, em que já não somos senhores de nós mesmos.

— E está decidida, então, a não voltar?

— Pensei ter-lhe dito isso em minha carta — respondeu, um pouco melindrada.

— É verdade; mas eu esperava... talvez você mudasse de ideia.

— Nunca! — disse ela, calma e deliberadamente, e ainda com certa altivez.

— Muito bem, então; se é esse o caso, não voltaremos ao assunto. Lamento que seja essa sua decisão, mas suponho que tenha ponderado tudo?

— Oh, sim — disse ela, e tossiu um pouco.

— Bem, então preciso propor outra coisa; ou melhor: o que pensa fazer quando se livrar dessa tosse miserável?

Eline o olhou com alguma ansiedade, e todo o seu orgulho desapareceu.

— Tenho pensado nisso. Realmente não sei. Talvez vá morar sozinha. Tenho muitas coisas minhas, e posso ser econômica. Talvez então também consiga alguém que fique comigo.

E, em sua fantasia, já se via instalada num conjunto de quartinhos curiosos, parecidos com os que ocupava agora, e seus olhos se encheram de lágrimas.

— É uma ideia sensata, ao menos. Aqui em Haia, você pensa?

— Bem, sim, talvez; mas realmente não tenho certeza. Talvez eu vá para um lugar menor.

— Bem, de todo modo isso é uma consideração posterior. O fato é que há algo que eu mesmo queria lhe propor.

Ele tomou-lhe a mão e lançou-lhe um olhar com seus olhos sem brilho. E ela pensou que talvez ele estivesse prestes a lhe pedir que fosse ficar com eles em Bruxelas; se fosse assim, deveria aceitar?

— Vou para o exterior com sua tia, Eline, passar o inverno. Não consigo deixar de rir quando falo de sua “tia”, pois, como você sabe, ela mal é cinco anos mais velha que você. Primeiro iremos a Paris, e depois talvez à Espanha. E agora eu queria sugerir que você nos acompanhasse. Você precisa de um pouco de mudança depois do que aconteceu; talvez passemos o inverno inteiro no exterior. Quando se cansar, poderá partir, e então haverá tempo de sobra para ir morar sozinha. Com minha mulher, creio que você se dará muito bem; ela é excelente companhia, uma verdadeira Française. O que acha desse plano?

Eline o olhou confusamente, com os olhos marejados. Sim, era muito verdade, precisava de mudança, e viajaria talvez por todo o inverno! E, a esse pensamento, foi como se uma inundação de sol iluminasse de repente a escuridão sombria de sua alma. Não há vida sem mudança, dissera Vincent.

— Realmente não sei o que dizer, tio — disse, com alguma emoção. — Não estou muito alegre agora, e temo que vocês não me achem uma companhia agradável.

— Isso não tem importância alguma, minha menina; quando se vir em outros ambientes e vir outros rostos, suas ideias também mudarão. Não há nada tão necessário nesta vida quanto a mudança; não podemos viver sem ela!

Ela estremeceu e o olhou com um sorriso. Era como se Vincent tivesse falado! E sentiu-se grata, muito grata, pela bondosa oferta, pela voz bondosa dele. Sim, consentiu, consentiu com gratidão.

— Veja, você pode vir ficar conosco em Bruxelas por alguns dias primeiro, e depois podemos partir; viajamos bastante, e viajamos economicamente, mas sem nos privar de nenhum prazer. Veja, conhecemos a arte; e, quanto a você... você tem dinheiro suficiente, é um bom partido para qualquer um, não é, hein? — concluiu, sorrindo.

— Eu, um bom partido? Minha fortuna não é tão grande, posso lhe dizer, e já não estou mais no mercado — disse ela com um pequeno sorriso triste. — Veja, estou ficando velha aos poucos; já cumpri meu tempo.

Ele lhe falou da maneira mais animadora que pôde. A viagem a curaria de todas aquelas ideias sombrias. Depois que Jeanne, a quem Eline chamara para o quarto, foi informada do plano, ele se foi; ainda precisava fazer uma visita à Nassauplein, aos Van Raat.

Eline permaneceu sozinha enquanto Jeanne o conduzia até a porta. Uma multidão de pensamentos lhe atravessou o cérebro, como pétalas de rosa em chuva, como centelhas de sol, como bolhas de sabão cintilantes. Olhou pela janela para as grandes nuvens de poeira que o vento levantava dos caminhos e das ruas. E desviou-se com um estremecimento dos tons graves de outono que lhe feriram o olhar, quando, de repente, seus olhos caíram no calendário de Frans, pendurado na parede, com a data 15 de novembro claramente visível.

Grande Deus! Era precisamente o dia que, poucos meses antes, Otto e ela haviam fixado como... o dia de seu casamento! Seu olhar ficou preso naqueles algarismos negros. Uma dor selvagem, sem esperança, e o remorso, subitamente submergiram toda a sua nova felicidade luminosa; e, com violência, ela se atirou na poltrona grande e soluçou como se fosse arrancar a própria vida em soluços.

A notícia logo se espalhou; os Eekhof, os Hydrecht e os Van Laren a repetiam uns aos outros: Eline Vere ia para o exterior com seu tio, Daniel Vere, que morava em Bruxelas e só havia um ano se casara.

Eline Vere

Sinopse

Romance de Louis Couperus, marco da literatura holandesa fin-de-siècle, em tradução brasileira Literunico preparada a partir da tradução inglesa de J. T. Grein, em domínio público. A edição acompanha o percurso íntimo de Eline entre salões, afetos, hesitações e a corrosão silenciosa de uma sensibilidade excessiva.

Ver ficha da edição física
LITEBN
LITEBN-978655093177830883983056
Eline Vere

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Eline Vere

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de Eline Vere

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Eline Vere Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
1Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 25 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Eline Vere

Todos os capítulos 30 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir