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Eline Vere

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Eline Vere

Capítulo 2 · Eline Vere

Capítulo II

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Capítulo II

Eram duas e meia quando os van Raat voltaram da ceia para o Nassauplein. Em sua casa, tudo estava às escuras. Enquanto Henk passava o ferrolho na porta, Betsy pensou em ir ver o menino adormecido, bem aconchegado em seu pequeno berço branco no andar de cima. Pegou a vela e subiu; ele, carregado de jornais, entrou na sala de almoço, onde o gás ainda ardia.

Ao chegar ao quarto de vestir, ela retirou a capa dos ombros. Na pequena lareira, a chama se enroscava para cima como a língua ardente de um dragão. Havia algo indefinivelmente repousante na atmosfera do aposento, algo como um vapor morno, misturado ao odor doce e tênue de violetas. Depois de lançar um olhar ao filho, ela se sentou, com um suspiro de cansaço, numa poltrona. Então a porta se abriu, e entrou Eline, num roupão de flanela branca, os cabelos caindo em ondas espessas pelas costas.

— Ora, Elly, ainda não foi para a cama?

— Não, eu... estive lendo. Divertiram-se?

— Ah, sim, foi muito agradável. Eu só queria que Henk não tivesse sido um tédio tão medonho. Não disse uma palavra e, com aquela cara estúpida, ficou ali mexendo na corrente do relógio até poder ir jogar uma mão de whist.

Então, com um movimento um tanto irritado, Betsy chutou dos pés os sapatinhos delicados. Eline suspirou languidamente.

— Você disse a Madame Verstraeten que eu não estava bem?

— Disse; mas você sabe que, quando volto para casa à noite, gosto de ir para a cama. Podemos conversar amanhã, hein?

Eline sabia que a irmã, quando voltava para casa à noite, ficava sempre mais ou menos irritadiça. Ainda assim, sentiu vontade de lhe dar uma resposta áspera, mas estava sem nervos para isso. Tocou de leve, com os lábios, a face de Betsy e, quase sem perceber, pousou a cabeça no ombro da irmã, num desejo súbito e irresistível de ternura.

— Você está mesmo doente, hein, ou...?

— Não. Só um pouco... preguiçosa. Boa noite.

— Bons sonhos!

Eline retirou-se com passos lânguidos.

Betsy continuou a despir-se. Ao chegar ao vestíbulo, Eline sentiu o desconforto de ter sido uma visita indesejada para a irmã. Passara a noite inteira na solidão, entregando-se por completo a uma crise de indolência, e agora ansiava por companhia. Por um instante ficou indecisa no corredor escuro; depois, tateando com cuidado, desceu a escada e entrou na sala de almoço.

Henk, já sem o paletó, estava de mangas de camisa junto à lareira, preparando seu grogue como último consolo antes de dormir; os vapores quentes da bebida enchiam o aposento.

— Olá, menina, é você? — disse ele, em tom jovial, enquanto, em seus olhos sonolentos, de um azul-acinzentado, e em torno da boca pesada, coberta por uma barba clara, brincava um sorriso bonachão. — Não ficou terrivelmente entediada, abandonada a si mesma a noite inteira?

— Sim; um pouquinho. Talvez você tenha ficado ainda mais? — perguntou ela, com um sorriso agradável.

— Eu? De modo algum. Os quadros-vivos estavam muito bonitos.

Então, recostado de costas à lareira, começou a sorver o grogue.

— O pequeno se comportou bem?

— Sim; dormiu. Você não vai se deitar?

— Quero só dar uma olhada nos jornais. Mas por que você ainda está acordada?

— Ah... por nada...

Com um movimento lânguido e gracioso, ela esticou os braços e depois torceu os cabelos pesados num coque castanho e lustroso. Sentia necessidade de falar com ele sem constrangimento, mas as palavras não vinham, e nem o mais tênue pensamento ela conseguia invocar para tomar forma em sua mente sonhadora. Teria gostado de cair em pranto, não por causa de alguma dor aguda, mas pelo simples desejo de ouvir seus tons graves e consoladores a confortá-la. Mas não encontrava palavras para exprimir o que sentia, e tornou a estender os braços com graça lânguida.

— Há alguma coisa errada, hein, minha pequena? Vamos, diga o que é.

Com um olhar vazio, ela sacudiu a cabeça. Não, não havia nada a dizer.

— Vamos, você pode me contar tudo, sabe disso.

— Ah... estou me sentindo um pouco miserável.

— Por quê?

Então, com um biquinho encantador:

— Ah... não sei. Passei o dia um pouco nervosa.

Ele riu — sua risada habitual, suave e sonora.

— Você e seus nervos! Vamos, maninha, anime-se. Você é uma companhia tão boa quando não está tão melancólica; não deve se entregar a essas crises.

Sentiu que sua eloquência não iria muito além para discutir o assunto; por isso, rindo, concluiu:

— Quer um gole de grogue, maninha?

— Obrigada... sim, só um gole no seu copo.

Ela se voltou para ele e, rindo por entre a barba clara, ele ergueu o copo fumegante até seus lábios. Pelas pálpebras semicerradas, viu brilhar uma lágrima, mas ela a conteve.

De repente, tomado por uma súbita decisão, ele pousou o copo e agarrou-lhe as mãos.

— Vamos, menina, conte; há alguma coisa... alguma coisa aconteceu com Betsy, ou... vamos, você geralmente confia em mim.

E lançou-lhe um olhar de censura com seus olhos sonolentos, bondosos e tolos, como os de um fiel cão pastor. Então, com a voz quebrada pelos soluços, ela irrompeu numa torrente de lamentações, embora sem causa aparente. Era o clamor mais íntimo de seu coração por um pouco de ternura e simpatia.

Que era sua vida para ela? A quem poderia ser da menor utilidade? Torcendo as mãos, caminhava de um lado para outro da sala, soluçando e se lamentando. Que lhe importaria morrer dentro de uma hora? Para ela, dava tudo na mesma — só aquela existência sem alvo, inútil, sem coisa alguma a que pudesse consagrar toda a alma; isso, isso apenas, já não era suportável.

Henk a contradisse, decerto um tanto embaraçado com a cena, que, aliás, não passava da repetição de tantas outras anteriores. Para dar novo rumo aos pensamentos dela, começou a falar de Betsy, de Ben, o menino deles, de si mesmo — chegou até a querer aludir a um futuro lar dela própria, mas não conseguiu ir tão longe.

Ela, por sua vez, sacudia a cabeça como uma criança amuada que, não obtendo o que deseja, se recusa a aceitar qualquer outra coisa; e, num movimento apaixonado, atirou de repente a cabeça sobre o ombro dele e, passando um braço em volta de seu pescoço de buldogue, desatou numa nova torrente de soluços.

Assim continuou a lamentar-se em palavras desvairadas e incoerentes, com os nervos retesados pela solidão da noite e pelas horas de ruminação em seu quarto superaquecido. Repetidas vezes voltava à sua vida sem alvo, que arrastava como um fardo miserável, e havia em sua voz algo como uma censura dirigida a ele, seu cunhado.

Ele, confuso e profundamente tocado pelo calor daquele abraço, que certamente mal podia retribuir com igual ternura, nada encontrou para conter aquela torrente selvagem de frases incoerentes senão alguns lugares-comuns. Devagar, suavemente, como pétalas de rosa caindo mansas sobre o seio límpido de um riacho de verão, ela deixou suas cismas melancólicas deslizarem, levadas pelos tons baixos, cheios, de sua voz profunda.

Por fim, calou-se e soltou um suspiro; mas sua cabeça ainda repousava no ombro dele.

Agora que ela estava um pouco mais calma, ele julgou adequado mostrar certa irritação diante de seu comportamento. Que tolice era aquilo, afinal! Que estupidez! Que alvoroço por nada!

— Não, Henk, de verdade... — começou ela, erguendo para ele o rosto manchado de lágrimas.

— Minha querida, que bobagem você fala sobre sua vida sem alvo e todas essas coisas. De onde tira essas ideias? Todos nós gostamos de você...

E, lembrando-se do pensamento que antes não ousara dizer, prosseguiu:

— Uma moça como você... falando de uma vida sem... Maninha, você está louca!

Então, como se a ideia lhe fizesse cócegas e, além disso, achando que o estado filosófico já durara bastante, torceu-lhe de repente o braço com brusquidão e beliscou-lhe os lábios amuados. Rindo, ela resistiu; aquele gesto havia restaurado um pouco seu equilíbrio rompido.

Quando, alguns instantes depois, os dois subiram juntos, ela mal conseguia conter uma gargalhada, pois ele de repente a erguera nos braços para carregá-la; e ela, temendo que ele tropeçasse, disse, em voz meio suplicante, meio imperiosa:

— Vamos, Henk, solte-me; está ouvindo? Não seja tão bobo! Henk, solte!

Eline Vere

Sinopse

Romance de Louis Couperus, marco da literatura holandesa fin-de-siècle, em tradução brasileira Literunico preparada a partir da tradução inglesa de J. T. Grein, em domínio público. A edição acompanha o percurso íntimo de Eline entre salões, afetos, hesitações e a corrosão silenciosa de uma sensibilidade excessiva.

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LITEBN-978655093177830883983056
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