Universo da obra
Universo da obra
Cerca de uma semana depois dos tableaux-vivants, Lili Verstraeten estava sentada no pequeno salão onde a representação se realizara. O aposento havia muito retomara sua aparência habitual, e na lareira ardia um fogo alegre.
Lá fora fazia frio; soprava um vento cortante, e havia ameaça de chuva. Marie saíra às compras com Frédérique van Erlevoort, mas Lili preferira ficar em casa; por isso se acomodara confortavelmente numa grande poltrona antiga, forrada de tapeçaria. Levara consigo Notre Dame de Paris, de Victor Hugo, mas não queria se obrigar a ler se não tivesse vontade, e o livro, encadernado em couro vermelho, com cortes dourados, jazia fechado em seu colo.
Como era bom não fazer nada além de sonhar o tempo passar! Que tolice de Marie e Freddie saírem com um tempo tão miserável! Que lhe importava o tempo! Que lá fora chovesse e ventasse quanto quisesse; dentro de casa estava delicioso: as nuvens amorteciam a luz, e as cortinas baixas só lhe permitiam uma entrada discreta.
Papai estava lendo no jardim de inverno, onde havia mais claridade; ela mal conseguia entrever sua querida cabeça grisalha, e notava a rapidez com que ele virava as páginas; sim, ele realmente lia, ao contrário dela, que levara o livro apenas por faz de conta.
Ela jamais sentia ennui, embora não fizesse absolutamente nada; ao contrário, desfrutava aqueles pensamentos vagos, pétalas de rosa levadas por brisas suaves; bolhas de sabão, claras e aéreas, que gostava de observar flutuando no alto; e as pétalas voavam para longe, as bolhas se rompiam, mas ela não desejava que sua pétala se tornasse uma hera agarrada a ela, nem que suas bolhas virassem um balão cativo.
Mamãe ainda estava no andar de cima, sempre ativa — ah! ela não conseguia aliviar o trabalho de mamãe; esta queria fazer tudo sozinha, embora Marie ajudasse um pouco de vez em quando. No íntimo, Lili esperava que nenhuma visita viesse perturbar seu dolce far niente.
Como era agradável! Que bom observar a chama se enroscar e se torcer em volta do carvão vivo! A lareira era um pequeno inferno; os blocos de turfa eram rochedos, e entre eles se abriam precipícios, todos de fogo e brasas rubras — era como Dante! As almas dos condenados pairavam à beira dos precipícios, estremecendo diante da massa ardente... E, sorrindo da selvageria da própria fantasia, desviou os olhos, um tanto atordoada de tanto fitar o fogo.
Mas, uma semana antes, naquele mesmo lugar ali adiante, elas haviam posado diante de seus conhecidos aplaudindo. Como tudo parecera diferente então! Os cenários, as liras, a cruz e todos os demais apetrechos estavam guardados no quarto de despejo. Os vestidos haviam sido bem dobrados por Dien e postos em caixas. Mas fora uma época divertida, com as consultas prévias com Paul e Etienne, os ensaios e assim por diante.
Como haviam rido! Quanto trabalho tinham tido por causa de alguns instantes de entretenimento! Papai continuava lendo, virando página após página. Como a chuva batia nas vidraças! Como descia ruidosa pelo cano! Sim; Freddie e Marie estavam lá fora se divertindo... que esplêndido era estar abrigada e a salvo de toda aquela água. E seus pés procuraram o calor macio do tapete da lareira; sua cabeça loura se aninhou mais fundo nas almofadas da velha poltrona. Freddie iria a um baile naquela noite.
Como conseguia suportar sair noite após noite! Sim; ela mesma gostava muito disso — um baile agradável, uma soirée sociável; mas gostava também de ficar em casa, para ler, trabalhar ou... não fazer nada. Quanto ao ennui, não sabia o que era, e sua vida corria como um riacho límpido. Era tão completamente apaixonada pelos queridos pais; só esperava que as coisas permanecessem sempre como estavam; não se importaria em ficar solteirona...
Quasímodo, Esmeralda, Phœbus de Châteaupers — oh, por que não levara Longfellow consigo? Não se importava com a Cour des Miracles, mas ansiava por Evangeline ou A Lenda Dourada:
“Minha vida é pequena, Apenas uma taça de água, Mas pura e límpida...”
Como estava ficando poética! Riu de si mesma e olhou para o jardim, onde os galhos nus e gotejantes se balançavam de um lado para outro ao vento. Ouviu-se a campainha, e passos leves e risos ecoaram pelo vestíbulo.
Freddie e Marie estavam voltando para casa; ela supôs que subiriam; não — vinham para aquele lado e entraram na sala, já sem as capas molhadas, mas trazendo consigo uma lufada de vento e uma umidade fria.
— Ora essa! — gritou Marie. — Minha senhora sentada à lareira, aquecendo-se. Muito bem!
— Minha senhora gostaria de uma almofada para as costas? — perguntou Freddie, provocando-a.
— Sim; riam quanto quiserem — murmurou Lili com um sorriso, aninhando-se mais confortavelmente na poltrona. — Estou quente e feliz aqui, e meus pés não estão frios nem úmidos. Vão vocês se chapinhar na lama!
Freddie foi falar com o sr. Verstraeten, e Marie pensou que gostaria de algo para se reanimar, pondo-se a preparar uma xícara de chá. Assim as moças se sentaram; sim, Lili também aceitaria uma xícara de chá, embora não tivesse saído a chapinhar na lama.
— Como está escuro aqui, Lili! Como você conseguia enxergar para ler? Ora, é de cegar a gente ficar forçando os olhos assim no escuro! — exclamou Marie.
— Mas eu não estava lendo — respondeu Lili, desfrutando seu dolce far niente.
— Minha senhora esteve a cismar — zombou Freddie.
— Ah — disse Lili, com um sorriso —, é magnífico não fazer absolutamente nada... só sonhar o tempo passar.
E as três desataram a rir daquela confissão de preguiça sem vergonha, quando Madame Verstraeten desceu, à procura de seu molho de chaves.
Frédérique disse que precisava ir logo; fora convidada para um baile na casa dos Eekhof naquela noite, e ainda tinha uma ou duas coisas a providenciar. Madame Verstraeten achava Lili muito mais sensata que Freddie e Marie, tolas o bastante para ir às compras com um tempo daqueles.
A campainha tornou a tocar. Era Paul, trazendo consigo um odor tão acentuado de vento e umidade que foi mandado sair novamente da sala para limpar melhor os pés.
— Que tempo! — suspirou ele, sentando-se.
Madame Verstraeten deixou os jovens entregues a si mesmos e sentou-se ao lado do marido; este, porém, ao saber que Paul chegara, levantou-se e caminhou até o salão dos fundos.
— Boa tarde, tio.
— Ah! boa tarde, Paul; como vai? Como está sua mãe?
— Mamãe está muito bem. Deixei-a lendo um livro que Eline lhe enviou.
— E então? Já fez uma visita a Hovel?
— Não, tio, ainda não.
— Pois faça isso, então. Não adie por muito tempo; Hovel quer conhecê-lo.
— Paul, faz quatro dias que você disse que iria a Hovel — gritou Marie. — Como pode pensar tanto nisso? Não é uma viagem tão grande assim.
— Eu pretendia ir amanhã.
— Então vá amanhã, por volta das seis e meia. A essa hora certamente o encontrará em casa. Eu o aconselharia a não faltar — disse tio Verstraeten; e em seus olhos castanho-escuros, habitualmente tão amistosos, brilhou algo como irritação quando ele se voltou para o jardim de inverno.
— Paul, Paul — disse Frédérique, sacudindo a cabeça —, como pode ser tão preguiçoso? Você é ainda mais preguiçoso que Lili.
— Ah, amanhã ainda será tempo de sobra — resmungou Paul, enquanto terminava de beber sua xícara de chá.
— Sim; mas você é muito preguiçoso, apesar disso. E lhe digo francamente que nenhum de nós acha isso bonito.
— Continue, vovó, faça-me um bom sermão; isso mesmo.
— Vovó ou não, é essa a minha opinião. E veja, acho uma grande pena que você seja assim; poderia fazer muito mais se tivesse um pouco de energia. Guarde minhas palavras: se você não melhorar, acabará exatamente como Henk — um sujeito querido e bom, mas que não serve para nada. Você sabe muito bem que não morro de amores por Betsy, mas compreendo perfeitamente que às vezes ela se sinta terrivelmente entediada com esse seu irmão, sem fazer nada o dia inteiro.
— Agora não diga nada contra Henk; Henk é um sujeito inteiramente bom — gritou Marie.
— Além disso — continuou Marie —, você tem muito mais capacidade que Henk; e é justamente por isso que acho a preguiça e a falta de energia duplamente indesculpáveis em você.
— Vamos, Marie — disse Lili, levantando-se —, não fique disparando assim contra Paul, pobre rapaz! Você vai a Hovel amanhã, está ouvindo? — sussurrou-lhe ao ouvido. — Então tudo ficará bem.
Ele riu e prometeu emendar-se sob a competente direção das três.
— E já que, evidentemente, fui colocado sob a tutela de minhas primas e da senhorita Erlevoort — disse ele, bem-humorado —, posso perguntar se elas permitirão ao seu pequeno protégé mais uma xícara de chá?
A chuva pesada cessara, mas o vento ainda sacudia os galhos gotejantes. Eram cinco e meia quando a campainha da porta tocou mais uma vez.
— Cinco e meia! — exclamou Frédérique. — Preciso ir; já devia ter ido há muito; tenho alguns laços para prender no vestido. Oh! hoje à noite vou ficar encantadora, toda em flot de tulle! Onde estão meus pacotes, Marie?
— Lá vai a campainha; pergunto-me se há visitas — disse Lili.
Frédérique estava a ponto de sair quando Dien entrou para dizer que o sr. de Woude van Bergh estava ali.
— O quê! Aquele maçante indizível!
— Ah, ele não é tão mau assim — disse Paul.
— Pois não me importo; vou fechar as portas de dobrar. Não quero vê-lo! — continuou ela, já prestes a fazer exatamente o que dizia.
— Vamos, Lili, não seja tão tola; venha para cá — disse Marie.
— Não, obrigada; vá você sozinha — respondeu ela, e fechou as portas justamente quando de Woude entrava no salão da frente, onde Marie o recebeu.
Paul e Frédérique riram, despediram-se de Lili, e os três passaram pela sala de jantar rumo ao vestíbulo.
— Adeus; dê lembranças minhas a tio e tia, e diga ao tio que amanhã irei a Hovel sem falta — disse Paul.
— Dê lembranças minhas também e diga que eu realmente precisava ir — disse Freddie.
— Está bem; divirta-se muito esta noite em seu flot de tulle. Brrr! como está frio aqui neste vestíbulo!
Paul e Freddie partiram, e Lili voltou pela sala de jantar. E Georges de Woude, o que viera fazer? Não; ela não podia suportá-lo de modo algum. Tão afetado e formal. Como Paul conseguia ver alguma coisa nele? Paul, para ela, era muito mais agradável e mais másculo.
E como Marie lhe passava sermão! Ele era um bom rapaz, afinal; e daí se fosse um pouco preguiçoso? Tinha dinheiro e podia muito bem aproveitar um pouco a vida agora; mais tarde poderia procurar uma colocação, e logo encontraria uma, isso era certo. Sim; ela diria a papai que Paul prometera ir a Hovel no dia seguinte, e ele sempre cumpria a palavra. Sentou-se outra vez na velha poltrona e atiçou o fogo. Aqueceu os dedos e esfregou as mãozinhas, macias como cetim.
Através das portas fechadas, podia ouvir o som de vozes, entre as quais predominava a de Georges — ele parecia contar uma longa história. Precisava dar uma espiada por um instante, e levantou-se, empurrando cautelosamente uma das portas um pouco para o lado. Sim; assim bastava; papai e mamãe ela não podia ver, mas conseguia ver o rosto de Marie, e de Georges via apenas as costas. Que divertido seria se Marie a percebesse; mas não, ela parecia toda atenção para aquele janotinha.
Lili só podia admirar-lhe o colarinho branco e reluzente, e as abas da casaca — finíssimo, tudo aquilo! Lá — Marie levantou os olhos — lá — acabava de vê-la pela fresta da porta:
— Hallo! bon jour!
Lili sacudiu o dedo para Marie, depois fez uma reverência e caretas, até que Marie teve de comprimir os lábios para não cair na gargalhada.
Como já escurecia, Frédérique apressou-se para casa, no Voorhout. Ao chegar, subiu correndo a larga escadaria. Quase tropeçou em Lientje e Nico, dois filhos de Madame van Ryssel, sua irmã mais velha, que, desde o divórcio do marido, vivia com seus quatro filhos na casa de Madame van Erlevoort.
— Senhorita Frantzen, olhe pelas crianças, elas vão cair! — disse Frédérique, sem fôlego, à bonne que encontrou no primeiro patamar, procurando os pequenos por todos os lados.
— Sabe onde estão Ernestine e Johan? — perguntou a senhorita Frantzen.
— Não; acabei de chegar — respondeu Frédérique, bastante indignada; e apressou-se ainda mais, voou para o quarto, tirou a capa e, com dedos nervosos, começou a abrir um dos pequenos pacotes que trouxera no manguito e nos bolsos.
— Nunca ficarei pronta! — murmurou, e afastou as cortinas verdes de damasco da cama, revelando o vestido de baile estendido sobre ela — uma nuvem diáfana de tule azul-claro.
Naquela manhã, o vestido de Frédérique fora entregue pela modista, mas ela queria acrescentar um laço aqui e outro ali por conta própria, embora quase temesse tocá-lo, receosa de embaraçar o tecido vaporoso, fino como teia.
— Oh, que vou fazer! — exclamou; então uma ideia súbita pareceu ocorrer-lhe, e ela saiu correndo do quarto e gritou no patamar: — Tilly, Tilly, Mathilde!
Uma das portas se abriu, e sua irmã, Madame van Ryssel, entrou um tanto assustada.
— Freddie, o que foi? Por que grita assim? A casa está pegando fogo?
— Não; se estivesse, eu não chamaria você para ajudar. Mas ajude-me um pouco, senão nunca ficarei pronta.
— Ajudá-la? Com quê?
— Com meu vestido de baile. Quero colocar um laço ou dois. Está tão nu do lado, e comprei uma fita.
Madame van Ryssel ia responder quando a porta do quarto de Madame van Erlevoort se abriu, e a velha senhora saiu para perguntar o que acontecia.
No mesmo instante, uma explosão aguda de riso e um rumor de vozes infantis ecoaram no patamar; ouviu-se um tropel ruidoso de pezinhos, e uma menina de sete anos veio quase rolando escada abaixo, seguida por um menino de seis.
— Mamãe, mamãe! — gritou a criança, saltando os últimos degraus.
— Ora, Tine, Johan, que barulho vocês estão fazendo! Que estão fazendo, vocês dois? — perguntou Madame van Ryssel com severidade.
— Jo vive me provocando; Jo quer fazer cócegas em mim, e sabe que eu não suporto — arfou a menina, escondendo-se atrás das saias da avó, enquanto Frédérique agarrava Johan.
— Já disse que não quero essa correria e esse barulho dentro de casa! — retomou Madame van Ryssel. — Gostaria que se lembrassem de que vovó não suporta isso.
— Não faz mal — disse Madame van Erlevoort, bondosamente —, estavam apenas brincando, não é, Tine?
— Cuidado, está ouvindo, ou vou fazer cócegas em você! — gritou Frédérique, e fez cócegas em Johan debaixo dos bracinhos, de modo que ele caiu no chão, debatendo-se e gritando de alegria.
— Mais comme vous les gâtez, toutes les deux! ne les choyez donc pas, quand je suis fâchée. Je perdrai tout mon pouvoir, si vous continuez ainsi! — exclamou Madame van Ryssel, desesperada, enquanto olhava por cima do corrimão, pois lá embaixo Madeline e Nikolaas davam um trabalho terrível à senhorita Frantzen e se recusavam a subir.
— Lientje, Nico! — gritou Madame van Ryssel em seus tons mais severos.
— Vamos, Mathilde, deixe as crianças em paz por um instante e venha ver meu vestido! — implorou Freddie.
— Já não consigo mantê-las em ordem, de verdade — disse Mathilde, com um suspiro de desespero.
— Depressa, Freddie; hoje jantamos um pouco mais cedo — disse Madame van Erlevoort.
A porta da rua estava sendo aberta; eram Otto e Etienne van Erlevoort, que voltavam para casa, e suas vozes alegres misturaram-se aos risos e gritos das crianças, aos tons repreensivos da senhorita Frantzen e aos latidos de Hector, o cão de Otto.
— Vamos, Mathilde, venha só dar uma olhada no meu vestido — suplicou Freddie, em tom insinuante.
Mathilde julgou melhor desistir de qualquer tentativa de exercer sua influência materna naquela Babel de confusão, e cedeu às súplicas de Frédérique.
— De verdade, estou falando sério, já não tenho controle algum sobre eles...
— Vamos, crianças, não briguem mais agora; sejam boazinhas! — disse Madame van Erlevoort a Ernestine e Johan. — Venham conosco para baixo; aqui está frio de congelar.
Madame van Erlevoort sempre estivera acostumada à agitação e ao alvoroço, e isso nunca parecia perturbá-la. Mãe de sete filhos, vivera sempre cercada por risadas ruidosas, tumulto e excitação, e não teria compreendido como uma família numerosa pudesse existir em atmosfera mais calma que a sua.
Desde o início, sua casa fora cheia das vozes agudas, das gargalhadas turbulentas e do contínuo vaivém dos filhos, até que estes cresceram em todo o viço alegre de seus espíritos juvenis.
Depois, com a morte do marido, Théodore Otto, barão van Erlevoort ter Horze, membro da Segunda Câmara dos Estados Gerais, começou um período de calma e paz desacostumadas, que se acentuou ainda mais quando quatro de seus filhos, um depois do outro, deixaram a casa e se casaram.
O primeiro a partir fora Théodore, o mais velho, que agora administrava as propriedades da família em Gelderland e, no meio de sua numerosa prole, vivia no Huis ter Horze a vida combinada de gentleman-farmer e jovem patriarca. Seguiu-se a ele a terceira filha, Mathilde, cuja breve vida conjugal fora muito infeliz; depois dela, as duas filhas mais velhas, Cathérine e Suzanne, deixaram a casa materna, a primeira casada com um banqueiro inglês, o sr. Percy Howard, residente em Londres, a outra com o jonkheer Arnold van Stralenburg, escrivão no Tribunal de Justiça de Zwolle.
Assim, Madame van Erlevoort ficou com seus dois filhos, Otto, assistente de escrivão no Ministério do Interior; Etienne, estudante de direito em Leiden; e a filha mais nova, Frédérique. Sem o encanto novo e as emoções revigorantes da condição de avó, a relativa calma que a cercava certamente a teria feito adoecer de ennui, acostumada como estava ao trote dos pezinhos leves e ao canto e riso de vozes jovens e claras.
Alguns anos depois de seu casamento, Mathilde voltou para a casa de Madame van Erlevoort com quatro filhos, que lhe haviam sido confiados após o divórcio do marido. Desde então, van Ryssel vivia no exterior, e pouco mais se ouvira falar dele.
Madame van Erlevoort se compadecia profundamente da filha, que por tanto tempo e com tanta dignidade sustentara o papel de esposa negligenciada e mal compreendida, e a recebeu com o maior amor, intimamente feliz com a vida nova, fresca e em botão, que os quatro netos haviam trazido para sua casa. Mimava-os a todos como jamais havia mimado os próprios filhos.
Por mais que tentasse zangar-se com eles, nem as travessuras mais desatinadas conseguiam provocar-lhe a ira; Mathilde, porém, eles frequentemente levavam ao desespero, pois ela temia o que seria deles com tanta indulgência.
Pedia a Madame van Erlevoort que não se opusesse quando ela aplicasse algum castigo merecido; Madame van Erlevoort prometia com bastante prontidão, mas com igual rapidez esquecia a promessa na primeira oportunidade. Frédérique, por sua vez, ela própria uma criança mimada, sempre achava Mathilde coberta de razão em suas queixas, mas, quanto ao resto, pouco fazia para encorajar uma disciplina firme.
Só de Otto Mathilde podia esperar, de vez em quando, algum apoio; e, por isso, era apenas pelo tio Ot que os quatro pequenos malandros nutriam algum respeito.
À bondade de temperamento da mãe, Otto unia o bom senso e a natureza prática do pai; e, na calma imperturbável de sua conduta, parecia mais velho do que era. Mas em suas feições viris havia uma genialidade tão encantadora, havia tanto de simpático e confiável em seus olhos escuros e brilhantes, que sua seriedade e seu juízo firme atraíam mais do que pareciam severos demais num rapaz de vinte e oito anos.
Etienne, por outro lado, era todo alegria e irreflexão, e o ídolo da mãe; de fato, a natureza dela parecia aquecer-se ao brilho e ao sol do caráter dele. Frédérique amava os dois irmãos apaixonadamente, mas gostava de apelidar Otto de papai, enquanto com Etienne fazia algazarras quase como Lientje com Nico, e Tina com Johan.
Madame van Erlevoort desejava jantar um pouco mais cedo naquele dia, pretendendo fazer sua sesta antes de se vestir. À noite iria, com Freddie e os dois filhos, ao baile dos Eekhof; Madame van Ryssel ficaria em casa, jovem mulher quieta e entristecida, cujo sorriso apenas iluminava de leve o rosto de cera, e que vivia somente para os filhos.
Por desejo expresso de Mathilde, os quatro fregueses barulhentos sempre jantavam num cômodo separado, com a senhorita Frantzen. Quanto a Madame van Erlevoort, nada lhe teria agradado mais do que sentar-se à mesa com o bando inteiro, a senhorita Frantzen incluída, sem se importar nem um pouco se suas toalhas de damasco ficassem nadando em molho, se sua cristaleria fosse quebrada em pedaços ou se as compotas fossem maltratadas por um conjunto de dedinhos gordurosos.
Assim, Mathilde não conseguira impedir que as crianças, que jantavam mais cedo e terminavam a refeição antes, entrassem uma depois da outra na sala de jantar, para desespero da senhorita Frantzen, cujo rosto redondo e olhos aterrorizados apareciam então à porta entreaberta. Tendo Madame van Erlevoort, em sua bondade, tolerado essa espécie de coisa uma ou duas vezes, ela logo se tornara regra, e Mathilde, com um suspiro, foi obrigada a resignar-se ao inevitável.
Quanto a Etienne e Frédérique, eles apenas ajudavam a deixar os pequenos ainda mais barulhentos. Otto também brincava com eles, e Mathilde, com um sorriso, encolhia os ombros; não podia evitar: que as coisas corressem como quisessem.
— Não, obrigada, Otto, nada mais — disse Frédérique à mesa do jantar. — Nunca consigo comer quando vou a um baile; você sabe disso.
— Ainda é assim? — perguntou Otto. — Sempre pensei que só as meninas muito jovens não conseguissem comer em sua primeira entrée na sociedade. Você ainda fica tão nervosa? Pobre menina!
— Freddie, o que você andou fazendo com seu vestido? Espero que não tenha estragado nada — perguntou Madame van Erlevoort, com certa ansiedade.
— Não, mamãe; segui o conselho de Mathilde e não toquei nele. Ah! você vai me ver esta noite — continuou ela, voltando-se para Otto —; estarei inteiramente etérea no meu tule azul, pronta para ser levada pelo vento, sabe. Olhem! Lá vêm eles, os jovens vândalos!
Referia-se aos quatro pequenos van Ryssel, que naquele momento irromperam sala adentro, Nico com uma trombeta ensurdecedora na boca. Vinham comer a laranja com vinho e açúcar. Madame van Erlevoort puxou Nico para junto de si e lhe deu o prato cheio de fruta; não tardou para que o jovem malandro sugasse os pedaços suculentos, variando a refeição com ocasionais estrondos da trombeta.
Ernestine, Johan e Etienne escolhiam com empenho o que havia de melhor no mesmo prato, e, entre gargalhadas sonoras, os garfos se embaralhavam uns nos outros, enquanto Freddie contava a Otto quem iria aos Eekhof naquela noite.
— Vão os Hydrecht, Eline Vere, os van Laren, Françoise Oudendyk. Você não acha Françoise mais bonita que Marguerite van Laren? Hein, Otto, qual das duas você vai conquistar? Oh, Nico! meus nervos! Nico!
Tó-tó-ró-tó-tó fazia a trombeta.
— Nico, você vai me enlouquecer com essa barulheira. Largue isso agora e coma direito. Veja, está escorrendo pelo seu paletó! — gritou Mathilde.
— Oh, ele está apenas fazendo um pouquinho de música; não está, pequenino? — disse Madame van Erlevoort, passando o braço em torno da criança, que, sem muito respeito pela avó, soprou a trombeta bem dentro do ouvido dela.
Depois do jantar, Freddie e Etienne brincaram de correr e lutar com as crianças, enquanto Madame van Erlevoort se retirou para o boudoir, e Otto se sentou para fumar um charuto ao lado de Mathilde, que pegou um bordado. Rika, a criada, retirou a mesa, bastante atrapalhada no processo por Nico, e em temor e tremor pela segurança da bandeja em que havia colocado os pratos e copos sujos.
Por fim, o relógio bateu oito horas, e a senhorita Frantzen veio buscar as crianças.
— Ciel de mon âme! — gritou Frédérique, meio sufocada no sofá entre Ernestine, Johan e Lientje; e, com esforço, desembaraçou-se do labirinto de braços e pernas que se enroscava nela como um polvo. — Preciso subir; Mathilde, você vai me ajudar?
— Sim; já vou — respondeu Mathilde, levantando-se. — E vocês, crianças, cama, depressa!
— Não vou; quero ver a tia Freddie bonita primeiro — gritou Ernestine, numa vozinha chorosa. — E quero ajudar a titia também.
— A titia pode passar sem a sua ajuda, e bonita ela é sempre. Vamos, agora subam todos com a senhorita Frantzen; allons, como boas crianças.
Freddie saiu correndo e, como Madame van Erlevoort dormia, Mathilde pôde, por uma vez, exercer sua influência; os quatro foram despachados escada acima, com uma advertência a cada degrau, pois Nico queria descer outra vez e Lientje permanecia sentada no chão, brincando com Hector.
— Vou já, Freddie! — gritou Mathilde. — Assim que as crianças estiverem lá em cima.
Freddie já estava em seu quarto, escovando as massas onduladas dos cabelos. Mathilde deveria penteá-la: fazia isso com tanta destreza. E ela se pôs a arrumar tudo — o leque, as luvas, o lenço, os sapatos de cetim azul-claro.
Um rubor nervoso espalhou-se por seu rosto límpido e pálido, enquanto se olhava no espelho e sorria, até que em cada face se formou uma pequena covinha.
— Sim; vai dar certo — disse ela.
Meia hora depois, Mathilde voltou com Martha, a criada de quarto, e Frédérique sentou-se diante do espelho, com o corpete branco de baixo e os sapatos azuis.
— Bem simples e gracioso, como da outra vez que você fez, Tilly — suplicou Frédérique, enquanto Martha lhe entregava o pente, o ferro de frisar ou um grampo, conforme eram necessários. — Oh! está muito frio aqui! Ponha alguma coisa em volta dos meus ombros, Martha!
Martha envolveu-a com uma capa de pele. Com dedos hábeis, Mathilde logo terminou a tarefa.
— Pronto! — disse ela, ajeitando a franja frisada à frente. — Simples, de bom gosto e gracioso. Está satisfeita?
Frédérique olhou para si mesma e apenas tocou os cabelos com a ponta dos dedos.
— Bastante! — disse. — E agora... meu flot de tulle.
A capa de pele foi atirada ao chão, e Martha pôs em ordem a massa confusa de roupas espalhadas pelo quarto. Mathilde ergueu a nuvem de azul delicado e, leve como um suspiro, deixou-a deslizar em torno dos ombros de Freddie.
— Há em mim algo de fada, algo de náiade! — disse Freddie, erguendo os braços; e Tilly e Martha se ajoelharam e abriram as pregas da gaze sedosa.
— Lá, lá, lá... — e os pezinhos de Freddie marcavam o compasso da melodia que ela cantarolava.
— Freddie, Freddie, fique quieta agora! Martha, um alfinete; aqui, este laço se soltou.
— Como estou, Martha?
— Docemente bonita, senhorita.
— Não parece vazio do lado, Tilly?
— Oh, claro que não; é tudo laços e fitas. Vamos, Freddie, fique quieta um instante, agora.
De repente, a porta se abriu devagar, com um rangido.
— E agora? — gritou Mathilde, impaciente; e sua cólera aumentou ao avistar Ernestine, tremendo em sua camisola branca, surgindo atrás da porta, um pouco assustada, mas com uma insolência de elfo.
— Oh, mamãe, eu queria tanto...
— Mas, Tine, é coisa para apanhar uma friagem mortal, correndo por aí desse jeito! Não sei como você consegue ser tão desobediente.
— Entre na minha cama, Tine, depressa; mas cuidado com meu corpete! — gritou Freddie. — Não se importe, Tilly, deixe-a ficar — sussurrou.
Tine se enfiou na cama e se aninhou como uma pomba nos cobertores; seus dedinhos passavam pelo cetim azul do corpete de Frédérique, que jazia sobre o travesseiro.
Mathilde encolheu os ombros com um suspiro, resignada como sempre, mas levou o corpete consigo. Madame van Erlevoort apareceu à porta aberta, farfalhando em seda moiré.
— Oh, como mamãe está bonita! — gritou Frédérique, excitada. — Você vai ver, Tilly, serei outra vez a última a ficar pronta. Apresse-se um pouco, sim?
Mathilde apertou o corpete de cetim, e Madame van Erlevoort sorriu, admirando sua ondina aérea.
Mas que rumor arrastado era aquele atrás dela? Ao se voltar, avistou Johan e Lientje, ambos entorpecidos de frio e em camisolas.
— Não; isto já é demais. É coisa para enlouquecer uma pessoa — gritou Mathilde; e deixou Frédérique em pé, com o corpete meio apertado, e correu para os pequenos malandros. — Como podem ser tão levados, todos vocês, e atormentar tanto a mamãe! Amanhã estarão todos doentes. Vamos, para cima agora mesmo!
Falou com grande irritação, e as crianças quase começaram a chorar; mas Madame van Erlevoort veio em socorro delas.
— Não faz mal, Mathilde, deixe-as ficar mais um pouquinho.
— Na minha cama... entrem, depressa! — gritou Frédérique, rindo com toda a força. — Mas não toquem no meu tule; tirem as mãos daí!
E recuou, assustada, diante das mãos estendidas dos pequenos vândalos, que ardiam de vontade de amassar a gaze vaporosa e puxar os longos laços.
Mathilde via perfeitamente que a cama de Freddie era o melhor lugar para as crianças; e assim, pela milésima vez, cedeu, enquanto, com um suspiro, se punha a apertar o corpete de Freddie. Johan e Lientje rastejaram depressa para junto de Tine, debaixo da colcha, e os três ficaram sentados, olhando, com olhos cintilantes de vida e alegria, para a fada azul.
— A senhora vai pôr alguma coisa por cima de tudo isso, titia? — perguntou Johan. — Ou vai ficar como está, nua assim?
— Ora, seu menino bobo! — gritou Tine, indignada; e deu-lhe um empurrão, de modo que ele tombou sobre Lientje, e em poucos instantes a cama de Frédérique era um caos de cobertores de lã, cachos louros, travesseiros, bracinhos e perninhas rosados à mostra, tudo rolando e se contorcendo ao acompanhamento de gritos e berros altos.
Madame van Erlevoort e Frédérique quase choravam de tanto rir da cena, para grande confusão de Mathilde, que, por mais que tentasse, não conseguia amarrar os cordões; e Madame van Erlevoort chamou Otto e Etienne, que desciam em traje de noite e sobretudos, para entrarem e olharem a cena.
— Entre aqui conosco, tio Eetje; venha, venha! — gritou Johan.
Mas Etienne recusou a honra; estava bonito demais agora para se entregar a tais algazarras.
— Você parece uma rainha das fadas, Freddie! — disse Otto, sorrindo. — Pronta para...
— Para ser levada pelo vento, hein? Mas, Tilly, você ainda não terminou esses cordões?
— Ora, Freddie, você não fica quieta nem um minuto.
Por fim Tilly estava pronta, todos estavam prontos, e Madame van Erlevoort desceu, pois a carruagem acabava de chegar.
— Agora, crianças, fiquem na cama e não saiam correndo no frio — gritou Mathilde, em tom de comando, enquanto Frédérique, com a ajuda de Martha, envolvia-se na sortie; Otto tomava conta de um leque, e Etienne, de uma luva.
— Vamos, Freddie, mamãe já desceu há muito tempo — disse Otto, batendo impaciente o leque na mão.
— Freddie, você não esqueceu nada? — perguntou Mathilde.
— Diga, onde está sua outra luva, Freddie, ou você pretende usar só uma? — gritou Etienne o mais alto que podia, para se fazer ouvir acima do ruído e da algazarra que as crianças faziam na cama.
— Oh! como vocês todos me atormentam! Já estou quase com a segunda luva posta! Martha, meu lenço! Obrigada; tudo certo? Sim? Pois bem, adeus, meus amores!
— Freddie, você esqueceu alguma coisa! — gritou Etienne.
— O que é, então?
— Seu guarda-chuva, aqui.
— Menino bobo! Mamãe está esperando na carruagem, e você me atrasa com tolices! Bem, adeus, Tilly! Adeus, queridinhos! Sim, Otto, estou indo... Adeus, Tilly, obrigada pela ajuda. Adeus, Martha!
— Divirta-se muito, senhorita.
— Divirta-se muito, Freddie.
Freddie saiu, seguida por Otto e Etienne. Ernestine saltou da cama, seguida por Johan e Lientje.
— Aqui, crianças, venham cá! — gritou Mathilde.
Atirou-lhes sobre os ombros algumas peças de roupa, xales, cobertores, tudo quanto pôde encontrar.
— E onde está a senhorita Frantzen, para vocês terem vindo todos aqui desse jeito? — perguntou, descontente.
— No quarto dela, com Nico, mamãe; Nico está dormindo — disse Tine. — Vamos, mamãe, não fique zangada.
E ergueu para a mãe os bracinhos afetuosos. Mathilde sorriu e permitiu-se ser abraçada.
— Venham agora, todos vocês, para a cama — disse, um pouco apaziguada.
— Olhe só o estado em que ficou a cama da senhorita Frédérique — disse Martha, sacudindo a cabeça. — Posso perfeitamente fazê-la toda outra vez, malandros levados!
— Malandros bonzinhos! — gritou Lientje.
Mathilde tomou-a nos braços, e Tine e Johan seguiram atrás, tropeçando nas roupas estranhas que vestiam, e gritando de riso pelo sucesso de sua artimanha.
— Silêncio! silêncio! Ou vocês vão acordar Nico!
A senhorita Frantzen nada sabia daquilo; estava sentada perto da cama de Nico, com Hector a seus pés, ocupada em tricotar, e ficou nada pouco perturbada quando viu a caravana se aproximar. Aquelas crianças travessas, escapulirem assim às escondidas! Ela estava firmemente convencida de que todas dormiam tranquilamente no quarto ao lado.
As três foram postas na cama, trêmulas e entorpecidas, mas loucas de alegria; e a senhorita Frantzen pediu-lhes que não conversassem mais, e que dormissem.
E Mathilde inclinou-se sobre a caminha de seu Nico, que ali jazia de olhos fechados entre os cobertores, os lábios úmidos meio abertos, os cachinhos louros espalhados pelo travesseiro. Que mimo de menino!... E os outros também, verdadeiros tesouros — terríveis preocupações, é certo, completamente incontroláveis, sobretudo com ajudantes como mamãe e Freddie. Mas, ainda assim, como era feliz por tê-los, os quatro.
E inclinou-se e apenas tocou os pequenos lábios de Nico, sentindo-lhe a respiração morna e suave na face como uma carícia; e suas lágrimas caíram na testa dele, tão transparente e branca, tão macia... o menino querido...
Romance de Louis Couperus, marco da literatura holandesa fin-de-siècle, em tradução brasileira Literunico preparada a partir da tradução inglesa de J. T. Grein, em domínio público. A edição acompanha o percurso íntimo de Eline entre salões, afetos, hesitações e a corrosão silenciosa de uma sensibilidade excessiva.
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