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Eline Vere

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Eline Vere

Capítulo 9 · Eline Vere

Capítulo IX

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Capítulo IX

Alguns dias depois da noite de São Nicolau, Eline saiu certa tarde, levando o pequeno Ben pela mão.

Na noite anterior, estivera, junto com Madame Verstraeten, Marie e Lili, na ópera, para ver Il Trovatore; e naquela manhã pedira a seu velho resmungão de mestre de canto que a acompanhasse em “La nuit calme et sereine”. Ele sacudira a cabeça; não gostava daquelas árias de bravura da escola italiana, a respeito das quais Eline muitas vezes discordava dele; ela achava Bellini, Donizetti, Verdi música graciosíssima e melodiosa, como se escrita para seu soprano ressonante.

Ele, por outro lado, considerava-as infantis, com suas melodias leves, ondulantes e aéreas, e não se cansava de discorrer sobre a profundidade mais rica de Wagner. Mas ela o tinha completamente na mão, e ele tocava tudo que ela desejasse.

— Vamos, Ben, ande direito, seja bonzinho! — disse Eline ao menininho robusto. — Vamos, acompanhe a titia. Não é gostoso entrar em todas essas lojas bonitas?

Na noite anterior, na ópera, durante a cavatina do Conde de Luna, uma ideia lhe surgira na mente. Na vitrine de um fotógrafo, notara alguns retratos de Fabrice em diferentes papéis e trajes, e um desejo súbito a tomou de possuir um. Por isso agora estava a caminho de comprar um dos retratos.

E sorriu consigo mesma, como se saboreasse o prazer secreto daquilo, enquanto o imaginava com sua grande e pesada figura, seus belos cabelos e sua barba negra. Como era glorioso ser ator!

De Fabrice, seus pensamentos voltaram para o novo leque, que ela usara na noite anterior. Betsy achara que fora muito tola em levá-lo consigo antes de saber quem era o doador, mas ela não dera atenção às objeções da irmã; ao contrário, achava haver algo de fascinante naquela incerteza, que exercia uma atração peculiar sobre sua natureza romântica; de fato, já formara para si uma pequena narrativa romanesca a partir daquele pequeno incidente.

Fabrice a notara no camarote dos Verstraeten; ficara completamente cativado por ela; dali em diante era somente para ela que cantava, e seu coração se enchia de desapontamento sempre que não a via na ópera. Fora ele quem lhe enviara o leque, com sua inscrição modesta: “Mdlle. E. Vere”; vira-a usar o leque na noite anterior, e, em alguma ocasião, certamente se trairia por um olhar ou por certa nota no canto.

Ela sorriu de seus próprios romances, da extravagância de sua fantasia.

Lembrou-se de que, no verão passado, na academia de pintura, vira vários leques de Bucchi, e agora também recordava com que admiração os contemplara e como expressara o desejo de possuir um.

Quem teria tido a delicada atenção de atender a esse desejo? Com quem fora àquela exposição? Com Emilie de Woude, talvez com Georges — certamente Georges não poderia ter... — ou com seu mestre de dança, que a pedira em casamento, mas que ela recusara? Oh! era estúpido demais; não, não pensaria mais nisso — um dia saberia.

Pela Parkstraat e pela Oranjestraat, chegara ao Noordeinde e estava perto da loja de gravuras quando, de repente, ocorreu-lhe a ideia: o lojista não acharia absurdo uma moça comprar semelhante retrato? Não; jamais teria coragem.

Mas já estava diante da vitrine, atrás da qual massas de gravuras, fotografias, grupos de estatuetas em mármore e terracota e numerosos objetos de arte variados se exibiam em elegante confusão; atores e atrizes, cantores e pintores, com os nomes afixados: Estelle Desveaux, Moulinat, Théo Fabrice.

— Vamos, Ben — disse, e empurrou suavemente a criança para dentro.

Havia algumas senhoras na loja, escolhendo fotografias, e elas olharam para Eline. Ela não podia evitá-lo, mas de fato achou que corava sob o véu de tule branco.

— Posso ver alguns cartões de Ano-Novo, como aqueles da vitrine? — perguntou ao lojista. — Não toque nessas estatuetas, Ben.

Mostraram-lhe uma porção de cartões. Ela os examinou com atenção, tomou-os com as pontas dos dedos bem enluvados e pôs alguns de lado. Depois olhou ao redor, notou um monte de retratos e, com sua indiferença lânguida, apanhou-os. Os de Fabrice estavam entre eles.

Qual escolheria? Aquele de aparência melancólica, no traje de veludo negro e gola de renda, representando Hamlet? Aquele outro como Tell? Não, este, como Ben-Saïd, o papel em que o vira pela primeira vez. Mas levaria também aquele de Moulinat, o tenor, e de Estelle Desveaux, a contralto; assim não se notaria que viera expressamente por Fabrice. Mas então podia perfeitamente levar também outro de Fabrice, como Hamlet.

— Pode me dar estes cartões e estes quatro retratos?

— Devo enviá-los à senhorita?

— Oh, não, eu os levo. Quanto é tudo?

Pagou o dinheiro, tomou o envelope em que o vendedor os encerrara e deixou a loja com Ben, sob a firme impressão de que as senhoras, ainda ocupadas com as fotografias, a olhavam como se pudessem ler seus pensamentos mais íntimos.

Um brilho de prazer tomou o rosto de Eline assim que se viu do lado de fora.

Por fim, reunira coragem para fazer o que havia muito decidira, e falou com Ben de uma maneira doce e maternal. E quando, ao chegar à Hoogstraat, viu Jeanne Ferelyn, em sua capa de inverno larga como um saco e seu modesto chapeuzinho preto, caminhando do outro lado da rua sem notá-la, tomou Ben pela mão e, atravessando rapidamente entre duas carruagens, cumprimentou Jeanne com cordialidade sorridente.

Caminharam alguns passos juntas, e Jeanne lhe contou que Dora ia melhorando bem, mas que se vira obrigada a contratar uma ama-seca, pois nem sempre podia deixar as crianças aos cuidados de Mietje, tão desleixada e descuidada, e que isso lhe havia apertado um pouco as finanças. Eline obrigou-se a prestar atenção ao relato de suas últimas preocupações; mas logo Jeanne começou a falar com mais animação de Frans, do pai e do doutor Reyer, com quem agora estava se entendendo melhor.

Então, ao ver com que simpatia Eline a olhava e com que doçura falava com Ben, Jeanne revolveu algumas lembranças dos tempos de escola, e as duas riram de suas travessuras infantis e das cerejas que ela costumava tirar da capa de Eline. Jeanne irritou-se consigo mesma por ter formado impressão tão desfavorável de Eline quando a encontrara no jantar dos van Raat; agora a achava inteiramente natural e amável.

— Mas não quero detê-la mais, Eline — disse ela, parando de repente. — Tenho de fazer umas comprinhas sem importância, encomendar algumas panelas e um jarro de leite. Mietje anda quebrando umas coisas.

— Oh! eu não tenho nada a fazer, caminho com você até lá, se não me achar de trop, e se Ben não estiver cansado. Está cansado, homenzinho? Não, hein? Oh! ele é tão bom para caminhar!

Continuaram andando, e Jeanne encomendou as panelas, enquanto Eline entrou na loja de porcelanas e escolheu para ela um jarro de leite.

Ao mesmo tempo, sua mente continuava a girar em torno de Fabrice, e às vezes sentia um desejo irresistível de abrir o envelope e olhar seus retratos. Era tão apaixonadamente afeita à música, e Fabrice cantava com tanto pathos, com tanto mais sentimento que os outros atores. Ele ainda era jovem, pensava; um dia seria famoso e faria seu début em Paris. Jeanne nunca ia à ópera e provavelmente ainda jamais o vira.

Será que ela, Eline, o encontraria um dia na rua? E como ele pareceria em roupas comuns? Sim; certa manhã fingiria ter uma visita cedo a fazer em algum lugar e passaria diante da ópera. Talvez houvesse ensaio e, nesse caso, provavelmente encontraria alguns dos artistes perto do prédio.

Absorvida nos próprios pensamentos, nem sempre ouvia o que Jeanne dizia; mas continuava a olhar para ela, enquanto caminhava ao seu lado, com aqueles olhos simpáticos e aquele sorriso cativante, que estavam entre os maiores encantos de Eline. Enquanto isso, haviam dobrado a esquina, e, ao chegar à Hoogewal, ela se despediu de Jeanne.

— Bem, adeus; logo irei visitá-la, Jany. Dê lembranças minhas a Ferelyn, está ouvindo? Vamos, Ben, aperte a mão da senhora.

Em seu anseio por afeto, Jeanne sentiu algo como um brilho grato de calor ao som daquele nome, Jany; parecia um eco de dias antigos, quando, menina, todos a chamavam de Jany. E voltou depressa para a Hugo de Grootstraat, cheia de ânimo, ansiosa por estar outra vez em seu pequeno lar, com o marido e seus queridos filhinhos.

Eline sorriu consigo mesma ao passar pelo Willemspark a caminho de casa. Os galhos nus acima de sua cabeça cintilavam de geada branca, e o ar gelado estava claro e parecia cheio de ecos vagos. Sentiu um impulso forte de dar expressão à felicidade naquela atmosfera livre, numa explosão de canto jubiloso. Estaria então um pouco apaixonada — por aquele...? Não, não, era absurdo demais; era apenas que ele cantava bem!

Eline Vere

Sinopse

Romance de Louis Couperus, marco da literatura holandesa fin-de-siècle, em tradução brasileira Literunico preparada a partir da tradução inglesa de J. T. Grein, em domínio público. A edição acompanha o percurso íntimo de Eline entre salões, afetos, hesitações e a corrosão silenciosa de uma sensibilidade excessiva.

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LITEBN
LITEBN-978655093177830883983056
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