Universo da obra
Universo da obra
Frédérique notara que, na última noite de Ano-Novo, na casa dos van Raat, Otto conversara e rira bastante com Eline; não de modo extraordinário, mas mais do que costumava fazer, em geral, com moças. Durante alguns dias, depois disso, uma pergunta lhe subia constantemente aos lábios — pergunta que desejava fazer ao irmão —, mas não parecia surgir oportunidade alguma para formulá-la.
Às vezes, mostrava-se bastante brusca com Etienne quando ele queria brincar com ela, e Lili, Marie e Paul haviam chegado à conclusão de que ela perdera um pouco do bom humor; também brincava pouco com as crianças. Era uma de suas noites em casa; apenas Etienne saíra com alguns jovens amigos que tinham vindo buscá-lo. As crianças estavam na cama, e Madame van Erlevoort sentava-se com Mathilde no pequeno salão, a velha senhora com um livro, Mathilde com algum trabalho de agulha.
Frédérique entrou, sorriu para a mãe e, com carinho, alisou-lhe os cabelos grisalhos nas têmporas.
— Freddie, você toca a campainha para chamar Willem? — perguntou Mathilde. — Otto gostaria de uma xícara de chá no quarto; está ocupado escrevendo.
— Oh, sirva uma xícara para ele; eu mesma a levo.
Mathilde serviu uma xícara, e Frédérique a levou para cima. Na escada, perguntou a si mesma se teria coragem; talvez Otto dissesse alguma coisa por conta própria; mas, se não dissesse, ela se arriscaria. Entrou no quarto de Otto.
Ele caminhava para cima e para baixo, sonhadoramente, com as mãos às costas, muito ao contrário de seus hábitos habituais.
— Olá! Eis uma maninha simpática — disse ele, rindo, e tomou-lhe a xícara das mãos. — Vai ficar dez vezes mais gostoso vindo de dedos tão bonitos.
— Mas, Otto! — exclamou Frédérique. — Como pode ser tão tolo? Eu esperava uma espécie de elogio mais original, não uma platitude tão requentada.
Continuou a fitá-lo sorrindo, mas não ouviu a resposta dele, pois pensava consigo mesma em como formular a pergunta. Talvez ele não gostasse.
Ainda assim, queria dizer o que tinha a dizer, e tentou encontrar algum modo de introdução, um pretexto qualquer para atingir seu objetivo; mas, na franqueza de sua natureza, nada encontrou, e então começou simplesmente:
— Otto, eu... eu tenho uma coisa a lhe dizer, uma coisa a confessar.
— Um pecado?
— Um pecado, não; acho que dificilmente. Uma... uma indiscrição que cometi sem querer contra você. Mas precisa me perdoar de antemão.
— Como assim? Só pela sua boa-fé?
— Eu lhe digo que a indiscrição foi cometida involuntariamente, e... nem sequer fui tão indiscreta quanto gostaria de ter sido. Portanto, tenho direito a alguma recompensa; mas só lhe pergunto antes se posso contar com seu perdão.
— Muito bem; serei misericordioso. Diga, então.
— Você realmente não ficará zangado?
— Não, não. O que é?
— Por puro acaso... descobri... veja... sei quem, na última noite de São Nicolau...
Ele empalideceu um pouco, enquanto a fitava, cheio de expectativa ansiosa. Não lhe escapou com que atenção concentrada ele escutava.
— Deu... aquele leque... a Eline... aquele leque de Bucchi.
Ela permaneceu em pé bem diante dele, parecendo uma criança travessa, toda confusa com a própria confissão. Ele continuou a olhá-la, um pouco assustado, com os olhos grandes e fixos.
— Você sabe? — começou ele, gaguejando.
— Agora não fique zangado — retomou ela. — De verdade, não pude evitar. Entrei em seu quarto certa manhã; queria um pedaço de lacre, e... você nunca me proibiu de entrar em seu quarto, proibiu? Bati, mas você tinha saído; e, quando entrei e comecei a procurar o lacre, vi naquele escaninho o estojo de couro, que reconheci imediatamente à noite. A princípio pensei que fosse alguma coisa para mim e quis... quis abri-lo; você sabe como sou curiosa; mas não abri, e fiquei muito triste por ter descoberto seu presente. Diga agora: está zangado? De verdade, eu não podia evitar, podia?
— Zangado, minha querida? Não há absolutamente nada para ficar zangado — respondeu ele, com leveza forçada. — Um presente-surpresa não pode continuar surpresa para sempre; e, além disso... você não contou a Eline, é claro, contou?
— Oh, não; é claro que não.
— Bem, então que há? Nenhum mal foi feito — disse ele, com descuido. — Ou está triste porque o leque não era destinado a você?
Ela encolheu os ombros com desprezo.
— Espanta-me que me julgue tão infantil. Apenas...
— Bem, o quê?
Ela lançou-lhe um olhar perscrutador com aqueles olhos claros e verdadeiros, e ele se sentiu um pouco embaraçado sob aquele exame penetrante.
— Apenas... um rapaz... em geral não dá presentes assim... a uma moça, se não gosta muito dela.
— Oh, gosto muito de Eline; por que não lhe daria alguma coisa de São Nicolau?
— Não, Otto, você não está sendo franco comigo — disse ela, impaciente, puxando-o consigo para o sofá. — Venha, sente-se e escute-me um pouco. Um homem sensato como você não dá um leque, que não sei quanto deve ter custado, a uma moça, se... se não está apaixonado por ela. Não tente me fazer acreditar nisso; você nunca deu nada a Eline antes, e também não deu nada a Lili nem a Marie desta vez. Então, veja, não sou tão cega; consigo perceber muito bem que há algo mais nisso — continuou, pousando as mãos sobre os ombros dele.
Mas, de repente, parou.
— Oh, talvez você pense... talvez não queira que eu lhe fale disso — balbuciou, quase assustada.
— Freddie, ao contrário — disse ele, suavemente, atraindo-a para mais perto de si —, fico muito contente em falar com você sobre... sobre Eline. Por que não? Mas suponha, agora, que eu realmente gostasse muito, muitíssimo de Eline; você acharia isso tão imprudente de minha parte? — perguntou, sorrindo.
— Oh, Eline não é moça para você! — irrompeu ela de súbito, com fervor apaixonado. — Não, Otto, não; Eline não é o tipo de moça para você. É muito bonita, eu sei, e há nela alguma coisa... algo muito atraente; mas, para mim, ela é antipática, garanto. Acredite: você realmente não deve pensar mais nela; nunca seria feliz com ela. Você é tão afetuoso e bom. Se começasse realmente a gostar muito dela, talvez lhe consagrasse toda a alma, quisesse viver apenas para ela, e ela não lhe devolveria nem a décima parte do que você lhe desse. Ela não tem coração, é fria como gelo e cheia de egoísmo — nada além de egoísmo.
— Mas, Freddie, Freddie — interrompeu ele —, minha querida menina, como você se precipita! Onde adquiriu toda essa experiência da natureza humana, para me dar uma descrição tão precisa do caráter de Eline?
Irritou-a ouvi-lo pronunciar o nome dela tão suavemente, quase com carinho.
— Conhecimento da natureza humana? Não sei nada disso. Sei apenas o que sinto, e é isto: Eline vive só para si e é incapaz de fazer o menor sacrifício por outra pessoa. Sinto — não, declaro, estou convencida — que, se você se casasse com Eline, nunca, nunca seria feliz. Ela talvez gostasse de você por algum tempo, mas seu amor seria apenas egoísmo, como tudo nela é egoísmo.
— Freddie, você é severa — disse ele, com suavidade, mas em tom de censura. — É muito bonito da sua parte sentir tanto por mim, mas você está sendo muito, muito dura com Eline. Não creio que a conheça; pelo contrário, acredito que ela se sacrificaria inteiramente por alguém a quem amasse.
— Você diz que eu não a conheço; mas como pode você conhecê-la, então? Você só a vê quando ela é só sorrisos e amabilidade.
— Acha que é defeito nela preferir ser amável a ser descortês?
Frédérique suspirou.
— Oh, Otto, eu... eu não sei o que penso; só sinto que você não pode ser feliz com ela — disse, em tom de convicção.
Ele tomou-lhe a mão e sorriu.
— Ora, você fala como se fôssemos nos casar amanhã.
— Oh, diga... diga-me... não me ache... curiosa. Você não... pediu a mão dela, pediu?
Ele a fitou, ainda sorrindo, e sacudiu lentamente a cabeça.
— Então me prometa, sim, que vai pensar bem nisso. Não seja...
Ela agarrou-se a ele com carinho, e os olhos se encheram de lágrimas.
— Você é uma menina querida, Freddie, mas, francamente...
— Talvez ache absurdo que eu ouse aconselhá-lo?
— De modo algum. Ao contrário, sou muito sinceramente grato a você por isso; mas, ainda assim, não deve se deixar guiar por uma mera ideia, ou antes, por uma antipatia para a qual nem mesmo existe motivo, e julgar outra pessoa com tanta dureza. Aceite e siga esse conselho; então não a acharei absurda, mas uma maninha querida, queridíssima.
Ele a beijou várias vezes, e ela pousou timidamente a cabeça em seu ombro.
— Você não vai ficar zangado comigo, vai? Talvez eu tenha sido desajeitada; não devia ter falado assim.
— Para mim, você é mais querida justamente quando é mais franca comigo, e espero que sempre seja assim.
— Então talvez eu seja descortês e pouco amável — respondeu ela, com ênfase.
— E agora você está só um pouquinho maldosa. Que é? Está com ciúmes de Eline?
— Sim — respondeu ela, secamente.
— Por causa do leque, suponho — riu ele.
— Oh, você me provoca — fez ela, amuada. — Não; não por causa do leque; tenho uma dúzia deles, mas porque... porque você gosta dela.
— Façamos então um pacto. Vá e encontre para mim uma moça simpática que você considere digna de ser minha esposa e de quem você não tenha ciúmes; quando a encontrar, e eu gostar dela, não pensarei mais em Eline. Que me diz disso?
Ela não respondeu, mas se levantou e enxugou as lágrimas. Aquela brincadeira a desagradou e a fez temer que ele a achasse tola. Aproximou-se da mesa, apontou para a xícara de chá e disse:
— Seu chá está esfriando, Otto; por que não o bebe?
Antes que ele pudesse responder, ela já se fora, cheia de pensamentos contraditórios, contente por ter dado vazão ao que sentia e obtido a confiança de Otto; e, ainda assim, incerta se não teria feito melhor em nada dizer.
Havia cinco dias Eline não encontrava Fabrice em seus passeios matinais, e a decepção das manhãs estragava todos os dias que se seguiam. A princípio, tornou-se quieta, sombria e irritadiça; muito em breve ficou mais melancólica, já não cantava, recusava-se a ver Roberts, seu mestre, ou a acompanhar Paul van Raat em seus duetos.
Certa manhã, depois do passeio, por volta das dez e meia, voltou para casa e se atirou, cismadora, sobre o sofá, enquanto, com dedos vagantes, desprendia a capa. Não suportava Ben perto dela e mandou-o para junto da ama-seca; e, inteiramente exausta, com os grandes olhos cor de avelã úmidos e brilhantes de anseio insatisfeito, deixou o olhar vagar pelas palmeiras, pelos quadros, pelo grupo de Canova.
Uma opressão melancólica caiu sobre ela como uma nuvem, e perguntou a si mesma por que precisava viver, se não era para ser feliz. Para dar à tristeza uma forma definida, procurou motivos de queixa e fez deles o máximo possível; precisava de afeto, e não havia ninguém que a amasse.
Com Betsy, parecia-lhe, já não conseguia conviver; estava continuamente em desacordo com a irmã, e nem sempre era culpa sua; Frédérique mostrava-se ostensivamente fria com ela, por razão que ela não tinha a mais remota ideia. Apenas a velha Madame van Raat continuava afetuosa como sempre; mas, naquele momento, sentia-se pouco disposta a exibir aquela franqueza amável, temperada por um sabor de veneração, que lhe conquistara o coração da velha senhora.
Sim; sua vida era uma existência inútil; ela balançava continuamente de um dia a outro, sem objetivo algum, e ansiava por... por algo semelhante àquela visão vaga, sem forma definida, que parecia erguer-se numa esfera de amor, ora puramente ideal, como um idílio, ora mais simples de forma e inundada por uma auréola de intimidade e felicidade doméstica. Suspirou ao erguer a mão para a azaleia e amarrotar as folhas entre os dedos nervosos.
Com esforço, obrigou as cismas a assumir alguma forma definida diante da visão mental e, por um capricho súbito da fantasia, viu-se ao lado de Fabrice, ambos cantando na ópera de alguma grande cidade. Amavam-se e eram famosos; eram submersos em coroas e buquês, e toda a visão se ergueu diante dela viva e arrebatadora, como acontecera um dia enquanto cantava com Paul.
Mas sua imaginação, sem receber novo alimento, por não ver Fabrice havia tanto tempo, perdeu a vividez das cores; a visão se desbotou e a deixou num estado cinzento, sombrio — reflexo, parecia, do céu lá fora, pesado de nuvens escuras de chuva.
Sentiu as lágrimas quentes deslizarem ao longo dos cílios; tinha um grande anseio por Henk, a quem desejava confiar sua tristeza. Ele gostava tanto dela e sabia administrar-lhe palavras tão consoladoras, à sua maneira bondosa e desajeitada; o simples som daquela voz, tão boa, tão cordial e pesada, caía-lhe na alma como um bálsamo curativo. Assim permaneceu soluçando, pensando em como era desagradável todo aquele amuo com Betsy. No dia seguinte seria seu aniversário, o aniversário de Eline.
Daria Betsy o primeiro passo para a reconciliação, ou a causa da briga cabia realmente a ela própria? Se tivesse certeza de como seria recebida pela irmã, de bom grado teria tentado uma aproximação, ou até pedido desculpas, se fosse necessário; mas temia a frieza de Betsy. Então esperaria; sim, esperaria. A tarde passou devagar; as horas se arrastaram, como se cansadas sob o fardo de sua melancolia.
Depois vestiu-se para um jantar na casa dos Hydrecht, sem a menor expectativa de divertir-se ali. Teria pedido com prazer a Betsy que dissesse estar doente em casa; mas isso não serviria. Ao contrário dos Verstraeten pouco antes, os Hydrecht poderiam se ofender; e, além disso, talvez Betsy se recusasse a fazer o que ela pedia. Então foi, e forçou-se a uma alegria coquete que, com seu tato natural para ocultar os sentimentos, cegou eficazmente os olhos de todos.
No dia seguinte era vinte de janeiro, seu aniversário. Ficou até tarde na cama, cercada pelo calor das cobertas, na luz vermelha e suave refletida pelas cortinas, sem desejo algum de se levantar, nem anseio por seu passeio matinal. Se fosse, não o veria, dizia-lhe o pressentimento. Começava a se tornar infantilmente supersticiosa. Era agora quase nove horas. Se Mina entrasse antes de o relógio bater nove, para arrumar-lhe o lavatório, ela encontraria Fabrice no Bosch no dia seguinte.
Mas Mina veio depois das nove; e, quando a moça pôs tudo em ordem e saiu do quarto, Eline pensou em outra coisa. Se na noite anterior tivesse posto a pulseira no vaso grande, encontraria Fabrice; se a tivesse posto no pequeno, não. Ergueu-se, afastou as cortinas vermelhas de damasco da cama e olhou ao redor. Lá estava a pulseira, no vaso grande. Com um sorriso, tornou a recostar-se nos travesseiros.
Lutou consigo mesma para se levantar; mas por que não ficar na cama, naquele calor aconchegante? Estava cansada de tristeza; por que começar outro dia? Não tardariam a chegar os amigos para cumprimentá-la; teria de ser simpática e amável, receber os presentes com êxtase encantado, e estava longe de se sentir amável; não desejava ver ninguém.
Bateram dez e meia, e pensou que talvez Betsy viesse em breve, com algumas palavras amistosas, reparar a briga; escutou o passo da irmã na escada, mas suas expectativas foram vãs, e por fim, enervada pela languidez, levantou-se e começou a vestir-se preguiçosamente. O espelho lhe refletiu a imagem com algo de tristeza nos olhos e uma expressão cansada em torno da boca, e ela pareceu a si mesma bastante feia.
Mas que importava, afinal? Por quem deveria ser bonita? Não havia ninguém que a amasse com o fervor de que julgava seu coração capaz. Estava vestida, e de repente um arrepio a tomou.
Não se sentia à altura de descer; como se aproximaria de Betsy? Deveria apenas assumir uma atitude de expectativa? Por que Betsy não vinha encontrá-la no meio do caminho? Por que precisava continuar guardando rancor daquele modo, por uma coisa tão insignificante? Eline sentiu quase medo de ver Betsy na sala de almoço; entrou no boudoir, onde o fogo já ardia vivamente, e se atirou sobre o sofá, miserável e exausta de tristeza e solidão.
Sim, por que vivia? Afundava cada vez mais no abismo da melancolia quando, afinal, um vislumbre de luz veio perfurar a escuridão que a envolvia: ouviu Henk e Ben subindo a escada. Aproximavam-se; ela lhes ouviu as vozes; houve uma batida ruidosa à porta.
— Onde está você, menina? Ainda na cama? — gritou Henk.
— Não; estou aqui, no boudoir — respondeu ela, erguendo um pouco a voz.
A porta se abriu, e Henk apareceu, sacudindo a cabeça, enquanto Ben se esgueirava entre as altas botas de montaria do pai, apertando nas mãozinhas um buquê.
— Titia, muitas felicidades pelo seu aniversário; e isto é de Ben — disse a criança, como se repetisse uma lição aprendida de cor, enquanto lhe punha o buquê no colo.
— Mas, minha querida, que horas são essas de ficar lá em cima nesta manhã! A esta hora você geralmente já voltou do passeio — exclamou Henk.
Ela não respondeu, mas abraçou a criança, e seus olhos se umedeceram ao fazê-lo.
— Ponha... ponha na água, Ben, sim? Em um pouco de água morna. Ali, no vaso, com cuidado.
Ben, sempre obediente e dócil, fez o que ela mandou. Eline deixou-se cair outra vez nas almofadas e fitou o cunhado com um leve sorriso.
— Sinto-me tão miserável hoje... nada bem — disse, languidamente.
Henk aproximou-se mais, com as mãos às costas.
— O quê? Até no seu aniversário? — perguntou, alegremente. — Vamos, eu me apressaria a descer, se fosse você, sua preguiçosa; mas antes deixe que eu lhe dê um bom beijo — um beijo de verdade, está ouvindo?
E apertou os lábios nas duas faces dela, enquanto ela permanecia quieta e sorria.
— E aqui está uma lembrancinha para você, Elly; espero que goste — continuou, entregando-lhe um pequeno estojo.
Ela riu um pouco.
— Que engraçado você vir trazer meu presente aqui! Obrigada, Henk, muito obrigada.
Abriu o estojo; dentro havia um grampo de cabelo em forma de aranha de diamantes.
— Mas, Henk — exclamou —, como vocês me mimam! Lembro que, quando o vi há pouco tempo na van Kempen, eu disse que o achava muito bonito. Realmente, terei de tomar cuidado com o que digo no futuro — acrescentou, quase timidamente, pensando no leque de Bucchi.
— Betsy ficou de ouvidos abertos quando ouviu você falar do grampo — respondeu ele. — Ficamos sempre contentes em lhe dar alguma coisa que a agrade.
Aquilo quase a irritou, mas ela passou os braços em torno do pescoço dele e o beijou.
— De verdade, de verdade, vocês estão me mimando — balbuciou.
— Ora, ora, que bobagem! — exclamou ele. — Mas agora preciso sair para um pequeno passeio a cavalo; portanto, apresse-se a descer, menina, ou eu a carrego para baixo.
— Não, não vai fazer isso!
— Pois então; mas apresse-se.
— Sim, sim, daqui a pouco; mas sem bobagens, Henk, está ouvindo? — gritou ela, assustada, num tom sério e imperioso, pois previa um acesso de brincadeira prática e certamente não se sentia com humor para tolerá-lo.
Ele a tranquilizou, rindo. Tinha nos lábios as palavras para instá-la a reconciliar-se com a esposa, mas temia não ter tato suficiente para abordar o assunto com a devida cautela.
Ela poderia inflamar-se de paixão e, além disso, tudo acabaria se ajeitando em breve, pensou ele, e deixou o quarto. Ela se levantou e, demorando-se na toalete, suspeitou que Betsy devia ter pedido a Henk que levasse o presente para cima, para não ter ela mesma de lhe entregá-lo.
Sentiu-se embaraçada diante da própria atitude; agora era obrigada a dar o primeiro passo para a reconciliação, e isso lhe feria o orgulho. Pareceria que estava tão encantada com o presente deles que aquilo compensava todos os aborrecimentos passados. Era extremamente incômodo; ainda assim, agora não podia descer, cumprimentar a irmã com frieza apressada e começar o café sem dizer palavra. Lamentou muito não ter seguido o impulso do dia anterior de tentar uma aproximação.
Afinal, era realmente estúpido aquele amuo, e tudo por causa daqueles cães! E segurou a aranha de diamantes, coquete, contra os cabelos e a garganta.
Antes de descer, Eline abriu uma gaveta da escrivaninha. Com um sorriso furtivo, tirou dali um álbum, presente que dera a si mesma, e o abriu. Ele continha apenas retratos de Fabrice, em várias posições e trajes, que havia algum tempo comprava com muito tato, mas ainda assim não sem nervosismo; ora numa loja, ora em outra, sem jamais voltar à mesma, sempre temendo que o lojista adivinhasse alguma coisa de seu segredo.
Certa vez, passara um dia em Amsterdam para visitar alguns amigos; ali fora muito ousada e, numa livraria, comprara sete de uma só vez; ninguém a conhecia lá, e prometera a si mesma jamais pôr os pés naquela loja de novo. Com os olhos cintilantes de travessura voluptuosa, folheou a coleção, e, qualquer que fosse a página que virasse, aquele rosto moreno, de barba negra, vinha-lhe ao encontro dos olhos, tal como ela o encontrara no Bosch, com o grande feltro e o cachecol.
Ah! agora sabia; era um sentimento mais terno que admiração aquilo que vibrava através dela ao vê-lo, sentimento que, em seu senso feminino de honra e na vergonha de si mesma, a fez estremecer quando, por um instante, apertou os lábios contra aquela imagem amada. Sim, agora sentia: era uma paixão que lhe enchia todo o ser com uma riqueza de arrebatamento; um amor pelo qual sacrificaria tudo, absolutamente tudo que ele lhe exigisse.
E sua imaginação, um pouco aliviada do peso da melancolia pelas palavras alegres de Henk, nas quais às vezes ouvia o eco de desejos há muito desaparecidos, aqueceu-se de ideias românticas. Em sua fuga com Fabrice, viu-se numa estação ferroviária, esperando o trem e temendo que os alcançassem.
— Titia, titia, deixe-me entrar! — gritou Ben, do lado de fora da porta.
Ela guardou o álbum e abriu a porta. Ben entrou, segurando com cautela, nas duas mãozinhas, o vaso cheio de água.
— Com cuidado, homenzinho — disse Eline. — Tem certeza de que não derramou nada na escada?
Ele sacudiu a cabeça, satisfeito consigo mesmo por sua destreza. Enquanto punha o buquê no vaso, Eline refletiu que o presente do pequeno não passava de outra atenção da parte de Betsy. No fim, era um grande aborrecimento. Mas por fim reuniu coragem e desceu com Ben. Betsy estava na sala de jantar, em consulta com Grete.
— Bom dia, Betsy — disse Eline.
— Bom dia, Elly. Muitas felicidades! — respondeu Betsy, sem expressão alguma.
Eline não quis dizer mais; primeiro a criada precisava sair da sala. Não queria café; não tinha apetite.
— Grete, pode retirar; não quero nada — disse, e começou a brincar com Ben para fazer alguma coisa.
Betsy permaneceu sentada diante da escrivaninha, absorvida em contas e livros, como dona de casa cuidadosa.
E depois de alguns segundos de silêncio penoso, tendo Betsy dito a Ben, com irritação, que não incomodasse, e mandado o menino para o quarto das crianças, Eline se levantou. Atravessou o aposento até a irmã e pôs a mão em seu ombro.
— Betsy — começou.
Mas ainda não conseguia dizer nada sobre o presente, a aranha de diamantes.
— Betsy, vamos, não seria melhor se...? Você não sabe como lamento estarmos assim. Vamos, agora, não fique zangada comigo; eu errei.
— Bem, Eline, fico contente que você admita.
— Então está tudo esquecido?
— Oh, certamente. Você sabe que não há nada de que eu goste menos que aborrecimentos; portanto, não falemos mais nisso.
O tom frio dela foi como gelo para Eline; ainda assim, inclinou-se e beijou Betsy.
— Não, de verdade, sinto muito; é claro que não tenho direito algum em sua própria casa... isso me dói muito.
Queria dizer algo mais, mas não encontrou palavras, e seus lábios buscaram outra vez a testa de Betsy. Esta, porém, afastou-a de leve.
— Está bem; então não falemos mais nisso. Já não estou zangada. Mas sem tantos beijos; você sabe que não gosto disso.
O aniversário passou bastante sombrio para Eline. A reconciliação com Betsy não produzira nela a impressão desejada; havia imaginado algo muito mais cordial — um abraço de irmãs, uma mistura de lágrimas —, prelúdio de uma futura convivência afetuosa entre as duas.
Mas qual fora a realidade? Da parte de Betsy, uma condescendência gelada, ao lado da qual ela, em sua atitude, fizera uma figura um tanto lamentável. Sabia-se mais fraca que a irmã e, ainda assim, queria resistir ao domínio dela; mas, a cada tentativa de oposição, e sobretudo depois desta última, seguida como fora por uma vitória temporária e vazia, sentia-se cada vez mais impotente para continuar a luta com armas morais tão desiguais.
Seu orgulho não passara de uma frágil cana, quebrando-se a cada rajada de vento; e, em sua consternação, uma sombra sem esperança parecia envolver-lhe os pensamentos como um espesso véu de crepe. Apesar disso, naquela tarde manteve uma aparência de alegria em meio à companhia animada dos amigos que vieram felicitá-la.
Mas Madame van Raat, de cujos olhos sonhadores e azul-claros ela tanto gostaria de ver irradiar um raio de simpatia, estava indisposta e enviou desculpas por meio de Paul; isso foi para ela uma grande decepção. Madame van Erlevoort e Mathilde vieram acrescentar as desculpas de Freddie, que ficara em casa resfriada, e mais uma vez Eline se perguntou por que Frédérique se mostrava tão reservada com ela.
Jeanne Ferelyn a sobrecarregou com uma sequência de dificuldades domésticas, e foi preciso todo o seu tato e amabilidade para não demonstrar impaciência indevida ao ouvi-las. A pequena Cateau van der Stoor, que, como Madame van Raat, ela teria gostado muito de ver, parecia ter esquecido seu aniversário; dela não viu nem ouviu coisa alguma. Emilie de Woude, porém, trouxe consigo sua própria alegria ruidosa.
Sua conversa viva infundiu um pouco de claridade na atmosfera abafada do salão — onde o gás ainda não fora aceso —, no qual, ao longo das pregas pesadas dos drapeados, penetrava um crepúsculo que escurecia e parecia transformar o brilho das molduras douradas e o lustro cintilante das almofadas de cetim fulvo em sombras indefinidas e sombrias. Emilie quis ver os presentes de Eline, encantadoras ninharias: alguns buquês arranjados sobre uma mesa, em torno de uma grande cesta cheia de flores e frutas.
— Que corbeille esplêndida! — exclamou Emilie. — Pêssegos, uvas, rosas... linda! De quem é, Elly?
— De Vincent; bonita, não é?
— Quem me dera ter primos tão gentis.
— Psiu! — sussurrou Eline.
Vincent acabava de entrar na sala, e seus olhos procuravam a aniversariante. Betsy o recebeu, como sempre, com certo calor e cordialidade, em seu constante e vago temor do que aquele primo poderia fazer. Eline agradeceu-lhe e apertou-lhe ambas as mãos entre as suas.
Vincent desculpou-se por chegar tão tarde; eram cinco e quinze, e os Verstraeten e os demais se despediam no crepúsculo crescente; depois disso, Gerard entrou para acender o gás, fechar as persianas e correr as cortinas.
— Vincent, você fica para jantar? — perguntou Betsy.
Pois Betsy tinha pavor de enfrentar uma noite enfadonha. Não estavam convidados para lugar algum e, além disso, ela não achara de bom-tom combinar alguma saída no aniversário da irmã; nem poderia tê-lo feito, pois durante a recente disputa mal lhe dirigira a palavra. Com Vincent não precisava fazer cerimônia; podia perfeitamente convidá-lo meia hora antes do jantar. Vincent tinha conversa quando estava de bom humor e, de qualquer maneira, trazia um rosto novo à mesa.
Vincent aceitou o convite com um indiferente “com prazer”. Nesse meio-tempo, Henk declarou que queria dar uma caminhada e, pegando depressa o chapéu, saiu de casa, com a gola do casaco levantada e as mãos nos bolsos. Anne, a ama-seca, veio buscar Ben para deixá-lo um pouco apresentável, pois o rosto estava besuntado de geleia da massa que ele estivera comendo. Betsy também desapareceu, e Eline e Vincent ficaram sozinhos no salão, agora claro à luz do gás.
— Venha, vamos nos sentar no boudoir — disse Eline; e Vincent a seguiu até o pequeno aposento. Os raios suaves e claros do pequeno lustre de cristal, refletidos na pelúcia violeta dos móveis, emprestavam ao lugar um ar de intimidade misteriosa, algo que parecia tentar a uma confidência sem reservas.
Para Vincent, porém, aquilo parecia transmitir apenas uma sensação de calmo bem-estar; com um suspiro, deixou-se cair no sofá com sua languidez habitual e fez a Eline uma porção de perguntas indiferentes sobre os conhecidos que acabara de ver se despedindo. Enquanto lhe respondia, ela sentiu nascer dentro de si uma grande simpatia pelo primo.
Mais uma vez era aquela necessidade que havia nela — a mesma que despertara tamanha paixão por Fabrice —, a necessidade que sentia de muito amor e ternura, o anseio de gastar os tesouros represados de seu afeto. E, assim como aquilo impressionara Paul sob o reflexo pálido de uma lâmpada de petróleo, agora a impressionava, sob a luz brilhante do gás que brincava e faiscava em mil cores através dos pingentes pendentes.
A semelhança de Vincent com seu querido pai morto era tão marcante que, ao olhá-lo, ela quase se imaginava de volta à infância. Sim, exatamente assim, com aquela expressão dolorida em torno da boca, com aqueles olhos cheios de tristeza, seu pai costumava deitar-se, exausto por suas visões artísticas; exatamente assim sua mão costumava pender sobre o braço da poltrona quando o pincel lhe caíra da mão.
E a simpatia de Eline por Vincent se tornou mais forte, impregnada de compaixão e melancolia poética, enquanto ela escutava aquela voz baixa, pálida e murmurante, ao ouvi-lo falar de Smyrna; ele lhe parecia mais interessante do que a maioria dos rapazes de seu círculo. Para ela, tornava-se um mártir da pequenez do mundo quando lhe dizia que, para ele, a Haia era kleinstättig e tediosa, e que ansiava por muito espaço e liberdade. Ela também ansiava.
— Mas estou cansando você com minhas queixas, parlons autre chose — interrompeu-se ele, em tom alterado. — Não é polido de minha parte falar tanto de mim mesmo.
— Oh, não, de modo algum; você não me cansa nem um pouco — respondeu ela, um tanto apressada, bastante contrariada por ele ter cortado de modo tão brusco o fio de sua fantasia.
— Você não acha que posso partilhar inteiramente seus pensamentos, que não compreendo como se possa desejar outra coisa além desse sulco prosaico no qual continuamos a girar e girar? Às vezes eu também gostaria muito de escapar dele — exclamou, com um movimento dos braços semelhante ao de um pássaro cativo batendo as asas contra a gaiola. — Às vezes me sinto impelida a alguma extravagância terrivelmente tola — e sorriu maliciosamente ao pensar em Fabrice.
Ele, sorrindo também, sacudiu a cabeça e apenas tocou a mão erguida dela, quando esta caiu graciosamente a seu lado.
— E por que você desejaria cometer tolices agora? — perguntou. — Você vai aos extremos. Viver independentemente de todos, não se incomodar com a conversa fiada de um círculo, mas seguir as próprias ideias enquanto forem sensatas, mudar de ambiente sempre que se quiser — esse é o meu ideal. Nada conserva tanto a juventude quanto a mudança.
— Mas, para ser independente, para não se preocupar com coisa alguma, é preciso possuir mais força moral do que nós, em nossa supercultura, geralmente ousamos demonstrar — respondeu ela.
— Força moral! Ora, não; só é preciso dinheiro, é tudo — respondeu ele, brevemente. — Se sou rico, tenho boas maneiras, não cometo tolices, mas consigo me conservar simpático e agradável aos olhos do mundo, está inteiramente em meu poder realizar meu ideal, sem que ninguém me acuse de nada além, talvez, de um pouco de excentricidade.
Tudo isso era sóbrio demais para o modo de pensar dela, e Eline fez avançar suas próprias ideias, que lhe pareciam mais românticas.
— Sim, está bem, dinheiro, claro — retomou, evitando o argumento com verdadeira fraqueza feminina —, mas, sem força suficiente para impor a própria vontade, logo seríamos arrastados por todos os velhos hábitos. Veja, é por isso — ele riu da encantadora falta de lógica dela —, é por isso que eu gostaria tanto de fazer alguma coisa... tola... alguma coisa terrivelmente tola. Sinto-me forte o bastante para seguir meu caminho apesar do mundo. Às vezes me sinto mesmo muito arrebatada.
Ele apreciava o fogo e a animação que irradiavam dos olhos cintilantes dela, e toda a figurinha elegante, sentada ali em sua coqueteria vertiginosa, dava-lhe a impressão de uma borboleta prestes a esvoaçar.
— Mas, Eline! — exclamou, rindo. — Que ideia está metendo agora na cabeça? Que é que gostaria de fazer, então, que espécie de tolices? Vamos, confesse, criatura travessa.
Ela também riu.
— Oh, diga uma partida aventurosa!
— Comigo?
— Por que não? Mas acho que você logo me abandonaria à minha sorte. Eu seria um luxo um tanto caro demais para você, e me devolveria com muitos agradecimentos. Merci bien, então, se sua pergunta era um convite; prefiro esperar por um milord rico.
— Nada de amor numa cabana, então?
— Oh, Vincent, que coisa gasta! Jamais! Eu sucumbiria de ennui. Preferiria ser atriz e partir com um ator.
E ela estava toda faiscante de pura travessura exuberante; sentia um deleite secreto ao pensar em Fabrice e fitou Vincent ousadamente nos olhos; ele não podia adivinhar seus pensamentos.
Vincent desatou a rir; a vivacidade brincalhona que tomara o lugar de sua graça lânguida durante a conversa, o brilho dos olhos e o tamborilar da mãozinha sobre o joelho divertiam-no ainda mais do que as palavras, e, contudo, elas lhe eram bastante simpáticas em relação às próprias ideias; nelas se escondia um anseio de mudança muito semelhante ao seu.
Olharam-se sorrindo, e, sob o olhar suave, mas concentrado, dos olhos dele, Eline sentiu algo da lenta e enredadora fascinação de uma serpente.
— Que semelhança impressionante com meu querido papai — pensou ela, quase surpresa com a simpatia que sentia por Vincent, enquanto se levantavam ao som da campainha do jantar.
Romance de Louis Couperus, marco da literatura holandesa fin-de-siècle, em tradução brasileira Literunico preparada a partir da tradução inglesa de J. T. Grein, em domínio público. A edição acompanha o percurso íntimo de Eline entre salões, afetos, hesitações e a corrosão silenciosa de uma sensibilidade excessiva.
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