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Eline Vere

Universo da obra

Eline Vere

Capítulo 17 · Eline Vere

Capítulo XVII

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Capítulo XVII

Lili estava lendo no pequeno salão quando Frédérique entrou. Ela fizera algumas visitas e vinha terminar a tarde na casa dos Verstraeten.

— Marie saiu? — perguntou Freddie.

— Não — respondeu Lili. — Nós saímos. Marie ainda está lá em cima.

— O que Marie está fazendo lá? — retomou Frédérique, um tanto surpresa. — Que diabo ela anda sempre fazendo lá em cima ultimamente? Sempre que venho aqui, ela está lá em cima. Vocês não brigaram, não é?

— Oh, não; de modo algum — respondeu Lili. — Acho que Marie está desenhando alguma coisa; ou talvez tenha algo a escrever, como muitas vezes tem.

— Escrever o quê? Uma carta?

— Oh, não; um romance, ou coisa do gênero; mas é melhor você não dizer nada sobre isso. Talvez ela não goste que saibamos.

Frédérique ficou calada por um momento.

— Você não acha Marie um pouco mudada? — retomou.

— Mudada? Marie? Não; não notei nada. Por que pergunta?

— Oh! por nada em especial; estava apenas pensando. Marie anda tão ocupada agora, com uma coisa ou outra.

— Mas ela sempre foi assim; sempre tenta encontrar alguma coisa para fazer. Papai diz que eu sou a única preguiçosa da família.

Frédérique calou-se; mas por dentro se admirava de que Lili não tivesse reparado como ultimamente havia em Marie algo incomum, algo excitável e nervoso, tão diferente de sua antiga alegria saudável. Contudo, pensou, talvez fosse apenas fantasia sua, afinal.

— Você sabe que vamos aos Oudendyk esta noite — disse, para mudar de conversa.

— Oh, sim; você me disse há algum tempo que tinha sido convidada. Então está saindo de novo, hein? Andou um pouco blasé por algum tempo, não? Pelo menos ficava sempre doente depois de um convite — riu Lili.

— Oh, eu me sentia muito mal à vontade — respondeu Frédérique, francamente. — Era, sabe, por causa daquela loucura de Otto. Mas agora que não há mais nada a fazer no caso, lavo minhas mãos. Ele é quem deve saber melhor, não é? De todo modo, não vejo utilidade em me afligir porque...

Ela não terminou a frase, e seus olhos ficaram úmidos, enquanto uma expressão de altivo desdém se formava em torno de sua boca.

— Mas, Freddie — ponderou Lili com suavidade —, ele a conhece há tanto tempo; todo o tempo em que ela viveu na casa dos van Raat; e, se ele realmente gosta dela...

— Oh, não há nada que eu deseje mais do que tudo dar certo e eles serem felizes. Mas não posso evitar. Eline eu não suporto. É claro que agora me obrigo a ser simpática e amável com ela; mas você sabe que para mim é tão difícil parecer diferente do que sou. Vamos, porém, falar de outra coisa; agora não há remédio, e quanto menos eu pensar nisso, melhor. Subimos para ver Marie?

Lili concordou, e elas subiram. Na sala das moças, Marie estava sentada a uma pequena escrivaninha; algumas folhas escritas jaziam diante dela, mas sua cabeça repousava na mão, e com a pena, como que perdida em pensamentos, traçava alguns riscos sobre uma folha em branco. Quando Freddie e Lili entraram, sobressaltou-se de repente.

— Viemos perturbá-la em suas ocupações tão importantes — começou Freddie, rindo —, isto é, a menos que prefira que nos retiremos.

— Claro que não; você sabe muito bem, não sabe? Também é tão antissocial da parte de Lili sentar-se sozinha lá embaixo.

Lili não respondeu; nenhuma das duas tinha o costume de ficar no quarto à tarde, e era a própria Marie quem estava sendo antissocial.

— O que você está escrevendo? É segredo? — perguntou Freddie, lançando um olhar às folhas rabiscadas.

— Oh, não — respondeu Marie, com aparente indiferença. — É uma coisa que comecei há muito tempo: uma espécie de diário, uma descrição de nossa viagem à Turíngia e à Floresta Negra no ano passado. Eu queria fazer um pequeno esboço com isso, algo romântico, se possível, mas está ficando tedioso. Na verdade, nem sei o que me fez começar — acrescentou baixinho. — Não nasci para escrever, não é?

— Não posso dizer — disse Freddie, encorajando-a. — Leia-nos um pouco.

— Sim, imaginem eu entediando vocês com meus rabiscos de colegial. Pas si bête — gritou Marie, rindo. — Veja, uma pessoa precisa fazer alguma coisa; eu estava entediada, então comecei a escrever. Vou lhe dizer uma coisa, Frédérique — continuou, com um olhar tragicômico para a amiga —, acho que estamos ficando tão velhas. Sim, francamente velhas; estamos ficando tediosas. Sabe, faz meses que não damos uma boa risada juntas, como fazíamos tantas vezes.

— Com Paul ou Etienne? — acrescentou Lili, sorrindo à lembrança.

— Com eles ou sem eles. Costumávamos nos divertir sem os rapazes igualmente bem. Mas agora... não sei o que vocês acham, mas eu acho que todas nós estamos nos tornando umas chatas terríveis. Cada uma de nós vai arranjando suas preocupações: você, há algum tempo, sofre de antipatia por Eline. Lili não diz uma palavra; ou fica o dia inteiro no mundo dos sonhos, ou me sobrecarrega com suas divagações românticas; e eu, por puro ennui, começo a escrever sobre montanhas azuis e horizontes enevoados.

— Onde isso tudo vai terminar? — riu Freddie. — O futuro parece muito sombrio, sobretudo no seu caso. Atrás dessas montanhas azuis e desse horizonte enevoado há alguma coisa escondida, eu sei.

— Alguma coisa escondida? — repetiu Marie. — Oh, não, de modo algum; nada.

Frédérique imaginou ver uma lágrima deslizar por entre os dedos de Marie, que ela mantinha diante dos olhos. Lili se ocupava em arrumar alguns livros numa estante.

— Marie — sussurrou Freddie suavemente —, vamos, conte-me. Há alguma coisa? Posso fazer algo por você? Eu gostaria que me dissesse, se houver. Posso ver que há algo que a perturba.

Marie levantou-se e desviou o rosto.

— Oh, querida, não, Freddie; não imagine nada disso. Você está ficando tão romântica quanto Lili. Não há nada, realmente. É apenas que me sinto miseravelmente entediada, só isso; quero um pouco de alegria. Olá, velho camarada!

O irmão dela entrou, um tanto surpreso.

— Eh! O que vocês três estão fazendo aqui? Aposto que falando de seus cavalheiros! — gritou ele, ruidosamente.

— Que observação sábia — respondeu Marie. — Exatamente como os homens. É sua vaidade natural que o faz dizer uma coisa dessas, embora você mesmo não passe de um menino. Espere um pouco, vou lhe ensinar.

Ela correu atrás dele em volta da mesa, enquanto ele, zombando dela, saltava agilmente por cima de uma cadeira, que depressa colocou no caminho da irmã. Freddie e Lili caíram na gargalhada diante das travessuras dos dois. De repente ele saiu correndo do quarto, e Marie foi atrás.

— Que moça é essa Marie! — exclamou Freddie, admirada. Aquilo passava sua compreensão. Depois de algum tempo Marie voltou, sem fôlego.

— Pegou-o? — perguntou Lili.

— Claro que não — respondeu. — Esse menino é como uma cabra, tão ágil; salta por cima de tudo. Ah, é uma delícia, uma corrida assim. Eu queria ser menino.

Freddie foi embora, e Lili a acompanhou escada abaixo; Marie desceria logo. Mas ficou por algum tempo à janela, olhando para fora. No crepúsculo que caía, envolvendo tudo numa névoa transparente de tom acinzentado, jazia o canal, verde e imóvel, sombreado pelos ramos frondosos das árvores da margem. Para além dele estendia-se a Maliebaan, indistinta nas sombras que se juntavam, enquanto um véu fino e úmido de orvalho acinzentado subia de sua superfície.

Marie olhou para fora e suspirou. Sim; ela sempre expulsaria do coração, à força de riso, aquele sentimento, aquela amargura cruel e corrosiva, como acabara de fazer. Estava ficando velha, francamente velha, e tediosa. Sem piedade de si mesma, arrancaria da alma aquela flor; tornaria a apagar, uma e outra vez, aquela visão. Era tortura, mas ainda assim precisava fazê-lo.

E, enquanto fitava aquela névoa melancólica, subindo em camadas cinzentas sobre o vale distante, um rosto amado se ergueu diante de seus olhos úmidos: um rosto varonil, com expressão de franqueza e sinceridade nos olhos, e radiante de um sorriso cativante; mas não era sobre ela, e sim sobre Eline, que esse sorriso derramava sua luz.

Os bondes que corriam entre a velha estrada de Scheveningen e o Kurhaus estavam apinhados. No cruzamento da Anna Paulownastraat com a Laan Copes van Cattenburgh, eram assaltados pelas multidões em espera, e num instante ficavam cheios até transbordar — por dentro, por fora e nas plataformas. Havia enorme empurra-empurra para conseguir até o menor espaço de pé, entre a quantidade de senhoras que, nervosas e excitadas, esvoaçavam em seus trajes alegres, espiando pelas janelas na esperança de encontrar um lugar vago. Os condutores puxavam as campainhas e gritavam para os que ficavam para trás, que se afastavam e começavam a esperar a chegada do próximo carro. Os cavalos partiam, e os rostos daqueles que haviam conseguido se enfiar ali dentro, sentados apertados como sardinhas, agora brilhavam de felicidade depois da luta bem-sucedida.

— Que multidão! É assustador — disse Eline, olhando para baixo, para a massa ondulante, com um sorriso plácido.

Ela estava sentada ao lado de Betsy no landau aberto, com Henk e Otto diante dela. Dirk, o cocheiro, fora obrigado a parar por um momento, mas agora novamente a longa fila de carruagens começava a mover-se. Herman, o pequeno lacaio, sentava-se no banco da frente, de braços cruzados, imóvel e ereto em sua libré cinza-clara de botões brilhantes.

— Haverá uma multidão terrível — disse Betsy. — Mas é ao ar livre, por isso não precisamos temer ficar sem lugar.

Nem um sopro de vento se movia pela folhagem densa, e, depois de um dia de calor intenso e sol ofuscante, com o crepúsculo que se formava uma pesadez de chumbo parecia descer sobre tudo. Eline, um tanto fraca com o calor, recostava-se com as faces pálidas e falava pouco; apenas de vez em quando lançava a Otto, por baixo das pálpebras caídas, um olhar travesso cheio de felicidade. Betsy mantinha uma conversa animada com van Erlevoort, pois Henk também não estava muito falante, refletindo se não teria sido mais sensato ficar em casa tomando uma xícara de chá no jardim, em vez de sair às pressas para Scheveningen logo depois do jantar.

Betsy, porém, robusta e alegre, desfrutava o ar perfumado, que respirava profundamente. Desfrutava as almofadas macias e acolchoadas de sua carruagem luxuosa e bem-equipada, que contrastava tão vivamente com os outros veículos; desfrutava até a visão da atitude digna de Herman e das iniciais de prata bordadas nos cortinados do banco. Estava contente consigo mesma, com o luxo que exibia, e contente com sua companhia. Eline era tão encantadoramente bonita, como uma bonequinha; seu vestido de étamine cinza-claro era quase marcante em sua simplicidade, enquanto o chapeuzinho coquete emoldurava-lhe o rosto em seda. Erlevoort era um belo rapaz e tão distingué; Henk parecia tão confortável e corpulento, tão bem alimentado — seu marido não era realmente nada mau; ela poderia ter tido sorte pior. E acenava para os conhecidos quando a carruagem passava, com seu sorriso mais cativante; não, não devia parecer orgulhosa, por mais depressa que corressem suas belas éguas baias.

— Oh, glorioso! O ar está ficando mais fresco; começo a reviver! — murmurou Eline, erguendo-se, com uma respiração profunda, depois que passaram pela Promenade. — Sinto que preciso de ar fresco, depois da temperatura desta tarde.

— Ora, criança, estava delicioso! — declarou Betsy. — O tipo de tempo que eu gostaria de ter sempre.

— Bem, tudo o que posso dizer é que, depois de um mês assim, eu estaria morta. Diga, Otto, você está rindo; diga-me honestamente agora: acha que é afetação, ou acredita mesmo que eu não suporto esse calor?

— É claro que acredito em você, Elly.

Ela o olhou com fingida irritação e sacudiu a cabecinha em reprovação.

— Elly de novo — sussurrou.

— Oh, sim; que estupidez a minha. Bem, acho que sei uma coisa! — sussurrou ele de volta, encantado.

— O que vocês dois estão tramando juntos? — perguntou Henk, curioso.

— Nada, nada; não é, Otto? Um segredinho entre nós; silêncio! — e ela levou o dedo à boca, divertindo-se com a perplexidade deles.

O fato era que ela não queria que Otto a chamasse pelo diminutivo familiar que todos os outros lhe davam. Queria que ele inventasse um só para ele, um que não estivesse gasto e banal, algo novo e fresco. Ele não achava isso muito infantil da parte dela, achava? E ele se esgotara tentando encontrar um, mas qualquer coisa que dissesse não a satisfazia; era melhor tentar outra vez. Bem, teria encontrado algo afinal?

— Estou realmente ansiosa para saber o que é — sussurrou ela mais uma vez, sorrindo.

— Depois — sussurrou ele de volta, e ambos sorriram.

— Olhem, até agora achei vocês menos maçantes que a maioria dos noivos; portanto, não comecem também com essas inanidades intoleráveis — exclamou Betsy, indignada, mas sem muita raiva.

— Pois é; e você e Henk, então, antigamente? — riu Eline. — Hein, Henk?

— Ah, com certeza! — respondeu Henk, rindo, enquanto ela, ao pensar no noivado da irmã, anos antes, sentia erguer-se na mente uma lembrança tênue do que sentira naqueles dias, como algo muito distante e estranho.

Mas já haviam passado havia muito pelas villas da Badhuis road e pelas Galerias na parte de trás do Kurhaus, e pararam diante dos degraus do terraço, junto ao mar.

Os Eekhof e os Hydrecht estavam sentados a uma mesinha perto do coreto da banda quando Betsy, Eline, Otto e Henk passaram um a um pela catraca. Eles, porém, não os viram, e seguiram adiante, a mão de Otto pousada no braço de Eline.

— Vejam, lá estão os van Raat e a senhorita Vere, com Erlevoort! — disse o jovem Hydrecht. — Ultimamente estão aqui todas as noites.

— Como Eline anda ridiculamente simples no vestir! — observou Léonie. — O que será que isso significa? Nada além de afetação. E imaginem: touca e véu! Toda moça noiva acha que precisa usar touca e véu. Ridículo!

— Mas eles formam um belo par — disse Madame Eekhof. — Há casamentos menos adequados.

— De qualquer modo, andam decentemente — disse Ange. — Às vezes esses noivos se tornam ridículos; Marguerite van Laren, por exemplo, que está sempre escovando o pó do casaco do prometido.

Betsy, nesse meio-tempo, inclinando-se e sorrindo para a direita e para a esquerda, pensou que seria melhor não passearem mais, mas procurarem uma mesa em algum lugar.

Felizmente era agradável em toda parte; era até desejável sentar-se a certa distância do coreto, caso contrário o barulho seria grande demais. Assim, sentaram-se um pouco afastados, ao lado da Conversatie-zaal, onde ainda havia várias mesas desocupadas, mas de onde podiam ver e ser vistos.

Era uma troca constante de acenos e sorrisos, e Betsy e Eline de vez em quando cochichavam divertidas quando avistavam alguma toilette absurda ou algum chapéu ridículo. A própria Eline estava muito satisfeita com a simplicidade com que, desde o noivado, se vestia; uma simplicidade que, embora ainda elegante, contrastava demais com suas antigas toilettes luxuosas para não ser muito notada. Essa simplicidade, pensava ela, fazia sobressair sua beleza cativante numa espécie de relevo plástico e modelava sua figura esguia como se fosse uma estátua de mármore. A seus olhos, velava sua antiga frivolidade como uma película de graciosa seriedade, uma seriedade que, para Otto, com sua simplicidade natural, devia ser muito atraente.

Ela não podia deixar de ser como era; achava difícil não ser nada além de si mesma; por outro lado, era fácil imaginar-se desempenhando este ou aquele papel: desta vez, o da noiva um tanto afetada, mas sempre encantadora e feliz, de um jovem varonil, de seu próprio círculo, querido por todos por sua agradável naturalidade. Sim; era feliz — sentia-o, com todo o deleite de um anseio satisfeito no coração, que por tanto tempo desejara felicidade; era feliz na paz e na calma que o grande amor silencioso dele — que ela adivinhava mais do que compreendia — lhe dera; era feliz na quietude azul daquele lago límpido, aquele Nirvana em que sua alma carregada de fantasia deslizara como para um leito de plumas. Tão feliz se sentia, até nos próprios nervos, que estavam como cordas afrouxadas depois de uma longa tensão, que muitas vezes uma lágrima de intensa gratidão lhe subia aos olhos. A corrente de pessoas passava incessantemente diante dela e começava a girar um pouco ante seus olhos, de modo que uma ou duas vezes ela não retribuiu os cumprimentos.

— Eline, por que você não cumprimenta? Não está vendo Madame van der Stoor e a pequena Cateau? — sussurrou Betsy, em tom de censura.

Eline olhou em torno e fez seu aceno mais amável quando Vincent Vere e Paul van Raat se aproximaram. Eles permaneceram de pé, pois não se via cadeira vaga alguma.

— Vocês dois gostariam de sentar-se um momento? Isto é, se Eline quiser caminhar — perguntou Otto, meio se levantando.

Eline achou a ideia excelente e, enquanto Vincent e Paul tomavam seus lugares, ela e Otto seguiram lentamente a corrente dos passantes. Aproximaram-se do coreto, e os movimentos agudos dos violinos na abertura de Lohengrin se avolumavam cada vez mais, como raios de cristal.

Um grupo de atentos amantes da música se dispunha em semicírculo em torno da banda. Otto quis deixar Eline passar pela passagem estreita entre as fileiras de cadeiras e o grupo de pé, mas ela se voltou e sussurrou:

— Vamos escutar um instante?

Ele assentiu com a cabeça, e ficaram parados. Como ela desfrutava aquele majestoso crescimento da melodia. Parecia-lhe que não eram notas de música, mas as águas azuis de seu lago que passavam, límpidas e claras como a corrente sobre cujo seio deslizara a barca de Lohengrin; e ela via os cisnes, majestosos e belos.

No forte fortissimo ela respirou fundo, e, enquanto os fios frágeis de harmonia produzidos pelos violinos se fiavam, cada vez mais tênues em textura, também os cisnes, majestosos e belos, se afastavam flutuando.

Os aplausos ressoaram por todos os lados; o semicírculo se desfez.

— Belo... oh, que belo! — murmurou Eline como em sonho. E, encantada, sentiu a mão de Otto procurar seu braço; a vida era doce, de fato!

— Você não acha tolice? Sempre me sinto tão... tão melhor do que em outros momentos quando ouço música bonita; é então que tenho a sensação de não ser inteiramente indigna de você — balbuciou-lhe ao ouvido, para que ninguém a escutasse. — Talvez seja infantil, mas realmente não posso evitar.

Ela o olhou sorrindo, mas quase ansiosa, em suspenso pelo que ele responderia. Muitas vezes sentia certo medo do que ele pudesse pensar dela, como se uma palavra irrefletida bastasse para perdê-lo, pois ainda não compreendia como nem por que ele a amava.

— Oh, pelo amor de Deus, não me coloque num pedestal tão alto — respondeu ele, bondosamente. — Eu me sinto tão comum, tão pouco acima dos outros; você não deve se pôr tão abaixo de mim. Você, não inteiramente indigna de mim! De onde tira essa ideia? Bobinha! Quer que eu lhe diga uma coisa? Acho realmente que você não se conhece.

Será que ele tinha razão? perguntou-se ela; não se conhecia? Uma surpresa alegre a encheu; ela pensava conhecer-se tão bem. Talvez ainda houvesse em sua alma algo de que nada sabia, algo talvez de onde fluía seu amor por ele. Caberia a ele revelar-lhe sua própria natureza interior?

— Oh, Otto... — começou.

— O quê? — perguntou ele, suavemente.

— Nada. Gosto tanto de você quando diz alguma coisa sobre si mesmo e sobre mim — murmurou ela, cheia de uma sensação bem-aventurada à qual não conseguia dar expressão. A mão dele apertou-lhe suavemente o braço, e um tremor passou por ela enquanto continuavam a caminhar em meio à multidão risonha e empurrante entre as mesas, observados por todos que os conheciam.

— Vejam Erlevoort e Eline ali, caminhando felizes lado a lado, perdus dans le même rêve. De novo não nos veem! — gritou Léonie, quase com pesar, ao passar por eles com Hydrecht.

Eline e Otto ouviram de repente seus nomes pronunciados em voz baixa. Olharam em volta e viram Madame Verstraeten sentada a uma mesinha com Marie, Lili e Frédérique. Georges de Woude já se levantara e lhes acenava sorrindo. Eles se aproximaram e apertaram mãos.

— Olá, Freddie! — disse Otto, surpreso.

— Madame Verstraeten teve a bondade de me pedir que viesse — respondeu ela, à guisa de explicação. — Otto, acabamos de receber uma carta de Horze: todos estão muito bem e mandam lembranças. Para você também, Eline.

— Muito obrigada! — respondeu Eline, cordialmente, enquanto por um momento se sentava na cadeira de Georges, ao lado de Madame Verstraeten. Marie empalidecera muito, mas isso não se notava sob seu véu branco.

— Théodore escreve que Suzanne e van Stralenburg, com o bebê, virão ficar com eles na semana que vem, e mamãe está toda agitada com isso.

— Como, mamãe ia para Horze? E Howard vem para cá?

— Sim; é justamente esse o dilema.

— Querida velha Madame Erlevoort! — disse Madame Verstraeten.

— Percy escreveu dizendo que viria para a segunda metade de julho. Bem, van Stralenburg não pode ficar depois do dia vinte, escreve Théodore. Então você compreende — e ela se obrigou a olhar gentilmente para Eline —, compreende como mamãe se sente. Viajar até Zwolle ela não poderá conseguir; e deixar Haia antes do dia vinte, quando Howard e Cathérine vêm... isso, naturalmente, ela não pode fazer.

— Mas Howard também vai para Horze mais tarde, não vai? — perguntou Otto.

— Sim; mas primeiro ele quererá ficar um pouco em Haia e aproveitar Scheveningen — respondeu Frédérique. — Mamãe está pensando em toda sorte de planos; ficaria desesperada se não visse o novo neto este verão, você compreende.

— Bem, então convencerei mamãe a ir a Zwolle comigo, um destes dias; será a melhor saída — respondeu Otto. — A viagem para Horze ainda é mais incômoda.

— Você poderia tentar — disse Frédérique. — Isso certamente resolveria o problema.

Nesse meio-tempo, Lili disse a Madame Verstraeten que daria uma volta com de Woude, e a velha senhora pediu a Otto que se sentasse por um momento até que eles voltassem.

— Como Eline está bonita, não está, de Woude? — perguntou Lili. Desde que patinara com ele, permitia que ele a chamasse pelo nome, e ela o chamava simplesmente de de Woude. — Não posso deixar de reparar nisso sempre que a vejo.

— Sim; está muito bem — respondeu Georges, indiferente.

— Não; eu acho que ela está francamente bonita — insistiu Lili. — Como é possível que você não a ache bonita? Que gosto curioso você tem, com certeza!

Ele riu alegremente, saboreando um pensamento secreto.

— Não posso evitar, posso? Se ela me deixa inteiramente indiferente, tenho outro ideal de beleza. Mas, se você quer absolutamente que eu a ache bonita, então vou olhar outra vez.

— Oh, não, não; não me importo nem um pouco — respondeu ela, também rindo. — Só que todos os cavalheiros a acham bonita, por isso não consigo entender que você não ache. Também não consigo compreender por que Frédérique não gosta dela. Se eu fosse homem, me apaixonaria loucamente por ela.

— E lutaria um duelo com Erlevoort, suponho.

A primeira parte do programa terminara, e a multidão de passantes ficou mais densa. Georges e Lili viram-se cercados por todos os lados, sem conseguir avançar.

— É horrível — disse Lili. — Não vejo prazer algum nisto quando há tanta gente.

— Vamos tentar chegar à areia? — perguntou ele, baixinho.

— Se conseguirmos — disse Lili, satisfeita com a ideia. — Mamãe não se importará, suponho?

— Oh, claro que não, sob meus cuidados — disse ele, tranquilizador, e com evidente orgulho.

Passaram depressa pela roleta. Com uma sensação de alívio, desceram os degraus do terraço, atravessaram a estrada e correram pela larga escadaria que levava à areia. Aqui e ali, algum scheveninguense passeava com passo lento, medido e pesado, acompanhando o balanço da espessa massa de saias de sua companheira.

E bem em frente ao Kurhaus, banhadas pelo brilho amarelo da luz de gás, as ondas vinham quebrar com um som fresco e reconfortante.

— Ah! — exclamou Lili. — Como é muito mais agradável aqui!

O mar, calmo e liso, corria em matizes de verde, azul e violeta, aqui e ali coroado de espuma branca e reluzente ao longo da praia. No céu, miríades de estrelas cintilavam, e a Via Láctea parecia uma toalha de pérolas no meio da misteriosa infinidade de azul pálido. Do mar parecia subir um rumor indefinível, como o que se produz numa concha gigantesca.

— Como é bonito e tranquilo aqui, depois daquele ruído; chega a encantar! — murmurou Lili, em êxtase.

— Sim — respondeu Georges.

Ela quase tropeçou em alguma coisa; então ele lhe pediu que tomasse seu braço, e ela o tomou. Pareceu-lhe que tinha muitíssimo a lhe dizer, e que jamais conseguiria exprimir-se sem parecer ridículo. Ela também sentia um delicioso desejo de abrir a alma, de falar do mar e do céu que lhe pareciam tão belos; mas envergonhava-se um pouco da poesia que havia em seu coração, tão estranhamente contrastante com os círculos prosaicos e banais em que geralmente viviam. Temia parecer afetada, e nada disse. Ambos ficaram em silêncio enquanto caminhavam devagar, com o rumor do mar nos ouvidos e uma sensação suave, calmante, no coração, que lhes parecia mais expressiva que as palavras.

Prosseguiram lentamente, envoltos em sua solidão, com a calma do mar diante de si. E ele sentiu que precisava dizer alguma coisa.

— Eu poderia continuar andando assim com você para sempre — disse ele, e o tom brincalhão disfarçava um pouco o sentido de suas palavras.

Ela riu; afinal, era apenas uma brincadeira.

— Então talvez eu me cansasse.

— Então eu a carregaria.

— Você não conseguiria; meu peso o esmagaria.

— Pensa tão pouco assim da minha força? Venha, vou lhe mostrar.

— Mas, Georges, como se atreve? Vou acabar ficando zangada com você, ao menos se não me pedir perdão imediatamente.

— E como devo fazer isso? — perguntou ele, com fingida humildade.

Ela o deixou desenrolar uma longa lengalenga:

— Eu, Georges de Woude van Bergh, peço humildemente desculpas a... por ter...

E ele repetia cada palavra, enquanto o eco delas vibrava agradavelmente em seu ouvido.

Pois ela não estava tão zangada quanto queria parecer. Parecia-lhe que o passeio nunca acabaria, como se continuassem a vagar por aquela praia clara e ondulante até avistarem um novo horizonte.

— Vamos, precisamos voltar — disse ela de repente. — Estamos indo longe demais.

Voltaram-se e ficaram bastante assustados ao ver como o Kurhaus se achava distante, banhado por um brilho avermelhado; mas, para ela, aquele susto se dissolveu subitamente numa ternura, numa doce indiferença. Que lhe importavam os outros lá adiante? Estavam juntos, junto ao mar.

— Lili, de fato precisamos nos apressar — disse ele, rindo, um pouco confuso. — Sua mãe vai se perguntar onde fomos parar.

Desta vez, ela se sentiu realmente magoada com a pressa dele; então ele não podia perceber aquela terna indiferença; não sentia, como ela, que estavam juntos junto ao mar, e que todo o resto era nada, nada!

— Eu realmente não posso marchar nesse passo pela areia — disse ela, um pouco contrariada, agarrando-se mais ao braço dele. Mas ele foi inexorável; que se apoiasse nele, se não conseguia andar depressa o bastante. Sem dúvida, podia ser surpreendentemente obstinado sob o véu de sua suave afabilidade.

— Mas, Georges, eu realmente não consigo, estou exausta! — arquejou ela, irritada, embora a suposta cólera de sua voz se desfizesse num tom suplicante. Ele, porém, rindo, correu pela larga escadaria, quase a arrastando atrás de si, com o braço dela firmemente preso ao seu; e, na verdade, ela não pôde deixar de rir. Era muito engraçado, sem dúvida, correr assim no escuro.

Subiram um pouco mais devagar os pequenos degraus que levavam ao terraço, e, enquanto Georges procurava os bilhetes do recinto, Lili sacudiu a areia do vestido.

A segunda parte do programa havia começado, e a banda lançava os metálicos clarins da marcha da Reine de Saba; alguns passeantes ainda circulavam, mas já não havia multidão. Eles se apressaram com aparente indiferença, embora as faces de Lili estivessem vermelhas como fogo, até sua mesinha. Madame Verstraeten estava sentada sozinha com Marie e Frédérique; Otto e Eline haviam saído.

— Meu Deus, onde vocês dois foram se esconder? — exclamou Marie, enquanto Georges e Lili se sentavam nas cadeiras sobre as quais fora atirada uma capa para reservá-las. — Eu fui passear com Paul, e Eline e Otto realmente não puderam guardar seus lugares por mais tempo.

— Fizemos esforços quase sobre-humanos para reservá-los, não foi, madame? — acrescentou Frédérique.

— Mas onde vocês estavam, afinal? — perguntou Madame Verstraeten, admirada. — Na Sala de Conversação, vendo a dança?

Georges contou-lhes do passeio à beira-mar, e Lili admirou intimamente o tato com que ele respondeu às perguntas de sua mãe.

Henk e Vincent estavam sentados sozinhos a uma mesa perto da Sala de Conversação, enquanto Betsy e o jovem Hydrecht passeavam numa paquera um tanto barulhenta demais, e Eline e Otto haviam se sentado por um momento ao lado de Madame Eekhof, por quem já tinham passado quatro vezes sem saudá-la, como declarou Ange.

— Hoje quase morri com este calor terrível — resmungou Vincent.

— Sim; Eline também não o suporta — respondeu Henk, esvaziando seu copo de Pilsener.

Vincent não bebia nada; sentia-se um tanto tonto com o incessante vaivém circular de toda aquela gente. Raramente ia a Scheveningen; de manhã, o calor era insuportável na areia abrasadora, e à noite aquilo o cansava demais. Uma ou duas vezes ia apenas para poder dizer que tinha ido.

Uma pergunta a Henk estava em seus lábios, uma que ele mal se atrevia a fazer: um pedido de dinheiro. Da segunda vez que Henk lhe adiantara dinheiro, já não o fizera com sua habitual bonomia brusca. A eterna penúria de Vere começava a cansá-lo; era sempre a mesma cantilena! Isso não escapara a Vincent; mas, ainda assim, ele não podia evitá-lo, e começou com uma introdução, com uma leveza de modos assumida.

— Creio que poderei lhe pagar parte da minha dívida esta semana, van Raat. Estou esperando dinheiro. Só que, por ora, estou horrivelmente curto. Se eu já não tivesse abusado tantas vezes de sua bondade, pediria mais uma vez sua ajuda; mas temo estar ficando indiscreto. Vou ver se me arranjo esta semana.

Henk não respondeu. Com a bengala, sentado, marcava lentamente o compasso da música.

— É uma maçada eu não ter chegado a um acordo com aquele negócio do quinino — retomou Vincent. — Mas, veja, acabo de receber uma carta de um amigo na América; ele é rico e bem relacionado, e vai me conseguir uma apresentação para uma casa comercial em Nova York. Mas, por enquanto, sabe... Escute, van Raat, você me prestaria um imenso serviço... empreste-me mais cinquenta florins.

Henk virou-se para Vincent com um movimento impetuoso.

— Olhe aqui, Vere, será que essa amolação nunca vai ter fim? Preciso confessar francamente que isso começa a me enjoar. Um dia são mil e quinhentos florins, depois cem, depois cinquenta. O que... o que, pelo amor de Deus, você está esperando, afinal? O que pretende fazer? Por que fica à toa desse jeito, se não tem um centavo no mundo? Por que não tenta arranjar alguma coisa para fazer? Eu não posso sustentá-lo, posso?

Vincent sentira um vago pressentimento da tempestade que se aproximava e deixou que as frases curtas, desconexas, que Henk, em sua paixão desajeitada, rosnava, passassem sobre ele sem contradizê-las. Mas seu silêncio fez Henk quase se sentir constrangido, e o som da própria voz reverberou asperamente em seus ouvidos. Ainda assim, prosseguiu:

— Além disso, você fala um monte de bobagens sobre dinheiro vindo de Bruxelas... ou de Málaga; outra vez, deve vir de Nova York. Quando é que isso vem, eu gostaria de saber? Você entende, não vou à ruína se não me pagar o que deve, e também nunca vou importuná-lo por causa disso; mas, somando tudo, agora não está longe de dois mil florins, e estou ficando farto. Pelo amor de Deus, não continue vadiando aqui pela Haia; procure alguma coisa para fazer.

O tom impetuoso de Henk já cedia lugar a um mais bondoso, mas Vincent permanecia em silêncio, os olhos fixos nas pontas das botas, que tocava suavemente com a bengala, e Henk não sabia o que dizer em seguida. Foi um alívio para ele quando Vincent enfim ergueu a cabeça e murmurou:

— É verdade... você tem razão... mas não é culpa minha... as circunstâncias. Seja como for, verei o que posso fazer... desculpe incomodá-lo.

Levantou-se devagar do assento, enquanto Henk, a quem aquela resignação plácida deixava muito constrangido, procurava em vão alguma frase apropriada.

— Bem, boa noite, au revoir! — disse Vincent, com um sorriso fraco, e fez um aceno a Henk sem lhe oferecer a mão. — Boa noite; preciso ir.

Henk quis estender-lhe a mão, mas Vincent já lhe dera as costas, e Henk o viu abrir lentamente caminho pela multidão, aqui e ali erguendo o chapéu com um movimento lânguido.

Muito insatisfeito consigo mesmo, Henk permaneceu sentado sozinho à mesa. Depois de algum tempo, porém, Eline e Otto voltaram e, rindo, expressaram solidariedade por sua solidão. Betsy também foi logo trazida de volta por Hydrecht, cuja mão apertou cordialmente. Era tarde; muitas pessoas já tinham partido antes do último número, e agora que o concerto terminara, a multidão se retirava lentamente pelo Kurhaus. Aos poucos, o ruído da atmosfera carregada de música e risadas se dissipou numa calma repousante, enquanto aqui e ali os lampiões de gás já eram apagados, e apenas um ou outro grupo disperso continuava sentado, desfrutando o ar balsâmico, que se tornava a cada momento mais fresco e mais puro.

— Está glorioso aqui; vamos ficar sentados um pouco mais? — perguntou Betsy.

— Melhor darmos uma volta de carruagem — disse Eline. — Ao menos, se você não acha que ficará tarde demais e que os cavalos não estão cansados, Henk.

Betsy achou Eline um tanto excêntrica por querer passear de carruagem tão tarde da noite, mas ainda assim a ideia lhe agradou. E caminharam até os fundos do Kurhaus, onde a carruagem os esperava.

Eline achou que o vento aumentara e preferiu sentar-se à frente, sob a capota semicerrada, ao lado de Otto. Betsy disse a Dirk que voltasse para casa pelo Van Stolkpark.

Os contornos das vilas pareciam vagos e sombrios entre as massas escuras e indistintas de folhagem, através das quais, de vez em quando, uma brisa suave farfalhava com som embalador. Mas o bater dos cascos dos cavalos e o leve rumor das rodas pela estrada abafavam o suspiro do vento com um ruído que não era interrompido por palavras.

Betsy recostou-se confortavelmente e desfrutou o ar fresco da noite. Henk ainda estava sob a influência desconfortável de sua conversa com Vincent, a quem julgava ter ferido, e Eline deixou os pensamentos vagarem num delicioso devaneio. Tirara o chapéu, inclinava-se um pouco para Otto e escutava sua respiração regular. Ele, eficazmente escondido na sombra da capota erguida, tinha o braço em torno de sua cintura e a puxara um pouco para si, de modo que a face dela quase repousava em seu ombro. E ela era muito feliz; nada mais desejava senão ser conduzida assim, em seu braço, pela brisa da noite, sob a folhagem que farfalhava suavemente. Não podia imaginar nada mais doce do que apoiar-se assim nele, sentir a passagem de sua respiração por seus cabelos e o braço dele em torno de sua cintura como um cinto de amor.

E, cedendo às deliciosas influências do momento, deixou a cabeça cair sobre o ombro dele.

— Que nome pensou para mim? — sussurrou-lhe ao ouvido.

— Nily — sussurrou ele de volta, e, enquanto ela sentia o braço dele apertar sua cintura com mais força, seus lábios repetiram inaudivelmente o nome, cujo eco ressoou por todo o seu ser como uma carícia de amor jubiloso.

Mathilde van Ryssel alugara uma barraca à beira-mar e dissera a Jeanne Ferelyn que viesse sentar-se ali com os filhos sempre que quisesse. A princípio, por acanhamento, Jeanne só aproveitara ocasionalmente o convite; mas Mathilde insistia, e agora Jeanne vinha com muita frequência. Às vezes, ambas combinavam sair de manhã cedo e levar alguns sanduíches — as crianças poderiam beber bastante leite na barraca de laticínios; e assim se sentavam as duas sob o toldo da barraca, conversando sobre seus trabalhos, enquanto os filhos cavavam com suas pazinhas num grande buraco de areia diante delas, ou se ocupavam pela praia construindo os mais maravilhosos aquedutos. Jeanne imaginava que seus filhos estavam ficando mais robustos e menos chorões, agora que conviviam com os pequenos van Ryssel, barulhentos e brincalhões; e ela e Mathilde contemplavam encantadas aquele bando turbulento. Jeanne sentia especialmente a influência daquele convívio frequente com Mathilde, em quem encontrara uma amiga que compreendia suas aflições e que, com sua triste experiência e sua resignação plácida, estava sempre pronta a aconselhá-la e ajudá-la. Falavam muitas vezes dos filhos e dos assuntos domésticos, e Jeanne achava Mathilde, embora habituada aos ambientes mais aconchegantes, extremamente prática e econômica.

Mas aqueles dias agradáveis junto ao mar ensolarado não duraram muito, pois os Ferelyn tinham de partir. Iriam para Boppard, onde Frans devia submeter-se à cura pela água fria, e Jeanne quebrava a cabeça tentando calcular as prováveis despesas da viagem. Como poderiam se permitir ficar em Boppard talvez seis semanas, com seus três filhos, enquanto, ao mesmo tempo, não podiam abrir mão dos quartos na Hugo de Grootstraat?

Madame van Erlevoort, com Otto e Eline, que desejava conhecer os parentes de seu noivo, estivera em Zwolle por um ou dois dias, e a velha senhora estava em êxtase com o pequeno van Stralenburg, um bebê tão rechonchudo e firme quanto qualquer um que já tivesse visto, com aquela cabeça cheia de cabelos escuros e encaracolados. Sentia-se grata a Otto por tê-la instado a fazer a viagem a Zwolle; ao Horze ela ia todos os verões, e a ida a sua casa de campo era uma ocorrência tão comum que não via inconveniente algum nela; mas qualquer outro afastamento de seu círculo doméstico lhe doía, como se estivesse arrancando-se para sempre de seus entes queridos. Era para ela um luxo estar de volta, mais uma vez, à sua casa espaçosa no Voorhout, com seus móveis um tanto desbotados e antiquados, mas cheia de conforto e bem-estar. Eline achara os van Stralenburg pessoas encantadoras: Suzanne, uma mãezinha querida, não bonita, às vezes um pouco descuidada no vestir, mas tão espontânea e cordial, tão louca por seu menino, que era uma delícia vê-la; o marido, um sujeito bondoso e afável, mas completamente mimado pela esposa, que estava constantemente às suas ordens e corria escada acima e escada abaixo por ele, de um modo que às vezes fazia Eline cair na gargalhada. Não, ela jamais seria assim com Otto; que ele tivesse certeza disso. Mas, embora falasse assim, rindo, a Otto, no fundo do coração sentia que seria de fato uma bem-aventurança dedicar-se inteiramente ao marido, como Suzanne se dedicava a van Stralenburg; existir apenas para ele e ser sua escrava fiel.

E então uma imagem encantadora da vida doméstica com Otto, da vida que seria a sua, surgia em sua imaginação, sempre ativa e sempre necessitada de imagens vívidas, incapaz, mesmo na felicidade de hoje, de se abster de chamar à existência um futuro ainda mais feliz.

Nesse estado de espírito, que lhe enchia a alma de idílios, via em tudo apenas um reflexo daquela felicidade, e as pessoas com quem convivia lhe pareciam todas cordiais e bondosas, nunca entregues a disputas amargas, vivendo umas para as outras, sem sombra de egoísmo. As cenas com Betsy pareciam destinadas a nunca mais se repetir, agora que ela respondia ao tom cortante da irmã com uma voz cheia de doçura, como se relutasse em profanar sua felicidade com uma única nota discordante. Uma grande calma desceu sobre seus nervos, e ela própria não conseguia deixar de admirar seu humor igual, alegre e bem-disposto, inteiramente livre dos habituais ataques periódicos de melancolia lânguida. Nenhuma névoa cinzenta e negra a cercava; era como se respirasse uma atmosfera leve, cheia de brilho, perfume e cintilação.

Durante um ou dois dias depois de sua conversa com Vincent, Henk sentiu-se muito pouco à vontade. Em sua bondade natural, não gostava de ferir os sentimentos de ninguém, e pensava ter magoado o orgulho de Vere. Afinal, o pobre diabo não tinha culpa de tudo o que empreendia fracassar. Assim, Henk visitara Vincent, e quatro vezes quis pôr-lhe nas mãos a quantia que ele lhe pedira; mas Vincent recusou-se a aceitá-la e, ao contrário, de fato pagara a Henk uma parte considerável do que lhe devia. Como conseguira arranjar o dinheiro continuou sendo um enigma para Henk, como tudo mais em Vincent era um enigma para ele. Em casa, Betsy censurou o marido por sua falta de tato ao lidar com Vere, e ela, em seu vago medo daquele primo, em quem suspeitava uma força latente capaz, se quisesse, de esmagá-la apesar de toda a sua energia de espírito, resolveu fazê-lo esquecer a qualquer preço a brusquidão de seu marido. Théodore convidara Eline para passar uma temporada no Horze, e ela devia ir para lá no fim de julho, junto com os Erlevoort e os Howard, que estavam agora na Haia, e permanecer em Gelderland durante todo o mês de agosto. Portanto, pensou Betsy, sua grande casa no Nassauplein ficaria solitária; a ideia de sair da cidade com Henk não a atraía muito; preferia fazer uma viagem ao Sul no começo do inverno, quando Eline já estivesse casada; e foi, assim, tanto por desejo de mudança quanto por cordialidade diplomática que convidou Vincent a armar sua tenda com eles durante a ausência de Eline. Fez o pedido da maneira mais encantadora possível. Sentiria terrivelmente a falta de Eline, ficaria tão sozinha, e Vincent podia ser tão sociável e conversar de modo tão agradável sobre suas andanças; portanto, ele não devia recusar, estaria prestando a ela um imenso favor. Vincent ficou radiante com o pedido, que lhe abria a perspectiva de paz e luxo plácido. Levaria uma vida de conforto sem precisar gastar um centavo, durante um mês inteiro! E um mês de descanso lhe parecia, em sua miserável existência de expedientes, um período de bem-aventurança sem fim, uma eternidade de felicidade. Aceitou, portanto, o convite de Betsy com uma alegria secreta, mas exteriormente com certa condescendência, como se quisesse mostrar que ainda se sentia magoado com a recusa de Henk, e como se ficasse satisfeito em dar a Betsy a oportunidade de compensar a falta de amabilidade de van Raat.

Eline Vere

Sinopse

Romance de Louis Couperus, marco da literatura holandesa fin-de-siècle, em tradução brasileira Literunico preparada a partir da tradução inglesa de J. T. Grein, em domínio público. A edição acompanha o percurso íntimo de Eline entre salões, afetos, hesitações e a corrosão silenciosa de uma sensibilidade excessiva.

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