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Eline Vere

Universo da obra

Eline Vere

Capítulo 18 · Eline Vere

Capítulo XVIII

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Capítulo XVIII

Lili estava contrariada, muito contrariada; seus lábios tremiam, e as lágrimas quase lhe vinham aos olhos.

— Eu realmente não vejo por que ele não pode ser convidado — respondeu a Marie, irritada. — Ele é uma visita habitual aqui.

— Mas, Lili, como você pode ser tão tola? Mamãe o convidou uma ou duas vezes neste inverno, e certamente não temos intimidade suficiente com ele para convidá-lo a nos acompanhar ao campo. Quando se começa a convidar estranhos, há sempre uma espécie de constrangimento.

— Mas ele é muito sociável.

— É verdade. Ele melhora quando se o conhece melhor, devo admitir; mas ainda assim não o conhecemos como conhecemos Paul e Etienne.

— Ah, que rapazes encantadores! Não fazem outra coisa o dia inteiro senão se arrastar do Witte para o Linke, e do Bordelaise para o Bodega, sempre com aquele desgraçado do Vere. Quase não os vemos agora; Paul ocasionalmente se digna a aparecer, e Etienne já se tornou um verdadeiro mito. Convide Vere, se quiser — concluiu, irritada. — Assim terá o trio completo.

Marie encolheu os ombros.

— Agora não fique zangada comigo, Lili, porque mamãe não quer convidar de Woude. Não é culpa minha — respondeu suavemente.

— Ah, não, claro que não! Mas é sempre assim quando eu... quando eu tenho uma ideia. Sempre a ridicularizam. Não vou mais me incomodar com isso. Não dou a mínima para todo o passeio.

Saiu da sala, reprimindo com dificuldade as lágrimas, enquanto Marie retomava o livro com um suspiro.

Madame Verstraeten fora sentar-se ao lado do marido no jardim de inverno. Ouvira algo das frases curtas e apaixonadas de Lili, e um pensamento a encheu, lançando sobre seu rosto bondoso uma sombra de hesitação.

— O que a preocupa? — perguntou o velho senhor.

— Oh! é por causa de de Woude — sussurrou Madame Verstraeten, hesitante, para que Marie não a ouvisse. — Lili quer que eu o convide para o passeio, mas...

— Bem, por que não? Não desgosto de de Woude, embora ele seja um tanto janota. Pode ser bastante divertido com as meninas...

— Mas, Charles, realmente não devemos encorajar isso. Quando o vejo, sou sempre o mais cortês possível com ele, mas não há motivo para o incentivarmos, há? Que utilidade isso pode ter? Lili ainda é quase uma criança, enche a cabeça de fantasias; mas o que... o que pode resultar disso agora?

— Mas por que você precisa pensar de repente que eles querem se casar? Por enquanto, trata-se apenas de convidá-lo.

— Sim, sim, eu sei; mas você nunca os vê quando estão juntos, como eu vejo. Queria que você fosse a Scheveningen uma ou duas vezes.

— Não, obrigado; sou-lhe muito grato.

— Então veria por si mesmo. Não se consegue tirá-lo da nossa mesa. Ele é discreto o bastante para nem sempre aceitar quando lhe peço que venha tomar um sorvete; mas fica até irmos embora, e mal diz uma palavra a qualquer conhecido. Com Marie, dá apenas uma voltinha, pour acquit de conscience, e depois é Lili aqui e Lili por toda parte. Portanto, entende que não vejo grande bem nisso.

— Você acha então que Lili...?

— Claro, sem dúvida! Todo mundo também fala disso, e eles sabem; mas não se importam, imagine! Não sei... realmente não sei... o que vai sair de tudo isso — disse a velha senhora, e mais uma vez aquela sombra hesitante deslizou sobre seu rosto.

O senhor Verstraeten ficou um momento pensativo; depois sussurrou algo à esposa, e por muito tempo conversaram em voz baixa.

Marie, porém, não conseguia avançar na leitura, por isso subiu até Lili. Encontrou-a soluçando, com a cabecinha enterrada nos travesseiros.

— Lili! — chamou baixinho.

Lili estremeceu ao ouvir a voz de Marie.

— Ah, deixe-me em paz, deixe! — exclamou, impaciente.

Mas Marie tomou-lhe as mãos e a obrigou a erguer o rosto.

— Lili, como você pode ser tão tola? — disse, em seus tons suaves e penetrantes. — Está se fazendo infeliz por nada. Assim não conseguiremos nos entender, se você se sentar a remoer desse jeito cada palavra que se diz. Lili, vamos.

— Ah, deixe-me em paz!

— Acha tão agradável assim ficar infeliz e deitar-se aqui sozinha, chorando? Por que não fala comigo francamente? Não é muito melhor confiar uma na outra, ser aberta e direta?

Como ela própria teria gostado de falar, de abrir o coração a Lili ou à mãe! Mas não, não podia; havia sentimentos que era melhor esconder.

Lili ergueu-se um pouco e, do rosto manchado de lágrimas, afastou com as mãos os cabelos desgrenhados.

— O que quer que eu diga, então? Você sabe tudo. Não há mais nada que Georges faça que encontre favor aos olhos de mamãe.

— Vamos, você exagera. Papai e mamãe gostam muito dele.

— Ah, sim; eu sei. Mas se se trata de lhe mostrar uma pequena cortesia... E você também...

— O quê?

— Não disse que ele era um estranho, que não podia ser convidado?

— Se eu soubesse que isso lhe causaria dor, teria dito outra coisa. Só não suporto vê-la se agitar por nada, Lili. Ora, você se comporta como se sua vida estivesse arruinada para sempre, e tudo isso porque mamãe acha melhor não convidar de Woude.

— Bem, não é muito agradável para mim. Eu... eu já lhe falei do piquenique, e... é claro que ele espera ser convidado.

— Mas por que você é tão precipitada, então? Também não é muito agradável para mamãe, quando as pessoas começam a falar de vocês dois. Ainda ontem Madame Eekhof perguntou...

— Que nos importa Madame Eekhof, se gostamos um do outro? Se você for se incomodar com todo mundo...

Um sorriso quase zombeteiro formou-se em torno da boca de Marie.

— Sim, Lili — respondeu, com uma tristeza subjacente que, no entanto, se perdeu para Lili, que ouviu apenas a brincadeira risonha do tom —, é terrível! Você gosta de Georges, e Georges gosta de você, e o mundo inteiro está contra vocês: mamãe, Madame Eekhof, todo mundo, não é? É triste, muito triste, não é? E compreendo perfeitamente a pouca esperança que você tem de que um dia seja diferente! Como é triste, como é infeliz, sem dúvida!

— Oh, Marie! Como pode falar assim quando sabe... quando sabe que isso me fere?

— Sim; sou cruel, não é? — retomou Marie, mas seu sorriso se tornou mais terno. — Vamos, Lili, pare de chorar agora e me dê um beijo; perdoe-me pelo que eu disse. Quer que eu tente de novo e veja se consigo convencer mamãe a mudar de ideia?

— Oh, tente, seja boazinha! Mamãe vai consentir se você pedir.

— Sim; ninguém me recusa nada, não é? Comigo tudo corre suavemente. Só contra você é que todos levantam a mão. Pobre, pobre criança!

Lili riu entre as lágrimas ao olhar para Marie.

— Marie, como você fica engraçada quando me passa sermão desse jeito! Faz-me rir, de verdade.

— Muito bem, maninha, ria então; vamos rir enquanto podemos. Bem, adeus; arrume um pouco o cabelo. Vou falar com mamãe.

Fez um aceno a Lili e saiu do quarto, invejando a irmã, que podia exprimir livremente o que sentia; e, ao descer a escada, sorriu um pequeno sorriso triste ao pensar no sofrimento e no desespero de Lili por causa de Georges. A irmã lhe parecia uma criança chorando por seus brinquedos; já podia ver o rostinho de Lili, agora tão amargamente pesaroso, iluminar-se de alegria, como aconteceria quando ela, Marie, voltasse dali a meia hora.

Feliz Lili! Que podia chorar tão livremente; que podia exclamar com tal exultação: "Que nos importa Madame Eekhof, se gostamos um do outro?"

Iam para uma fazenda mantida por um lavrador com quem os Verstraeten tinham boas relações. A estrada seguia pelo Loosduinschen Weg, e os passageiros da jardineira estavam longe de se sentir confortáveis sob os raios sufocantes do sol do meio-dia, que despejava impiedosamente seu ardor sobre suas cabeças. Madame Verstraeten e Mathilde sentavam-se num banco de trás, com Nico entre elas; Marie, Lili e Frédérique, Paul, Etienne e Georges ficavam diante delas; o banco da frente era ocupado por Tine e Lientje e pelos pequenos primos Verstraeten; Johan e a pequena Cateau van der Stoor iam no banco do cocheiro. Seria uma festinha acolhedora, inteiramente entre eles, sem a presença de estranhos que apenas teriam interferido em sua liberdade. Marie tirava punhados de cerejas de uma grande cesta e as distribuía a todos, e Etienne, entre uma bocada e outra, contava como Marguerite van Laren declarara que uma jardineira era um veículo plebeu.

— Quando os van Laren vão a um piquenique, sem dúvida vão sempre em carruagens de gala, com lacaios empoados! — disse Georges.

— Em toilettes à la Watteau, conduzindo carneirinhos presos a fitas cor-de-rosa — acrescentou Lili, e sorriram um para o outro.

Todos riram, e sentiam-se muito bem-humorados: as moças em seus simples vestidos de algodão, os rapazes em seus trajes leves de verão e chapéus de palha.

— Cateau, quer cerejas? — perguntou Marie, e um punhado foi parar junto de Cateau. — Aqui está, divida com Jan.

— Ah, eu vou receber minha parte — gritou Jan, com sua voz alta. — Toos, quer que eu lhe mostre um truquezinho?

— Que tipo de truque? — perguntou Toos.

— Veja, está vendo estas duas cerejas, não está? Agora ponha esta na boca; isso mesmo.

— Bem, e depois? — perguntou Toos, fazendo como lhe pediam.

— Depois eu pego a outra, está vendo? Assim! — continuou o tratante, abrindo a boca para a segunda cereja com um beijo estalado nos lábios de Cateau.

— Ora, Jan! — disse Madame Verstraeten, indignada.

— Essa Cateau! Que menina boba! — exclamou Freddie, rindo.

— Eu não sabia o que ele ia fazer — declarou Cateau. — Esse menino detestável!

— Vamos, Toos, que bobagem, você sabia muito bem! — provocou Paul.

Cateau ficou desesperada porque Paul se recusava a acreditar nela.

E a jardineira prosseguia ruidosamente por prados cheios de gado gordo a pastar, cujos couros pretos e brancos reluziam como cetim, enquanto os salgueiros à beira dos fossos agitavam seus leques de folhagem cinza-prateada no alto dos troncos nodosos.

— Acho o salgueiro uma árvore tão melancólica, você não acha, Georges? — perguntou Lili.

— Oh, Lili está ficando poética! — exclamou Etienne. — Vamos, Lili, uma ode ao salgueiro.

— Parece que não posso dizer nada sem que todos riam de mim — respondeu Lili, fazendo beicinho. — Devo ser muito ridícula.

E continuaram a provocá-la, enquanto as cerejas choviam espessas e rápidas no colo de todos, em meio ao riso geral. A estrada se tornou ondulada, enquanto ao longe se erguiam as alturas das dunas. Aqui e ali havia uma villa escondida entre a folhagem, ou uma fazenda, com campos de nabos e couves-flores, fileiras de feijões trepadores, ou um pequeno jardim cheio de girassóis, gerânios e tuberosas. Uma lavadeira, ocupada em torcer roupas à beira de um fosso, ergueu-se e sorriu, e duas crianças camponesas correram atrás da carruagem para apanhar as cerejas que Jan e Cateau lhes atiravam.

A estrada ondulava entre campos amarelos de aveia e linho, salpicados do azul e do vermelho das centáureas e das ervilhas silvestres, até que enfim chegaram à fazenda. A mulher do lavrador apareceu ao portão com um sorriso bondoso, e de todos os lados saltaram da jardineira, enquanto Madame Verstraeten e Mathilde desciam uma série de caixas, cestos e alcofas. O cocheiro desceu do banco e levou os cavalos fumegantes para a estrebaria. Jan Verstraeten, a pequena Cateau e os pequenos van Ryssel logo se apoderaram dos dois balanços. Jan prometera a Madame van Ryssel que teria cuidado, e Cateau tomaria conta de Nico.

— Parecem um casal com sua prole! — riu Marie, seguindo-os com os olhos.

— Vou expulsá-los todos do balanço daqui a pouco; também quero balançar — gritou Etienne, barulhento, embriagado pelo sol e pelo ar fresco. — Lili, quer balançar comigo mais tarde? Isto é, se de Woude não se importar — sussurrou, com olhos lânguidos.

— De Woude não tem nada a dizer sobre mim. Mas não gosto de balançar, dá-me dor de cabeça, obrigada.

— Eu sou louca por balanço, Eetje — exclamou Marie. — Estarei pronta num instante; mas alto, muito alto, ouviu? Até as nuvens.

— Vamos procurar um lugarzinho agradável, um pouco mais adiante nas dunas — disse Paul.

— Ah, claro; Paul já está pensando em seu conforto. Mas as dunas estão muito quentes, Paully — disse Freddie.

— Não; há árvores, carvalhos, creio, do outro lado do pavilhão.

— Então vamos logo. Está realmente quente demais para se agitar muito. Sou da opinião de Paul; gosto de um piquenique preguiçoso: ficar largada à sombra, olhando as nuvens lá em cima — disse Lili, arrastando a voz.

— Lili sempre consegue unir o lânguido ao poético — riu a irmã. — Pelo amor de Deus, de Woude, proponha alguma coisa. Estamos todos tagarelando ao mesmo tempo, e você... você não diz nada.

Georges riu, e foram abrindo caminho pela folhagem pendente, empurrando os ramos frondosos, que tornavam a fechar-se atrás deles com um farfalhar. Lili assustou-se com uma aranha que pairava presa a seu fio prateado, e, quando de Woude afastou o inseto, os dois se tornaram alvo de zombaria geral: ela, como a donzela tímida; ele, como o bravo cavaleiro que matava os dragões ao seu redor.

— Mas o que fizemos para que estejam sempre em cima de nós? — exclamou Georges.

— Oh, Georges, não se incomode com isso — disse Lili. — Eles acham que têm muito espírito. Oh, Paul, como você nos faz escalar neste calor. É uma verdadeira viagem até esse seu lugar bonito. E esses galhos cansativos também. Ui!

Olhou, fazendo beicinho, para o dedo, que recebera um arranhão de um espinho.

— Deixe-me andar à sua frente — sussurrou Georges, e disse isso tão baixo e deslizou com tanta destreza para diante dela que os outros, entre as risadas pelo contratempo de Lili, não perceberam. Os dois ficaram um pouco para trás, e Lili o seguiu sorrindo, enquanto Georges segurava os ramos para que já não pudessem tocar seu rosto.

— Que riam! Você não se importa, não é? — perguntou ele, inteiramente absorvido em sua felicidade.

— Nem um pouco — respondeu ela, calma, sacudindo a cabecinha loura sob o grande chapéu, enquanto um sorriso zombeteiro se formava em torno de sua boca. — Agora podemos rir deles. Quem está dando aquele grito?

— Etienne, claro — disse Georges.

Paul e Etienne haviam encontrado um trecho gramado sob os castanheiros, de onde se via um pequeno panorama: alguns prados, entrecortados pelas linhas retas dos fossos, cintilando sob o céu claro, e aqui e ali uma vaca. Ao longe, um pequeno moinho; para além dele, uma orla de álamos, majestosos e esguios.

Lili e Georges se aproximaram e encontraram os outros em êxtase.

— É glorioso aqui — disse Paul. — Musgo fresco para deitar e uma bela vista.

Todos concordaram que era um lugar agradável e se sentaram no chão, cansados da exploração. Tiraram os chapéus, que, juntamente com as sombrinhas de renda ou vermelhas das moças, logo cobriram o relvado escuro de cores vivas, enquanto aqui e ali um raio de sol perdido, penetrando pela folhagem, lançava uma miríade de partículas de poeira cintilantes e dançantes sobre o algodão claro de seus vestidos e os tons amarelos e castanhos de seus cabelos.

— Afinal, aqui não é tão sombreado assim. De todo modo, eu estou bem no sol — disse Lili, escondendo-se na sombra rosada de sua en-tout-cas, e lançou um olhar indignado a Paul, que tinha um lugar muito sombreado e estava estendido de comprido no chão, a cabeça confortavelmente escondida num lenço.

— Psiu, Lili, não fale; vá dormir — sussurrou ele, de olhos fechados.

— Você é muito divertido; durma, então. Mas eu estou torrando aqui.

— Vamos procurar um lugar melhor, Lili? — disse Georges.

— Sim, vão; é uma boa ideia — pensou Paul.

— E assobiem quando encontrarem — disse Etienne.

Georges prometeu que o faria. Levantaram-se, e então Lili, apoiada nele, desceu a duna.

— Essa Lili é sempre tão exigente — bocejou Paul, dentro do lenço.

Mas a preguiça dele era demais para Etienne, que o puxou pelo morrote pelas pernas, para grande divertimento das moças.

Fazia muito calor, porém, e não podiam evitar: elas também começavam a sentir preguiça. Andariam depois do almoço. Quando a paz foi restabelecida entre Paul e Etienne, Frédérique pousou a cabeça nos joelhos de Eetje, enquanto ele lhe fazia cócegas nas orelhas com uma palha; Paul estava meio adormecido, lânguido de calor e conforto, e Marie ficou olhando contemplativamente, com uma sugestão de tristeza em torno da boca, para os prados, os fossos e o gado a pastar.

O caminho por onde Georges e Lili desceram era muito fácil. Ela deslizava, por assim dizer, com as mãos apoiadas no ombro dele, e ele seguia em passo rápido. Cada vez mais depressa; e ela ria de leve; era como se tivesse asas.

— Que bobagem deles ficarem ali sob aquele sol ardente! Veja, lá adiante, debaixo daquelas árvores.

— Aqueles castanheiros?

— Sim; vamos tentar?

— Vamos.

Subiram, ele a ajudando, e penetraram nos outeiros arborizados. Ali era deliciosamente fresco e sombreado, enquanto a poucos passos o sol queimava.

— Oh! Não é bonito aqui? — exclamou Lili. — E veja, violetas!

Sentou-se na areia musgosa e colheu as flores. E ele se deitou a seus pés, feliz demais para dizer muita coisa, brincando com as borlas vermelhas da sombrinha dela.

— Vamos, agora você precisa assobiar, Georges, como sinal para os outros virem — disse ela, maliciosa, sabendo muito bem que ele não o faria.

— Não sei assobiar, nunca soube — respondeu ele, olhando-a e rindo.

Ela também riu e atirou-lhe as violetas no rosto. Ele as recolheu e as colocou na botoeira. Então tomou-lhe a mão e fitou-lhe o rosto.

— Você gosta de mim? — perguntou, com os olhos fixos nos dela.

Ela pousou as pequenas mãos brancas nos ombros dele e, olhando-o diretamente no rosto, inclinou devagar a cabeça.

— O quê? — perguntou ele, cheio de ternura. — Você gosta de mim? — repetiu, e ela se inclinou, de modo que os lábios dele tocaram os pequenos cachos em sua testa e os beijaram.

— Sim — disse ela, e deixou a cabeça repousar contra o rosto dele. — Sim, eu gosto de você.

Assim permaneceram por algum tempo, enquanto ele, em sua postura desconfortável, desfrutava o peso da cabecinha sobre seu rosto. Mas quando ela se ergueu e voltou a olhá-lo sorrindo, ele se aproximou mais de seu lado e colocou o braço dela em torno do pescoço.

— Sabe, Emilie... — começou.

— O quê? — perguntou ela.

— Emilie falou com meu pai; será que ela não poderia vir falar com seus pais?

— Sim — respondeu ela, com um sorriso radiante. — Mas não sei... não creio...

— Emilie sabe como falar.

— Você gosta muito dela, não é?

— Sim... e de você também.

Ela apertou-lhe a cabeça contra a curva macia do braço e deu-lhe um beijo na testa: seu primeiro!

Sua mão se fechou carinhosamente e desalinhou-lhe os cabelos castanho-claros. Ela escutava, ainda com aquele mesmo sorriso feliz, a voz suave dele, enquanto lhe contava a conversa que tivera com a irmã, antes de saber se Lili algum dia se importaria com ele. Por algum tempo, sem dúvida, sentira-se ansioso; agora, porém, o mundo inteiro lhe parecia uma paisagem sorridente.

— Emilie pensava que você não aceitaria um marido pobre. Você aceitaria um marido pobre?

— Você é pobre?

— Bem, não sou rico.

— Então está bem, aceitarei um marido pobre. Posso ser tão econômica. Às vezes faço o dinheiro de um mês para vestidos durar três meses. E eu não estou sempre arrumadinha?

— Encantadora.

— Mas não acredito que você seja muito econômico. Acho que tem muito mais necessidades do que eu.

— Não terei necessidade alguma quando tiver você. Você será tudo para mim.

— Emilie gosta de mim?

— E muito! Ela será nossa mãezinha. E você me acompanhará a toda parte? Ao Cairo? A Constantinopla? Ao Cabo?

— À Lapônia, se quiser; a toda parte.

— Minha mulherzinha.

Ele a apertou contra o peito e a beijou. Era como se o mundo desaparecesse diante deles e os deixasse sozinhos no paraíso. Parecia-lhes que nenhum outro casal jamais amara com tanto afeto, como se nunca tivesse havido outro amor senão o deles.

— Mamãe quer saber se vocês vêm almoçar! — gritou Johan van Ryssel aos quatro que estavam deitados ao sol mais adiante. — Preguiçosos! Olá! Acho que todos vocês estão dormindo.

E escalou até eles e começou a lutar com Paul, cujos grandes membros, estendidos em todo o comprimento, o irritavam. Frédérique e Etienne se ergueram e admitiram estar com fome.

— De tanto não fazer nada, suponho? — gritou Jan, que também viera chamá-los. — Nós estivemos no balanço, andamos na carroça do burro e subimos num monte de feno, e vocês... vocês não sabem fazer outra coisa senão cochilar.

— Psiu! Mais respeito pela idade, por favor — disse Marie, com dignidade.

Todos desceram pelo caminho por onde tinham vindo, de novo lutando com os ramos pendentes que lhes barravam a passagem, quando ouviram um assobio atrás de si. Ao se voltarem, avistaram Georges e Lili, cheios de uma alegria misteriosa.

— Encontramos um lugarzinho agradável, muito fresco! — disse Georges, irônico.

— Oh, tão fresco! — repetiu Lili.

Com isso, tornaram-se alvo de olhares indignados, e por isso sabiamente ficaram um pouco para trás; ainda assim, cuidaram de chegar a tempo de se juntar aos outros à mesa do almoço.

Madame Verstraeten e Mathilde tinham estado muito ocupadas, apesar do calor. Sobre a toalha branca e grosseira erguiam-se montes de pãezinhos, junto de pratos cheios de cerejas e morangos, e uma grande tigela de creme entre dois tulbands dourados. Dezesseis cadeiras estavam dispostas ao redor da mesa, e os pequenos van Ryssel, ruborizados pelo calor, cansados de correr, com olhos cintilantes e cabelos úmidos, olhavam tudo com desejo. Nico já estava sentado à mesa, batendo o garfo contra o copo, e todos se sentaram; Madame Verstraeten e Mathilde logo se ocuparam em passar as diferentes coisas.

— De Woude, sirva-se do que quiser — disse Madame Verstraeten, e logo o lugar ressoou de ruidosas gargalhadas, enquanto os pãezinhos e os tulbands desapareciam como por encanto, e as galinhas corriam nervosamente ao redor da mesa, mantendo-se perto de Nico, que, para desespero de Mathilde, lhes oferecia imensas fatias de pão. Jan, nesse meio-tempo, encontrou um novo motivo para censurar os três rapazes por sua preguiça.

Atrás da fazenda havia um largo curso de água, e um pequeno barco estava amarrado à margem. Jan e Cateau queriam divertir-se nele, mas Madame Verstraeten não permitiu, a menos que alguém mais velho os acompanhasse. Assim, depois do almoço, investiram contra Paul e Etienne, que deviam remar para eles; Jan prometeu ser um bom timoneiro.

— Você acha que Georges e Lili estão seguros juntos? — perguntou Paul, empurrando o barco da margem com o remo. — Vamos, Etienne, mantenha o compasso.

— Onde estão eles? Ah, olhem, lá vão eles, atrás daquela sebe! — exclamou Frédérique. — Marie, imagine você, como irmã mais velha, permitindo uma coisa dessas.

Marie riu com bondade.

— Oh, deixem-nos ser felizes — respondeu simplesmente.

Etienne tornou-se muito ativo, justamente para esconder sua falta de habilidade como remador, enquanto fazia os movimentos mais fortes possíveis com o remo. Paul ficava mais desesperado a cada instante.

— Escute, Etienne, você não sabe nada disso; pelo amor de Deus, não espirre água desse jeito.

Uma chuva de gotas caiu sobre eles.

— Você está me encharcando — disse Frédérique, indignada.

— Ora essa, você acha que eu não sei remar?

Cateau e Jan riam de Etienne, e ele se portava de modo tão ridículo que Toosje enfim reuniu coragem para pedir a Paul que a deixasse remar; pois via o senhor van Raat como o capitão. Etienne, apesar de seus protestos barulhentos, que quase fizeram o barco virar, foi retirado do assento, e Cateau se instalou triunfante ao lado de Paul, cheia de entusiasmo para acompanhá-lo no erguer e baixar do remo, que segurava firmemente nas mãos, sem medo de bolhas. E apreciava quando seus remos, como se movidos por uma só força, deslizavam com leveza e ritmo sobre a água esverdeada.

— Excelente, Cateau; você entende do assunto! — disse Marie. — Jan, leve-nos até aqueles lírios.

Jan conduziu o barco, e a pequena embarcação deslizou lentamente até uma poça coberta de lentilha-d'água, sobre a qual as taças brancas dos nenúfares flutuavam em meio a uma abundância de folhas verdes, lisas e brilhantes. Marie inclinou-se para a frente, agarrou um lírio pelo caule duro e viscoso e puxou, puxou, até arrancar a flor da lentilha-d'água.

— Ali, vejam, há muitos — gritou Jan, apontando para o outro lado.

E continuaram deslizando entre salgueiros pendentes, seus ramos de folhas prateadas curvando-se sobre a água, e uma longa faixa de prado; e Marie arrancava mecanicamente as flores enlameadas da água. Já não ouvia o riso dos outros, nem como Cateau e Etienne travavam uma viva disputa sobre o modo correto de manejar um remo. Continuava, sem medo de se sujar de lama, a arrancar as flores, cujos caules atirava a seus pés, como tantas enguias escorregadias; arrancava e arrancava com tanta força que os caules quase lhe machucavam as mãos. Assim também se poderia arrancar um pensamento da mente, embora o coração sangrasse com isso.

Os pequenos van Ryssel, em quem Mathilde não confiava no barco enquanto Etienne estivesse nele, consolaram-se novamente com o balanço. Tina empurrava Nico, que se mantinha sentado com muita dignidade, para lá e para cá, enquanto Johan, com Lientje sentada entre as pernas, se divertia no segundo balanço. Mas então chegaram Marie e Etienne, e, quando Nico se cansou de sua atitude digna, ambos subiram para a tábua.

— Alto, Eetje, muito alto! — gritou Marie.

Etienne, com os pés firmemente apoiados contra a tábua, logo lançou o balanço para a frente.

— Ah! Vejo que você é melhor no balanço do que no remo — gritou Marie.

Ela também impulsionava o balanço para a frente, e ele subia cada vez mais alto, enquanto seu vestido tremulava ao vento, o chapéu voava, e alguns fios de cabelo pendiam-lhe pelo rosto. Respirava fundo quando, lá no alto, suspensa no ar, pairava quase horizontalmente sobre Etienne e oscilava para cima e para baixo. Sentia como se um abismo insondável se abrisse sob ela, e como se subisse cada vez mais no céu azul, levada para cima pelas asas de um grande pássaro. Seus olhos cintilavam, suas faces ardiam, e ela teria gostado de soltar as cordas e, num voo desesperado, lançar-se no espaço.

Então avistou as quatro crianças embaixo, que olhavam, de boca aberta e invejosa, para os "grandes", a quem era permitido balançar tão alto, e quis chamá-las, mas a língua se recusou a emitir som. Etienne estava como que embriagado, e mais alto, ainda mais alto, a tábua balançava.

— Etienne... basta... basta, Etienne! — murmurou Marie, e fechou os olhos.

E sentiu-se completamente atordoada quando o grande pássaro diminuiu lentamente a velocidade de seu voo, até por fim cessar de todo. Cambaleou ao voltar mais uma vez à terra firme.

Etienne apanhou seu chapéu.

— Um balanço glorioso, não foi, hein? — exclamou, sem fôlego.

Marie assentiu, sorrindo, e com um arquejo e um suspiro afastou do rosto os cabelos desgrenhados. E quando Etienne se pôs a correr, gritando para os priminhos que não conseguiriam pegá-lo, e quando os pequenos van Ryssel correram atrás dele, Nico por último, gingando sobre as perninhas gordas, então Marie, na grama ao lado do balanço, desatou a chorar. Pensou em Lili e Georges, em como aqueles dois tinham sido felizes, enquanto ela, Marie, ficara olhando para os prados e as vacas até que estrelas lhe tremulassem diante dos olhos; e em como eles, Georges e Lili, tinham sido felizes, enquanto ela arrancava os lírios da água — com força, muita força, com toda a sua alma.

Eline Vere

Sinopse

Romance de Louis Couperus, marco da literatura holandesa fin-de-siècle, em tradução brasileira Literunico preparada a partir da tradução inglesa de J. T. Grein, em domínio público. A edição acompanha o percurso íntimo de Eline entre salões, afetos, hesitações e a corrosão silenciosa de uma sensibilidade excessiva.

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LITEBN
LITEBN-978655093177830883983056
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